“Se eu fosse a Rússia não teria pressa em ajudar a resolver o problema dos pagamentos”

Michael Hudson [*]
entrevistado por Saker

EUA vendem à Europa gás natural 40% mais caro.

A seguir ao anúncio de Putin acerca da venda de gás por Rublos só para nações hostis, decidi contactar Michael Hudson e fazer-lhe perguntas (ao meu nível, primitivas). Aqui está a nossa troca completa de emails:

Andrei: a Rússia declarou que só venderá gás a "países hostis" em troca de Rublos. O que significa que aos países não hostis continuará a vender em dólares/euros. Será que estes países hostis ainda podem comprar gás da Rússia, mas através de países terceiros?

Michael Hudson: Parece haver duas meios para os países hostis comprarem gás russo. Um parece ser através de bancos russos que não estão banidos da SWIFT. O outro meio na verdade parece passar por procurar desenvolver um intercâmbio formal ou informal com um banco de países terceiros. A Índia e a China parecem ser os mais bem posicionados para este papel. Diplomatas norte-americanos estarão a pressionar a Índia para impor as suas próprias sanções à Rússia e existe ali uma forte influência pró-EUA. Mas mesmo Modi vê os óbvios benefícios superiores de beneficiar da posição geopolítica da Índia com a Rússia e a Belt and Road Initiative da China em relação ao que quer que os EUA disponham.

Nos anos 60, o Ocidente lidou com a União Soviética através de acordos de permuta. A organização desta permuta tornou-se um grande negócio bancário. A permuta é a típica "fase final" da deterioração de uma economia de crédito numa economia de moeda que se decompõe. A médio prazo, é preciso criar uma nova organização financeira internacional como alternativa ao FMI dolarizado para lidar com tais transacções intra-bloco no novo mundo multipolarizante de hoje.

Andrei: Estas nações hostis pagariam mais por esse serviço extra, mas elas não teriam de obter Rublos. Será que isso é mesmo possível?

Michael Hudson: Presumivelmente a Rússia não absorveria os custos bancários adicionais de evitar as sanções dos EUA. Ela simplesmente os acrescentaria ao preço, depois de estabelecer o preço que espera conseguir – de preferência à taxa de câmbio "antiga" rublo/euro ou rublo/dólar original, não à taxa depreciada pós-ataque.

Andrei: Pergunta: Acredita que a UE concordará em pagar os Rublos ou aceitará a perda total de 40% da sua energia?

Michael Hudson: Eles pagarão – ou serão destituídos do cargo. Se eles cortarem as suas importações de energia da Rússia, os preços desconfortáveis do gás subiriam e haveria uma escassez drástica que abalaria a economia. Energia é produtividade e PIB. Para a Rússia, é claro, esta é uma oportunidade de efectuar a ruptura agora ao invés de mais tarde – e deixar a NATO assumir a culpa pela interrupção do fornecimento. Portanto, se eu fosse a Rússia, não teria pressa em ajudar a resolver o problema do pagamento estrangeiro. O mesmo se aplica às matérias-primas não petrolíferas, desde o néon ao paládio ao titânio, ao níquel e ao alumínio.

Andrei: Até agora, isto aplica-se apenas ao gás natural. Acredita que a Rússia estenderá a medida também ao petróleo, trigo e fertilizantes e, em caso afirmativo, qual será o efeito disto para a economia mundial?

Michael Hudson: Todas as exportações russas são afectadas por estes controlos da divisa, porque todas as transferências bancárias são sancionadas do modo acima discutido. A Rússia não tem uso para dólares ou euros, porque estes podem ser tomados à força (grabbed). Ela precisa ter o controlo completo sobre quaisquer activos monetários que receba, agora que as antigas normas do direito internacional e da política financeira não mais se aplicam.

Andrei: A Rússia tem muitos recursos naturais assim como tecnologias/ commodities. Se ela for bem sucedida nos seus esforços para ser paga em Rublos, será que o Rublo – o qual seria então uma moeda apoiada em recursos naturais/commodities – poderia tornar-se uma importante divisa de "refúgio"?

Michael Hudson: Não sei bem o que é uma divisa de "refúgio", mas o rublo tornar-se-á uma divisa autónoma. Se a sua balança comercial e de pagamentos melhorar, o problema poderá ser impedir o rublo de subir. Se isso acontecer, a questão será se uma subida do rublo obrigaria os compradores das exportações russas a pagar mais na sua própria divisa. Um novo sistema financeiro multilateral está em vias de ser estruturado quando estamos a ter esta discussão. Haverá especulação? Venda a prazo? Short squeezes e razias do tipo Soros? Quem serão os participantes e sob que regras...?

Andrei: Quão duramente, potencialmente, esta decisão russa atingiria o dólar? E as MBS [Mortgage Backet Securities] a negociar com a R. P. da China para as vendas de petróleo em Renminbi? Pensa que a China e a Rússia deitarão abaixo o Petrodólar e que veremos um Rublo e um Yuan garantidos por mercadorias a substituir o Dólar?

Michael Hudson: O petrodólar permanecerá entre os Estados Unidos e os seus aliados. Mas ao seu lado, existirão os acordos saudi-yuan e Índia-yuan para o comércio de petróleo, minerais, produtos industriais e provavelmente investimento internacional. O comércio destes produtos poderá ocorrer em várias moedas, provavelmente numa série de trocas. Não está claro se se poderá desenvolver alguma arbitragem formal ou informal entre estas áreas. Isto faz parte do que deve ser concebido. Para supervisionar e regular os resultantes acordos financeiros e comerciais, é necessária uma alternativa ao FMI. Os EUA não aderirão a nenhuma organização em que não tenham poder de veto, pelo que veremos uma divisão do mundo em diferentes áreas comerciais e monetárias. O resultado não é tanto um conflito, mas sim duas filosofias operacionais bastante diferentes, pois o mundo não americano desenvolve a sua alternativa ao neoliberalismo financiarizado.

Andrei: Os EUA basicamente roubaram ouro [1] e divisas estrangeiras russas. Os russos afirmam que os EUA deram um tiro no próprio pé e que isto arruinará a reputação do dólar, concorda com isso?

Michael Hudson: Absolutamente: Irão após o Xá ter sido derrubado, as reservas estrangeiras do Afeganistão no início deste ano, o ouro da Venezuela detido no Banco de Inglaterra, e agora a Rússia. Mesmo a tímida Alemanha pediu que os aviões começassem a voar o seu ouro detido no Fed de Nova Iorque de volta para a Alemanha! [2]

Andrei: pensa que a Rússia irá retaliar contra os EUA/Reino Unido/UE e nacionalizar/apreender os seus activos na Rússia ou mesmo em países amigos da Rússia (China?)?

Michael Hudson: A Rússia é muito cuidadosa em fazer tudo de acordo com o direito internacional – que, claro, tem uma grande variedade de precedentes e desculpas, e cujos tribunais tendem a ser dominados por juízes americanos que apoiam as versões americanas do que é legal sob a chamada "ordem do dia baseada em regras" ao invés do "Estado de direito" segundo as linhas da ONU. Na medida em que os investidores da NATO abandonam os seus activos na Rússia, estes podem ser vendidos – talvez com um desconto de aflição – a compradores que prometam manter o negócio. A Rússia pode impor multas severas por abandono, como quando os senhorios abandonam edifícios causando despesas locais com custos de limpeza. O abandono causa um "incómodo público".

Seria uma causa para confisco imediato o não pagamento de impostos correntes, rendas e salários ou fornecedores (incluindo electricidade e combustível). Pense no que aconteceria se a conta do gás não fosse paga e as tubagens congelassem e inundassem uma propriedade. Há todo um mundo de penalidades que poderiam ser aplicadas.

O direito internacional prevê alguma recuperação de activos indevidamente confiscados – como parecem ser os confiscos dos EUA de reservas e bens pessoais de propriedade russa. Neste momento, a Rússia não tem realmente nada a perder. Parece que não vai haver muito investimento cruzado russo-europeu durante bastante tempo. A Rússia finalmente abandonou as suas esperanças posteriores a 1991 de "virar-se para o Ocidente". Foi um sonho que se transformou num pesadelo e o Presidente Putin e Lavrov exprimiram o seu desgosto com a Europa por actuar de modo tão pouco civilizado. Assim, para a Rússia – e cada vez mais outros países – a Europa da NATO e a América do Norte são os novos bárbaros à porta. A Rússia está a virar.

É precisamente esse o objectivo da política dos EUA – trancar a Europa na sua própria ordem neoliberal dolarizada, bloqueando qualquer prosperidade mútua alcançada pelo comércio e investimento com a Rússia ou, por detrás desta, com a China. Parece que as sanções actuais são permanentes para os próximos anos. Portanto, é claro que a Rússia precisa de manter em funcionamento empresas anteriormente pertencentes a países da NATO. Deixar que os investidores da NATO recebam compensação a partir daquilo que os Estados Unidos sequestram à força. (Pista: os Estados Unidos podem simplesmente começar a sequestrar as reservas da China ou da América Latina ou do Próximo Oriente para pagar a investidores da NATO que tenham perdido na Rússia. Este é o modelo de utilização do dinheiro afegão para pagar às vítimas do ataque do 11/Set da Arábia Saudita duas décadas atrás).

Andrei: finalmente, que pergunta, se é que há alguma, me esqueci de fazer e o que lhe responderia?

Michael Hudson: As suas perguntas são sobre problemas e soluções específicas. Mas a resolução global tem de ser global e não uma manta de retalhos. Estes problemas específicos não podem realmente ser resolvidos sem uma profunda reestruturação institucional do sistema financeiro internacional, comércio mundial, um tribunal mundial e uma ONU sem o poder de veto dos EUA. E uma tal reforma institucional requer uma doutrina económica para providenciar os seus princípios básicos. Uma Nova Ordem Económica Internacional será construída sobre princípios não-neoliberais – na linha do que costumava ser chamado socialismo, quando era isso que as pessoas esperavam que o capitalismo industrial evoluísse.

Andrei: muito obrigado pelo seu tempo e perícia!!

25/Março/2022

NR
[1] Não é verdade que reservas-ouro do Banco Central Russo tenham sido congeladas/confiscadas/roubadas pelo governo Biden pois elas estavam e estão totalmente em território russo. O que Biden fez foi o congelar/confiscar/roubar cerca da metade das divisas estrangeiras (~US$300 mil milhões) que o BCR tinha depositado em bancos ocidentais. O ouro russo que efectivamente saiu para o ocidente não era o das reservas do BCR e sim o que foi comprado por bancos privados russos a empresas mineradoras russas e vendido no mercado de Londres (~600 toneladas). No entanto, é verdade que os referidos bancos privados não poderiam ter feito tais operações sem o sinal verde do BCR.
[2] Deve-se acrescentar à lista as 40 toneladas de ouro do Banco Central da Ucrânia que o Fed levou para os Estados Unidos em 2014, assim como as reservas-ouro misteriosamente desaparecidas do banco central da Líbia após a violenta derrubada do governo Kadafi.

Ver também:
  • The Blowback from Sanctions on Russia
  • [*] Economista, autor de Super Imperialism. The Economic Strategy of American Empire., 3ª edição.

    O original encontra-se em thesaker.is/the-saker-interviews-michael-hudson-5/

    Este artigo encontra-se em resistir.info

    27/Mar/22