Repartição do rendimento nacional e desperdício de recursos

Jorge Figueiredo

Pirâmide da riqueza global 2025.

Há uma relação direta entre a repartição do rendimento nacional e o desperdício de recursos de uma nação. Quanto mais concentrado for o rendimento de um país, maior será a tentação dos seus governos de empreenderem obras de inúteis para a esmagadora maioria da sua população ou para o desenvolvimento económico. O desprezo para com o povo é uma característica das (quantitativamente diminutas) classes dominantes.

Nos países subdesenvolvidos estas muitas vezes são constituídas por rentistas, por burguesias compradoras ou por burguesias estatais. Não é preciso dizer que os regimes em que estas classes prosperam frequentemente assumem características despóticas. A estrutura social polarizada de tais países não é inteiramente refletida por indicadores estatísticos tal como o coeficiente de Gini. Como é difícil obter o ideal de uma distribuição do rendimento por decis a nível mundial (o qual tipicamente apresenta um gráfico com uma base enorme nos decis inferiores e quase uma “agulha” nos superiores), o estudo do UBS constitui uma boa aproximação da desigualdade mundial.

A polarização do rendimento e da riqueza não é um fenómeno novo, ele é histórico. A consequência é que ao longo dos séculos sempre houve uma enormidade de projetos absurdos por toda a parte do mundo. No entanto, o fenómeno parece intensificar-se atualmente. Em tempos pretéritos a burguesia era empreendedora e um fator de progresso pois desenvolvia os meios de produção. Mas hoje, nestes tempos ditos neoliberais e com regimes financiarizados e globalizados, a burguesia assume características cada vez mais rentísticas, parasitárias, pouco aportando para o desenvolvimento nacional. Talvez isso explique, do ponto de vista subjetivo, a necessidade que ela sente de apresentar projetos ostentatórios que não contribuem para o bem-estar dos seus povos mas satisfazem os seus egos.

Alguns exemplos históricos talvez explicitem melhor o que se quer dizer e a continuidade do fenómeno ao longo dos séculos. Todos eles têm em comum o facto de terem sido permitidos por uma repartição do rendimento nacional iníqua. Todos eles mostram um desperdício assombroso de recursos, os quais poderiam ter sido melhor aplicados em obras úteis para o desenvolvimento e para o bem-estar dos povos.

Pirâmides do Egito: milhões de fellahs paupérrimos, gerações deles, desperdiçaram as suas vidas a construir aqueles monumentos funerários. Nem sequer os faraós os desfrutavam pois já iam mortos para as pirâmides.

Palácio(s) de Versalhes: é impossível saber os custos de investimento na construção, no século XVII. Mas há estimativas de que os custos da sua simples manutenção consumiriam 25% do rendimento nacional daquela época. Para sustentar aquela sangria orçamental o Estado francês extorquia o seu povo através de uma fiscalidade feroz.

Convento de Mafra: quantidades ingentes de ouro proveniente das Minas Gerais consumiram-se no século XVIII para construir daquele edifício com 1200 divisões. Uma obra-prima de reis novo-ricos.

Rodovia Transamazônica: Recursos enormes foram gastos pelo regime militar-empresarial do Brasil, na década de 1970, para construir esta estrada sem serventia a ligar o nada com o nada e com graves prejuízos para a biosfera amazónica.

Burj Khalifa, nos Emirados Árabes Unidos: Aqui, o parasitismo dos rentistas do petróleo manifestou-se numa ambição digna do Livro Guiness das Apostas:   ter o edifício mais alto do mundo. Foi construído por empresas estrangeiras e com mão-de-obra estrangeira, oferecendo escassa serventia para os autóctones.

Palm Jumeirah, no Dubai: Construir um arquipélago artificial no Golfo Pérsico e vender as ilhas construídas parecia, à partida, um projeto ruinoso. Mas o artificialismo da economia do Dubai, com uma capital que mais parece um centro comercial kitsch, é uma constante. A guerra atual no Médio Oriente anulou tais aplicações do dinheiro fácil proveniente da renda do petróleo.

The Line, na Arábia Saudita: Trata-se do projeto de construir uma cidade com 170 km de comprimento e 200 metros de largura no meio do deserto saudita. Sim, o projeto é megalómano. Mas é duvidoso que beneficie aqueles sauditas que o irão habitar, pois a sua sustentabilidade e viabilidade económica são altamente discutíveis. Mais provavelmente a cidade será arrendada a data centers que nada contribuem para a economia saudita (nem a de nenhum país).

Nova capital do Egito: Os seus governantes estão a construir uma nova capital no meio do deserto, uma cidade administrativa longe do Cairo. Parece uma forma de se livrarem das pressões populares numa capital fervilhante (as manifestações da Praça Tahrir ainda estão na memória). Não os incomoda que 40% da população egípcia ganhe menos de dois dólares por dia. A política de aplicação de recursos públicos dos faraós parece ter inspirado os atuais governantes do Egito.

Colonização do planeta Marte: Projeto acarinhado pelo Sr. Elon Musk. Apesar de já ser trilionário ele quer extorquir ainda mais recursos do Estado trumpiano para essa aventura. Nas vigarices cai quem quer.

Rearmamento da União Europeia: O projeto avança a todo o vapor. O belicismo da UE intensifica-se, às custas dos povos da Europa ocidental. Já foi constituído um banco, o DSRB, para financiar este programa de rearmamento. Os seus recursos serão, é claro, provenientes sobretudo dos orçamentos dos Estados membros da UE. Eventualmente eles terão de endividar-se (ainda mais) a fim de atender aos seus compromissos junto ao DSRB. Isso transcende em muito o programa ReArm Europe de 800 mil milhões de euros. Governantes europeus anunciam publicamente que até 2030 iniciarão uma guerra com a Rússia (supõe-se, naturalmente, que os russos fiquem tranquilamente à espera e sem fazer nada). Na Alemanha, a Volkswagen está a ser reconvertida para a fabricação de veículos militares. E nas bolsas de valores as cotações da Rheinmetall disparam em flecha. Pode-se afirmar que esta corrida armamentista, conduzida por psicopatas mentecaptos, é a campeã dos projetos absurdos.

Túnel sob o Estreito de Bering: O projeto foi acenado durante a reunião entre Trump e Putin, no Alasca. Como o famoso “espírito de Anchorage” – em que Putin fingiu/finge acreditar – está moribundo, é provável que tal obra nunca venha a prosperar. Melhor: assim sobrarão mais recursos para a Rússia se defender dos psicopatas da UE/NATO.

O polvo da Rheinmetall.

14/Julho/2026

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15/Jul/26

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