Dívida, terra e dinheiro
De Polanyi à Nova Arqueologia Económica
Os anos de formação de Karl Polanyi, no rescaldo da Primeira
Guerra Mundial, foram um período de turbulência monetária.
Os Estados Unidos da América tornaram-se, pela primeira vez, uma
nação credora e exigiram o pagamento das dívidas de
guerra, que Keynes avisou serem impagáveis sem destruir os sistemas
financeiros da Europa (Hudson,
Super Imperialism,
1972, faz um resumo desta era). A França e a Grã-Bretanha
submeteram a Alemanha ao pagamento de reparações
insustentavelmente elevadas, ao mesmo tempo que impunham austeridade às
suas próprias economias, aderindo ao padrão de ouro. Jacques
Rueff, em França, e Bertil Ohlin, nos Estados Unidos da América,
argumentaram que a Alemanha poderia pagar qualquer nível de
reparações em ouro - e os Aliados poderiam pagar as suas
dívidas militares denominadas em moeda estrangeira - impondo um
desemprego suficientemente alto para fazer com que os seus salários
fossem suficientemente baixos para tornar os seus produtos suficientemente
baratos para gerar um excedente comercial suficientemente grande para pagar o
seu serviço de dívida.
A maioria dos países seguiu a ideia do dinheiro sólido
("hard money"),
de que o dinheiro era (ou podia tornar-se num
substituto de) uma mercadoria, sendo convertível em ouro. Essa ideia,
defendida de forma muito notória pelos austríacos Ludwig von
Mises e Friedrich von Hayek, resultou numa deflação
monetária. Foi uma repetição do que tinha já
ocorrido depois de 1815, quando o banqueiro David Ricardo insistiu em que o
regresso ao padrão-ouro restabeleceria o equilíbrio face a
quaisquer pagamentos de dívida externa ou subsídios militares.
Afirmou que qualquer défice desses pagamentos seria automaticamente
reciclado sob a forma de procura de importações provenientes da
economia "pagadora de capital" por parte do país
beneficiário. Não se verificou qualquer equilíbrio desse
tipo.
Quando o padrão-ouro foi reinstituído após a Primeira
Guerra Mundial, as economias foram espremidas de dinheiro para reduzir os seus
preços e salários, numa tentativa fútil de pagar as suas
dívidas. Rueff, Ohlin e Hayek afirmaram que impor às economias
devedoras esta deflação e pobreza representaria (e deveria
representar) um equilíbrio estável.
Tudo incluindo dinheiro, terra e trabalho era visto como uma
mercadoria
cujo preço seria fixado de forma justa pela oferta e procura, sendo a
"procura" corroída pelo serviço da dívida, pago
sem limites aos credores. A criação de dinheiro devia ser mantida
fora das mãos dos governos, porque, como Margaret Thatcher parafraseou
da ideologia de Hayek: "Não existe tal coisa como a
sociedade". Existe (e deve existir) apenas um mercado um mercado
que é inevitavelmente dominado por fortunas financeiras, bancos e donos
de propriedades.
Polanyi culpou a imposição da ideologia do mercado livre pela
rotura do pós-guerra e pela Grande Depressão. Escrevendo que
"A década de 1920 viu o prestígio do liberalismo
económico no seu auge", ele previu que, "Sem dúvida, a
nossa era será vista como o fim do mercado autorregulador"
(Polanyi, 1944: 148). Ele esperava que o caos resultante da
implementação desta ideologia maníaca demonstrasse a
falácia das afirmações de que os mercados são
autorreguladores e podem ser desencastrados
("disembedded")
do seu contexto social regulatório sem que isso cause
destruição económica, desemprego e pobreza.
Para demonstrar a necessidade de regulamentação pública,
Polanyi empreendeu uma análise dos modos de organização do
dinheiro, crédito e uso da terra que sustentaram a prosperidade e
daqueles que falharam. Rejeitando aquilo que ele considerou ser a
sequência de modos de produção de Marx, enfatizou antes os
modos de troca. Ele considerou o conjunto de "estágios
historicamente insustentáveis" de Marx como decorrente "da
convicção de que o carácter da economia era definido pelo
estatuto do trabalho" (Polanyi, 1957: 256), desde a antiga escravatura e a
usura, à servidão sob o feudalismo e ao trabalho assalariado sob
o capitalismo. Concentrando-se na transição do feudalismo para o
capitalismo industrial, que operou a expulsão do trabalho da terra para
se tornar trabalho assalariado ao serviço de empregadores, o objetivo de
Marx não era analisar a história da posse da terra. Polanyi
insistiu em que "a integração do solo na economia deve ser
considerada como não menos vital". "Sob o feudalismo e o
sistema das guildas", escreveu Polanyi, "a terra e o trabalho faziam
parte da própria organização social (o dinheiro ainda mal
se tinha desenvolvido a ponto de se tornar um elemento importante da
indústria)". A terra foi atribuída como base para manter
"o sistema militar, judicial, administrativo e político; o seu
estatuto e função eram determinados por regras legais e
consuetudinárias" (Polanyi, 1944: 69). A tarefa própria do
governo era socializar regras para definir em que deviam ser utilizadas as suas
rendas em impostos ou em pagamentos a rentistas?
Nos Volumes II e III de
O Capital,
Marx considerou a renda da terra e a usura como sobrevivências dos
tempos feudais, falsos encargos da produção
("faux frais of
production")
que ele esperava que o capitalismo industrial eliminasse,
libertando as economias de proprietários extratores de renda da terra e
de banqueiros usurários. Em vez disso, estes interesses rentistas
recuperaram o controlo das economias, opondo-se à
regulação pública acenando com a bandeira do
individualismo livre-mercantil. Idealizando os ganhos monetários sem
qualquer preocupação com a forma como isso afeta o bem
público, os banqueiros e outros rentistas definem economias
"naturais" ou "puras" como implicando nenhuma
regulação de preços ou do funcionamento dos mercados em
função de considerações de bem-estar social. A
economia é vista como um mercado livre para todos, e não como um
sistema social que regula a propriedade, o crédito e a dívida
para dar prioridade à estabilidade social e ao aumento do nível
de vida.
Ao descrever o poder regulador público como "não
natural", a política do mercado livre assume que é natural e
desejável remeter para a riqueza privada a existência de regras
para propriedade, crédito e dívida. A realidade é que
nunca existiu um mercado "natural", sem regulamentação
social. O que passa por um mercado livre equivale a pouco mais do que uma luta
por posições, com as vantagens a estar sempre do lado dos
indivíduos mais ricos. O interesse destes reside em minimizar a
supervisão pública e a tributação das suas
atividades empresariais rentistas, de crédito e execução
ou outras.
Polanyi propôs-se demonstrar a loucura de sujeitar a política
laboral, fundiária e monetária a "mercados livres"
não regulamentados. O que realmente está em questão
é que tipo de mercados as economias terão, e quem serão os
seus principais beneficiários ou vítimas. Na sua
clássica obra
A Grande Transformação
(1944) creditou o feudalismo e o capitalismo industrial inicial da Inglaterra,
com as suas leis para pobres
("Poor Laws")
ainda em funcionamento,
por preservarem objetivos sociais amplos e regulamentos, em vez de atirarem o
trabalho e a terra aos lobos (os ricos), tratando-os como mercadorias. Mesmo
nos primeiros dias do desenvolvimento do capitalismo, as nações
mercantilistas "eram todas igualmente avessas à ideia de
comercializar o trabalho e a terra - a condição prévia da
economia de mercado". ... O mercantilismo, com toda a sua tendência
para a comercialização, nunca pôs em causa as salvaguardas
que protegiam estes dois elementos básicos da produção
o trabalho e a terra de se tornarem objetos de
comércio" (ibidem: 70).
Desde a Antiguidade até à Europa feudal, a terra formou a base
tributária universal. Em contraste com as mercadorias normais, que
têm um custo de produção, a terra é fornecida
livremente pela natureza. "Terra, trabalho e dinheiro não
são obviamente mercadorias", explicou Polanyi. Trabalho
"é vida", e "terra é apenas um outro nome para a
natureza". Não tendo sido produzida pelo trabalho e, portanto,
não tendo um custo de produção (valor clássico), a
renda da terra é apenas uma privilégio legal conferido à
propriedade. Mas os mercados dão-lhe um preço, de forma que
transferir certos direitos de uso permite aos proprietários extrair
benefícios do arrendamento sem trabalho (ibidem, 72). Embora o valor dos
terrenos seja criado principalmente pelo investimento em infraestruturas
públicas, os proprietários lutam por guardar a renda da terra
para si próprios. Isso impede que os governos mantenham a renda da terra
no domínio público, como a base tributária. E na
Antiguidade, grandes investidores e credores hipotecários executantes
expulsaram os pequenos proprietários, privando os governos de impostos,
bem como de mão-de-obra em corveia e de um exército de livres
cidadãos.
Quando Polanyi chamou ao dinheiro uma mercadoria fictícia, estava a
rejeitar a ideia de o tornar escasso, limitando o seu fornecimento ao de ouro,
imitando assim as mercadorias, como se o dinheiro fizesse parte de um sistema
de permutas. Isso também dava aos credores um poder esmagador sobre o
resto da economia, especialmente sobre o trabalho e a terra, empurrando os
níveis salariais e os preços das colheitas para abaixo das
necessidades básicas quando os governos foram privados da capacidade de
criar crédito para empregar mão-de-obra. Ele criticou Ricardo por
ter "doutrinado a Inglaterra do século XIX na
convicção de que o termo «dinheiro» significava um meio
de troca", com as notas bancárias a serem prontamente
convertíveis em ouro (ibidem: 196). Essa política levou à
deflação, dada a oferta limitada de ouro. A queda dos
preços e dos salários penalizou os devedores quando os
países voltaram à convertibilidade do ouro após
inflacionamentos em tempo de guerra. Isso ocorreu na Grã-Bretanha depois
de 1815, e nos Estados Unidos da América depois da década de
1870, quando se procurou reduzir os preços para que o preço do
ouro - e, portanto, os salários e os preços das mercadorias -
voltassem a descer para o seu nível anterior à Guerra Civil. O
resultado foi uma depressão económica prolongada, fazendo com que
a terra e outros bens fossem transferidos dos devedores para os credores.
A alternativa preferida de Polanyi era fazer o dinheiro servir objetivos
sociais, tornando-o uma pura criação pública da lei. Tal
dinheiro simbólico não tem custo de produção
inerente, "mas surge através do mecanismo da banca ou das
finanças do Estado", e por isso não é uma mercadoria
com um custo de produção em trabalho: "o dinheiro real,
finalmente, é apenas um sinal de poder de compra que, em regra,
não é produzido de todo, mas surge através do mecanismo da
banca ou das finanças do Estado" (Ibidem: 72).
Os adversários austríacos de Polanyi argumentaram que a
criação de dinheiro público, programas de despesas
sociais, regulamentos e subsídios distorciam a supostamente eficiente
economia "natural" dos mercados fixadores de preços. Na
prática, isso significava salários baixos e uma
transferência das terras para os ricos. Forças de mercado
não regulamentadas e a procura de ganhos levaram o sistema social a ser
gerido com o objetivo puramente financeiro de "máximos ganhos
monetários", sujeitando a terra, o trabalho e o dinheiro a um
viés pró-credor, em vez de favorecer a maioria endividada da
população. Era para evitar esta polarização
económica e esta austeridade, afirmava Polanyi, que "a
regulação e os mercados... cresceram em conjunto". O
comércio e os rendimentos foram regulados durante a maior parte da
história, graças ao facto de que, "em regra, o sistema
económico foi absorvido pelo sistema social". (ibidem: 68)
Mas em meados da década de 1920, operações de caça
ao dinheiro
("money-seeking drives")
estavam a desestabilizar a agricultura e a indústria. A França
impôs a austeridade ao aderir ao padrão-ouro, e uma
política semelhante da Grã-Bretanha levou a uma Greve Geral a
nível nacional, em 1926. A moral, disse Polanyi, foi que:
"Permitir que o mecanismo de mercado fosse o único diretor do
destino dos seres humanos e do seu ambiente natural, na verdade, de facto,
mesmo da quantidade e da utilização a dar ao poder de compra,
resultaria na completa demolição da sociedade. ... a
administração pelo mercado do poder de compra liquidaria
periodicamente as empresas, pois a escassez e o excesso de dinheiro seriam
tão desastrosos para as empresas como as inundações e as
secas na sociedade primitiva" (Ibidem: 73).
O projeto interdisciplinar de Polanyi em Columbia
A publicação de
A Grande Transformação
em 1944 levou à nomeação de Polanyi para um lugar de
professor na Universidade da Columbia (1947-53), onde organizou um grupo de
antropólogos e historiadores da Antiguidade para estudar como as
sociedades não mercantis moldaram as suas relações
laborais, fundiárias e monetárias. Isto proporcionou uma
alternativa empírica ao pressuposto de que o estabelecimento de
preços em mercados "livres" sempre teria existido, sem
"interferência" do governo.
A primeira investigação do grupo sobre alternativas à
versão livre-mercantil da história foi publicada no volume
Trade and Market in the Early Empires
(Comércio e Mercado nos Primeiros Impérios) (1957), um resultado
dos debates do início do século XX entre os chamados
primitivistas e os modernistas. A leitura modernista da história insiste
em que os indivíduos egoístas inventaram espontaneamente o
dinheiro e a empresa, sem que caciques, palácios ou templos
desempenhassem nisso um qualquer papel. Contra esta ideia, Karl Bücher
(1847-1930) contrapôs que as antigas economias não estavam
organizadas segundo linhas individualistas modernas. Ele "opôs-se
à economia clássica e neoclássica com o argumento de que
estas teorias tinham um conceito de economia vinculado ao seu tempo, um
conceito que eles assumiram ser aplicável a todos os períodos
históricos" (Polanyi, 1962: 164).
Tal como Bücher, Polanyi rejeitou reconstruções que se liam
como se um economista livre-mercantil entrasse numa máquina do tempo e
voltasse ao Neolítico para organizar o crédito e os mercados
segundo linhas modernas. Se qualquer economia arcaica tivesse seguido esse
modelo idealizado de manual, observou o seu seguidor Johannes Renger (1972), os
devedores teriam aí fugido ou desertado para rivais que prometessem
cancelar as suas dívidas. A ajuda mútua e os seus associados
constrangimentos à ganância eram condições para a
sobrevivência social. Esperava-se dos chefes que fossem generosos,
protegendo os fracos e os necessitados.
Elaborando as ideias desenvolvidas em
A Grande Transformação,
Polanyi recorreu à Antropologia e à História antiga para
mostrar que as "obrigações monetárias não
surgem normalmente das transações", da troca de bens nos
mercados. Tinham mais a ver com o pagamento de impostos, dívidas e
outras obrigações: "É vital fazer uma
equiparação de bens tais como a cevada, o azeite e a lã,
em que os impostos ou os arrendamentos têm de ser pagos, ou que podem
constituir rações ou salários alternativos" (Polanyi,
1957: 264f).
Polanyi caracterizou a troca mercantil como um de três sistemas de troca
distintos: a reciprocidade (troca de presentes), a redistribuição
e a troca "de mercado". "O comportamento de reciprocidade entre
indivíduos integra a economia apenas se forem dadas estruturas
simetricamente organizadas, tais como um sistema simétrico de grupos de
parentesco". Tais simetrias podem ser perturbadas pela
"ascensão do mercado a uma força dominante na
economia", sobretudo quando "a terra e os alimentos forem mobilizados
através da troca, e a mão-de-obra for transformada numa
mercadoria livre para ser adquirida no mercado" (ibidem: 225). Ele
não via isto como tendo-se desenvolvido já por volta de 1800 AC,
no período babilónico antigo, nem que a dívida fosse
então a principal alavanca que permitisse aos indivíduos ricos
obter as terras dos pequenos proprietários. Os credores frequentemente
faziam-se adotar como "filhos" do proprietário de terra
endividado, para que pudessem herdar a terra, no devido tempo, sob as regras
existentes que exigiam a manutenção da terra nas mãos de
famílias hereditárias.
Polanyi resumiu a sua esperança de que a sociedade se curasse de ter
desencastrado os mercados do seu contexto social, restaurando "formas
reminiscentes da organização económica de tempos
primordiais". A sociedade precisava de reencastrar as estruturas de
mercado para bens e serviços, administrando preços e rendimentos
chave numa nova economia redistributiva. Tal redistribuição
"pressupõe a presença de um centro de afetação
na comunidade", um palácio ou templo em tempos antigos,
escritórios governamentais democráticos no mundo de hoje.
A influência de Polanyi na Assiriologia
Dois dos seguidores de Polanyi, Leo Oppenheim e Johannes Renger, descreveram a
Suméria e a Babilónia como economias redistributivas, a partir do
templo ou do palácio. O artigo de Renger de 1984 sobre o contexto
palaciano do comércio e das empresas mostrou o papel destas grandes
instituições na alocação e na fixação
dos preços dos recursos. Para levar a cabo o planeamento antecipado das
suas próprias operações e para realizar
transações com a economia em geral, palácios e templos
precisavam de avaliar o pagamento de rendas e taxas em cereais num
balanço geral consolidado, juntamente com o comércio, o pastoreio
e outras atividades. A sua solução para este problema foi criar
aquilo que hoje conhecemos como dinheiro.
A caracterização por Polanyi da redistribuição como
um modo de troca abrangendo toda a economia como se a Mesopotâmia
não pudesse ser simultaneamente redistributiva e uma economia de mercado
implicava que a Mesopotâmia não podia ter também um
comércio florescente orientado para o lucro, num sector onde os
preços variavam, especialmente entre as cidades. Isto deixou-o exposto a
críticas, designadamente as de Morris Silver, que citou exemplos de
comércio privado em busca de lucro, como o dos assírios na
Capadócia, bem como provas de que os preços excediam
frequentemente os prescritos nas proclamações reais (Silver,
1983; Silver 1995).
Renger descreveu como muitas das necessidades palacianas da terceira dinastia
neo-sumeriana de Ur III (final do terceiro milénio AC) "foram
tratadas por empresários para a casa [real]
("Palastgeschäft")
pela qual atuavam" (Renger, 1994: 197). Os comerciantes conduziam o
comércio empresarial por sua própria conta, frequentemente por
consignação do palácio, mas também vendendo, com
uma margem de lucro, para o resto da economia. Também emprestaram por
sua própria conta, e cobraram impostos e taxas pelo palácio. A
mistura entre a economia palaciana redistributiva e as partes menos formais da
economia, onde os preços eram mais flexíveis, torna muitas vezes
difícil distinguir entre "público" e
"privado", e assim entre troca redistributiva e "de
mercado", empréstimo e juros, e rendas ou outras
obrigações (Yoffee, 2003: 6).
O comércio empresarial para o mercado e o crédito na
Mesopotâmia coexistiram com a redistribuição palaciana com
preços administrados e troca de presentes, cada um na sua própria
esfera. E a Mesopotâmia não estava sozinha como uma "economia
mista". Quase todas as sociedades nos últimos cinco mil anos
têm sido compósitas, apresentando simultaneamente os três
modos de troca de Polanyi. Ainda hoje, a troca de presentes entre familiares e
amigos e os preços administrados para bens e serviços
públicos coexistem com as trocas no mercado.
No entanto, a procura de ganhos monetários era geralmente encastrada
("embedded")
num contexto social mais geral. As proclamações reais de
abolição de dívidas
("Royal Clean Slate")
e de "justiça e equidade", anularam o acúmulo de
impostos em cereais e outras dívidas agrárias, libertaram servos
e restauraram as terras confiscadas aos pequenos proprietários.
(Forneço uma história de tais atos em
and forgive them their debts Lending, Foreclosure and Redemption
from Bronze Age Finance to the Jubilee year
2018). Isto preservou uma cidadania livre para servir no
exército e fornecer mão-de-obra de corveia, em vez de cair em
servidão permanente por dívidas a credores não oficiais.
As últimas décadas de investigação
assíriológica mostraram que a Mesopotâmia não era
nem primitiva nem moderna enquanto tal. Como Dominique Charpin resumiu, a ideia
de Polanyi da Babilónia de Hammurabi como sendo uma economia não
mercantil foi formulada teoricamente, sem o benefício da
documentação agora disponível. Muitos dos textos
publicados nos últimos anos mostram muito claramente que a
flutuação dos preços caracterizou o mercado. É
demasiado fácil utilizar estes termos de forma anacrónica e
permitir que surjam mal-entendidos (Charpin, 2003: 196).
Tais mal-entendidos tiveram já consequências de grande alcance,
há meio século atrás. Um dos mais influentes seguidores de
Polanyi, Moses Finley, excluiu o antigo Próximo Oriente da narrativa da
civilização ocidental. Expulso do ensino na América
durante a caça às bruxas maccartista dos anos 1950, por ter sido
comunista, Finley insistiu em que a civilização ocidental se
desenvolveu a partir de comunidades primitivas cujas práticas de chefia
evoluíram diretamente para as clássicas cidades-estado gregas e
romanas. Na sua opinião:
"As economias do Próximo Oriente eram dominadas por grandes
complexos sediados em palácios ou templos, que possuíam a maior
parte das terras aráveis, praticamente monopolizaram tudo o que se pode
chamar «produção industrial», bem como o
comércio externo (que inclui o comércio entre cidades, e
não apenas o comércio com partes estrangeiras), e organizaram a
vida económica, militar, política e religiosa da sociedade
através de uma única operação de
manutenção de registos complicada, burocrática, para a
qual a palavra "racionamento", tomada em termos muito gerais,
é a melhor descrição de uma só palavra que me
ocorre. ... A exclusão do Próximo Oriente não é,
portanto, arbitrária..." (Finley, 1985: 28).
Esta exclusão das economias do Próximo Oriente, sob o pretexto
equivocado de que não teriam mentalidade empreendedora, perde por
completo de vista o seu carácter "misto". A sua atitude
dualista caracteriza a tendência de alguns seguidores de Polanyi para
pensar as sociedades como sendo ora "sociais" ora "de mercado
livre", como se a empresa comercial e a dívida remunerada fossem
incompatíveis com os regulamentos públicos e os preços
administrados. Finley tratou estes últimos como sendo um beco sem
saída primitivista, à maneira da interpretação de
Karl Wittfogel do "despotismo oriental", imaginando que as economias
irrigadas tinham necessariamente um autoritarismo totalitário do tipo
estalinista. Na realidade, os palácios foram patrocinadores de empresas
e de uma economia mista resiliente, que mais tarde forneceriam à
Grécia e Roma clássicas as suas técnicas básicas de
empresa comercial e de dívida remunerada.
Comentando como a visão dualista de Finley foi controvertida pela massa
de documentação entretanto surgida sobre comerciantes e
investidores, Steven Garfinkle observa:
"O uso do termo «primitivo», portanto, torna-se particularmente
censurável quando aplicado à economia mesopotâmica ... Para
Finley, o antigo Próximo Oriente não era apenas primitivo, era
estranho e, portanto, não fazia parte da «nossa»
história. Ao colocar o antigo Próximo Oriente fora da
experiência ocidental, Finley foi capaz de justificar a sua
exclusão da história antiga; mas apenas se compreendermos o termo
"história antiga" como aplicável exclusivamente
às origens cuidadosamente escrutinadas do «Ocidente»"
(Garfinkle, 2012: 6f).
"Os assiriólogos têm demonstrado o papel dos
empresários buscadores de ganhos monetários, surgindo sobretudo
em conjugação com a economia palaciana, gerindo empresas
realengas e comerciando com outras cidades e regiões. De facto, de que
outra forma poderiam ter tido lugar o comércio e a
privatização?" (Garfinkle, 2004a; 2004b)
A Nova Arqueologia Económica como um derivado da abordagem de Polanyi
A Nova Arqueologia Económica é, em muitos aspetos, um derivado do
grupo de Polanyi na Universidade de Columbia, enfatizando que os mercados foram
quase sempre regulados para evitar desequilíbrios crónicos e
insolvência. Esta escola, porém, vai para além da Polanyi,
ao enfatizar o papel da dívida e também o papel das empresas que
emergiram de uma simbiose entre a economia palaciana da Mesopotâmia e os
comerciantes individuais. A
International Scholars Conference on Ancient Near Eastern Economies
(ISCANEE) procurou preencher as lacunas da história da
civilização através de um levantamento das empresas da
Idade do Bronze, do palácio e do templo, da posse da terra, da
dívida e do desenvolvimento precoce do dinheiro, bem como da
distinção primordial entre o crédito comercial e a usura
agrária.
O nosso grupo começou em 1994 quando trabalhei com Karl
Lamberg-Karlovsky no departamento de Antropologia de Harvard o Museu
Peabody para organizar uma série de colóquios para os
quais convidámos importantes assiriologistas, egiptólogos e
arqueólogos, para encontrar as origens das práticas comerciais e
monetárias da civilização e a forma como as
civilizações primordiais conseguiram evitar que a dívida
pessoal desestabilizasse e polarizasse as economias, como se tornou o caso na
Grécia e em Roma. O nosso grupo produziu cinco volumes de
colóquios sobre posse da terra e urbanização, dinheiro e
juros, a organização do trabalho, comércio e empresas.
Juntos, mostram como as técnicas básicas da empresa comercial
foram criadas nas economias mistas da Idade do Bronze do Próximo Oriente.
A primeira conferência foi realizada em novembro de 1994, na Universidade
de Nova Iorque, sobre 'Privatização no Antigo Próximo
Oriente e no Mundo Clássico' (publicada pelo Museu Peabody de Harvard,
1996). Centrou-se na relação entre as grandes
instituições e o resto da economia, numa época em que a
terra era ocupada por unidades clãnicas e as atividades mercantis eram
dominadas pelo palácio, enquanto os templos atuavam mais como aquilo a
que hoje se chamaria serviços públicos, fornecendo produtos de
artesanato a comerciantes que se dedicavam ao comércio de
importação e exportação.
Este colóquio foi seguido por uma combinação de duas
reuniões, a primeira organizada pela Universidade de Nova Iorque, em
1996, e a segunda pelo Instituto Oriental da Rússia, em São
Petersburgo, sobre 'Urbanização e Propriedade da Terra no Antigo
Próximo Oriente' (Peabody Museum, 1999). Os seus colaboradores apontaram
para o papel da usura em minar a posse da terra baseada no clã.
Historicamente, a dívida tem sido uma alavanca para concentrar a terra
nas mãos de credores hipotecários.
Estes dois volumes lançaram as bases do que pretendíamos ser a
pedra de toque da nossa série, abordando a lógica que levou os
governantes da Idade do Bronze a anular dívidas de usura rurais e
pagamentos em atraso, de modo a preservar a estabilidade económica. O
terceiro colóquio foi realizado em 1998 na Universidade de Columbia:
'Dívida e Renovação Económica no Próximo
Oriente Antigo' (
Debt and Economic Renewal in the Ancient Near East
CDL Press, 2002). Em contraste com a crença modernista
então
difundida que rejeitava as Limpezas de Cadastro ("Clean Slates") como
sendo um ideal utópico do passado, o nosso grupo documentou registos
legais mostrando que estas amnistias reais eram de facto aplicadas na
prática.
A razão era suficientemente clara: As sociedades teriam sucumbido
à servidão e à monopolização da terra
há milénios atrás, se tivessem considerado que
"mercados livres" significavam a santidade da obrigação
de pagamento das dívidas pessoais. Roma foi a primeira grande sociedade
a não cancelar as dívidas agrárias e pessoais. Para a sua
oligarquia, a "santidade da propriedade" significava uma
licença para executar a hipoteca das terras de autossustento e de outras
propriedades dos devedores.
O nosso grupo foi reconhecido como prolongador do trabalho da
geração de Polanyi, e o colóquio incluiu uma visita ao
arquivo dos seus documentos em Columbia. Recebemos respostas tão
positivas que realizámos um quarto colóquio em 2000, no Museu
Britânico, sobre as origens do dinheiro, 'Criando a Ordem
Económica: Manutenção de registos,
padronização e desenvolvimento da contabilidade no antigo
Próximo Oriente' (
Creating Economic Order: Record-Keeping, Standardization and the Development of
Accounting in the Ancient Near East
CDL Press, 2004). O colóquio seguinte foi realizado na Alemanha
em
2005: 'O Trabalho no Mundo Antigo' (
Labor in the Ancient World
ISLET, 2015). Juntos, estes cinco volumes desenharam um novo quadro do
Neolítico e da Idade do Bronze no Próximo Oriente, que alarga os
vislumbres fundamentais de Karl Polanyi.
O papel dos templos e dos palácios nas origens do dinheiro
O dinheiro teve origem nas práticas contabilísticas desenvolvidas
pelas grandes instituições da Mesopotâmia, no terceiro
milénio AC, para denominar transações entre elas e o resto
da economia, desde logo o pagamento de impostos, taxas e a
aquisição de bens e serviços. A prata servia para
denominar as dívidas contraídas pelos comerciantes por
avanços com vista a encomendas de matérias-primas e bens de luxo
(de que o palácio era, normalmente, o principal cliente), enquanto que a
renda da terra, as taxas por serviços e os adiantamentos aos
cultivadores, durante o ano agrícola, eram medidos em grãos de
cereais. A maior parte das trocas ocorreu a crédito, a liquidar no final
da época de colheita, na eira, ou no final de um período
estipulado para a concretização de um ato de comércio. A
aceitação da prata e do grão pelo palácio tornou-os
aceitáveis como meio geral de pagamento por toda a economia.
Polanyi enfatizou a criação legal do dinheiro pelo governo.
Aristóteles observou também, há muito tempo, que o termo
grego para cunhagem,
nomisma,
se baseia na raiz
nomos
(a raiz do nosso termo numismática), que significa lei. O que dava
capacidade de circulação às mercadorias monetizadas era,
acima de tudo, o serem aceites pelo palácio e pelo templo no pagamento
de impostos ou taxas por bens e serviços. Os governos modernos podem
pagar as despesas sociais e fornecer à economia dinheiro para crescer,
desde que cobrem impostos para criar um valor de uso para esse dinheiro.
Impostos, serviço da dívida e criação
pública de dinheiro são ignorados por aqueles que seguem o
economista austríaco Carl Menger e a fábula do dinheiro por ele
elaborada em 1871. Ele descreveu o dinheiro como emergindo entre os
indivíduos que trocam entre si mercadorias e preferem pequenos objetos
portáteis como o seu veículo de troca e, eventualmente,
também de poupança e acumulação de riqueza (Menger,
1871/1892). Subsequentes austríacos denunciaram
Trade and Market in the Early Empires
(1957) como uma ameaça a esta linha individualista e abertamente
antigovernamental de teorização. Fritz Heichelheim chamou a este
esforço académico "amador" e "um livro muito
lamentável", dizendo que não deveria ter sido publicado.
"Os teóricos económicos sistemáticos terão de
rejeitar completamente ou remodelar as ideias sobre história
económica expressas neste livro" (Heichelheim, 1960: 108).
Heichelheim criara anteriormente uma fábula de "empresa
privada" que não reconhecia qualquer papel para templos e
palácios arcaicos. Ele teorizou que o juro teve origem quando os
credores neolíticos "adiantaram" os animais e as sementes de
culturas em troca de uma parte do excedente. A sua suposição
"modernista" de que as taxas de juro iniciais refletiam a
produtividade, as taxas de lucro e o risco, nem sequer é válida
hoje em dia, mas é aplicada retroativamente no tempo como se explicasse
a origem dos juros (Heichelheim, 1958: 54f).
O mito da criação individualística de dinheiro e dos juros
retrata cultivadores e artesãos a trocarem os seus produtos entre si, e
a pedirem juros por empréstimos de gado e de cereais com vista a
produzir um excedente, a partir do qual o devedor pagará juros aos
credores. Diz-se que os credores mais abastados terão manifestado
preferência por peças de metal, como meios de poupança
compactos e não perecíveis. Não se diz é de onde
é que este metal é suposto ter vindo. Durante toda a Antiguidade
foi refinado nos templos, o que garantiu o seu grau de pureza, enquanto o
palácio patrocinava o comércio para obter a prata e o ouro. A
prata importada era o artigo de maior prestígio, com
doações reais aos templos estabelecendo o seu estatuto social e
cerimonial. O palácio fez dela o principal meio para o comércio e
os contratos mercantis, bem como para a gestão de empresas do sector
palaciano.
As permutas entre particulares não podem ser uma
explicação realista. Uma longa tradição de
denúncia de comerciantes e credores por usarem pesos e medidas falsos
vai desde a "literatura da sabedoria" babilónica até
à Bíblia - um peso leve para emprestar ou vender, um peso pesado
para comprar ou receber pagamentos dos devedores. Este registo literário
deixa claro que mesmo o dinheiro-mercadoria nunca poderia ser deixado aos
particulares, porque fazê-lo seria franquear os portões para que
credores e comerciantes agissem de forma tortuosa. Uma autoridade
pública eficaz foi sempre necessária para controlar a fraude e
garantir uma negociação justa nas trocas do mercado. É por
isso que os defraudadores procuram, sempre que possível, desmantelar a
capacidade reguladora do governo, usando a palavra de ordem hipócrita
dos mercados livres.
Quem mais, senão templos e palácios, poderia ter fornecido normas
honestas? A troca monetária não poderia ter sido viável
sem a sua supervisão de pesos e medidas padronizados, atestando a pureza
dos metais monetários, e estabelecendo sanções contra a
fraude. Foi por isso que a prata foi cunhada em templos desde a
Mesopotâmia até Roma. A nossa palavra para "dinheiro"
vem do Templo de Juno Moneta em Roma a "alertadora", cujos
gansos grasnantes alertaram Roma para a ameaça de uma invasão. (A
palavra "moneta" referia-se originalmente a um presságio).
Não é possível explicar as origens e o desenvolvimento
inicial do dinheiro sem reconhecer o papel catalítico dos templos e
palácios no 3º milénio AC. Para além de denominar as
dívidas subsistentes para com a economia palaciana, o dinheiro forneceu
uma base para a contabilidade dos custos dos palácios e dos templos e
para a afetação de recursos. O emprego e a produção
nestas grandes instituições foram numa escala muito superior
à da permuta interpessoal. Como parte da economia redistributiva, os
templos sumérios aprovisionavam a mão-de-obra empregada nas suas
oficinas têxteis e de outros artesanatos, que o palácio exportava
por prata e outras matérias-primas.
Os templos criaram e regulamentaram pesos e medidas para o xéquel e a
mina de prata, e os "alqueires" ku de grão, no seu sistema
sexagesimal (baseado em 60) de alocação calendárica
baseada em meses padronizados de 30 dias, para facilitar a
distribuição de salários. A prata (cunhada com uma pureza
especificada) e os grãos foram designados como o principal meio de
pagamento de impostos, taxas e outras dívidas no tempo da colheita. O
valor de um xéquel de prata foi fixado como igual a um
"quarto" gur de grão, para o pagamento de taxas e impostos ao
palácio ou a outros credores rurais. (É verdade que os cereais
eram comercializados entre cidades a preços que podiam aumentar
acentuadamente em épocas de fracasso das colheitas, como aconteceu no
final do império neo-sumeriano de Ur III).
Como aponta Lamberg-Karlovsky (2009), "No Estado patrimonial há
pouca divisão funcional entre as esferas privada e oficial. Os
escritórios oficiais têm a sua origem na casa do governante".
Nesta relação, o objetivo não é o lucro, mas sim a
continuidade estável. A facilidade de manutenção da
contabilidade e relações de preços estáveis eram
uma lógica que implicava não deixar variar os preços. E a
prata é o luxo cimeiro, sendo isenta de cálculos de oferta e
procura ou de custo de produção.
Além disso, a reciprocidade e a redistribuição são
organizadas segundo linhas tão racionais como uma economia de mercado,
mas a lógica é diferente. Baseia-se no estabelecimento de um
sistema de regularidade e ordem, e não de mercados flexíveis na
formação de preços.
As importações do terceiro milénio na Mesopotâmia
também não afetaram os preços, nem pela
variação na oferta e procura, nem por serem substancialmente mais
ou menos caras. Os preços de mercado ou foram administrados ou, uma vez
fixados, continuaram por inércia com pouca resposta a mudanças na
oferta e na procura, exceto no caso de variações sazonais nos
preços das colheitas ou de respostas a falhas nas colheitas. Além
disso, em vez de depender do comércio para o essencial do seu
quotidiano, como é defendido hoje pelos entusiastas do comércio,
as principais importações da Mesopotâmia (onde os
preços, pesos e medidas e, portanto, a equivalência
monetária é documentada pela primeira vez) incluíam bens
dos produtores como minérios, estanho ou cobre, assim como luxos tais o
ouro, a prata e pedras preciosas. As principais exportações foram
têxteis de prestígio fabricados nas oficinas do templo ou do
palácio (principalmente por viúvas de guerra dependentes e seus
filhos), bem como artigos funcionais como facas e cinzéis. Este
"comércio de luxos (uma percentagem significativa do
comércio de longa distância da Mesopotâmia - como
evidenciado pelos achados arqueológicos) envolveu uma muito pequena
parte da população".
Estas conclusões são consistentes com as conclusões do
colaborador inicial de Polanyi, Leo Oppenheim, que descreveu a economia da
Mesopotâmia como nem primitiva, nem baseada em mercados
"livres" fixadores de preços, mas sim como uma economia mista,
com preços administrados dentro das grandes instituições,
para a sua própria boa contabilidade e para denominar os pagamentos que
lhes eram devidos.
O papel dominante da dívida
Tendo em conta os problemas que a dívida tem causado ao longo dos
tempos, a análise de como as sociedades têm regulado o
crédito e a dívida deveria estar no centro da nossa
compreensão do dinheiro. E tendo em conta que as dívidas
paradigmáticas da Mesopotâmia eram devidas aos palácios,
templos e cobradores da sua burocracia por taxas e impostos, tributo de
povos conquistados e por mercadores que atuavam como consignatários de
encomendas do palácio - a análise do dinheiro primordial deve
logicamente caminhar a par do estudo da dívida e da política
fiscal coetâneas.
Os economistas convencionais tratam o crédito (e implicitamente, os
atrasados bem como os empréstimos) como sendo sempre produtivo e
útil, não como extrativo e socialmente desestabilizador.
Representam a intervenção governamental para anular
dívidas como conduzindo à crise económica, não como
salvando as populações do empobrecimento e da desordem. Esta
abordagem doutrinária ignora o facto de que, na prática, a
"segurança da dívida" significava fazer com que os
antigos devedores em atraso pudessem perder as suas terras e a sua liberdade
pessoal. Isto significava a insegurança dos seus direitos de
propriedade. Essa é que é a verdadeira crise.
Por muito que Ricardo argumentasse que todas as dívidas estrangeiras
poderiam ser pagas por procura recíproca automática, os
teóricos modernos do ciclo económico descrevem o
equilíbrio como sendo o resultado da flexibilidade salarial e de
preços. Para considerar o encerramento generalizado da propriedade dos
devedores como uma política viável, é necessário
pressupor que as economias se auto-ajustam de uma forma estável, justa e
eficiente. A realidade é que a desregulamentação da
dívida e das relações de posse da terra impõe uma
austeridade assolada pelo endividamento.
Representar o crédito e o plano de negócios financeiro como tendo
apenas efeitos económicos positivos produz uma caricatura da
história. Ver a dívida e os seus encargos em juros simplesmente
como um arranjo entre indivíduos não reconhece como o peso da
dívida em toda a economia tende a crescer para além da capacidade
de ser paga. Faz vista grossa à forma como as oligarquias financeiras
agem na ausência de oposição pública. A
ganância por dinheiro é aplaudida, como se assegurar os
créditos dos credores fosse a forma mais racional de organizar uma
economia. A implicação disso é que não haveria
necessidade de ação governamental "de fora" do mercado,
por exemplo, por meio de Limpezas de Cadastro
("Clean Slates")
para reverter os efeitos da usura rural que corroeu a posse tradicional da
terra no período da Velha Babilónia (2000-1600 AC).
Ao longo da história, a dívida tem sido a principal alavanca para
privatizar a terra e reduzir as populações à
servidão. A Mesopotâmia conseguiu atrasar esta dinâmica
polarizadora, subordinando os direitos dos credores ao objetivo de
sobrevivência dinástica. Mas à Grécia e Roma
clássicas faltava a tradição das Limpezas de Cadastro
reais. Esse foi o grande ponto de viragem. Tito Lívio, Plutarco e
Diodoro descreveram como o endividamento retirava direitos e cidadania à
população romana, mas um inquérito moderno, citando uma
lista aparentemente exaustiva de 210 causas às quais a posteridade, numa
ou noutra altura, atribuiu a responsabilidade pelo declínio e queda de
Roma, não inclui sequer o endividamento (Demandt, 1984).
A civilização ocidental como um desencastramento da economia do
seu contexto social
Os registos desaparecem no Egeu depois de 1200 AC. Quando reapareceram, seis
séculos mais tarde, os chefes e senhores da guerra gregos e italianos
tinham adotado a prática da dívida remunerada, trazida pelos
comerciantes sírios e "fenícios" por volta do
século VIII AC. Crucialmente, porém, adotaram-na seletivamente,
sem as Limpezas de Cadastro que libertavam os devedores da servidão e
restabeleciam os direitos à terra que tinham sido perdidos para os
credores de execução hipotecária. As oligarquias gregas e
romanas privatizaram o crédito e libertaram-se a si próprias das
revogações reais.
Os defensores do "mercado livre" retomaram o fio da
civilização ocidental "no meio", apenas depois de o
crédito, a dívida e as relações de propriedade se
terem desencastrado e descontextualizado dos controlos e equilíbrios
("checks and balances")
que sustentaram a descolagem
("takeoff")
do Próximo Oriente. É como se o cancelamento das dívidas
agrárias da Idade do Bronze fosse um beco sem saída (ou mesmo o
"despotismo oriental"). A sua exclusão fomenta a ideia de que,
desde as clássicas Grécia e Roma até à atual onda
de austeridade e desregulamentação pró-credores, a
"santidade da dívida" e a execução
hipotecária são um resultado primordial da seleção
natural darwiniana e da sobrevivência dos mais aptos (nomeadamente, os
mais ricos), não uma convenção que leva à
dissolução social.
O conflito inerente entre governantes que procuram manter os seus
cidadãos livres da servidão por dívidas, por um lado, e
credores que procuram os seus próprios ganhos a expensas do
palácio, tem sido um fio que percorre toda a história da
civilização. A característica distintiva das economias
ocidentais é a privatização do crédito, da terra
natural e das infraestruturas públicas. Este é o verdadeiro
desvio em relação aos milénios anteriores. As sociedades
arcaicas tratavam a terra necessária à subsistência como um
direito básico para os seus cidadãos. Em vez de mercantilizar a
mão-de-obra e a propriedade da terra, para tornar irreversível a
servidão por dívidas e a execução
hipotecária, os governantes da Mesopotâmia proclamaram Limpezas de
Cadastro
("Clean Slates")
para evitar a polarização financeira entre credores e devedores
que mais tarde trouxeram uma Idade das Trevas. Hoje, a dinâmica da
dívida impõe austeridade ao mundo ocidental contemporâneo,
transferindo a propriedade para credores que ganharam suficiente controlo sobre
os governos para bloquear a proteção dos devedores.
A teoria otimista de Polanyi sobre o "duplo movimento" afirma que
quando uma sociedade se torna demasiado exploradora e polarizada, há uma
reação para a ressocializar. Isto é feito através
do restabelecimento da regulação pública do dinheiro, da
troca e da terra, com vista a um crescimento a longo prazo, em vez da procura
de ganhos financeiros imediatos. Ele esperava que o socialismo providenciasse
os serviços básicos como um direito humano, na premissa de que as
pessoas não deveriam ter de perder a sua liberdade e os seus direitos
como o preço a pagar pelas suas necessidades básicas.
O socialismo seria, essencialmente, a tendência inerente a uma
civilização industrial para transcender o mercado autorregulador,
subordinando-o conscientemente a uma sociedade democrática. É a
solução natural para os trabalhadores industriais, que não
vêm razão alguma para que a produção não seja
regulada diretamente e para que os mercados sejam mais do que uma marca
útil, mas subordinada, numa sociedade livre. Do ponto de vista da
comunidade como um todo, o socialismo é apenas a
continuação desse esforço para fazer da sociedade uma
relação distintamente humana entre pessoas.
Na sua opinião, as políticas de "mercado livre"
conduzem a tanta pobreza e tensão que criam uma reação por
uma maior regulação social. Esta é uma versão
política da Terceira Lei do Movimento de Newton: Cada ação
cria uma reação igual e oposta. Era esta a essência das
reformas feitas à Economia Política clássica no
século XIX em direção ao socialismo: "A sociedade
protegia-se contra os perigos inerentes a um sistema de mercado
autorregulado" (Polanyi, 1944: 76). Polanyi esperava que a
devastação provocada pela Segunda Guerra Mundial criasse uma
pressão política para renovar o caminho em que as economias
ocidentais pareciam estar já a avançar, antes do desencadeamento
das hostilidades.
Podemos agora ver que não há quaisquer garantias de que as
sociedades evoluam automaticamente para a frente e para cima. Esse determinismo
centra-se no potencial o que as economias poderiam conseguir, se
utilizassem todo o conhecimento disponível no sentido do melhor
aproveitamento para todos. Senhores da guerra, credores, proprietários e
monopolistas privaram sempre as populações dos frutos do
potencial tecnológico, ao longo da história. Nem Polanyi nem
qualquer outro futurólogo económico da sua época se
debruçou sobre o crescimento exponencial da dívida como a
principal dinâmica polarizadora das economias, servindo como alavanca
para forçar a privatização e reverter as reformas da Era
Progressiva.
O "duplo movimento" de Polanyi pode tomar a forma de uma
reação patrocinada pelos interesses instalados, contra as
reformas, não apenas a favor delas. Apesar do florescimento do
socialismo democrático britânico e europeu após a Segunda
Guerra Mundial, os anos 1980 assistiram a essa reação, na forma
do neoliberalismo, o Thatcherismo e a Reaganeconomia, que desencadearam uma
onda de privatizações e desregulamentação dos
mercados. Os lobistas financeiros de hoje e os seus académicos de
estimação estão a defender a intervenção do
governo não para estabilizar as economias, mas precisamente para impedir
uma reação social como o duplo movimento de Polanyi.
Todas as formas de sociedade têm gerido os mercados. A chave é
quem os gere, sobretudo na esfera das relações de crédito
e do equilíbrio entre a autoridade governamental e a riqueza privada.
Libertar a procura de ganhos monetários da regulação
é economicamente polarizador, como se verificou quando o longo colapso
da Antiguidade na servidão fez descarrilar muitas sociedades, durante
muitos séculos. A contribuição de Polanyi para a
história social foi demonstrar a necessidade de regular as
finanças, a terra e os mercados de trabalho, num contexto social global,
a fim de manter a prosperidade em vez do empobrecimento.
O enfoque de Polanyi nos modos de troca enfatizou que a terra e a sua posse
deveriam ser tratadas como uma instituição social, não
como uma mercadoria. Isso não estava em desacordo com o ponto de vista
de Marx. Cada uma das fases económicas por este consideradas tinha o seu
próprio modo de posse de terra, bem como um papel próprio da
mão-de-obra na produção. A terra para autossustento era a
base para os cidadãos e militares da Antiguidade (até perderem a
sua terra e a sua liberdade por meio da usura). Sob o feudalismo, os
conquistadores apropriavam-se da renda da terra como terratenentes. Sob o
capitalismo industrial, assim o esperava Marx, a terra e a sua renda seriam
socializadas (como o seriam também para Polanyi). Em vez disso, a
propriedade imobiliária, sob o capitalismo financeiro, foi democratizada
a crédito, sendo a maior parte da renda da terra paga aos banqueiros na
forma de juros hipotecários.
Os modos do dinheiro e do crédito também evoluíram da
Antiguidade através do feudalismo até à era moderna.
Refletindo a origem, na Idade do Bronze, do dinheiro de uso geral nos
pagamentos ao palácio (ou, na Antiguidade clássica, às
autoridades civis), os preços e as taxas de juro das dívidas e
dos pagamentos fiscais eram administrados. Esta era uma condição
prévia inicial para a estabilidade. Antes dos mercados de trabalho
assalariado, a usura tornou-se a forma mais precoce de obter trabalho
dependente e a terra dos pequenos proprietários. Contudo, os governantes
da Mesopotâmia proclamaram periodicamente Limpezas de Cadastro, para
evitar a servidão por dívidas e a perda da posse da terra, em
mais do que numa base temporária.
Os imperadores romanos empenharam-se na emissão de moeda
fiduciária, levando à inflação de preços em
resultado da sua incapacidade de tributar as famílias ricas as
únicas capazes de pagar na economia imperial em retração.
Os reis medievais também "menosprezaram" a cunhagem de moeda,
na tentativa de pagar pelas suas guerras. A alternativa foi uma
inovação financeira, a dívida real aos banqueiros e a
detentores estrangeiros de obrigações.
Quando as dívidas de guerra reais não podiam ser pagas, os
credores exigiam direitos minerais, infraestruturas públicas e a
criação de monopólios reais (tais como as empresas
comerciais das Índias Orientais e Ocidentais, dos Países Baixos,
França e Inglaterra). As finanças tornaram-se assim a principal
alavanca para privatizar o domínio público, do mesmo modo que
arrancou os direitos à terra na Antiguidade, tornando o solo
"comercializável" para os ricos e sujeito a
execução hipotecária por credores predatórios
irreversivelmente.
As taxas de juro são "redistributivas", quando fixadas pelo
governo. Assim são também os preços das
obrigações e das ações, no âmbito do
Flexibilização Quantitativa pós-2008, prosseguida pelos
bancos centrais dos E.U.A. e da Europa. O capitalismo do Pentágono
não é um mercado que minimize os custos, como é descrito
nos manuais de concorrência em mercado livre. Funciona com base em
contratos de custos acrescidos
("cost-plus contracts"),
nos quais as empresas militaro-industriais aumentam os seus lucros
através da maximização dos custos de
produção.
Por detrás da atual defesa do "mercado livre" está o
poder que tem a riqueza financeira de se apropriar do papel político,
fiscal e de planeamento central que Polanyi, Marx e outros socialistas
esperavam ver expandido nas mãos de um governo democrático. O que
daí resultou em termos de mercados financeirizados de propriedades e
instrumentos de dívida é o oposto do que os reformadores
esperavam criar há um século atrás. A tomada financeira
("financial takeover")
da política governamental reflete um plano empresarial de despojamento
de ativos e austeridade na economia em geral.
Isto não é o que Marx ou Polanyi esperavam. Se é para onde
as dinâmicas de mercado da civilização ocidental
estão a conduzir, será uma repetição do colapso da
Antiguidade como um colapso no feudalismo.
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[*]
Economista norte-americano, professor de Economia na
Universidade do Missouri, em Kansas City, pesquisador do Levy Economics
Institute do Bard College e Presidente do Institute for the Study of Long-Term
Economic Trends (ISLET). Estudou e meditou extensamente e em profundidade sobre
história e teoria económica, nas suas diversas escolas, incluindo
a fisiocrática, a economia política clássica, marxista,
neoclássica, keynesiana, pós-keynesiana, a teoria
monetária moderna, etc. Dedicou particular atenção ao
problema da dívida, pública e privada. Foi analista financeiro em
Wall Street e conselheiro económico, sobre finanças e direito
fiscal, de governos de todo o mundo, incluindo a Islândia, a
Letónia e a China, para além de muitas organizações
não-governamentais. Já foi considerado
"o melhor economista da atualidade"
. É autor de numerosos livros, entre os quais
The Myth of Aid: The Hidden Agenda of the Development Reports
(1971),
Global Fracture: The New International Economic Order
(1977),
Super-Imperialism: The Origin and Fundamentals of U.S. World Dominance
(2003),
Trade, Development and Foreign Debt A history of theories of polarisation and convergence in the international economy
(2009),
The Bubble and Beyond
(2012),
Killing the Host How Financial Parasites and Debt Destroy the Global Economy
(2015),
J is for Junk Economics: A Guide to Reality in an Age of Deception
(2017) e
and forgive them their debts Lending, Foreclosure and Redemption from Bronze Age Finance to the Jubilee year
(2018), entre muitos outros. Este ensaio foi publicado originalmente em 04/Setembro/2020.
O original encontra-se em
michael-hudson.com/...
e a tradução de Angelo Novo em
www.ocomuneiro.com/nr31_02_MichaelHudson.html
Este ensaio encontra-se em
https://resistir.info/
.
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