A cúpula de Monterrey
É cedo para avaliar as conseqüências diretas da
reunião dos governantes das Américas em Monterrey, no
México. Um aspecto, no entanto, salta aos olhos. Bush não
conseguiu impor sua agenda como gostam de dizer os chamados especialistas.
Ouviu algumas coisas que não gostaria de ter ouvido e alguns
veículos de comunicação nos Estados Unidos começam
a falar em fim da América Latina dócil.
Para não fugir à regra o fuhrer disse que "os Estados Unidos
não admitem ditaduras na América Latina". Referia-se ao
governo Chávez. O venezuelano foi eleito presidente com larga maioria,
sem qualquer suspeita de fraude e sobreviveu a uma tentativa de golpe
financiada e orquestrada pela Organização Casa Branca.
Como se a Colômbia não fosse um estado policial, sob
ocupação norte-americana. Um arremedo democrático.
Lula não conseguiu cumprir o seu papel de apagador de incêndios,
acabou seguindo o rastro de Kirchnner, o presidente argentino. Esse conversou
com Chávez, reiterou sua política externa, manteve a
posição em torno das exigências coloniais do FMI e virou a
grande figura do encontro. O brasileiro ficou sem a alternativa de dizer a Bush
que lamentava mas...
Não que a política externa brasileira seja dócil.
Só que em alguns momentos tem sido mais assunto de marketing que de
política. Ou como diz com todas as letras o comentarista,
notável, Vilasboas Corrêa: "Lula inaugura o governo todos os
dias...É um governo festeiro".
Como Furlan não estivesse presente para tentar neutralizar o ministro
Celso Amorim, ou propiciar espetáculos explícitos de
submissão típica de colonizado, o presidente brasileiro parece
ter percebido que o leão americano morde mas existem maneiras de
neutralizar suas mordidas. Mais precisamente, que para não ser mordido
é preciso enfrenta-lo. Dividir a jaula é suicídio.
Um aspecto cada vez mais evidente em George Bush. É como se fosse um
robô. O governante (?) só cumprimenta olhando para as
câmeras. Só fala de público o óbvio, os
chavões, percebe-se com nitidez (será que existe ainda quem
duvide?) que é mero pau mandado de um grupo de
empresários/terroristas que ocuparam a Casa Branca e mal
disfarçam o caráter mafioso de suas ações. Em larga
escala.
As próximas reuniões de organismos das Américas vão
ser decisivas, por exemplo, para eliminar de vez a pretensão
norte-americana de efetivar a ALCA em 2005. Mesmo constando da
declaração final, o tema não foi tratado como queriam os
terroristas de Washington.
O papel de Kirchnner ganha cada vez mais força e serve para corrigir
distorções no governo brasileiro, ainda que não ameace o
poder dos agentes comandados pelo norte-americano Henrique Meireles, dentre
eles o ministro da Fazenda, Antônio Palocci.
É que o presidente da Argentina não tem meias palavras quando se
trata de definir aquilo que estabelece como política, meta, o que seja.
É sua a afirmação amplamente divulgada que "Os
Estados Unidos quebraram a América Latina e agora querem ditar regras
contra a corrupção e impor suas decisões em todos os
campos".
Se concretizado plebiscito para que os argentinos decidam sobre a dívida
externa, vai ser difícil segurar o resto dos países
sul-americanos, pelo menos. Claro que a Colômbia já perdeu a
independência, o resto não.
Um ponto alto nas atitudes de Kirchnner: o encontro com Evo Morales, a nova
preocupação dos Estados Unidos. As eleições na
Bolívia são decisivas para muitas coisas e toda a sorte de
fraudes vai ser tentada.
O modelo norte-americano de democracia se sustenta em fraudes eleitorais, ainda
mais agora com a urna eletrônica brasileira.
A questão cubana foi outra derrota dos Estados Unidos. Não
conseguiu atropelar a maioria dos governos dos países das
Américas, para outra ação terrorista nos moldes das que
aconteceram e acontecem no Afeganistão, no Iraque e quejandos.
ALCA, para a América do Sul, continua sendo o xis da questão. Uma
afirmação positiva de Lula: a expectativa de
integração dos países daqui num futuro próximo. Mas
foi também Kirchnner quem falou em MERCOSUL com todos os países
da América do Sul, o que vale dizer a Venezuela também.
Uma constatação simples: é hora de enfrentar Bush. Se
reeleito e tudo indica que vai ser, continua sendo o favorito, como disse a
hiena Condolezza Rice, "vamos endurecer e usar força bruta se
necessário for".
Um outro detalhe fora desse contexto: por que Saddam Hussein foi declarado
prisioneiro de guerra? Simples: já imaginaram se o ditador viesse a ser
julgado por um tribunal iraquiano e abrisse a boca sobre a guerra contra o
Irã financiada pelos Estados Unidos, inclusive com um arsenal de armas
químicas e biológicas?
Bush é isso. Só isso. Terrorismo em todos os sentidos.
[*]
Jornalista.
O original encontra-se em
http://www.nodo50.org/cgi-bin/mailman/listinfo/diariodeurgencia
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Este artigo encontra-se em
http://resistir.info
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