A fase cleptocrática no capitalismo financeiro

Michael Hudson [*]

Contagem de votos, cartoon, 1871.

Todas as oligarquias são cleptocracias, no sentido mais amplo de gerirem os governos e os seus sistemas fiscais em prol dos interesses da sua própria classe. Os membros mais ricos da classe financeira, os proprietários de terras e os monopolistas apoiam as campanhas eleitorais de políticos empenhados em representar os seus interesses. A decisão do Supremo Tribunal dos Estados Unidos no caso Citizens United considerou legais todas essas transações do tipo "pagar para jogar". A sua normalização levou a que a expressão "pay to play" fosse acrescentada à língua inglesa.

Mas os políticos que concordam em vender os seus talentos e almas à Classe dos Doadores deveriam beneficiar apenas indiretamente através da farsa das contribuições de campanha, e retribuir aprovando leis e regras fiscais que se aplicam a toda a economia, não a nível individual.

Essa transição marca a evolução do capitalismo financeiro para uma cleptocracia pura e simples. Trump personifica o que a política local nos Estados Unidos tem sido há muito tempo, ilustrado na perfeição pelo Tweed Ring na cidade de Nova Iorque há um século. Concedeu indultos a gangsters acusados de crimes e até tentou restituir-lhes os ganhos ilegais que os procuradores lhes tinham retirado. Isto personaliza a corrupção.

A cleptocracia mais recente tem usado o seu genro como intermediário a fim de receber contribuições de um multimilionário sírio-emiradense para um projeto de luxo à beira-mar no valor de 4 mil milhões de dólares numa ilha albanesa. Esse acordo exigiu que Trump revogasse uma proibição de pagamentos a sírios que data do regime de Assad. Kushner e Ivanka receberam financiamento (incluindo um campo de golfe Donald Trump) como parte de um acordo que libertou 12 mil milhões de dólares, negociado no iate de Nathan Rothschild.

Protesto em Tirana.

A história é contada em https://x.com/aj_geo_analysis/status/2062747219933938038?s=43, "Pay-to-play. Sanctions-go-away". Cercas de arame farpado já impediam a população da ilha de aceder à praia como de costume e ocorreram motins na própria capital da Albânia devido às eleições de hoje (domingo, 7 de junho).

Cleptocratas em guerra

A guerra de Trump no Irão parece ter sido um negócio ainda maior em troca de dinheiro, começando pelos 250 milhões de dólares que ele se gaba de ter recebido de Miriam Adelson para financiar a sua campanha política, em troca da sua promessa de apoiar Israel, nomear Rubio como secretário de Estado e dar apoio geral. O enorme financiamento da AIPAC a candidatos tanto do Partido Republicano como do Partido Democrata para esse apoio é considerado legal.

Mas o que é, no mínimo, uma zona cinzenta é a guerra desconcertantemente destrutiva de Trump, ao lado de Israel, contra o Irão. Muitos críticos têm especulado que esta guerra tem sido tão destrutiva para os interesses nacionais dos EUA que deve haver alguns benefícios pessoais ocultos em jogo. Talvez, dizem eles, Netanyahu tenha ficheiros de Epstein sobre Trump que seriam tão embaraçosos para Trump que ele travou esta guerra a fim de mantê-los em segredo.

Não acho isso provável. Trump gabou-se de que poderia alvejar alguém na Quinta Avenida e sair impune. O seu comportamento abusivo para com as mulheres já é notório, tal como a sua longa relação com Epstein – em termos que se podem facilmente imaginar.

A explicação pode muito bem ser mais simples:   Trump não tem medo do passado, mas está à procura de ganhos no presente e no futuro. O apoio de Israel ao benefício pessoal da sua família, através do seu Conselho de Paz para "desenvolver" Gaza assim que Israel limpar o território de todos os palestinos, oferece mil milhões de dólares em ganhos imobiliários. Esse sempre foi o jogo de Trump, à medida que acumulava riqueza ao trapacear empreiteiros, financiadores e trabalhadores nos seus projetos.

07/Junho/2026

[*] Economista.

O original encontra-se em sovereignista.com/2026/06/07/michael-hudson-the-kleptocracy-stage-of-finance-capitalism/

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09/Jun/26

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