A Lei de Gresham diz que “a moeda má expulsa a boa da circulação”. Trata-se de uma constatação baseada em evidências empíricas, detectada por um financista britânico no século XVI, Sir Thomas Gresham. Desde então ela tem-se confirmado ao longos dos séculos. Foi assim na época do bimetalismo (preferência pela circulação da prata/entesouramento do ouro); o mesmo ocorreu nas épocas em que as moedas fortes eram entesouradas e as mais fracas empurradas para a circulação; assim como naquelas em que as moedas lastreadas eram mantidas e as fiduciárias lançadas à circulação, etc.
Esta lei tem um forte poder descritivo daquilo que se passa no mundo real. Mas poderíamos estendê-la para além dos fenómenos da circulação monetária. Atrevo-me a sugerir que a Lei de Gresham poderia ampliar-se também ao discurso político que circula no espaço mediático. Numa nova formulação poder-se-ia dizer que o mau discurso político expulsa o bom da circulação pública.
É assim que a palração, a demagogia, as questões triviais, irrelevantes e acessórias expulsam do espaço mediático intervenções com ideias, propostas e projetos de sociedade. Nos casos mais graves o mau discurso chega à desinformação, à omissão, ao confusionismo ou à mentira pura e simples – ocupando o lugar do discurso sério daqueles que têm ideias estudadas e algo a dizer acerca das questões em causa.
O fenómeno não é apenas português e nem apenas de hoje. Os arremedos de discussão – destinados não a esclarecer mas sim a ocultar da opinião pública aquilo que é realmente é importante – têm raízes fundas. A literatura apresenta-nos exemplos ricos e variados. Machado de Assis por exemplo publicou em 1882 o conto A sereníssima república, onde parodia discursos numa república de aranhas. Nela degladiavam-se políticos a favor das teias retas, outros das teias curvas e outros ainda das teias retas e curvas.
O telelixo português também é uma fonte inesgotável de exemplos. Nele, este corolário da Lei de Gresham atinge a perfeição: o mau discurso político consegue o prodígio de eclipsar completamente qualquer discurso sério. Basta ver os atuais pseudo-debates da campanha para as eleições presidenciais de 18/Janeiro, em que tanto os candidatos como os comentaristas de serviço chafurdam nesse pântano.
É fácil para as TVs atingirem tal perfeição. Começa pela escolha dos formatos, que impossibilitam intervenções sérias e argumentadas. Continua pelos tempos (escassos) atribuídos aos debates. Prossegue com a unanimidade ideológica dos próprios debatedores: dos 11 candidatos formalizados 10 estão perfeitamente integrados ao sistema (inclusive o sr. Ventura) e dele participam alegremente.
Idealmente é claro que sempre se pode exigir mais dos candidatos e estabelecer uma grelha de critérios apertados. É o que faz, por exemplo, o sociólogo José Catarino Soares quando diz: “Só estou disposto a votar num candidato presidencial que defenda: a saída de Portugal da OTAN; o fim de qualquer ajuda militar à Ucrânia (…); o repúdio e o fim da russofobia sob todas as suas formas (…); o corte de relações com Israel (…); a necessidade de rever os números 5, 6 e 7 do artigo 7º da Constituição aditados pela AR” (sic). Critérios excelentes, mas que têm a desvantagem de não sobrar nenhum candidato que os atenda.
O purismo é um obstáculo a qualquer intervenção prática na vida política real. Combater o purismo pode em certos casos significar uma abdicação de princípios, mas não necessariamente. Para a intervenção no terreno (desfavorável) e na conjuntura (também desfavorável) em que as forças progressistas são obrigadas a combater o critério purista é realmente mau. A atitude olímpica deixa os seus defensores tranquilos com a sua consciência, mas não conduz à acumulação de forças e nem ao esclarecimento popular.
O mundo vive uma transição histórica, o fim de uma era. Temos uma União Europeia em desagregação, dirigida por gente corrupta e cada vez mais anti-democrática – as medidas censóreas e repressivas multiplicam-se. O centro do império está igualmente em desagregação, com políticas económicas absurdas e ações belicosas dementes. O direito internacional público já se tornou uma ficção. A enxurrada de desinformação despejada pelos media corporativos faz o seu trabalho permanente de lavagem cerebral. Tudo isto tem consequências.
Vivemos uma transição de fase. É neste panorama geral em que flutua a pequena nau portuguesa. Mas os seus marinheiros não podem ser puristas, têm de resistir e atuar em meio a tempestade o melhor que puderem. Por mim, voto no António Filipe dia 18 de Janeiro.
Feliz 2026 para todos.