Será o Iraque um outro 'Vietnam'?

pelos Editores da Monthly Review

Uma indicação de quão más as coisas se tornaram para os invasores e ocupantes americanos do Iraque são estas comparações com a Guerra do Vietnam que agora se tornaram lugar comum nos media dos EUA. Numa tentativa desesperada de por um ponto final nisto, no dia 13 de Abril o presidente Bush insinuou, numa das suas raras conferências de imprensa, que a simples menção da analogia com o Vietnam em relação à presente guerra era impatriótica e constituía uma traição às tropas. Mas a questão permanece e parece assombrar a ocupação americana do Iraque. Em que medida o Iraque se tornou um outro "Vietnam" para o imperialismo americano?

É verdade que qualquer comparação directa entre as duas guerra mostra as enormes diferenças entre elas. No Iraque os Estados Unidos não se opõem, como no Vietnam, a um movimento de libertação nacional surgindo de mais de um século de luta revolucionária contra o imperialismo francês e a seguir o americano. A escala da intervenção militar americana no Iraque é muito mais pequenas do que no Vietnam e o número de baixas também muito mais pequeno. A Guerra Fria está ultrapassada há muito. A geografia da guerra é diferente.

No entanto, o Iraque, tal como no Vietnam no século passado, está em vias de mostrar os limites do poder americano. Os Estados Unidos são a única superpotência remanescente, a maior potência militar sobre a Terra. Mas a sua apregoada omnipotência está agora a ser cada vez mais sacudida pelas forças da resistência popular e pelo ódio ao invasor nos países do terceiro mundo. Só em Abril as mortes americanas em combates no Iraque excederam aquelas do período entre o princípio da invasão americana do Iraque e a queda de Bagdad — o período que era suposto ter constituído a duração completa da guerra. Nenhuma solução política estável no Iraque que seja aceitável para as classes dominantes dos Estados Unidos parece possível. Uma solução militar para o conflito não existe. E os Estados Unidos, observa-se muitas vezes, não têm "saída estratégica" — se na verdade pretende sair. Sob estas circunstâncias, a questão da derrota levanta-se mais uma vez, num paralelo com o Vietnam. Embora a situação mundial tenha mudado dramaticamente pode ajudar recordar estas linhas do People's Daily da China em 1966: "Quanto mais forças o imperialismo dos Estados Unidos lançar na Ásia, mais atoladas ficarão ali e mais profundo será o túmulo que cavam para si próprios" (citado no New York Times , 31/Ago/1966).

Não há dúvida de que a classe dominante americana está agudamente consciente da analogia com o Vietnam e preocupada porque o imperialismo americano está a enfrentar um outro desastre, o qual só piorará quanto mais permanecerem no Iraque. Ao mesmo tempo há uma enorme força a conduzir os Estados Unidos rumo à continuação e escalada da guerra. Em 2 de Abril de 1970, num ponto crítico na Guerra do Vietnam, o senador J. William Fulbright, presidente do Comité de Relações Estrangeiras do Senado, declarou que o inimigo "não pode tirar-nos para fora da Indochina. Mas eles podem forçar-nos a escolha de mergulharmos totalmente ou sairmos totalmente" [1] Isto descreve o principal dilema que os Estados Unidos experimentaram durante a Guerra do Vietnam. Eram capazes de mergulhar cada vez mais profundamente, e fizeram-no. Mas finalmente foram obrigados pelos seus fracassos em face de uma resistência implacável a saírem de todo — um resultado que também foi encorajado pelo crescimento de um maciço movimento interno anti-guerra. Uma desagradável escolha semelhante arrosta os Estados Unidos no Iraque de hoje. Uma grande escalada é inaceitável para a massa da população mundial, incluindo as populações dos principais aliados americanos, e é mais provavelmente inaceitável para a massa da própria população americana. Contudo, sair de todo é inaceitável para a classe dominante americana, a qual tem despojos de guerra reais a perder e está preocupada com a credibilidade do poder americano. Sob tais circunstâncias uma escalada da guerra parece provável apesar dos efeitos adversos globais que isto implicará

A visão geral da elite do poder americana pode ser vista num relatório intitulado Iraq: One Year Later divulgado em Março pelo Council on Foreign Relations. A força-tarefa do relatório foi co-presidida por James Schlesinger, antigo secretário da Defesa sob Nixon e Ford, e por Thomas Pickering, antigo embaixador na Rússia e subsecretário de Assuntos Políticos na administração Clinton. A força-tarefa como um todo incluiu figuras de proa no establishment da política externa americana, nomeadamente a antiga representante americana junto às Nações Unidas e membro do Conselho de Segurança Nacional de Ronald Reagan, Jean Kirkpatrick, e o perito em manutenção da paz da Rand Corporation (nomeado pelas administrações Clinton e Bush como enviado especial para ajudar a supervisionar a "construção da nação" na Somália, Haiti, Bósnia, Kosovo e Afeganistão), James F. Dobbins. O relatório insistiu sobre a necessidade de os Estados Unidos manterem o seu "compromisso" estratégico para com o Iraque mesmo no contexto de uma "transferência de autoridade" a fim de: (1) impedir a interferência de vizinhos do Iraque; (2) garantir "estabilidade a longo prazo na produção e abastecimento de petróleo"; (3) bloquear "a emergência de uma Estado fracassado que poderia proporcionar um céu para terroristas"; e (4) evitar uma "fracasso político" americano com a "consequente perda de poder e de influência na região" (p. 13). Tal como escreveram Schlesinger e Pickering numa coluna do Los Angeles Times (30/Mar/2004) intitulada "Manter o Iraque acima da política", tanto os partidos Republicano como Democrata deveriam "manter o curso" por estas mesmas razões. Acima de tudo o Iraque deve ser mantido fora da política presidencial: um ponto dirigido sobretudo a John Kerry, o candidato Democrata.

A principal lição que a classe dominante parece ter retirado da guerra até agora é que é necessária uma força militar muito maior para manter a ocupação. Segundo a Business Week (26/Abr/2004), "o domínio americano sobre o Iraque continua fraco. Permanecer no caminho certo exigirá duas coisas: mais tropas para manter segurança, suplementadas por uma estratégia política astuta". Nas palavras de Bruce Nussbaum, editor da página editorial da Business Week:

Há uma negação [em Washington] de que a estratégia militar em curso no Iraque, a Doutrina Rumsfeld, seja um fracasso. A melhor esperança que resta de estabelecer uma democracia iraquiana estável é substituir aquela doutrina, a qual enfatiza operações militares pequenas, ligeiras e rápidas, pela sua rival, a Doutrina Powell, concebida pelo então Presidente da Joint Chiefs of Staff, Colin Powell. A Doutrina Powell apela à força esmagadora apontada para objectivos políticos muito claros e com uma estratégia de saída específica, duas coisas que faltam hoje no Iraque. O fracasso da Doutrina Rumsfeld no Iraque é demasiado claro — muito poucas botas sobre o terreno, muito pouca legitimidade para a América e o seu Governing Council escolhido a dedo, demasiados objectivos mutantes, e nenhuma estratégia clara de saída. O resultado nas últimas semanas tem sido um ciclo de sequestros, emboscadas, contra-ataques, morte e destruição que cada vez reflecte mais o desastre no Vietnam... O que deve ser feito agora? Um retorno à Doutrina Powell cumpriria um certo número de objectivos chave. Níveis significativamente mais elevados de tropa esmagariam, finalmente, a resistência baathista e proporcionariam maior segurança aos iraquianos... A realpolitik da Doutrina Powell também forçaria Washington a limitar os seus objectivos e a tornar clara a sua estratégia de saída.

Tal reversão para a Doutrina Powell significaria uma escalada maciça da força militar no Iraque. Os Estados Unidos actualmente tem 135 mil tropas no Iraque e mais de 150 mil em todo o teatro iraquiano de operações, o qual inclui o Kuwait e outros países vizinhos. Outras forças da coligação, cerca da metade das quais são britânicas, contribuíram com outras 25 mil tropas para a ocupação. No entanto, escreve a Business Week que "analistas, tais como o perito em manutenção da paz da Rand Corp e antigo enviado especial do Departamento de Estado James Dobbins, dizem que até 400 mil tropas são necessários para tornar equivalente a bofetada (clout) de manutenção da paz aplicada em outros países voláteis. Os 250 mil iraquianos que os EUA esperam ter em uniforme ajudarão, mas a recente recusa dos serviços de segurança em combater iraquianos amigos mostra que eles não estão à altura da tarefa — e nem vão estar até pelo menos um ano". Isto traduz-se numa procura por um salto no posicionamento de soldados americanos. De onde virão todas estas tropas adicionais? Inicialmente, segundo a Business Week, isto pode ser cumprido através da rotação de retorno das unidades que já fizeram serviço no Iraque. Mais tarde, alguma outra solução para falta de "mão-de-obra militar" deverá ser encontrada.

Outras instituições do establishment concordam que uma grande escalada é exigida. The New York Times (25/Abr/2004) diz: "Este não é o momento para a retirada e certamente não é o momento para meias medidas". Muito mais tropas do que planeia a actual administração são necessários de acordo com aquela publicação:

Enviar mais tropas provocará novos sofrimentos num militar já tenso e isto significa reconhecer que as unidades agora a serem revezadas de volta para casa deveriam ser enviadas novamente ao Iraque. Mas parece não haver aqui nenhuma outra escolha. Muita da actual perturbação poderia ter sido evitada se o sr. Rumsfeld não tivesse sido tão determinado a desmentir a doutrina com o nome do seu rival, o secretário de Estado Colin Powell, que defendeu aquela força, se fosse para não ser usada, deveria ser esmagadora... Os Estados Unidos deveriam ter tido uma força militar muito mais vasta pronta para realmente ocupar o Iraque e restaurar a ordem.

O ímpeto da ocupação aponta então para uma escalada substancial dos níveis de forças americanos no Iraque, pelo menos a curto prazo. Um grande objectivo dos Estados Unidos é criar uma grande força militar iraquiana que possa confrontar aqueles nacionalistas iraquianos actualmente a combater a ocupação americana. Mas até agora os esforços para criar um novo exército iraquiano sobre os qual os Estados Unidos possam confiar para ajudar a suprimir a resistência iraquiana provou-se ser inefectivo. Embora os Estados Unidos tenham destinado US$ 1,8 mil milhões ao novo exército iraquiano, até agora conseguiram treinar menos de 4000 dos planeados 40 mil soldados. A metade do primeiro batalhão do novo exército abandonou-o no ano passado alegando que o pagamento era inadequado. Quando o segundo batalhão foi convocado para ajudar a combater a resistência iraquiana em Faluja, em Abril, muitos soldados recusaram-se, dizendo que haviam-se alistado para combater inimigos estrangeiros do Iraque e não compatriotas iraquianos ( Wall Street Journal , 24/Abr/2004).

Um dos mais sérios problemas para o imperialismo americano é que ele encara a maior parte da população iraquiana como inimigos potenciais dos interesses estratégicos americanos no Iraque, e não dispõe de um sector pró-imperial na população para contar como apoio. Isto contrasta com o Vietnam, onde um século de colonialismo francês deixou atrás de si uma população considerável de classes média e alta urbana que se aliaram aos Estados Unidos uma vez partidos os franceses. Os Estados Unidos dispensaram o exército iraquiano logo no princípio da ocupação, uma vez que não confiavam nos seus elementos baathistas. Mas, nos contexto étnico e religioso do Iraque os Estados Unidos não tinham uma clientela natural para a qual pudessem virar-se a fim de preencher o vácuo político e militar então criado. A maioria xiita é mesmo menos politicamente aceitável do que os sunitas com as suas conexões baathistas, pois os xiitas estão estreitamente ligados ao Estado fundamentalista islâmico no Irão. Os curdos estão confinados sobretudos à parte norte do país, estão isolados do resto da sociedade iraquiana, e têm conflitos com os Estados Unidos sobre petróleo e em relação à Turquia. Sem raízes profundas em qualquer grande sector da população, o imperialismo americano está a descobrir que é extremamente difícil encontrar as bases para uma novo exército iraquiano para apoiar e finalmente substituir as forças dos EUA.

Tudo isto aponta para o facto de que o maior obstáculo militar que os Estados Unidos enfrentam na sua ocupação do Iraque é uma aguda escassez de tropas. Também aqui a comparação com o Vietnam não pode ser evitada. Como escreveram neste espaço os editores da MR , Harry Magdof e Paul Sweezy, em Dezembro de 1969:

É extremamente importante entender que a maior fraqueza do imperialismo americano é precisamente a escassez de mão-de-obra militar. A guerra do Vietnam está a mostrar que a outrora generalizada esperança de poder substituir tecnologia por mão-de-obra para combater guerras contra-revolucionárias é uma ilusão. Os Estados Unidos têm neste momento cerca de 3,5 milhões de homens nos serviços armados (o maior contingente militar do mundo), e deste número pelo menos um quinto estão directa ou indirectamente atados a uma guerra em um pequeno país a muitos milhares de milhas longe de casa. Muito do restante está espalhado em mais de 250 bases militares localizadas em uns 30 países por todo o globo. Considerando o facto de que os Estados Unidos tem-se arrogado o papel de polícia mundial... a presente dissipação de recursos militares provocada pela guerra do Vietnam e pelo sistema mundial de bases deixa uma reserva estratégica perigosamente pequena para a mobilização em quaisquer novas áreas de crise.

Nos impérios capitalistas anteriores, particularmente o britânico e o francês, era possível conquistar e manter controle sobre vastas possessões globais sem o recurso a exércitos de conscritos do país de origem. As principais razões para isto eram a fraqueza dos movimentos de resistência colonial, sua falta de acesso a armas modernas (como disse Hilaire Belloc, "Seja o que for que aconteça, nós temos / A metralhadora Maxim, e eles não"), e o recrutamento de soldados entre os desempregados e os subempregados nos países capitalistas avançados (emparelhados com exércitos nativos retirados dos territórios coloniais). No tempo da Guerra do Vietnam, contudo, os Estados Unidos não tinham nenhuma opção senão confiar nos conscritos para a execução dos seus objectivos imperiais. Os movimentos de resistência do terceiro mundo deixaram de ser não coesos politicamente, a sua capacidade de obter armas modernas suficientes para combater uma guerra de guerrilha aumentou, e um fundo de desempregados nos Estados Unidos adequado para manter um exército voluntário na escala exigida não existia. Ainda assim, os Estados Unidos jogaram fora o serviço militar universal como meio de manter o seu império. Após a Guerra do Vietnam, que mostrou os perigos de confiar em conscritos para combater uma guerra imperialista impopular, os Estados Unidos voltaram-se para forças armadas mais pequenos constituídas só de voluntários (o que se tornou praticável devido a um maior exército industrial de reserva num período de estagnação), sob a crença renovada de que a tecnologia poderia limitar a necessidade de tropas sobre o terreno.

Apenas num ano o Iraque demonstrou que isto era uma ilusão. O esquema de exército inteiramente voluntário para manter o império americano está em cacos. A classe dominante americana está a exigir mais tropas de combate para o Iraque e não há forças disponíveis, uma vez que os Estados Unidos, ávidos por monopolizar as pilhagens da guerra, preferiram intervir no Iraque virtualmente sozinhos, com apoio significativo apenas do seu parceiro britânico muito mais pequeno. O extremo da situação foi prenunciada por um relatório do Congressional Budget Office (CBO) submetido como testemunho perante o Comité de Serviços Armados da U.S. House of Representatives em 5 de Novembro de 2003. Aquele relatório indicava que "o Exército activo seria incapaz de sustentar uma força de ocupação da sua presente dimensão para além de Março de 2004 se escolher não manter unidades individuais deslocadas no Iraque por períodos de tempo superiores a um ano sem descanso". Para manter um "estado firme" ou ocupação "indefinida" sob as presentes condições, enfatiza o relatório CBO, os níveis de tropas teriam de cair para os 38 mil a 64 mil. As únicas outras opções para os Estados Unidos eram alterar os padrões de rotação (prejudicando a força do seu exército voluntário e indo contra as bases em que ocorre o recrutamento e a retenção), recorrer pesadamente à Marinha, Guarda Nacional e unidades de forças especiais; utilizar incentivos financeiros para tentar levar soldados a aceitarem um outro período de contrato; reduzir suas instalações militares na Península de Sinai, na Bósnia e no Kosovo; e descobrir meios de privatizar muitas actividades militares, libertando dessa forma mais soldados para o combate. (O crescimento de forças mercenárias na forma de empreiteiros militares privados no Iraque, agora montando a uns 20 mil soldados privados, os quais fazem muitas das coisas que os militares regulares costumavam fazer, é um resultado desta estratégia de privatização). Mesmo se as suas forças existentes fossem esticadas ao máximo, incluindo a utilização muito mais pesada do Marine, forças especiais e unidades da Guarda Nacional para combate obrigatório no Iraque, o CBO ainda considera que as forças disponíveis para o teatro iraquiano numa base de estado estacionário — sem romper a promessa feita às tropas de manter o seu serviço no Iraque abaixo dos 12 meses e sem esgotar o comprometimento de forças em outros lugares — não seria superior a dois terços do nível actual na melhor das hipóteses. O facto de que a administração no princípio de Maio anunciou que iria manter dezenas de milhares de tropas no Iraque por períodos superior a um ano, revezando algumas unidades, é um reflexo da profundidade desta crise nas forças disponíveis para a ocupação.

É nestas circunstâncias de escassez aguda de soldados que o Congresso está, mais uma vez, a enviar sinais de que a conscrição terá de ser reiniciada nos Estados Unidos, apesar da sua enorme impopularidade. Isto é apresentado como um caso de justiça concebido para igualar o fardo de classe da guerra, o qual está agora a cair inteiramente sobre a classe trabalhadora — ou, no linguajar do establishment, as classes média e baixa, representando trabalhadores comuns e os pobres. "Quem está a fazer todo o combate?", perguntou o senador republicano Chuck Hagel, do Nebraska, no show Today da NBC em fins de Abril. Segundo Hagel, a Guerra ao Terrorismo é possivelmente para "uma geração, provavelmente uma guerra de 25 anos" e portanto deveria cair sobre todas as classes da sociedade. No mesmo programa Joe Biden, senador democrata de Delaware, declarou que as forças armadas americanas estão demasiado pequenas e provavelmente não poderiam ser conduzidas ao fortalecimento necessário se não houver uma base de conscrição. Charles Rangel, um deputado democrata de Nova York, também falou fortemente em favor de uma ressurreição do alistamento. Ralph Nader advertiu: "Hoje, alistamentos nas Reservas e Guarda Nacional estão em declínio. O Pentágono está discretamente a recrutar novos membros para preencher os gabinetes locais de alistamento, assim como a maquinaria para alistar uma nova geração de jovens americanos está a ser silenciosamente posta em andamento. Os jovens americanos precisam saber o que está em vias de acontecer, e isto poderia verificar-se já na sua geração da mesma forma como a Guerra do Vietnam destruiu as vidas daqueles que estavam na idade de alistamento na década dos 60" ( Toronto Star , “U.S. Weighs the Return of Military Conscription,” 22/Abr/2004).

Uma vez que a Guerra do Iraque virou-se contra os Estados Unidos, agora mesmo apoiantes da guerra estão a exigir que os EUA tenham uma estratégia de saída clara. Tal estratégia, na medida em que se possa dizer que exista, agora gira em torno de um plano negociado pela ONU que está a ser chamado "uma transferência de poder" para autoridades iraquianas em 30 de Junho. Contudo, a administração Bush indicou que tenciona manter "limitada" a soberania iraquiana em qualquer transferência de poder. Os planos americanos actuais, para os quais está a procurar a aprovação do Conselho de Segurança da ONU, negariam ao novo governo iraquiano em serviço qualquer autoridades para decretar novas leis ou alterar as leis existentes. Portanto, o novo governo iraquiano seria impedido de fazer quaisquer alterações das leis postas em vigor desde que começou a ocupação americana. Ao governo de serviço também seria negada qualquer autoridade sobre as forças armadas iraquianas. Os comandantes americanos devem ficar como responsáveis tanto das tropas americanas como iraquianas. Ao novo governo quase certamente será negado controle sobre a oferta monetária iraquiana e sobre os rendimentos do petróleo. Em testemunho perante o Comité das Relações Exteriores do Senado em 27 de Abril, John D. Negroponte, o embaixador nomeado pela administração para o Iraque, assegurou ao Congresso que o governo iraquiano de serviço não teria autoridade para assinar contratos de petróleo a longo prazo.

Um sinal perturbador em tudo isto é que enquanto supostamente tenta montar um governo de serviço, os Estados Unidos estão a tentar recrutar milhares de antigos oficiais baathistas a fim de criar o núcleo de um exército iraquiano que possa ser utilizado para suprimir a resistência nacional, e possivelmente construir a base para um bloco de poder dentro do país com que os Estados Unidos possam contar. Isto provavelmente minará qualquer tentativa de criar um processo político e um governo que seja aceitável para a maioria xiita, pondo em causa a centralidade de qualquer aparência de processo democrático na estratégia americana. O compromisso americano para com a democracia é mais uma vez posto em causa pelos escândalos surgidos com a tortura e degradação de iraquianos na prisão de Abu Ghraib e em outros lugares, minando aqueles poucos traços de legitimidade que a ocupação americana possa ter tido no Iraque. Um governo iraquiano soberano capaz de executar suas próprias investigações de tais atrocidades está claramente fora de questão para o imperialismo americano.

O que está claro nisto tudo é que Washington tem esperança de atrasar qualquer transferência substancial de controle político para iraquianos negando ao governo de serviço quaisquer poderes de soberania real. Os objectivos políticos, económicos e militares americanos estão inter-relacionados. A busca dos objectivos económicos e militares do imperialismo americano impede qualquer solução rápida da crise política no Iraque. O propósito básico do governo de serviço, dizem-nos, será montar as bases para eleições que conduzirão à instalação de um governo iraquiano supostamente genuíno no próximo ano. Nesse ínterim e sem dúvida durante os próximos tempos o poder real a governar o Iraque serão as forças armadas americanas. De acordo com os planos existentes, uma retirada americana ainda está a anos de distância na melhor das hipóteses.

Apesar da propaganda, a invasão americana do Iraque não pretendia impedir o Iraque de utilizar armas de destruição em massa (a qual verificou-se não existirem), nem era para criar uma democracia naquele país. Os motivos reais da guerra eram estender o controle americano sobre o abastecimento de petróleo iraquiano — as segundas maiores reservas de petróleo do mundo — e criar uma grande presença militar americana no Iraque, provavelmente assumindo a forma de bases militares permanentes que aumentariam o poder americano sobre todo o Médio Oriente. Supunha-se que a presença do imperialismo americano no Iraque também ajudaria a projectar o seu poder para além do Médio Oriente em direcção à Ásia Central, com as suas enormes reservas de petróleo e gás natural. Estes são os despojos reais da guerra e foram claramente a preocupação primária que dominou a intervenção americana desde o princípio. Qualquer desenlace que não conduza à continuidade do controle dos EUA — através de uma combinação de meios económicos, políticos e militares — sobre as reservas petrolíferas iraquianas será considerado um fracasso pelo capitalismo americano, uma vez que tal controle e o poder geopolítico que isto representa foi um objectivo principal da invasão. Assim, o general Jay Garner, o antigo responsável pela autoridade de ocupação do Iraque, declarou numa entrevista à televisão BBC em 19 de Março de 2004 que a privatização do petróleo e a promoção de um modelo económico neoliberal no Iraque ganhou precedência nos planos administração sobre tudo o mais, incluindo não só mudanças políticas como também a restauração dos abastecimentos de água e electricidade no país.

Segundo o general Garner, o modelo utilizado quando ele assumiu o posto no Iraque via o papel imperial dos EUA naquele país como análogo às Filipinas, o qual na estratégia geopolítica no princípio do século XX fora "em essência uma estação fornecedora de carvão" para a Marinha (ganha através da Guerra Hispano-Americano e da Guerra Filipino-Americana que se seguiu), permitindo às forças armadas americanas projectar o seu poder na direcção do Pacífico e da Ásia. Nas palavras do general Garner, "penso... é uma má analogia, mas penso que deveríamos olhar agora para o Iraque como a nossa estação de abastecimento de carvão no Médio Oriente, onde temos alguma presença e isto dá um efeito de arrumação local, e também nos dá uma vantagem estratégica ali, e penso que devemos aceitar e levar isto ao longo de um período de tempo, tão longo quanto o povo iraquiano estiver disposto a permitir-nos sermos hóspedes no seu país" ( www.gregpalast.com ).

Tais despojos de guerra, encarados como meios para a restauração da hegemonia global americana, não serão abandonados prontamente. Portanto há todas as razões para acreditar que os Estados Unidos tentarão manter o seu domínio sobre o Iraque mantendo-o dentro do Império Americano através de uma combinação de meios militares, económicos e políticos.

Há uma nova razão para os Estados continuarem a persistir na guerra ao Iraque. Qualquer coisa que parecesse ser uma derrota traria de volta a "Síndrome do Vietnam" — uma expressão cunhada pelos conservadores para se referirem à recusa popular por parte do público americano para apoiar grandes intervenções militares em países do terceiro mundo a seguir à derrota no Vietnam. A Guerra do Iraque era suposto ter marcado a recuperação final da Síndrome do Vietnam e a plena restauração do poder imperial americano. Agora, subitamente, memórias dos mais desastrosos aspectos da Guerra do Vietnam do ponto de vista do imperialismo americano (frequentes emboscadas guerrilheiras, implacável resistência popular, caixões embandeirados e atrocidades americanas) estão a irromper outra vez. Esta perda de credibilidade para a potência imperial americana certamente é encarada pelos que estão no topo da sociedade americana como o maior perigo criado pela presente guerra. Isto também representa a razão final porque a máquina de guerra americana considera difícil retirar, a menos que possa encontrar alguma fórmula para salvar a face. Tudo isto produz um ímpeto para uma continuação e mesmo escalada da guerra.

Mas também há forças a puxarem na outra direcção. A mais importante delas é a crescente resistência iraquiana. Uma outra é a resposta negativa com que os aliados dos EUA provavelmente receberão qualquer escalada da guerra. Finalmente, há o apoio decrescente à guerra dentro dos próprios Estados Unidos, o qual poderia traduzir-se finalmente, se se verificar nova escalada, num poderoso movimento anti-guerra. Nesse ponto, a analogia com a Guerra do Vietnam será inelutável.

Notas
[1] Citado em Harry Magdoff e Paul M. Sweezy, “The War Spreads,” Monthly Review , Maio de 1970.


O original encontra-se em http://www.monthlyreview.org/0604editors.htm . Tradução de JF.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info .

03/Jun/04