NIMA ALKHORSHID: Olá a todos, hoje é 31/Julho/2025 e o nosso amigo Michael Hudson está outra vez conosco. Ainda não sabemos se Richard virá porque há um problema na cidade de Nova York com a energia e a internet. Michael, bem-vindo de volta.
MICHAEL HUDSON: Obrigado pelo convite. Tem havido apagões por toda Nova York pois os edifícios ligam o ar condicionado por volta das 8 ou 9 da manhã. Há uma sobrecarga de energia na nossa vizinhança. O transformador da ConEd queimou, incendiou-se. Levou um dia inteiro para consertar. Isso foi na terça-feira. Ontem, quarta-feira, os edifícios foram religados à energia depois de a rede ter sido reparada durante a noite. E os cabos que alimentavam os transformadores queimaram-se. Assim, em frente à minha casa, a ConEd enviou um grupo diesel, tal como na Ucrânia. Quando os transformadores explodem, eles têm grupos diesel para gerar eletricidade. Isso é que alimenta o meu computador exatamente agora quando falo consigo. E suspeito que o Richard tem um problema semelhante com os cortes de eletricidade em Nova York. Isto aparentemente está a acontecer por todo o país. Tivemos aqui 39º C nos últimos dois dias. No meu apartamento a temperatura subiu para 29º C durante a noite e ao longo do dia, sem luzes, sem eletricidade, sem que pudéssemos utilizar o forno. Muitas pessoas tiveram de jogar fora o que estava no frigorífico. Esta é a vida na cidade de Nova York nos últimos dias.
NIMA ALKHORSHID: Michael, vamos começar com o que está a acontecer. Os Estados Unidos e a União Europeia, sabemos que Ursula von der Leyen encontrou-se com Donald Trump. Tivemos Starmer a reunir-se com Donald Trump e Novo Acordo entre os EUA e os europeus. Você sente que é um desastre. O que o leva a sentir que é desastroso?
MICHAEL HUDSON: É um desastre económico mas é também um desastre militar. Penso que o único jornal que realmente explicou o que está a acontecer, detesto dizer isso, foi o New York Times, que é o jornal do estado profundo. É o jornal neocon do Partido Democrático e do Estado Profundo. Ontem eles mencionaram Maroš Šefčovič, o Comissário de Comércio da União Europeia, o qual explicou do que trata o acordo. Ele disse que não é só acerca de comércio, é acerca de segurança nacional, é acerca da Ucrânia, é acerca da volatilidade geopolítica. Por outras palavras, a explicação da rendição total da Europa às exigências económicas de Donald Trump foi de que este era o preço a pagar pelo facto de a Europa acreditar que assim tranca os Estados Unidos numa guerra mais intensa da NATO, e especificamente da Alemanha, França e Grã-Bretanha, contra a Rússia.
A guerra na Ucrânia é só um campo de batalha. A guerra é entre a Europa Ocidental e a Rússia e a von der Leyen deixou isto muito claro. Ela sentiu que uma rendição económica era necessária.
Obviamente, o europeus estão conscientes de que os Estados Unidos aumentaram seis vêzes as suas tarifas sobre a Europa, de 2,5% para 15%, ao passo que a Europa aboliu todas as tarifas sobre os Estados Unidos. A Europa concordou em pagar pela energia dos EUA seis vezes mais do que paga agora. Isto é fisicamente impossível, pode-se pensar superficialmente, porque nem sequer há capacidade portuária para isso.
Quando digo Europa, refiro-me a uma só pessoa, a von der Leyen. Isto não é realmente um acordo, não é um acordo comercial. Não é um acordo para os países europeus aceitarem com estes tratos de Trump. É um acordo realmente de uma só pessoa, a chefe da Comissão Europeia, von der Leyen, que o negociou. E ela é de mente estreita, juntamente com Merz na Alemanha que tem como objetivo preparar uma guerra muito mais grave com a Rússia.
Mas quero falar acerca do acordo económico que disparou tudo isto e acerca do que significa realmente esta situação. Conheci um certo número de professores/PhDs que passaram umas férias em Marrakesh. O que aconteceu com Trump ao dizer “eu quero tudo, o mundo todo”, ao apresentar o seu preço pedido à Europa, era análogo a um comerciante árabe numa tenda a vender roupas ou outras coisas ao comprador europeu. Tal como me contaram é o jeito típico ou a prática dos comerciantes árabes, tal como o de Trump. Eles costumam começar por estabelecer um preço ridiculamente alto e o comprador árabe habitual diz então: “é ridículo, isso realmente vale só 10% disso” e há uma negociação.
A ARTE DE REGATEAR
Bem, meus amigos alemães que foram ali não sabiam que teriam de negociar. Pensavam que é como numa loja de departamentos alemã ou num restaurante ou qualquer outra transação em que se apresenta o preço e você o paga. Você não regateia quando vai a uma loja de departamentos, não diz: “Poderia reduzir o preço?” Essa não é a mentalidade. Assim, basicamente eles não regateavam.
Suspeito que o vendedor da tenda árabe imagine que há um toma-lá-dá-cá. E se o comprador europeu for o habitual comprador inexperiente, ele pensará que obteve uma vitória com uma redução de 50%. Vejam o que conseguimos. Dissemos 50% sobre esta linda blusa que comprámos. E o vendedor pensa, bem, essa não foi uma negociação muito divertida. É como tomar um doce de um bebé. Eu teria reduzido para 10%. Mas eles pensam que venceram quando obtêm 50%.
É exatamente assim que a sra. Von der Leyen está a pintar a grande vitória que a Europa conseguiu quando Trump reduziu o seu preço para a tarifa europeia de 30% para apenas 15%. E isto é apresentado de certa forma como se Von der Leyen tivesse atuado por conta dos europeus para obter o melhor acordo que podia com os Estados Unidos. No meu entender, e no entender da imprensa do mês passado, a Europa não tinha de fazer um acordo. A Europa havia preparado uma resposta muito boa. E a resposta era: se realmente tentar fazer essa exigência, então vamos fazer contra-exigências simétricas. Vamos começar por tributar firmas americanas de internet e tecnologia da informação à taxa global mínima de tributação. Assim você não será mais capaz de evitar ter de pagar um imposto sobre o rendimento. E você terá de pagar a taxa mínima que nós fixarmos. Vamos parar de importar produtos americanos, o bourbon americano.
Além disso, a UE deveria ter dito: se percebermos que não se pode comerciar com os Estados Unidos como mercado, então vamos ter de nos voltar para algum outro. E só há um lugar para onde realmente podemos nos voltar: a China/Rússia, virarmos para o Leste. Será que você quer realmente conduzir-nos para fora da órbita dos EUA e para o Leste? A UE deveria ter dito: e se comerciarmos com eles, então não podemos mais permitir-nos confrontá-los militarmente. Vamos ter de pensar em desarmamento e realmente retirar-nos da NATO. Mais uma vez, se introduzirmos uma ruptura entre as economias dos EUA e europeias, a ruptura tem de incluir uma cessação das nossas compras de equipamento militar dos Estados Unidos.
E o enorme montante de equipamento militar que a Europa prometeu comprar – armas que temos visto nos últimos dois anos – não funciona. Supõe-se que os países europeus comprem mísseis e sistemas de defesa de mísseis americanos. Você já viu a capacidade da Rússia em ter os seus mísseis hipersónicos a atravessarem a defesa europeia. Você já viu as táticas militares da NATO, toda baseada em tanques. Bem, os tanques foram muito importantes na II Guerra Mundial. Foram muito importantes quando os EUA entraram no Iraque. Contra países que não estão muito preparados militarmente os tanques funcionam. Mas agora que se tem novo armamento na forma dos drones que explodem tanques, estes tanques já não são meios de travar guerras.
De modo que a Europa comprometeu-se a gastar uma enorme quantia de dinheiro cortando seus orçamentos sociais a fim de permitir um orçamento de guerra para comprar armas que não funcionam para um combate com a Rússia, que tudo indica ser realmente desastroso.
E já se vê Merz na Alemanha a dizer que quer restaurar o poder da Wehrmacht. Bem, o Presidente Putin respondeu, bem como ministro Lavrov das Relações Exteriores, que isto realmente já não é mais uma guerra entre a Rússia e a Ucrânia. Isto é uma guerra entre a Rússia e a Europa Ocidental. A Ucrânia é apenas um campo de batalha nesta guerra. É uma frente desta guerra, juntamente com Kaliningrado, o Báltico e todas as outras frentes que a Europa está a abrir.
Portanto, se a Alemanha está em vias de enviar os seus mísseis para a Ucrânia, capazes de atingir a Rússia, Moscovo, S. Petersburgo ou qualquer importante cidade russa ou outro sítio, então não vamos combater [só] contra a Ucrânia a qual é o único campo de batalha. Vamos retaliar contra o país que está a fornecer os mísseis, neste caso a Alemanha. E vamos retaliar contra os fabricantes de armas na Alemanha, contra o lugar de onde vêm os mísseis, as instalações militares, as companhias de energia que abastecem todas estas instalações. Eis o que é basicamente todo este acordo.
O que estamos a assistir é a ucranização da União Europeia. Assim como os EUA efetuaram o golpe de estado que instalou o regime de Zelensky, desejoso de combater até o último ucraniano, os Estados Unidos ajudaram a moldar a estrutura política da União Europeia, afastando o poder negocial das nações individuais que são membros da UE, afastando o poder dos eleitores europeus para votarem seus parlamentos nacionais que terão de pronunciar-se nisto e voltando-se para a Comissão Europeia, a qual atua com efeito como o braço de relações públicas e o negociador de armas da NATO.
Assim, de certo modo, a suposição de que a União Europeia atua em nome da população europeia foi revertida pelos guerreiros frios neocon, advogados da NATO e certos líderes que imaginam realmente que de algum modo podem recomeçar onde a II Guerra Mundial parou. Desta vez, segundo o sr. Merz, tornaremos a Wehrmacht mais poderosa. Bem, disse o Presidente Putin, a Wehrmacht combateu contra nós a II Guerra Mundial. Como aquilo acabou? E na I Guerra Mundial. A Alemanha está prestes a tornar-se uma perdedora pela terceira vez. E a Europa disse, bem é tudo acerca de segurança. Agora, ao deixar-nos socar pelas exigências do Presidente Trump, pelo menos obtivemos o apoio dos Estados Unidos.
ESTABILIDADE?
E a coisa admirável é que no fim da conferência, no domingo, von der Leyen disse: algo que este acordo criou foi estabilidade. Agora acertámos um acordo que vai perdurar ao longo da presidência de Trump. Ele nunca irá alterar os termos que negociou.
Isto é completamente louco. O que Trump faz reiteradamente é alterar os termos. E Trump deixou claro que, bem, este acordo que ditei à Europa reduziu a minha parte para 15%. Bem, isso foi o que fizemos agora. Mas se a Europa deixar-me raivoso, se a Europa começar a importar mais automóveis elétricos da China, ou comerciar com a China, ou de alguma forma evadir-se às sanções que estou em vias de impor à Rússia, então vou ter de impor novas condições à Europa.
Assim, não há qualquer segurança para a Europa quanto ao que vai acontecer. Sim, a prática tem sido exatamente o oposto. Uma vez que Trump bate um oponente, ele esmaga-o, esmaga-o e esmaga-o.
E para dar um exemplo de como ele tratou a Europa, veja o que fez na semana passada em relação à Rússia. Ele disse: “Estou muito desapontado com o facto de a Rússia estar a derrotar tão excessivamente o exército ucraniano. Estou a dar a Putin 15 dias para parar o seu combate e fazer um cessar-fogo, a fim de que a Alemanha, a França e a Grã-Bretanha possam rearmar a Ucrânia, colocar os mísseis lá e reforçar as suas defesas, para que possamos realmente matar mais russos se eles tentarem lutar contra nós”.
Putin nem sequer respondeu a isso. Obviamente, trata-se apenas de uma ameaça vazia. É uma fantasia. Putin não vai dizer: «Caramba, o Presidente Trump pediu-nos para parar de ganhar a guerra na Ucrânia, acabar com toda a guerra e finalmente recuar nos ataques contra nós». Ele já anunciou os seus planos repetidamente.
Por isso, está a ignorá-los. A questão é: por que é que a Europa simplesmente não ignorou os planos de Trump e disse: «Bem, o que é que nos está a pedir para fazer? Está essencialmente a pedir-nos para empobrecer a nossa indústria, para transferir a nossa produção automóvel e outras indústrias para os Estados Unidos e para aumentar consideravelmente as nossas importações dos Estados Unidos. Isto é tão unilateral que seria de esperar que a Europa fizesse mais do que apenas protestos verbais. Francois Bayrou disse que é um dia negro para a Europa.
O que vão fazer amanhã, sexta-feira, 1 de agosto, é colocar tudo por escrito – para que pelo menos tenhamos, pela primeira vez, explicitado o que se espera que resulte do acordo. E, normalmente, quando isso acontece, há duas versões. Há a versão americana do que foi acordado e há a versão que os outros países têm do que pensam que foi acordado. E entre o momento em que houve uma reunião e a redação do resumo da reunião, os americanos quase sempre aumentam as suas exigências às contrapartes. Essa parece ser a surpresa que a Europa e o mundo podem ter no dia 1 de agosto, quando começarem a falar sobre isto.
Será isto realmente um acordo ou não? À primeira vista, parece impossível que este acordo possa realmente ser cumprido sem não só prejudicar a economia europeia, mas também ameaçar destruir toda a forma como a União Europeia está organizada, dividir a Europa devido às exigências a que von der Leyen se submeteu sem qualquer voz da oposição.
NIMA ALKHORSHID: Michael, quando se trata da Europa, sabemos que esta não tem dinheiro para dar aos Estados Unidos, afinal, aumentar de 2% para 5% do seu PIB não é algo tão grande. E com a situação atual da economia europeia, não é provável que isso aconteça, na minha opinião. Como é que a Europa não consegue pagar aos Estados Unidos? Os Estados Unidos não conseguem fornecer à Europa as armas que esta está a pedir. O que se passa? Parece que a Rússia se sente de alguma forma... Então, o que resultaria do acordo entre os dois?
MICHAEL HUDSON: Bem, tenho lido a imprensa europeia e o que dizem é que podemos mexer nos 5%. Por exemplo, prometemos pagar 5% em segurança nacional. Mas podemos dizer que combater as alterações climáticas é segurança nacional, porque, afinal, este mau tempo está a afetar toda a Europa. Está a causar um desastre. Está a causar uma seca que está a interromper a nossa produção agrícola. Portanto, podemos dizer que, para a segurança nacional na luta contra as alterações climáticas, todo o dinheiro que gastamos faz parte disso. Não tem de ser armamento para combater a Rússia.
Mas isto levanta toda a questão de a Europa considerar o drama do aquecimento global como uma questão de segurança nacional. Certamente faz sentido, deve ser segurança nacional. Mas veja o contraste entre o que os eleitores e os governos europeus querem. Eles querem parar o aquecimento global. Querem impedir o uso do carvão e querem parar a dinâmica. Isto é o oposto do que os Estados Unidos querem. A luta, a guerra contra a Rússia, a atividade militar americana no mundo foi calculada de tal forma que, se as forças armadas fossem um país que contribui para o aquecimento global, o efeito militar seria igual ao do 29º maior país do mundo. Portanto, um grande contribuinte para o aquecimento global é a guerra que a Europa concordou em travar.
Além disso, temos Trump a retirar-se de todos os acordos ambientais globais nos Estados Unidos. Ontem, ele acabou com as regras da Agência de Proteção Ambiental contra as emissões de centrais termoelétricas e outras empresas que queimam carvão. Ele aboliu todas as regras ambientais, simplesmente anulou-as. Portanto, as atividades americanas contra o aquecimento global são diametralmente opostas ao que a Europa considera ser a sua segurança nacional, assim como a ideia de fornecer armas à Alemanha, mísseis para serem usados contra a Rússia, não está a garantir a segurança mas sim o contrário.
Trump já disse que os Estados Unidos não se envolverão na guerra da Europa contra a Rússia. Estamos a concentrar toda a nossa atenção na guerra que se aproxima com a China, na que tentamos promover entre a China e Taiwan e nos ataques à China, a guerra no Pacífico. E Trump está a tentar convencer a NATO de que o seu futuro já nem sequer será no Atlântico. Será no Pacífico. Como se a Europa tivesse algum interesse, interesse nacional para qualquer um dos seus países, na luta entre a China e Taiwan, dado que todo o crescimento e a promessa de expansão do comércio e do investimento europeu estão na Ásia Oriental, com a China e Taiwan, e os países aliados. Tudo isto é deitado fora.
Gostaria de acrescentar algo sobre os acordos que foram feitos. Pensem, voltem dois meses atrás, ao Dia da Libertação, quando Trump anunciou as suas tarifas. Os Estados Unidos seguiram as tarifas de Trump exatamente como fizeram em 1944-45 com a Grã-Bretanha e a Europa. Os Estados Unidos moldaram a ordem do pós-guerra para o Banco Mundial e o FMI com o empréstimo britânico de 1944. Fez com que a Grã-Bretanha capitulasse aos termos dos EUA para o livre comércio, a fim de impedir outros países de impor tarifas protecionistas, de proteger a sua indústria, de controlar o capital. Impediu tudo isso. E depois foi à Europa continental e disse: «Eis o acordo que a Inglaterra já fez» e usou isso como modelo para o que impôs na Europa.
Bem, após o Dia da Libertação de Trump, ele fez um acordo com a Grã-Bretanha estabelecendo uma tarifa de 10% sobre as exportações britânicas para os Estados Unidos. E a resposta da imprensa europeia, se se lembram, foi: bem, certamente podemos conseguir um acordo muito melhor do que o que a União Europeia fez com a Grã-Bretanha. Mas eles não conseguiram um acordo melhor. Von der Leyen apresentou a sua vitória ao conseguir que Trump reduzisse as suas tarifas, que não existiam na altura, de 30% para 15% e disse: «Vejam o que conseguimos». Mas ela não conseguiu realmente nenhuma redução nas tarifas, porque não havia nenhuma tarifa de 30%. Era imaginação de Trump. A taxa de imposto, como eu disse, era de 2,5%, um sexto disso, e um quarto dos 10% que os Estados Unidos cobravam à Inglaterra. Um grande aumento nos impostos foi apresentado de alguma forma como uma vitória.
Obviamente, o público europeu e os eleitores não estão a cair nessa, de acordo com as pesquisas realizadas. E até mesmo alguns dos líderes estão ostensivamente a opor-se a tudo isso. Mas não parece haver qualquer intenção de dizer: «Esperem um pouco, a Europa tinha uma alternativa. Não tinha de ser assim. A Europa tinha um programa muito bem pensado para tributar as exportações americanas, tributar as empresas americanas lá e desmantelar as suas despesas militares».
"RENDEMO-NOS"
Lembro-me de que, há 50 anos, um líder político dinamarquês disse: «Descobrimos uma maneira de reduzir o nosso orçamento militar. Vamos ter um serviço de atendimento telefónico automático com a mensagem: «Rendemo-nos. É tudo o que precisamos. Não há maneira de nós, na Dinamarca, conseguirmos lutar contra a Rússia. Porquê tentar?» Por que não dizer: «Vocês vão mesmo invadir-nos?» Porque a Dinamarca sabia que a Rússia não iria invadir. A Rússia teria de enviar um exército de 20 milhões de soldados para marchar para oeste e invadir a Europa.
E 10 milhões, 15 milhões provavelmente morreriam. Nesse caso, certamente o governo russo cairia. Não, nem a Rússia nem qualquer outro país cujos governantes que dependam dos seus eleitores e tenham alguma aparência de política eleitoral pública podem se dar ao luxo de uma guerra militar antiquada, com infantaria, tanques, uma guerra terrestre. O único tipo de guerra que qualquer país pode se dar ao luxo, seja a Rússia, os Estados Unidos ou a Europa, é uma guerra de mísseis e drones. Essas são as únicas armas com que qualquer guerra futura pode ser travada.
Nenhum país do Ocidente ou da Ásia, nenhum grande país industrializado pode arcar com os custos de qualquer tipo de guerra, exceto uma guerra de mísseis. É isso que se perdeu neste mito de que, de alguma forma, a Europa ganhou algo ao vencer a defesa americana contra um ataque fictício que nunca ocorrerá na forma de invasão. Isso só ocorreria com mísseis.
E por que razão a Rússia, a China ou o Irão teriam interesse em destruir a Europa? O que ganhariam com isso? Ao não destruir a Europa, talvez um dia, disse o presidente Putin, talvez daqui a 30 anos, possamos começar a negociar, investir e ter novamente uma relação civilizada com a Europa. Mas, por enquanto, estamos a virar-lhe as costas. Há uma ruptura e estamos a virar-nos para o Oriente. Esse é o resultado da política americana de nos levar à harmonia não só com a China, mas com toda a Eurásia, a maioria global, os BRICS, o Sul global, todos juntos.
É o que está a emergir de tudo isto. E vai deixar a Europa isolada, dependente dos Estados Unidos, mas sem realmente ter muito acesso ao mercado norte-americano. O próprio mercado dos EUA está a encolher porque os Estados Unidos chegaram ao fim da sua expansão financeira que ocorreu desde 1945. É o fim de uma expansão de 80 anos que endividou cada vez mais o país, ao ponto de os assalariados, 50% ou 90% da população, não poderem mais aumentar o seu consumo. Se os empréstimos para automóveis e a esperança nas vendas de automóveis são o objetivo deste acordo, a taxa de incumprimento nos Estados Unidos em empréstimos para automóveis tem aumentado tanto que as empresas estão agora a retirar o crédito para carros novos.
Não há como os consumidores americanos pagarem à vista pelos carros novos que a Europa talvez consiga tentar comercializar nos Estados Unidos depois de pagar a tarifa de 15%. E não há como uma empresa europeia transferir a produção da Volkswagen ou da BMW para cá para fabricar carros quando a tarifa americana é de 50% sobre alumínio, aço e outros insumos básicos. Todo o futuro, a imagem do futuro que está a ser pintada, é impossível de alcançar na prática.
Portanto, não é simplesmente que a Europa perdeu. Poderíamos dizer que a Europa não vai realmente perder, porque tudo isto é ficção. É um sonho impossível. Não pode acontecer da forma como aconteceu. Então, o que enfrentamos é um certo grau de anarquia e caos.
NIMA ALKHORSHID: Michael, em relação ao prazo que Donald Trump mencionou para a Rússia, ele disse em 29 de julho (há dois dias) que o prazo é de 10 dias. E acrescentou que não tem certeza se as tarifas funcionarão contra a Rússia, mas que, afinal, vai seguir a política de tarifas. E parece que sabemos que as tarifas sobre o Brasil estão a chegar aos 50%. Em relação à Índia, estão a falar de 25%. Não sei até que ponto os Estados Unidos serão capazes de ir atrás da China depois desse caos com as tarifas. Mas como vê esta situação? Como vê a forma como Donald Trump e o governo dos EUA irão lidar com a Índia e o Brasil? Não estão a falar da Rússia quando se trata do Brasil, mas presumo que o objetivo final seja a Rússia e depois a China. É isso que está a dizer.
MICHAEL HUDSON: Bem, como sabe, o Brasil tem reorientado o seu comércio para a China, para vender a sua soja. Pode fornecer à China as exportações que a China até agora comprava aos Estados Unidos. No ano passado, a China não comprou soja aos Estados Unidos. As importações chinesas dos Estados Unidos foram drasticamente reduzidas. E o que Trump fez parece ser algo bastante óbvio. Se o Brasil e outros países do Sul global – e, você poderia pensar, a Europa – não conseguirem exportar para os Estados Unidos, eles vão procurar outros mercados.
Qual é o outro mercado principal? A China e o resto do Leste Asiático. Portanto, o Brasil já está a reorientar-se para a Ásia. E é por isso que a China, pelo que entendi, está a construir um novo porto no Brasil apenas para facilitar mais o comércio brasileiro com a China. O México já está a seguir esse caminho e já reorientou grande parte do seu comércio para a China e outros países asiáticos. Está a procurar acordos comerciais do outro lado do Pacífico. É basicamente isso que está a acontecer.
Em relação à Índia, Trump diz à Índia que não pode mais comprar petróleo e gás da Rússia. Vai ter de pagar uma tarifa de 25%. É uma tarifa enorme. E quando pensamos no que a Índia produz, bem, só nos últimos meses, a Índia substituiu a China como principal exportadora de smartphones para os Estados Unidos.
Bem, o que vai acontecer agora? O preço dos smartphones vai subir drasticamente? O que fará a Índia? Tem apoiado o valor da rupia comprando petróleo russo, misturando-o com outro petróleo e exportando-o como petróleo indiano, principalmente para a Europa. Tem havido uma espécie de país de origem fictício que os importadores europeus de petróleo têm aceitado, juntamente com outros países. A Índia tem sido, juntamente com a Turquia, a principal beneficiária desta farsa. E Trump ameaça acabar com a farsa.
Não vejo como ele poderá impor as sanções à Índia que ameaçou sem, essencialmente, afastar a Índia da órbita ocidental. E fazê-la perceber, apesar dos seus antagonismos militares com a China: bem, tem de haver alguma forma de chegarmos a um acordo, perdemos o mercado dos EUA.
Portanto, penso que as previsões de Trump para os Estados Unidos são completamente fictícias. A sua previsão é que o comércio entre a Europa e a América, o Japão e a América, a Grã-Bretanha e a América vai continuar como antes, mas os países estrangeiros vão pagar as tarifas, se não forem os países estrangeiros, então serão os consumidores americanos.
Como mencionei na semana passada, os preços do aço nos Estados Unidos já aumentaram devido à tarifa de 50% criada por Trump, elevando o preço máximo que as empresas siderúrgicas podem cobrar para importações. Bem, está-se a descobrir que esse comércio simplesmente não vai ocorrer. Portanto, as receitas tarifárias prometidas por Trump não vão ocorrer. E sem essas importações, independentemente de elas terem de ser feitas, os consumidores pagariam e os preços subiriam. As importações simplesmente não estarão disponíveis.
Bem, isso também vai aumentar os preços nos EUA. Podem imaginar o que vai acontecer até ao final deste ano. A inflação nos EUA vai ocorrer. Trump já ameaçou o Federal Reserve com uma luta para baixar as taxas de juro. E pressionou a Amazon, um país após o outro, e o Walmart, para que não aumentassem os preços. E o Walmart e a Amazon disseram: «Está bem, não vamos aumentar». E depois aumentaram os preços. Disseram: «Bem, não podemos dar-nos ao luxo de sair do mercado. Se não podemos aumentar os preços, não podemos dar-nos ao luxo de fazer as importações». Portanto, os preços vão subir de qualquer maneira. Este é o dilema em que Trump colocou a economia dos Estados Unidos.
Ele tem um grupo de capangas à sua volta para pressionar os senadores e congressistas republicanos a apoiar as suas leis, de modo que ninguém no Partido Republicano está em posição de se opor a ele. E os democratas estão muito felizes. Não só podem condenar os republicanos, como Trump está a fazer o que Biden, os democratas e o estado profundo sempre quiseram fazer, mas não conseguiram.
Trump tem sido a apoteose da mobilização conjunta dos democratas e republicanos para um confronto militar com a Rússia e a China e para o aumento dos preços a fim de impulsionar os lucros das empresas e o mercado de ações, tudo no curto prazo. É claro que isso tem um custo para os trabalhadores, mas eles realmente acreditam que não haverá terceiros partidos nos Estados Unidos. Não há equivalente americano ao [partido] Alternativ für Deutschland ou aos partidos nacionalistas de outros países, porque só existem os republicanos e os democratas e eles estão bastante unidos quanto ao que está a acontecer.
Bem, imagine o dólar a cair 12% em relação ao euro desde que Trump assumiu o cargo. Isso significa que os investidores europeus nos Estados Unidos, sejam empresas europeias com fábricas ou produtores americanos, ou governos europeus ou investidores privados que compraram títulos ou ações dos EUA, estão a perder o valor equivalente nas suas próprias moedas, porque as ações, os títulos e as empresas denominadas em dólares valem cada vez menos.
Assim, os balanços das empresas europeias apresentarão prejuízos, enquanto nos Estados Unidos, as multinacionais americanas com filiais na Europa, Ásia e outros países estão a apresentar um enorme aumento de capital na avaliação em dólares dos ativos em países cujas moedas valorizaram em vez de desvalorizarem. Sei que é um pouco difícil de entender, mas é assim que pensam os contabilistas das empresas. Isso realmente coloca a guerra de classes nos negócios entre, de um lado as finanças, os monopólios e a indústria pesada e, do outro, a força de trabalho.
Os Estados Unidos estão a atravessar uma crise que será muito semelhante à que a Europa irá sentir. E isso irá estimular ainda mais o sentimento nacionalista nos Estados Unidos, tal como está a estimular uma resposta nacionalista na Europa.
Mas a resposta nacionalista na América não tem um veículo político para os eleitores se expressarem, ao passo que a Europa tem um veículo, a menos que se viva na Roménia, onde simplesmente anulam a eleição de um nacionalista, ou na Alemanha, se conseguirem proibir os partidos de direita.[NR]
Essencialmente, a Europa está a abandonar a fachada democrática, a ilusão de que é um governo democrático que reflete a vontade dos eleitores, ao invés de seguir os planos entregues aos seus políticos pela NATO, com a sra. von der Leyen como intermediária, colocando as exigências nas suas mãos.
NIMA ALKHORSHID: Michael, antes de encerrarmos esta sessão, quando olhamos para os Estados Unidos de hoje, sob a administração Trump, vemos que eles tentaram, com a guerra na Ucrânia, de alguma forma pressionar a Rússia. Não conseguiram. Militarmente, não são capazes de derrotar a Rússia.
No Médio Oriente, com o caso do Irão, tivemos a mesma CNN a noticiar que, em 12 dias de guerra, os Estados Unidos gastaram 25% dos mísseis Tap, o sistema de defesa aérea que enviaram para Israel. 25%. Imagine como foi isso. Economicamente, veja a forma como trataram a China, como estão a tratar o Brasil, a Rússia e a Índia. Qual é a face atual da política americana? Porque se forem pela via militar, vão perder. Se forem pela via económica, vão perder. Esse tipo de desespero tornará os Estados Unidos mais perigosos? Irá fazê-los compreender de alguma forma a situação ou encontrar uma solução para o que está a acontecer?
MICHAEL HUDSON: É mais perigoso porque Trump parece estar louco.
Acho que você teve muitos convidados excelentes no seu programa e há um denominador comum entre eles. Todos apontaram para um ponto aparentemente óbvio. Os Estados Unidos esgotaram o seu estoque de mísseis, tanques e armas para abastecer a Ucrânia e Israel. Se houver uma guerra séria, como vão lutar sem armas? A Europa e os Estados Unidos estarão praticamente na mesma situação que a Ucrânia: sem armas. Têm mão-de-obra, mas o que se pode fazer sem armas?
Então, voltamos ao ponto de que só há uma maneira de travar uma guerra militar séria. É com mísseis de longo alcance.
A Rússia não precisa de mísseis com ogivas nucleares. Desenvolveu uma vantagem tecnológica tão grande sobre os Estados Unidos com os seus mísseis hipersónicos, como já vimos na Ucrânia – tal como o Irão desenvolveu essa tecnologia, que vimos o que foi capaz de fazer em Israel – que qualquer tipo de confronto militar entre os Estados Unidos e a Europa, por um lado, e outros países, por outro, está condenado ao fracasso.
E a questão é: se os Estados Unidos não têm qualquer defesa contra os mísseis russos, iranianos ou chineses, se não têm capacidade para recrutar um exército para tentar invadir países estrangeiros, se não têm qualquer fornecimento de tanques, armas e artilharia, então tudo o que têm são armas atómicas.
Lembre-se, temos alguém que já teve COVID várias vezes, e as pessoas estão francamente preocupadas com a sua sanidade mental. Ele parece que está a agir como uma pessoa louca.
Agora, será isso como o presidente Nixon a fingir de louco? Ei, se não sabe o que ele vai fazer, então é melhor se render porque não sabe o que o espera. Quando na verdade Nixon não era louco, ele era muito calculista. Isso fazia parte da estratégia de que as pessoas falavam: agir como louco e os outros países recuarão porque não querem uma guerra tectónica.
Mas e se Trump estiver realmente louco? E se não for apenas uma atuação muito inteligente e ele for realmente muito burro, e tiver guerreiros frios ideológicos a dizer-lhe o que fazer, a aconselhá-lo, a exercer pressão sobre ele, e nós estivermos realmente a arriscar uma guerra atómica?
Presumivelmente, o exército dos Estados Unidos é forte o suficiente para dizer: bem, se a Rússia retaliar contra mísseis enviados pela Alemanha, França ou Grã-Bretanha contra esses países, essa guerra é deles. Graças a Deus que Trump e os Estados Unidos [querem] retirarar-se da guerra com a Rússia para se concentrarem na China.
Os Estados Unidos não irão ajudar a Europa, nem os países bálticos se estes tentarem criar algum tipo de ataque contra a Rússia fechando o Mar Báltico aos petroleiros russos e ao comércio russo com o Ocidente. Mas um general americano na Europa ameaçou: podemos tomar Kaliningrado num único dia. Um ataque a Kaliningrado é um ataque à Rússia, assim como um ataque à ponte de Kersch e à Crimeia seria um ataque à Rússia.
Esta é realmente uma linha vermelha. A Rússia até agora não teve qualquer motivo para realmente lutar militarmente contra linhas vermelhas ultrapassadas, porque, ao avançar lentamente na Ucrânia da forma como tem feito, tem na verdade ganho uma enorme vantagem, porque não só esgotou o exército ucraniano e o abastecimento militar ucraniano, como também esgotou – espero – a vontade da Europa de prosseguir com o que é obviamente uma aventura perdida. A Wehrmacht não vai conseguir vencer desta vez. Não sei como fazer os Estados Unidos entenderem isso, mas se Merz não for substituído, grande parte da Alemanha, nas palavras de Putin, deixará de existir.
NIMA ALKHORSHID: Sim, bastante perigoso. Michael, e quanto às bombas nucleares?
MICHAEL HUDSON: Os seus outros convidados mostraram a mesma preocupação, não é?
NIMA ALKHORSHID: Sim, exatamente, exatamente. Na verdade, todos têm medo de uma guerra com bombas nucleares porque esse desespero poderia levar a esse tipo de guerra, que... mas em termos do que os Estados Unidos fariam e da capacidade da Rússia, e de como a Rússia responderia. Sim. A Rússia não precisa de uma guerra atómica para destruir pois tem este novo míssil hipersónico ou o que quer que seja. Eles podem ter o mesmo tipo de impacto e até maior do que isso sem usar bombas nucleares. Muito obrigado, Michael, por estar connosco hoje. Foi um grande prazer, como sempre.
MICHAEL HUDSON: Bem, fico sempre feliz em trazer boas notícias.
NIMA ALKHORSHID: Até breve, Michael.
[NR] Na Alemanha, tal como noutros países europeus, não são só os partidos de direita que defendem a soberania nacional e uma política não belicista.