Auges & roubos (Booms & bezzles)

Michael Roberts [*]

Os grandes mercados de acções estão a pairar perto das mais altas alturas de todos os tempos e os preços das commodities (alimentos e materiais) estão a disparar. No outro extremo da escala, as taxas de juros a curto prazo estão próximas ou abaixo de zero e mesmo títulos a longo prazo de governos e corporações estão em níveis recorde (recordes de baixa em rendimentos).

S&P 500 Monthly Close Since 1995

Tudo isto conduz a enorme injecções de dinheiro criado por bancos centrais para a compra de títulos e para permitir a corporações e instituições de investimento contraírem empréstimos com taxas "marginais" muito baixas para especularem em acções, títulos, propriedades e cripto-divisas. E também permitir as assim chamadas empresas de "private equity" [1] e hedge funds levantarem fundos para comprarem outras empresas a fim de as "despojarem de activos" e a seguir vendê-las – os acordos de fusões e aquisições estão em níveis recorde. Uns estarrecedores US$1,2 milhão de milhões em transacções de fusões e aquisições anunciadas e pendentes ou completadas até 2021 envolveram uma parte de private equity.

Worldwide M&A

Esta febre especulativa inevitavelmente alimenta burlas, logros e fraudes.

Já na década de 1950 o economista liberal de esquerda J.K. Galbraith, ao referir-se aos "furiosos anos vinte" ("roaring twenties"), classificou como "roubo" ("bezzle") os resultados da especulação. A palavra "bezzle" por ele cunhada provém do termo "embezzlement" [apropriação fraudulenta de bens confiados a alguém] e Galbraith definiu-a como "um intervalo temporal entre o valor percebido de uma carteira de activos e o seu valor económico a longo prazo".

Michael Pettis, o economista keynesiano radicado na China e co-autor do livro Trade Wars and Class Wars, adoptou a palavra criada por Galbraith para descrever o actual boom financeiro da pandemia COVID. Pettis liga a definição de Galbraith de bezzle nestes booms financeiros especulativos ao trabalho de Hyman Minsky, o semi-socialista economista pós-keynesiano da década de 1980, o qual argumentou que mercados financeiros podem criar impressões (temporárias) de falsa riqueza muito semelhantes àqueles dos esquemas Ponzi (em que um investidor é reembolsado com o dinheiro de um novo investidor).

Minsky explicou que "em períodos de prosperidade prolongada, a economia transita de relações financeiras que fazem um sistema estável para relações financeiras que fazem um sistema instável". Pettis acrescenta: "porque o roubo (bezzle) é, por definição, temporário (embora possa perdurar por alguns anos ou mesmo uma década ou duas), em algum ponto o roubo (bezzle) será eliminado e a sua eliminação reverterá o impulso anterior da economia. Quando isso acontece, o que parecia ser um círculo virtuoso torna-se um ciclo vicioso". Mas o que é estranho no relato do "bezzle" feito por Pettis é que em parte alguma ele menciona o trabalho de Marx sobre o crédito e os crashes financeiros – na verdade, tudo o que Minsky e Galbraith apresentaram foi desenvolvido por Marx antes deles.

Sobre a questão da especulação e da criminalidade, Marx escreveu em O Capital: "As duas características imanentes no sistema de crédito são, por um lado, desenvolver o incentivo da produção capitalista, do enriquecimento através da exploração do trabalho de outros, para a mais pura e mais colossal forma de jogo de azar e burla". Acerca da questão do boom especulativo a tranformar-se em crash financeiro, mais uma vez Marx estava à frente. "Em todas as burlas de acções, toda a gente sabe que, a qualquer momento, o crash deve vir, mas toda a gente espera que possa cair sobre a cabeça do seu vizinho, depois de ele próprio ter apanhado a chuva de ouro (ou seja, dinheiro - MR) e o ter colocado em segurança".

Galbraith diz que o especulador chega a acreditar que o dinheiro ganho com a compra e venda de acções, obrigações e derivativos é real e não exige qualquer referência à criação de valor pelo trabalho produtivo. Mais uma vez, Marx já havia demonstrado isto: "Todos os padrões de medição, todas as desculpas mais ou menos ainda justificadas sob a produção capitalista, desaparecem". Marx, contudo, fornece uma análise muito mais clara do que o "bezzle" ao referir-se ao que ele chamou de "capital fictício".

Capitais fictícios são "títulos de propriedade.... ao capital real. Eles ...meramente transmitem direitos legais a uma parte do valor excedente a ser por ele produzido. Eles "tornam-se duplicados em papel do capital real". O "ganho e perda através de flutuações no preço destes títulos de propriedade, ... tornam-se, pela sua própria natureza, cada vez mais uma questão de jogo, o qual parece tomar o lugar do trabalho como método original de aquisição de riqueza de capital e também substitui a força bruta. Este tipo de riqueza monetária imaginária constitui uma parte muito considerável da riqueza monetária de pessoas privadas". Marx resumiu a ascensão do sector financeiro e o seu papel no capitalismo moderno há mais de 150 anos como "uma nova aristocracia financeira, uma nova variedade de parasitas sob a forma de promotores, especuladores e simplesmente directores nominais; todo um sistema de burla e trapaça através da promoção de corporações, emissão de acções e especulação com acções". Bezzle, se quiser.

Como diz Pettis: "o bezzle representa a riqueza registada ou percebida que não existe como riqueza real (capacidade produtiva) e, como tal, aumenta a riqueza colectiva registada acima da riqueza económica real". Basta inserir aqui capital fictício no lugar de bezzle. Pettis argumenta que o crédito (dívida) criado para especular acabará por conduzir a "níveis de investimento mais elevados do que aqueles que podem ser economicamente justificados e encoraja mais despesas do que as famílias e as empresas podem realmente suportar". Desta forma, um período de crescimento rápido pode tornar-se um "boom especulativo". A certa altura, "acontece o contrário: em vez de impulsionar artificialmente o crescimento quando este já é elevado; a amortização deprime o crescimento através do reembolso forçado da dívida e dos efeitos negativos da riqueza, exactamente quando já está a abrandar". Assim, o crédito pode levar ao sobre-investimento não só em activos financeiros mas também em sectores produtivos e a consequente quebra pode aumentar a perda de valor do capital produtivo.

Mas o que é que transforma um "boom do bezzle" num desastre da dívida? Pettis sugere que depende do retorno do investimento produtivo. Pettis cita então John Mills (sic) que escreveu há mais de 150 anos que "o pânico não destrói o capital; apenas revela até que ponto ele foi anteriormente destruído pela sua traição em obras irremediavelmente improdutivas". Estes são pontos observáveis sobre especulação financeira e o seu eventual desaparecimento: da alavancagem da dívida à desalavancagem; do boom ao crash, deitado abaixo pelo investimento em "sectores improdutivos". Como disse Marx: "uma vez que aqui existe propriedade sob a forma de acções, o seu movimento e transferência torna-se puramente um resultado do jogo na bolsa de valores, onde os pequenos peixes são engolidos pelos tubarões e os cordeiros pelos lobos da bolsa de valores".

Mas o que é que faz com que o dinheiro seja cada vez mais investido "improdutivamente"? Galbraith, Minsky, Mills e Pettis não têm resposta para esta pergunta. Como Galbraith admite: "As economias por vezes criam bezzle sistematicamente, desencadeando consequências económicas substanciais que os economistas raramente compreenderam ou discutiram". Simplestemente acontece – ou como diz Minsky: a estabilidade transforma-se em instabilidade.

Em contraste, Marx apresenta uma resposta baseada na lei da queda tendencial da taxa de lucro. A queda da rentabilidade média conduz finalmente a um abrandamento do crescimento dos lucros totais do capital produtor de valor, que mesmo uma mudança para sectores especulativos não pode reverter indefinidamente. Finalmente os lucros gerais podem cair absolutamente. Marx chamou a este ponto uma "sobre-acumulação absoluta de capital". Segue-se então uma queda no investimento, na produção e nos preços dos activos financeiros. O crédito é necessário numa economia capitalista para ampliar o crescimento económico e o investimento produtivo, mas não pode sustentar essa expansão porque isso depende da criação de valor real, não fictício. Se novo valor não crescer para igualar mais crédito, o crédito transformar-se-á em dívida impagável.

Os crashes financeiros ocorrem em sectores ou mesmo em todos os sectores, mas nem sempre são acompanhados por um colapso no investimento e na produção, ou seja, por uma retracção (slump). Mas uma retracção na produção engendra sempre um colapso financeiro pois o crédito se esgota e surgem incumprimentos da dívida. Isto sugere que o que se passa na "economia real" é o que decide um colapso financeiro e não o contrário. Na verdade, esta é a evidência das retracções do pós-guerra nos EUA, como G. Carchedi demonstrou (ver gráfico abaixo): quando caem os lucros nos sectores produtivos, caem também caem os lucros financeiros (fictícios).

Lucros financeiros e reais

Os booms do capitalismo estão pejados de bezzles, quando acabam os booms eles também acabam.

07/Setembro/2021

Ver também:
- Capital fictício


[1] Private equity é um tipo de atividade financeira realizada por instituições que investem sobretudo em empresas ainda não listadas em bolsa de valores, a fim de alavancar seu desenvolvimento. Esses investimentos são realizados via Fundos de Private Equity.

[*] Economista

O original encontra-se em thenextrecession.wordpress.com/2021/09/07/booms-and-bezzles/

Este artigo encontra-se em resistir.info

09/Set/21