Guerra preventiva e proliferação

por La Jornada [*]

No seu afã em mostrar ao mundo as diretrizes do seu segundo mandato na Casa Branca – que começará formalmente em Janeiro do próximo ano --, o presidente estadunidense, George W. Bush, não vacilou em desvirtuar a agenda e o sentido da reunião do Fórum de Cooperação Económica Ásia-Pacífico , que se realizou no passado fim de semana em Santiago do Chile, para centrar a atenção em ameaças à Coreia do Norte e ao Irão pelos programas de desenvolvimento que levam a cabo.

De forma equivocada e com manifesta má fé, Washington colocou Pyongyang e Teerão no mesmo saco, ainda que só o primeiro tenha o propósito manifesto de fabricar armas nucleares, ao passo que o segundo tenta aproveitar a energia nuclear para finalidades pacíficas, como assinalou ontem o chefe da Organização Internacional de Energia Atómica (OIEA), Mohammed El Baradei. Apesar da informação oficial sobre o sentido não bélico dos programas nucleares iranianos, o secretário de Estado demissionário, Colin Powell, continua empenhado em afirmar o contrário e em atribuir à república islâmica planos para instalar artefactos nucleares em vectores balísticos como os que possuem vários países da região.

À partida, tais alegações recordam de maneira inevitável as mentiras e as falsificações elaboradas há dois anos pelos Estados Unidos quanto às imaginárias "armas de destruição maciça" em poder do deposto regime de Saddam Hussein. Com esse dado em mente, a série de ameaças dos governantes estadunidenses evoca a fabricação de preparativos para uma agressão militar como a sofrida pelo Iraque contra a Coreia do Norte ou o Irão, e introduzem, portanto, fundados motivos de alarme na opinião pública internacional.

Entretanto, se se analisarem detidamente as actuais conjunturas iraquiana e afegã e o afundamento nas mesmas das forças estadunidenses, parece demasiado improvável que Washington fosse capaz de aventurar-se em paralelo numa nova guerra de agressão contra um terceiro país. Segundo o que se pode ver, o aparelho militar dos Estados Unidos está a operar, sobretudo no Iraque, no limite das suas possibilidades, diminuídas pelos maus cálculos dos políticos, o desconhecimento da sociedade iraquiana, a ilegalidade de origem da invasão e da ocupação, e a exasperação da maior parte do mundo perante os crimes de lesa humanidade perpetrados pelos invasores, recordem-se o assédio a Faluja e o milhar de "baixas colaterais".

A isto deve somar-se a crescente impopularidade interna de uma guerra que já causou muito mais baixas estadunidenses do que as inicialmente estimadas e a inocultável corrupção do empreendimento bélico, cujos únicos beneficiários reais foram, até agora, as corporações próximas à Casa Branca, as quais ficaram com a fatia do leão e muitos milhões de dólares de lucros com os contratos obtidos para a "reconstrução" da nação agredida.

A partir desta perspectiva, os tons ameaçadores de Bush e Powell contra o Irão e a Coreia do Norte seriam, neste momento, meras formulações de propósitos futuros e balões de ensaio para determinar o grau de disciplina e a disposição para seguir Washington dos seus aliados duvidosos, como a Rússia, a China e a União Europeia.

Por outro lado, não se deve desconhecer que a doutrina da "guerra preventiva", engendro ideológico fundamentalista e totalitário impulsionado por Condoleezza Rice, iminente sucessora de Colin Powell, tem como consequência natural um fortalecimento dos aparelhos defensivos das nações que possam sentir-se, com razão, ameaçadas pelo emprego discricionário e ilegal da força militar por parte dos Estados Unidos. À luz do sucedido no Iraque, seria lamentável, mas lógico, que a Coreia do Norte, o Irão e outras nações que se encontram na mira dos afãs agressivos do governo de Bush intensificassem seus esforços para dotar-se dos únicos meios de dissuasão capazes de deter uma incursão contra si da máxima potência bélica do planeta: armas nucleares.

Para cúmulo, os preceitos da comunidade internacional contra a proliferação dessa classe de armamento poderiam ser correctos, em abstracto e em princípio, mas nos termos geopolíticos actuais resultam completamente inverosímeis, hipócritas e insubstanciais. Israel – país governando por um criminoso de guerra – não aceita as inspecções da OIEA, mas os integrantes do Conselho de Segurança abstiveram-se de empreender qualquer acção destinada a eliminar as bombas atómicas em poder de Tel Aviv; o governo do Paquistão, encabeçado por um militar golpista, corrupto e totalitário, fabricou as suas próprias armas nucleares sem que ninguém assumisse o incómodo de impedi-lo, e outro tanto pôde fazer a Índia, com a qual Islamabad manteve várias guerras na segunda metade do século passado e com a qual se encontra num perigoso e precário impasse armado.

Há razões de sobra, pois, para dar razão ao ex-presidente Bill Clinton pelas suas declarações da semana passada de que Bush e sua aventura bélica "alienaram o mundo". Pior ainda, desestabilizaram-no e tornaram-no um sítio muito mais perigoso do que era no início do presente século.

[*] Editorial, edição de 23/Nov/2004.

O original encontra-se em
http://www.jornada.unam.mx/edito.php


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24/Nov/04