por Arturo Huerta González
[*]
Sumário:
A- A politica de estabilidade levou à perda de competitividade, à estagnação e à crescente vulnerabilidade da economia
1- A liberalização financeira e a perda soberana de politica
económica para o crescimento
2- Os preços relativos, a balança comercial e a
distribuição do rendimento em detrimento dos nacionais
3- O crescimento para fora não é motor de crescimento
4- O alto custo de continuar a privilegiar as políticas de estabilidade
B- Condições para alcançar o crescimento sustentado nas economias em desenvolvimento
1 - Gasto público deficitário para actuar como política
contra-cíclica
2- Condições para flexibilizar a política fiscal
3- Rever a abertura comercial e as relações económicas com
4- O gasto público deficitário e o seu financiamento
5- O Banco central deve ser dependente do governo
6- Condições para flexibilizar o crédito
7- Mecanismos para superar a restrição externa ao crescimento
8- Política cambial competitiva
9- Superar os excedentes produtivos internos
10- O serviço da divida externa deve ser renegociado
11- O Estado deve recuperar a regulação da actividade
económica
Bibliografia
Resumo
Este artigo propõe diversos instrumentos de politica económica
para a retoma de condições de crescimento económico
sustentado que se perderam devido ao predomínio das políticas de
liberalização económica e de estabilidade
monetária-cambial na grande maioria das economias em desenvolvimento.
Estas políticas propõem-se criar condições de
confiança e rentabilidade a favor do capital financeiro à custa
de configurar contextos recessivos e de descapitalização da
esfera produtiva e de aumentar a vulnerabilidade externa das nossas economias.
Assim, para poder retomar o manejo da política económica a favor
das procuras nacionais e para encarar tal vulnerabilidade, é
necessário diminuir as pressões sobre o sector externo, controlar
o movimento de capitais e, além disso, o Estado deve recuperar a
regulação da actividade económica. Isso iria permitir
flexibilizar a politica monetária, fiscal e cambial a favor da esfera
produtiva e do pleno emprego.
Palavras-chave:
liberalização financeira, política de estabilidade, recolocar a
liberalização económica, condições para o
crescimento económico.
A- A politica de estabilidade levou à perda de competitividade, à
estagnação e à crescente vulnerabilidade da economia.
1- A liberalização financeira e a perda soberana de politica
económica para o crescimento.
O livre movimento de capitais e a internacionalização dos
mercados financeiros, obriga a instrumentar politicas de estabilidade
monetária-cambial para evitar as práticas especulativas que
derivam de tal contexto.
A grande maioria das economias em desenvolvimento alcançaram a dita
estabilidade através de politicas monetária e fiscal restritivas,
assim como, com a avaliação do tipo de câmbio Esta
última alcançou-se através da entrada de capitais,
estimulados estes pelo processo de privatização e
estrangeirização da economia, bem como pelo próprio
processo de estabilidade.
Tais políticas atentam sobre a competitividade, bem como sobre o
crescimento do mercado interno. A perda de competitividade reduz as margens de
lucro, afecta a esfera produtiva, aumenta os níveis de inactividade,
aumenta o défice de comércio externo, restringe o investimento e
a actividade económica.
A liberalização económica e a política de
estabilidade não geram condições rentáveis ao
investimento produtivo, nem aspectos financeiros e macroeconómicos
necessários para o crescimento sustentado da economia, pelo que levou a
economia a depender da entrada de capitais.
Isto coloca limites na baixa da taxa de juros, assim como à
expansão do gasto público e à flexibilização
do tipo de câmbio, visto que se gerariam expectativas
inflacionárias e de desvalorização, que comprometeriam as
condições de rentabilidade e confiança exigidas pelo
capital financeiro. A economia fica condenada por isso a contextos de
estagnação económica e de estrangeirização.
A política monetária e fiscal de estabilização
não gera a liquidez suficiente para encarar o problema de
insolvência e estagnação, mas pelo contrário, actua
de forma pró-ciclica fase à vulnerabilidade externa. O banco
central fase ao receio da inflação e a desestabilidade do tipo de
câmbio, reage com o aumento da taxa de juros, e deixa de actuar como
prestamista de última instância. Isto, junto com a política
fiscal restritiva, faz com que persista a baixa dinâmica de
acumulação, o que restringe a disponibilidade de crédito e
o crescimento da economia mexicana.
A economia fragiliza-se e aumenta a sua vulnerabilidade externa, tanto pela
contracção do mercado interno derivada das políticas
predominantes, como pelas pressões sobre o sector externo, o que leva a
que a dinâmica económica passe a depender em grande medida de
variáveis externas, quer dizer, da dinâmica das economias
desenvolvidas, assim como da entrada de capitais.
No contexto da liberalização financeira e de grandes
requerimentos de entradas de capitais, as políticas monetária,
cambial e fiscal não se podem flexibilizar, devido a que se se reduz a
taxa de juros, se se flexibiliza o tipo de câmbio em torno do diferencial
de preços internos e externos, e se se incrementa o gasto
público, haveria pressões sobre preços e o tipo de
câmbio, que afectaria as condições de estabilidade e
confiança desejadas pelo capital financeiro, o que propicia saída
de capitais e menor entrada destes, e destabilizar-se-iam os mercados
financeiros e comprometer-se-ia o financiamento do défice externo e o
próprio processo de liberalização económica.
Desta forma, a taxa de juros separa-se da taxa de lucros na esfera produtiva,
pelo que o custo da divida cresce em maior proporção que a
capacidade de pagamento, o que restringe a disponibilidade de créditos
ao dito sector.
2- Os preços relativos, a balança comercial e a
distribuição do rendimento em detrimento dos nacionais
Os fluxos de capital que financiaram a estabilidade cambial, impediram que se
cumpra o princípio da paridade do poder de compra necessário para
evitar uma perda maior de competitividade da produção nacional
frente às importações. A distorção de
preços relativos que originaram o tipo de câmbio estimado, gera
competência em detrimento da esfera produtiva, como sobre a
balança do comércio externo, sobre os lucros das empresas
nacionais e o crescimento económico.
A competência obrigou os produtores nacionais a reduzir o crescimento dos
seus preços e as suas margens de lucro (à custa de caírem
em altos níveis de sobre endividamento e
descapitalização), sem que isto tenha implicado melhor
posição competitiva e ajuste da balança do comércio
externo.
As empresas começam a diminuir os salários reais para evitar os
problemas de baixa competitividade. No entanto, isto resulta contraproducente,
pois se reduz a procura e o mercado interno, afectando mais a dinâmica de
acumulação. Desta forma, a perda de competitividade frente
às importações, restringe a participação dos
produtores nacionais no mercado interno. A diminuição de
salários reais e da margem de lucro comprometem a dinâmica de
acumulação e geram uma trajectória de
estagnação.
No contexto de economia aberta e com baixa competitividade interna, a
acumulação é determinada sobretudo pela força
relativa entre produtores nacionais versus importações, e
já não tanto entre produtores nacionais e trabalhadores.
Realiza-se uma distribuição do rendimento em detrimento dos
nacionais, devido à diminuição da margem de lucro,
à redução de salários reais, bem como pelo
afastamento de que são objecto os produtores nacionais pelas
importações, o que deteriora a esfera produtiva e a
posição da balança de comércio externo. Os
produtores nacionais vêem aumentar a capacidade ociosa e diminuir os seus
lucros, pelo que a relação de endividamento aumenta (para evitar
os seus problemas financeiros) e o investimento produtivo não cresce, e
menos ainda não se vêem opções rentáveis na
esfera produtiva. Por sua vez, os elevados níveis de endividamento,
leva-os a restringir o seu consumo e investimento para cobrir as suas
obrigações financeiras, o que trava mais a actividade
económica e acentua-se o processo de descapitalização e
desindustrialização.
3- O crescimento para fora não é motor de crescimento
O comércio externo não pode constituir-se em motor do
crescimento. Num contexto de mercados altamente competitivos em produtos de
baixo valor agregado nacional e intensivos em mão-de-obra, um
país em desenvolvimento com baixa produtividade e tipo de câmbio
estimado, tem menos possibilidades de conseguir excedente comercial e gerar
efeitos multiplicadores internos, pelo que não há
condições, através de exportações, de
melhorar a situação financeira (lucros) do sector privado e
alcançar condições de crescimento económico
sustentado e ainda menos porque a sua falta de competitividade leva a que os
produtores nacionais percam participação no mercado interno fase
às importações. A dinâmica económica da
grande maioria dos países em desenvolvimento nacional passou a assentar
no comportamento da economia mundial, sobretudo da economia dos Estados Unidos,
perante a falta de crescimento dos seus mercados internos devido ao
predomínio das políticas anti-inflacionistas predominantes. No
entanto, países como o México, apesar das
exportações manufacturadas terem crescido para o mencionado
país na maior parte dos anos noventa, isso não significou um
crescimento generalizado na economia mexicana a favor do sector produtivo e do
emprego. O maior crescimento de exportações não melhorou o
desenvolvimento industrial, nem o sector externo. Pelo contrário, a
economia mexicana desindustrializou-se e aumentou a sua vulnerabilidade
externa, devido à elevada componente importada predominante nas
exportações manufacturadas como no resto da
produção.
Os países com baixa competitividade frente a outros que exportam
produtos similares aos seus, não têm condições,
através do crescimento para fora, de melhorar a situação
financeira das empresas nacionais e alcançar um crescimento
económico sustentado.
4- O alto custo de continuar a privilegiar as políticas de estabilidade.
Perante a inviabilidade de alcançar condições de
crescimento em torno ao mercado externo, não é possível
prosseguir com políticas monetária e fiscal restritivas, pois
contraem a actividade económica e acentuam os problemas de
insolvência, os quais acabam por restringir o consumo e o investimento.
A grande maioria das economias em desenvolvimento não enfrentam motor
interno e externo para o crescimento. Como consequência da sua
inserção no processo de globalização e da
política de estabilidade aplicada, enfrentam fortes excedentes
produtivos, baixa produtividade, rotura nas correntes produtivas, elevadas
componentes importadas, descapitalização da esfera produtiva, bem
como falta de disponibilidade de credito, pelo que não se pode continuar
a privilegiar políticas monetárias e fiscais restritivas, nem se
pode permitir que continue a liberalização económica, nem
o resto das políticas que a acompanham, pois os resultados são
uma maior deterioração da capacidade produtiva, deficit de
comércio externo, menores lucros e maior desemprego.
Os sectores públicos e privado estão sobre-endividados, pelo que
diminuem o seu gasto e investimento para cobrir a suas obrigações
financeiras, o que fomenta a estagnação. Além disso, o
sector privado não investe porque não vê
opções restáveis na esfera produtiva.
No contexto onde o sector privado não investe, e o governo mantém
a sua política de disciplina fiscal, e por sua vez existe deficit de
comércio externo, não existe oportunidade de crescimento.
(Kalecki, 1954)
B- Condições para alcançar o crescimento sustentado
nas economias em desenvolvimento.
1- Gasto público deficitário para actuar como política
contra-cíclica.
Para recuperar a dinâmica de acumulação dos produtores
nacionais, o sector público tem de ser deficitário, e/ou o sector
externo excedentário. No entanto, tal situação não
se consegue no contexto de liberalização económica. A
grande maioria das economias em desenvolvimento caracteriza-se por não
gerar excedentes de comércio externo em contexto de crescimento
económico. Deste modo, vêm-se impedidas de trabalhar com
défice
fiscal, devido a que na concepção teórica que informa a
política económica predominante, isso pode desencadear
expectativas inflacionárias e de desvalorização.
Se o mercado externo não é motor de crescimento, tanto pela falta
de competitividade da produção nacional, como pelo baixo valor
agregado nacional que caracteriza as exportações nacionais, o
governo tem de trabalhar com gasto público deficitário (de
não pagamento de lucros) para aumentar o mercado interno e contrariar a
queda de exportações para assim gerar o excedente do sector
privado quer dizer, para que possa receber mais do que paga de impostos
e assim tenha condições de investir e dinamizar a
economia.
Wray seguindo Kalecki assinala que o gasto deficitário financiado
pelo sistema bancário será necessário para gerar lucros no
sector de investimento (Wray, 1993, p.548).
A política fiscal deve ser expansionista para aumentar a procura e
actuar em forma contra-cíclica considerando que a produção
está por debaixo da capacidade produtiva, pelo que existem altos
níveis de capacidade ociosa. Martner diz-nos que em caso de
recessão, o sector público deve aceitar um certo défice
cíclico, se não quer afundar a crise. (Martner, 1998, p.84)
No mesmo sentido Arestis e Sawyer assinalam que a política fiscal
é uma ferramenta para compensar as principais mudanças ao
nível da procura agregada (Arestis e Sawyer, 2003a). Se o gasto
público e os subsídios fiscais à esfera produtiva
não se aumentam, a actividade económica não
crescerá. O valor presente dos rendimentos esperados diminuirá,
pelo que o cenário recessivo será a norma.
O governo é o único que tem capacidade para combater os efeitos
negativos sobre a actividade económica, pelo que está obrigado a
modificar a sua política económica, o que passa por flexibilizar
a política fiscal e monetária para dinamizar o mercado interno.
Arestis e Sawyer assinalam que quando a taxa de juros é mantida
constante e o produto está debaixo da capacidade produtiva, então
a política fiscal estimularia a actividade económica.
(Arestis e Sawyer, 2003)
2- Condições para flexibilizar a política fiscal
Se a economia apresenta um contexto de incerteza em torno ao comportamento dos
fluxos de capital, as autoridades monetárias e financeiras dão
prioridade às políticas restritivas e colocam a dívida
pública a alta taxa de juros para desincentivar praticas especulativas.
A política fiscal deve ser discricional a favor do crescimento
económico e do pleno emprego, e não deve estar subordinada aos
objectivos de baixa inflação do banco central, o qual responde
às necessidades de estabilidade monetária-cambial exigidos pelo
capital financeiro internacional.
Para retomar o governo soberano da política monetária, fiscal e
cambial a favor da procura, dos produtores nacionais e do crescimento
económico, é necessário não estar subordinados ao
capital financeiro internacional. Quer dizer, para sair da
estagnação em que nos colocou a política de estabilidade
estabelecida a favor do capital financeiro internacional, é
necessário que a economia deixe de depender da entrada de capitais e/ou
controle o seu movimento para poder flexibilizar a política
económica para retomar o crescimento.
O aumento do gasto público, bem como a redução da taxa de
juros, a flexibilização do tipo de câmbio e o aumento da
disponibilidade de crédito, devem encaminhar-se a oferecer expectativas
de rentabilidade na esfera produtiva e diminuir as pressões sobre o
sector externo para não requerer maior entrada de capitais, reduzir a
incerteza e assegurar a aceitabilidade da moeda nacional.
3- Rever a abertura comercial e as relações económicas com
os desenvolvidos
O aumento do gasto público só por si não garante a
recuperação económica. Deve ir acompanhado da
revisão da abertura comercial e do tipo de câmbio para evitar
filtrações do gasto público em direcção ao
exterior e para proteger e desenvolver a planta produtiva, para encarar os
excedentes produtivos e aumentar a produtividade indispensável para
diminuir as pressões sobre o sector externo.
O gasto público deficitário deve impulsionar efeitos
multiplicadores internos a favor da esfera produtiva e do emprego. Isso
permitiria aumentar os rendimentos do sector privado, dos trabalhadores e do
sector público e por outro lado, ao requerer menor entrada de capitais
pelas menores pressões sobre a balança de comércio
externo, poder baixar a taxa de juros, e assim assegurar o crescimento do
investimento, capacidade de pagamento e evitar cair no sobre endividamento.
A tendência à estagnação só pode ser
revertida com a flexibilização da política
monetária, fiscal e cambial e com a protecção do mercado a
favor de empresas nacionais. Isso é indispensável para aumentar a
procura pela produção e pela moeda nacional para diminuir a
procura por produtos importados e para induzir as decisões de
investimento a restabelecer a capacidade produtiva e recuperar lucros e
salários. Blecker assinala que um menor investimento de
elasticidade de procura de importações e um mais elevado
investimento de elasticidade de procura por exportações, podem
dar a capacidade a um país de crescer mais rápido e manter
emprego mais elevado com balança comercial e uma menor
diminuição (o maior aumento) nos salários relativos
(padrão de vida) . (Blecker, 1988, p.510)
Se o mercado externo não é o motor do crescimento
económico, devido a que a grande maioria dos países em
desenvolvimento não têm capacidade competitiva para aumentar
exportações e aumentar o valor agregado nacional incorporado
nelas, tem-se que regressar a políticas proteccionistas para recuperar e
promover o mercado interno. Steindl diz-nos que o governo deve intervir
para evitar uma prolongada depressão; isto reduziria a incerteza e antes
de tudo tornaria mais elevado e estável o investimento privado
(Steindl, 1990, p.125)
Convém lembrar que os países desenvolvidos industrializaram-se
graças às políticas proteccionistas e ao investimento do
Estado na economia (Shaikh, 2003). Tais políticas permitiriam assegurar
condições de rentabilidade na esfera produtiva. A retoma de tais
políticas, possibilitaria recuperar a dinâmica de
acumulação, diminuir as pressões sobre o défice de
comércio externo e os pedidos de entrada de capitais. É
necessário renegociar as relações económicas com os
países desenvolvidos para obter melhores acordos comerciais e
financeiros. Os países desenvolvidos devem aumentar a sua procura a
favor das nossas exportações, para assim aumentar a nossa
capacidade produtiva e o valor agregado nacional na produção e
nas exportações, para diminuir as pressões sobre a
balança de comércio externo e impulsionar a dinâmica
económica.
Se os Estados Unidos trabalhassem com disciplina fiscal e excedente comercial,
geraria um problema de escassez de dólares nos mercados internacionais e
afectaria a dinâmica económica mundial. A maioria do resto do
mundo seria deficitário no seu sector externo, o que iria generalizar
políticas restritivas, configurando contextos recessivos e de crescente
desemprego. Por isso é importante que os países desenvolvidos
aumentem os seus gastos públicos e procura a favor dos produtos dos
países em desenvolvimento e assumam o défice de comércio
externo
para que os subdesenvolvidos possam melhorar a sua balança comercial e a
sua dinâmica económica. Davidson, sobre isto, diz-nos que
Keynes tinha enfatizado que as nações credoras deveriam
aceitar uma maior responsabilidade para resolver os persistentes
desequilíbrios de pagamentos internacionais (Davidson, 2002) Isso
permitiria aos países em desenvolvimento compatibilizar o crescimento
com o excedente de comércio externo e reduzir os pedidos de
financiamento externo.
4- O gasto público deficitário e o seu financiamento
O gasto público deficitário explicado pelo pagamento do
serviço da divida, não tem impacto sobre o rendimento nacional,
nem sobre a poupança, pelo que em tal contexto as empresas e as
famílias têm menos possibilidades de comprar os títulos
emitidos pelo governo que acompanham o aumento do gasto governamental. Em tal
caso, a emissão de divida vai acompanhada do aumento da taxa de juros
para estimular a sua compra. Se esta é adquirida por empresas não
bancárias e famílias, haverá um efeito de procura negativo.
Para que o governo possa aumentar o seu gasto deficitário e aumentar a
procura privada, dito gasto deve ser de não pagamento de juros. Tal
gasto aumenta o rendimento nacional, o que aumenta os depósitos e as
reservas bancárias. Randall Wray diz-nos que um défice
conduz
necessariamente a uma injecção líquida de reservas
bancárias Wray, 2002). Em tal situação, os bancos
tratarão de emprestar o excesso de reservas. O que cria um aumento de
oferta de credito e pressiona a descida da taxa de juros, o que melhora o
crescimento económico. O que normalmente acontece é que o governo
vende títulos aos bancos para evitar que a taxa de juro
interbancário diminua. Os bancos, perante as suas maiores reservas
bancárias, compram os títulos públicos à taxa de
lucro existente. Com a transacção, é criado novo dinheiro.
Stephanie Bell diz-nos que se os bancos privados são capazes de
comprar divida pública criando uma conta governamental, isto
também deve ser considerado como impressão de dinheiro. Quando o
banco central ou um banco privado compram a emissão de nova divida
pública emitindo credito ou dinheiro bancário, eles estão
a imprimir dinheiro (Bell, 1999).
Se o governo emite títulos conjuntamente com o défice fiscal,
é
porque quer evitar excesso de liquidez e de reservas bancárias que
façam diminuir a taxa de juro. No caso em que o governo peça
emprestado mais do que o que gasta, apresenta-se o crowding out. No entanto,
isso depende da posição das autoridades monetárias, como
da aceitação da moeda nacional, o qual está dependente do
risco do país e das expectativas de crescimento. Se se desenham
expectativas de crescimento a partir do maior gasto público, os agentes
económicos verão os seus rendimentos e as suas poupanças
aumentarem, pelo que aceitarão a colocação da divida
pública à taxa de juro oferecida.
Se perante o défice fiscal, o governo aumenta impostos, isso teria o
efeito de
diminuir os depósitos e reservas bancárias, pelo que evitaria o
excesso de liquidez e aumento de reservas geradas pelo impacto sobre o
crescimento do rendimento nacional derivado de gasto deficitário. Em tal
caso, regulam-se as reservas bancárias e mantém-se a taxa de
juro, sem necessidade de aumentar a emissão de títulos
governamentais.
O aumento do imposto tem o mesmo propósito que a venda de títulos
públicos. Ambas as políticas querem deixar o público
com menos dinheiro para gastar (Bell, 1999). Os impostos e os
títulos não são para financiar o défice
público.
São estabelecidos para regular as reservas bancárias, a liquidez,
a taxa de juro objectivo, bem como a procura e os preços.
O governo pode aumentar o seu gasto e trabalhar com défice fiscal e criar
dinheiro. Wray diz-nos que os postkeynesianos insistem que o crescimento
económico necessita de gasto liquido deficitário, que só
pode ser financiado com a criação de crédito (Wray,
1992, p.300). Para que isso se dê, o governo precisa de assegurar-se que
o dinheiro criado seja aceite e procurado pela economia. No presente contexto
de falta de liquidez, de estagnação económica, de grandes
inventários, de elevado desemprego e elevada deterioração
do nível de vida, é necessário a criação
monetária pelo governo. Goodhart assinala que o governo
habitualmente usou o seu poder de criação de dinheiro para apoiar
e beneficiar-se a si mesmo (através do imposto inflacionário),
geralmente quando é débil, e/ou ameaçado por uma guerra.
Evidentemente, o acesso ao imposto inflacionário beneficia tal
governo (Goodhart, Ch. A. E., 1998) Desta forma, o governo pode aumentar
o seu gasto e orçamento fiscal, sem necessidade de emitir títulos
para regular as reservas bancárias e a liquidez. O sector privado por
seu lado, em contexto de estagnação económica aceita
dinheiro do governo para vender os seus bens e serviços e aumentar os
seus lucros e rendimentos.
Em situações onde a política monetária acompanha a
política fiscal expansionista, o movimento (crowding out) do sector
privado não se dá, porque não há aumento da taxa de
juro, pelo que haverá um aumento da procura, bem como dos lucros e do
investimento.
O financiamento do défice através da criação
monetária não gera pressões inflacionistas num contexto de
capacidade ociosa. Pode-se aumentar a produção e satisfazer a
procura adicional e evitar pressões sobre os preços. Em
última instancia, é melhor gerar condições de
crescimento económico, apesar da inflação, para evitar a
depressão e problemas de insolvência, os quais afectam a procura
por empréstimos, a oferta de crédito e a actividade
económica. Minsky, relativamente a isto, assinala que a
inflação é uma maneira de facilitar os compromissos de
pagamento derivados da divida
a estagnação com
inflação é um substituto diante de uma grande
depressão (Minsky, 1985, p.52). Ainda que caiba lembrar que grande
parte das pressões inflacionárias depende de quem é
favorecido com o aumento do gasto.
O governo deve criar dinheiro a favor da esfera produtiva, o que evitaria
pressões sobre os preços, o sector externo e o tipo de
câmbio. O gasto público necessita de ter um elevado multiplicador
interno para gerar procura por moeda nacional e assegurar aumento do rendimento
nacional e assim ver aumentados os rendimentos tributário para diminuir
o défice fiscal. Jong II You e Amitava Krishna Dutt dizem-nos que
se o
multiplicador é maior
um aumento no gasto público
deficitário diminuirá o défice (You, J.I. e Dutt,
A.K.,
1996, p.343)
Tem que se impulsionar uma dinâmica com elevado valor agregado nacional
que favoreça o crescimento do rendimento nacional, assim como
impulsionar uma política monetária que acompanhe o financiamento
do gasto deficitário, para que os lucros, tanto do sector público
como do privado, cresçam mais do que o custo das
obrigações financeiras para assim reduzir a relação
de endividamento e configurar melhores condições financeiras para
o crescimento, visto que isso potencia o gasto e a emissão de divida.
Martner assinala que o tema da sustentabilidade da divida pública
e da solvência do sector público, torna-se central na
formação das expectativas dos agentes (Martner, 1998, p.82).
Ao aumentar-se a actividade económica dar-se-ia um impulso
favorável sobre as finanças públicas devido a que, como
assinala Arestis e Sawyer, o rendimento positivo é
função linear do rendimento (Arestis e Sawyer, 2003b).
Convém lembrar que o governo cobra o que gasta (Wray, 1998), para isso
tem de assegurar que dito gasto vá a favor da esfera produtiva nacional
para assim aumentar o rendimento de empresas e indivíduos e
consequentemente, receber os impostos. Só aumentando o gasto
público e promovendo o crescimento económico, o governo poderia
aumentar os seus rendimentos impositivos e diminuir o défice
orçamental. Steindl assinala que os défices públicos
só podem desaparecer se o investimento privado aumentasse de novo. Isto
é improvável dado em contexto de excesso de capacidade, que
só iria desaparecer se houvesse expansão fiscal (Steindl,
1990, p.119).
Com os maiores rendimentos tributários derivados da dinâmica
económica, o governo pode pagar o serviço da divida sem ter que
aumentar os impostos ou diminuir o seu gasto, pelo que poderia recuperar o
governo da política fiscal para que desempenhe um papel
anti-cíclico.
O maior rendimento gerado pelo gasto público deficitário (de
não pagamento de juros), produzirá o aumento da poupança
de modo suficiente para comprar os títulos públicos
necessários para evitar o excesso de liquidez gerado pelos mais elevados
gastos governamentais. Com os seus maiores rendimentos as famílias
poderão comprar os títulos, sem necessidade de diminuírem
o seu gasto de consumo. As famílias ao comprarem títulos,
manterão menores depósitos bancários, o que evitará
que se aumentem as reservas bancárias e que baixe a taxa de juro e assim
compatibilizar as condições de crescimento económico com
baixa inflação.
Ao retomar-se o crescimento económico e a estabilidade, dar-se ia a
confiança dos agentes económicos na moeda nacional, e o governo
teria maior capacidade de impulsionar a dinâmica económica e
encarar o financiamento do seu défice e da sua divida. Wray diz-nos que
o governo será sempre capaz de pagar juros e retirar o principal
criando reservas no sistema bancário (Wray, 2002a).
5- O Banco central deve ser dependente do governo
O crescimento dirigido ao mercado interno, necessita de política
monetária e fiscal flexíveis que incentivem o consumo e o
investimento, pelo que a autonomia do banco central e o seu objectivo de
redução da inflação através de elevadas
taxas de juro, passam a ser contraproducentes, pois aprofundam a
estagnação económica que a economia enfrenta, além
de que fazem a economia mais dependente de factores externos.
Deste modo, a eficácia da autonomia do banco central para garantir a
estabilidade cambial e a baixa inflação, questiona-se ao
não ter o país competitividade no contexto da economia mundial e
ao não ter assegurados suficientes fluxos de capitais para propiciar
condições de crescimento.
Com as carências produtivas e restrições financeiras,
não se pode seguir mantendo a autonomia do banco central, pois isso
impede ter política monetária, cambial, de crédito e
fiscal para fazer frente aos obstáculos ao crescimento e para responder
às procuras nacionais.
A recuperação económica exige deixar de lado a autonomia
do banco central e subordina-lo às necessidades financeiras do sector
público e do sector produtivo nacional.
O banco central deve encaminhar-se a reduzir a inflação,
não através de políticas de elevada taxa de juro que gera
elevados custos à economia nacional, mas sim por meio de política
monetária flexível que permita diminuir a taxa de juro, facilitar
o financiamento e a liquidez necessária para impulsionar o investimento
produtivo, para sobre bases sólidas e em contexto de crescimento
económico, sustentar a estabilidade de preços. Para diminuir a
taxa de juro é necessário diminuir o contexto de incerteza e a
preferência pela liquidez que isso gera, para o qual há que
assegurar opções de investimento rentável na esfera
produtiva e diminuir as pressões sobre o sector externo e os pedidos de
entrada de capitais.
A política monetária deve acompanhar a expansão do gasto
público e adequar-se às necessidades de liquidez que exige o
crescimento económico. A flexibilização da política
monetária permitiria reduzir a taxa de juro, tanto para diminuir e
encarar as crescentes pressões sobre as finanças públicas
derivadas do grande montante da divida pública interna (que obrigaram o
governo a restringir o investimento e o gasto de não pagamento de
juros para fazer frente às obrigações financeiras),
como para estimular o crescimento do investimento e melhorar o rendimento
nacional e as condições de pagamento. No entanto, a baixa taxa de
juro, por si só, não consegue promover o investimento e o
crescimento económico, se a procura permanecer estagnada, tanto pela
queda das exportações, como pelo menor crescimento do mercado
interno e se, além disso, se mantiver o seu elevado componente
importado. A política monetária pode apoiar a procura se
há devedores insatisfeitos na nova taxa de juro, e para isso é
necessário a existência de condições de procura e
rentabilidade que promovam o investimento e a procura por crédito e
dinheiro. Daí que a baixa taxa de juro deve ir combinada com a
expansão fiscal, assim como com a flexibilidade do tipo de câmbio,
e da revisão da abertura comercial para promover maior procura agregada
e melhorar a competitividade e a rentabilidade da esfera produtiva. Isso
asseguraria, ainda, efeitos multiplicadores internos, e menores pressões
sobre a balança de comércio externo.
6- Condições para flexibilizar o crédito
O investimento produtivo necessita de lucro e de financiamento, e que por sua
vez vão combinadas. Se a empresa não oferece
condições de reembolso, não é sujeito de
crédito. Daí que sem lucros, ou expectativas de crescimento,
não aumenta a procura por crédito, nem o investimento, nem os
bancos outorgam créditos, pois não se assegura o reembolso das
obrigações financeiras derivadas da dívida.
O financiamento é uma pré-condição do investimento.
Wray diz-nos que o financiamento é uma
pré-condição para qualquer produção
aconteça hoje em dia (Wray, 2001). Não necessitamos somente
de financiamento para o investimento, necessitamos aumentar a procura, para
recuperar a rentabilidade necessária para aumentar a procura por
créditos e a disponibilidade de crédito.
A política económica deve impulsionar uma dinâmica
económica que gere expectativas de crescimento e de lucros, para que
estas cresçam acima da taxa de juro para assegurar o reembolso do
crédito e poder aumentar a procura por empréstimos para estimular
o investimento e o gasto deficitário das empresas. Em tal contexto, os
bancos e os agentes super excedentários emprestam dinheiro para
financiar e facilitam o crescimento do investimento perante as melhores
condições de pagamento. Wray diz-nos que o dinheiro pode
ser criado por agentes privados para financiar o gasto deficitário
(Wray, 1992, p.300)
Para que se flexibilize o outorgamento de créditos a favor do
investimento, necessita-se que o gasto público deficitário
desempenhe um papel importante para melhorar os lucros e
condições de pagamento do sector privado nacional. O governo deve
aumentar o seu gasto a favor dos produtores situados no país e evitar
que se gerem pressões sobre o sector externo e praticas especulativos.
Isso exige recuperar e aumentar a participação dos produtores
nacionais no mercado interno que se perdeu frente às
importações, o que por sua vez permitiria assegurar a
rentabilidade necessária para aumentar a procura por créditos e o
crescimento do investimento. Daí a importância dum tipo de
câmbio competitivo, como da revisão da abertura comercial.
Devem-se diminuir as pressões sobre o sector externo a fim de evitar o
risco cambial e elevadas taxas de juro, já que tal
situação terminaria travando a actividade económica.
7- Mecanismos para superar a restrição externa ao crescimento
O crescimento económico é travado pela falta de mercado interno e
financiamento interno, assim como pela restrição externa.
As fortes pressões sobre o défice de conta corrente e os pedidos
de
entrada de capitais, colocam limites para baixar a taxa de juro e para expandir
o crédito, o gasto público e reactivar a economia, visto que isso
comprometeria as condições de confiança e a estabilidade
requeridas pelo capital financeiro internacional. Para diminuir o
défice de
conta corrente e os pedidos de entrada de capitais necessário
para flexibilizar a política económica para retomar o crescimento
-, tem-se que reduzir o défice de comercio externo e o pagamento do
serviço da divida externa. Isso requer colocar de novo a questão
da abertura comercial e da política cambial, assim como reestruturar o
pagamento do serviço da divida externa e controlar o fluxo de capitais.
Hussan diz-nos que, a dependência da entrada de capitais para
apoiar taxas de crescimento maiores continuará, a não ser que a
estrutura de produção e o padrão de comércio no
país receptor, estejam a mudar para aumentar a expansão das
exportações em relação às
importações. Se a estrutura de produção e o
padrão de comércio não estão a mudar e se a entrada
de capitais se esgota, o país tenderá a deslizar para trás
para um menor padrão de crescimento (Hussan, 2001, p.97). Steindl,
por sua parte, recorda-nos que sem controlo do movimento de capitais um
país não pode permitir uma política autónoma ditada
para os seus próprios interesses (Steindl, 1990, p.227).
Com tais mudanças de política travar-se-ia a transferência
de procura, assim como de recursos financeiros, bem como as praticas
especulativas e as mudanças patrimoniais a favor do exterior. Isso
beneficiaria os nacionais e permitiria reduzir a vulnerabilidade da economia em
torno ao comportamento das exportações, assim como da economia
dos Estados Unidos e dos fluxos de capital e possibilitaria retomar o impulso
do processo de industrialização para o crescimento em
direcção ao mercado interno.
8- Política cambial competitiva
Além disso, é necessário um tipo de câmbio
flexível (em relação ao diferencial de preços
internos versus os do principal sócio comercial) para trabalhar no
princípio da paridade do poder de compra (preço único), a
fim de evitar maior deterioração de competitividade que afecte o
rendimento das empresas produtivas, a produção, o emprego e o
sector externo.
Um tipo de câmbio flexível pode ter um certo impacto
inflacionário sobretudo nas economias de elevada componente importada
(da produção para o mercado interno e para
exportações) e elevada carga do serviço da divida externa.
Tal situação pode contrariar o efeito positivo da
flexibilização do tipo de câmbio sobre a competitividade e
sobre a balança de comércio exterior. Além disso, o
impacto inflacionário da desvalorização, reduziria os
salários reais, o que restringe a procura e a actividade
económica. Blecker diz-nos que mesmo que as
depreciações tomem lugar, o crescimento actual pode não se
acelerar devido aos efeitos potenciais negativos, de menores salários
sobre a procura agregada (Blecker, 1998, p.522). De conseguir-se a
dinâmica de exportações (derivadas do ajuste cambial), pode
não ser de magnitude suficiente para contrariar a
diminuição de procura interna, pelo que o efeito seria recessivo
e inflacionário. Não se alcançaria o ajuste externo, nem
se retomaria a dinâmica económica com apenas a política de
desvalorização. Apesar disso, o tipo de câmbio
flexível é a melhor opção de política
cambial fase a um tipo de câmbio apreciado, dado o elevado custo que isso
representa em torno às reservas internacionais, como os estragos que
origina sobre o sector externo e a produção nacional perante a
diminuição da competência que origina frente às
importações
Félix diz-nos que os defensores do
tipo de câmbio flexível tinham predito que um importante beneficio
da flutuação seria economizar reservas de divisas, devido a que
elas não seriam mais necessárias para proteger as taxas
(Félix , 1997-98, p.200).
O ajuste do tipo de câmbio não é suficiente para diminuir o
défice de comércio externo, dada a elevada elasticidade de
rendimento
pelas importações, como pelos problemas estruturais que
estão detrás de tal deficit, os quais não se corrigem
apenas com a correcção dos preços relativos. Robert
Blecker assinada que o enfoque post-kevnesiano enfatiza os aspectos
qualitativos ou de não preço, de competitividade que são
reflectidos nas elasticidades de rendimento em vez de na competência
baseada em preços ou custos (Blecker, 1998, p.497). Daí que
tal política tem de ir acompanhada de políticas industriais de
crédito e comerciais a favor da esfera produtiva. O impacto
inflacionário da desvalorização seria de curto prazo na
medida em que a economia avance na substituição de
importações e na superação dos problemas produtivos
e no crescimento da produtividade. Mesmo assim, tem-se de diminuir o impacto
inflacionário da desvalorização derivado da elevada carga
do serviço da divida externa, o que se consegue através da
reestruturação e diminuição de tal pagamento.
A flexibilização do tipo de câmbio conjuntamente com a
revisão da abertura comercial, e a superação dos problemas
produtivos, ao contribuir a reduzir o défice de comércio externo
e o
pedido de entrada de capitais, permitiriam flexibilizar a política
monetária e fiscal para que respondam às necessidades do
crescimento, tudo isto actuaria a favor dos lucros produtivos e do
investimento.
9- Superar os excedentes produtivos internos
Perante o contexto de baixa competitividade da produção nacional,
de quebra da corrente produtiva, de elevado componente importado e de
défice
de comércio externo, é necessário aplicar políticas
industriais, comerciais e financeiras para viabilizar o crescimento do
investimento produtivo para superar os excedentes existentes e diminuir as
pressões sobre a balança de comércio externo. O maior
gasto público e o investimento privado devem canalizar-se para a esfera
produtiva para encarar tais problemas, tanto para aumentar os efeitos
multiplicadores internos, como para diminuir os pedidos de financiamento
externo.
Se a abertura comercial e a política cambial não são
modificadas e se a economia não avança na
recomposição de correntes produtivas e no aumento da componente
de materiais nacionais na produção nacional e nas
exportações, o défice da balança de comércio
externo continuará a crescer e os lucros a diminuir, pelo que não
se assegurarão condições de pagamento das
obrigações financeiras externas, e aumentará mais a
dependência da entrada de capitais. Isso faz com que a economia continue
condenada à vulnerabilidade externa em torno ao comportamento dos fluxos
de capitais, e obrigada a estabelecer políticas monetária e
fiscal restritivas para diminuir o desequilíbrio existente e para
assegurar as condições de estabilidade exigidas pelo capital
financeiro internacional, o qual gera um contexto onde a taxa de juro
está por cima do crescimento do lucro e rendimentos de empresas e
indivíduos, o que aumenta os níveis de sobre endividamento e
trava a dinâmica económica.
A estratégia económica a impulsionar deve ter elevado valor
agregado nacional a fim de assegurar maiores efeitos multiplicadores internos
sobre o rendimento nacional e o emprego, e redução do
défice de
comércio externo, como dos pedidos de entrada de capitais. Isso evitaria
que o sector externo actuasse como limitador do crescimento económico, e
gerasse pressões sobre o tipo de câmbio, e a taxa de juro, e
além disso, configurar-se-ia um contexto onde a taxa de lucros
cresça acima da taxa de juro, o que reduziria a relação de
endividamento e permitiria condições de crescimento sustentado.
Kreger assinala que num modelo denominado pela divida, a
diminuição da taxa de juro e o aumento do comércio que
aumente o valor agregado que assegure um equilíbrio de conta corrente
são de crucial importância (Kregel, 2003).
10- O serviço da divida externa deve ser renegociado
A maioria dos países em desenvolvimento não geram capacidade
endógena para pagar o serviço da divida externa, já que
são incapazes de obter excedente de comércio externo suficientes
em condições de crescimento económico para cobrir com tais
obrigações financeiras. Cumpriu-se com tais
obrigações financeiras através da promoção
de entrada de capitais, mediante políticas de
estabilização monetária-cambial, assim como com relativas
elevadas taxas de juro e acelerados processos de privatização, o
que configura um contexto de estagnação económico, maior
endividamento externo e de estrangeirização das economias, que
revertem em maiores pressões sobre o sector externo.
Se a economia não tem suficiente entrada de capitais e/ou a sua moeda
não é aceite pelos credores externos, não pode manter o
défice de conta corrente, pelo que se vê obrigada a instrumentar
políticas de contracção para evitar maiores
pressões sobre o sector externo. Para que a economia não se veja
obrigada a instrumentar políticas adicionais de contracção
e forte desvalorização para alcançar o excedente de
comércio externo para cobrir o pagamento das obrigações
financeiras, e/ou políticas que assegurem confiança e
rentabilidade que ampliem a esfera de influencia ao capital financeiro
internacional na economia, para financiar o défice externo, tem-se que
repensar o pagamento do serviço da divida externa, a fim de evitar a
travagem da actividade económica e a venda dos poucos sectores
estratégicos que restam aos países. Martin Wolf assinala que os
países que não podem suportar a dor do ajuste
deflacionário, a opção é o defualt. A divida
é insustentável. Uma reestruturação da divida
é preferível ao caos (Wolf, 2002, p.44).
Ao reestruturar-se o pagamento do serviço da divida externa,
reduzir-se-iam as pressões sobre o sector externo, como sobre as
finanças do sector público, o que permitiria contar com
financiamento para o crescimento, tanto para avançar na
substituição de importações, como para impulsionar
o desenvolvimento tecnológico, para diminuir o défice de
comércio externo e a vulnerabilidade externa. Ao exigir a economia
menores fluxos de capital (dada a menor pressão sobre o sector externo),
as economias retomariam o governo soberano da sua política
económica para atender às exigências nacionais, e
além disso, evitar-se-ia que a flexibilidade da política cambial
(para melhorar a competitividade e a situação do sector externo)
se traduza numa maior subida da taxa de juro e em pressões
inflacionistas.
Ao diminuir as pressões sobre o sector externo e os pedidos de entrada
de capitais, o governo não teria que drenar tantas reservas
bancárias (por via da colocação da divida pública)
para aumentar a taxa de juro, para incentivar a procura pela moeda nacional e a
entrada de capitais, para manter estável o tipo de câmbio.
Se a dinâmica económica estimulada oferece opções
rentáveis de investimento na esfera produtiva, promoveria maior entrada
de capitais e a aceitação da moeda nacional, pelo que se poderia
financiar o crescimento económico, sem gerar pressões sobre o
tipo de câmbio e a taxa de juro.
Se o tipo de câmbio flexível, conjuntamente com a
reestruturação produtiva e a renegociação do
serviço da divida externa, serve ao sector externo, não se
geraria uma fuga de capitais, devido a que se diminuiria a necessidade de
pedidos de entrada de capitais, bem como o perigo de forte instabilidade
cambial, pelo que a especulação não trabalharia neste
contexto e não haveria necessidade de estabelecer controlos aos fluxos
de capital. No entanto, se a economia não mostra o seu crescimento,
deixará de receber fluxos de capital, pelo que as pressões que
enfrenta o sector externo e as finanças públicas, levarão
a debilitar a moeda nacional e a pressionar sobre a taxa de juro para juntar
recursos para tal financiamento.
Tradicionalmente, quando a crise se manifesta, o controlo de divisas é
estabelecida para travar as acções especulativas. Mas a
especulação acontece antes que a crise se produza, quer dizer,
quando a incerteza aumenta. Para evitar uma crise profunda, o controlo do
movimento de divisas deve ser estabelecido. Ilene Grabel assinala que o
controlo e a regulação dos fluxos de capital e a convertibilidade
das moedas deveria ser estabelecido para evitar acções
especulativas que geram crises financeiras. (Grabel, 200, p.(2)378)
Se se limita o livre movimento de capitais e as acções
especulativas que dele derivam, e se diminui a dependência da entrada de
capitais, poder-se-ia retomar o governo da política económica
para atender as exigências nacionais. Em tal contexto não teria de
se dar prioridade a políticas de contracção e de
estabilização, como tem vindo a ser feito em todo o
período de liberalização financeira, que nos levou a
contextos de crise e de estagnação económica. Davdson
assinala que se as nações permitem livre movimento de
fundos, as autoridades não têm controlo directo sobre as taxas de
juro internas. (Davidson, 2002)
Ao não se rever a política económica predominante e os
factores que pressionam sobre o défice de conta corrente, a grande
maioria das
economias em desenvolvimento, continuarão condenadas a aplicar
políticas restritivas e a vender activos nacionais para estimular os
fluxos de capital para financiar o défice de conta corrente, pelo que a
perspectiva continuará a ser de recessão económica e mais
controlo do capital internacional sobre a nossa economia.
11- O Estado deve recuperar a regulação da actividade
económica.
Para gerar expectativas de crescimento de rendimentos e de lucros, para gerar
recursos para investir, para pagar a divida e para que o sistema
bancário possa outorgar créditos para impulsionar a
dinâmica económica, é necessário que o governo
aumente o seu gasto e o dirija à esfera produtiva para evitar
pressões sobre o sector externo e praticas especulativas.
Para recuperar o crescimento económico é necessário uma
participação diferente do Estado daquela que se tem mantido
até agora, assim como modificar a nossa inserção na
economia mundial, já que a dinâmica económica e os
objectivos de pleno emprego e de bem-estar social, não podem ser
deixados às forças livres do mercado de economia aberta, devido a
que isso foi a causa dos problemas que temos.
O mercado livre aberto e a política anti-inflacionista não geram
condições rentáveis ao investimento produtivo. No contexto
de liberalização financeira, as forças livres do mercado
procuram os lucros financeiros a curto prazo e não se encaminham a
configurar condições de crescimento sustentado. Papadimitriou e
Wray dizem-nos que a melhor economia não é aquela que
está abandonada à mão invisível do mercado
não restringido. A nossa segurança nacional e individual
não deve ser deixada à sorte da procura privada do máximo
lucro. (Papadimitriou e Wray, 2001)
A contracção económica está a questionar o processo
de liberalização financeira e a política económica
que a acompanha, pelo que o Estado tem que intervir e regular a actividade para
garantir condições monetárias, de credito, fiscais e
comerciais para o crescimento sustentado e o pleno emprego; assegurar uma
atribuição de recursos a favor da esfera produtiva, assim como
diminuir as pressões sobre o sector externo e regular o seu
comportamento, para evitar praticas especulativas que perturbem a actividade
económica.
_________
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[*]
Professor titular da Divisão de estudos de pósgraduação da Faculdade de
Economia da Universidade Nacional Autónoma do México (UNAM). Comunicação
apresentada ao Encontro Internacional 'Civilização ou Barbárie', Serpa,
Setembro de 2004. Tradução de Concha Lorenzo.
Do mesmo autor ver também
A contracção económica mundial e a guerra que se avizinha
.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info
.