Introdução: A China e o socialismo
por Martin Hart-Landsberg e Paul Burkett
China e socialismo. Durante as três décadas que se seguiram ao
estabelecimento da República Popular da China (RPC), em 1949, parecia
que estas palavras estariam juntas para sempre numa unidade inspiradora. A
China foi forçada a sofrer a humilhação da derrota na
Guerra do Ópio com a Grã-Bretanha em 1840-42 e o tratado de
abertura de portos que se seguiu. O povo chinês sofreu não
só sob o governo despótico do seu imperador e depois de uma
série de senhores da guerra como também sob o peso esmagador do
imperialismo, o qual dividiu o país em esferas de influência
controladas pelo estrangeiro. Gradualmente, principiando na década de
1920, o Partido Comunista Chinês conduzido por Mao Zedong organizou a
resistência popular crescente à dominação
estrangeira, à exploração do país e à
ditadura de Chiang Kai-shek. O triunfo da revolução sob a
liderança do Partido Comunista Chinês chegou finalmente em 1949,
quando o partido proclamou que poria um fim não só ao sofrimento
do povo como traria um novo futuro democrático baseado na
construção do socialismo.
Não pode haver dúvida de que a Revolução Chinesa
foi um evento histórico de proporções mundiais e de que
tremendas realizações foram alcançadas sob a bandeira do
socialismo nas décadas que se seguiram. Contudo, é nossa
opinião que esta realidade não deveria cegar-nos para três
factos importantes: primeiro, no momento da morte de Mao, em 1976, o povo
chinês ainda estava longe de alcançar as promessas do socialismo.
Segundo, a partir de 1978 o Partido Comunista Chinês embarcou num
processo de reforma com base no mercado que, apesar de alegadamente concebido
para revigorar o esforço para a construção do socialismo,
conduziu realmente para a direcção oposta e a um grande custo
para o povo chinês. E, finalmente, pessoas progressistas por todo o
mundo continuam a identificar-se e a tomar como fonte de
inspiração desenvolvimentos na China, vendo o rápido
crescimento do país orientado para a exportação como a
confirmação das virtudes do socialismo de mercado ou a prova de
que, sem considerar etiquetas, a activa direcção do Estado da
economia pode produzir desenvolvimento com êxito dentro de um sistema
capitalista mundial.
Embora nós também tenhamos sido inspirados pela
Revolução Chinesa, acreditámos por algum tempo que esta
contínua identificação de pessoas progressistas com a
China e a sua "economia socialista de mercado" representa não
só uma grave leitura errada da experiência chinesa de reforma
como, ainda mais importante, um grande impecilho ao desenvolvimento do
entendimento teórico e prático que se exige para realmente
avançar o socialismo na China e alhures.
Como argumentaremos neste livro, a nossa posição é de que
as reformas de mercado na China não levaram à
renovação socialista mas, ao contrário, à completa
restauração capitalista, incluindo a crescente
dominação económica estrangeira. Significativamente, esta
consequência foi conduzida por mais do que a simples cobiça e
interesse de classe. Uma vez tomado o caminho das reformas de mercado, cada
passo subsequente no processo de reforma foi em grande medida conduzido pelas
tensões e contradições geradas pelas próprias
reformas. O enfraquecimento da planificação central levou
à cada vez maior dependência do mercado e dos incentivos do lucro,
a qual por sua vez encorajou o favorecimento de empresas privadas em
relação às estatais e, de forma crescente, de empresas e
mercados estrangeiros em relação aos internos. Embora um
correcto entendimento da dinâmica do processo de reforma da China
confirme a posição marxista de que o socialismo de mercado
é uma formação instável, esta importante
percepção em grande medida foi perdida devido à
continuação da crença generalizada de muitas pessoas
progressistas de que em algum sentido a China continua um país
socialista. Esta situação não pode ajudar senão a
gerar confusão sobre o significado do socialismo ao mesmo tempo que
fortalece a posição ideológica daqueles que se lhe
opõem.
Muitas outros académicos e activistas progressistas afastam os
argumentos acerca do significado do socialismo como irrelevantes para os
desafios do desenvolvimento enfrentados pelos povos de todo o mundo. Eles
olham para o récord chinês de rápido e sustentado
crescimento orientado para a exportação e concluem que a China
é um modelo de desenvolvimento, com uma estratégia de crescimento
que poderia e deveria ser emulada pelos outros países. Acreditamos, e
argumentamos neste livro, que esta celebração da China é
um erro grave, um erro que reflecte uma má compreensão não
só da experiência chinesa como também das dinâmicas e
contradições do capitalismo como um sistema internacional. De
facto, um exame dos efeitos da transformação económica da
China sobre as outras economias da região torna claro que o crescimento
do país está a intensificar as pressões competitivas e as
tendências de crise em detrimento dos trabalhadores de toda a
região, incluindo a própria China.
Nossas diferenças com pessoas de esquerda e progressistas poderiam
jamais ter produzido um livro sobre a China se em Maio de 2003 não
tivesse havido a nossa viagem a Cuba a fim de comparecer a uma conferência
internacional sobre o marxismo.
[1]
Enquanto estivemos naquele país procurámos aprender o
que
podíamos acerca de como Cuba estava a responder às suas
dificuldades económicas, e sobre como o entendimento do governo e o
compromisso para com o socialismo estava a perfilar a sua resposta.
Contaram-nos reiteradamente que muitos economistas cubanos encaravam a
estratégia de crescimento do "socialismo de mercado"
chinês como um modelo atraente para Cuba.
Temos esperanças de que isto não seja verdade. Mas na
própria conferência, quando a discussão voltou-se para os
desafios enfrentados por Cuba, vários economistas cubanos endossaram
publicamente a experiência chinesa de crescimento rápido dirigido
para a exportação com base do investimento directo estrangeiro
(IDE) como sendo a única esperança para Cuba de sustentar o seu
projecto socialista sob as actuais condições internacionais.
Embora este economistas estivessem apenas a repetir argumentos que
tínhamos ouvido de pessoas progressistas em outros países, foi
especialmente chocante ouvi-los numa conferência preocupada com a
relevância contemporânea do marxismo e num contexto em que se
imaginaria pouco provável que economistas o fizessem. Fidel Castro
também estava na conferência e o governo já havia rejeitado
firmemente o socialismo de mercado.
Não somos certamente os primeiros cientistas sociais a criticarem os
desenvolvimentos na China de uma perspectiva marxista.
[2]
Mas parece-nos claro que a importância da China em
estabelecer debates sobre
o desenvolvimento e o socialismo tem aumentado. E sentimos que a
confusão que envolve as experiências da China pós-reforma
significa uma confusão teórica e política mais profunda
acerca do marxismo e do socialismo que prejudica consideravelmente nossos
esforços colectivos por construir um mundo livre da
alienação, da opressão e da exploração.
Assim, aventuramo-nos a oferecer a nossa própria
contribuição quanto ao estudo da China e do socialismo,
focalizando a nossa crítica na dinâmica económica, nas
consequências sociais e nas implicações políticas do
processo de reforma de mercado da China. Apesar do facto de o nosso trabalho
focalizar a China, esperamos e desejamos que as questões levantadas e
consideradas também tenham significância para pessoas preocupadas
com desenvolvimentos sociais e lutas em outros países além da
China.
O nosso livro principia, no capítulo 1, com uma discussão da
ascensão da China como um ponto de referência positivo para
economistas do desenvolvimento, com ênfase explicativa sobre o colapso da
União Soviética e das suas economias satélites, a crise
asiática de 1997-98 e a tendência tanto da corrente principal como
de economistas de esquerda no sentido de formularem e racionalizarem as suas
visões políticas nacionais recorrendo a experiências de
desenvolvimento aparentemente exitosas de "países cartaz"
individuais, ao invés do desenvolvimento da acumulação
desigual e do conflito de classe numa escala mundial.
No capítulo 2 examinamos criticamente a dinâmica básica do
processo de reforma do mercado socialista da China, mostrando como cada passo
da transição da China da planificação para o
mercado, da produção orientada para o mercado interno
àquela orientada para a exportação, e do estatal para o
privado com controle estrangeiro cada vez maior promoveu a
mudança do sistema para mais longe de qualquer progresso significativo
em direcção ao socialismo no sentido de um sistema centrado sobre
as necessidades e capacidades básicas da comunidade trabalhadora. Este
exame também torna claro que cada passo foi uma decorrência
lógica não de quaisquer exigências objectivas para novos
desenvolvimentos das forças produtivas humanas, naturais e sociais, mas
sim das contradições geradas pelas reformas anteriores.
Mostramos mais uma vez que o rápido crescimento económico que
acompanhou as reformas foi devido em grande medida a outros factores
além dos ganhos de eficiência da marketização e da
privatização. Os argumentos neste capítulo cortam pela
base a imagem generalizada de sábios decisores políticos chineses
a projectarem cuidadosamente e deliberadamente uma transição
relativamente estável e de baixo custo rumo a um regime mais produtivo
orientado pelo mercado.
No capítulo 3 focamos as principais contradições internas
do processo de reforma da China. Mostramos que os custos consideráveis
da transição pró-mercado (desemprego ascendente,
insegurança económica, desigualdade, exploração
intensificada, saúde e condições de educação
declinantes, explosão da dívida governamental e preços
instáveis) não são efeitos colaterais transitórios
e sim, ao contrário, précondições básicas de
crescimento económico com rápida acumulação de
capital sob condições chinesas. Também destacamos as
crescentes (embora algo fragmentadas) lutas dos trabalhadores chineses para
defender os direitos aparentemente garantidos para eles pelo regime da
pré-reforma, e para protegê-los de algumas das piores formas de
exploração sob o novo sistema face à repressão
governamental organizada a todo trabalhador independente e comunidade
organizada.
No capítulo 4 argumentamos que a experiência económica da
China não pode ser plenamente compreendida se isolada das
dinâmicas mais vastas do capitalismo global, especialmente o
desenvolvimento desigual e a superprodução. Ao explorar estas
dinâmicas destacamos como a transformação económica
da China beneficiou e também intensificou as contradições
do desenvolvimento capitalista em outros países, especialmente na
Ásia do Leste. Esta perspectiva torna claro que o investimento
estrangeiro atraído pela China, o crescimento conduzido pela
exportação, não podem ser tratados simplesmente como uma
experiência positiva replicável por outras nações.
Concluímos preliminarmente com o sumário das principais
lições do nosso trabalho, destacando a contínua
relevância da teoria marxista e a importância de construir
movimentos para a mudança com base nos princípios da
solidariedade internacional e através do compromisso com as lutas das
comunidades trabalhadores contra os imperativos capitalistas. Esboçamos
então uma alternativa, uma abordagem da comunidade de trabalhadores
centrada no desenvolvimento socialista que trata as exportações e
o investimento estrangeiro como veículos de necessidades e capacidades
básicas e de solidariedade internacional.
Amável leitor: Se leu até aqui e agora está ansioso por
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Não estamos a colocar o texto completo online porque não nos
podemos permitir. Publicaremos este livro nas versões encadernada e em
brochura no próximo ano. Tal como as coisas são, a continuidade
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dos Estados Unidos exige vender o melhor possível o que publicamos.
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Monthly Review
Notas da Introdução: A China e o socialismo
1- The Conference on the Work of Karl Marx and Challenges for the 21st
Century was held in Havana, Cuba, May 58, 2003. Papers can be found
at
www.nodo50.org/cubasigloXXI
.
2- See, for example, William Hinton, The Great Reversal: The Privatization of
China, 19781989 (New York: Monthly Review Press, 1990); Maurice Meisner,
The Deng Xiaoping Era: An Inquiry into the Fate of Chinese Socialism,
19781994 (New York: Hill and Wang, 1996); Robert Weil, Red Cat, White
Cat: China and the Contradictions of Market Socialism (New York:
Monthly Review Press, 1996); Gerard Greenfield and Apo Leong, China's
Communist Capitalism: The Real World of Market Socialism, in Leo Panitch
(ed.), Socialist Register 1997: Ruthless Criticism of All That Exists (New
York: Monthly Review Press, 1997); Barbara Foley, From Situational
Dialectics to Pseudo-Dialectics: Mao, Jiang, and Capitalist Transition,
Cultural Logic (2002),
http://eserver.org/clogic/2002
; Liu Yufan, A
Preliminary Report on China's Capitalist Restoration, Links, No. 21
(MayAugust 2002); Richard Smith Creative Destruction: Capitalist
Development and China's Environment, New Left Review 222
(MarchApril 1997); Eva Cheng, China: Is Capitalist Restoration
Inevitable?, Links 11 (JanuaryApril 1999).
O original encontra-se em
http://www.monthlyreview.org/0704intro.htm
.
Tradução de JF.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info
.
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