Outra falsificação

por John Pilger

Homenagem ao 'Mirror' na manifestação de 15 de Fevereiro de 2003, a mais grandiosa de toda a história britânica. Os accionistas pretendiam a saída do editor do Mirror muito antes de este publicar as fotos alegadamente falsas. Será que alguém se importou com o facto de a BBC e outros jornais terem caído nas farsas dos governantes dos EUA e do Reino Unido?

Piers Morgan foi despedido do cargo de editor do Daily Mirror porque dirigia o único jornal popular da Grã-Bretanha que apresentou a "guerra ao terror" como uma fraude e a invasão do Iraque como um crime. Ele fora marcado muito antes de o Mirror ter publicado aquelas fotos aparentemente falsificadas de tropas britânicas a torturarem prisioneiros iraquianos.

Em 4 de Julho de 2002, dia da independência americana, o Mirror publicou uma reportagem minha, apresentada na primeira página sob a manchete "De luto no 4 de Julho" que mostrava Bush ladeado pela bandeira americana. Acima dele constavam as palavras: "A política de bombardear primeiro e perguntar depois de George W. Bush matou o dobro do número de civis que morreram no 11 de Setembro. Os EUA são agora o principal Estado canalha do mundo".

Isto era o Mirror na sua maior pujança; uma vez que se distinguira a si próprio como o primeiro jornal de circulação em massa do mundo ocidental a se opor à invasão americana do Vietnam e, antes disso, à invasão britânica de Suez. Até então ninguém enfrentara as políticas opressoras do governo britânico e do seu principal aliado. A maior parte dos media eram então consumidos e manipulados pela falsa questão das não existentes armas de destruição em massa do Iraque: "a 45 minutos do ataque", dizia a primeira página do London Evening Standard ; "Ele tem-nas ... Vamos apanhá-lo", dizia o Sun .

Em contraposição, o Mirror relatava que Bush e Blair mentiam, que a "libertação" do Afeganistão instalara senhores da guerra tão bárbaros como os Taliban, que as forças americanas haviam matado quase o dobro do número de civis mortos nas Torres Gémeas em 11 de Setembro de 2001, e que a iminente invasão do Iraque fora planeada há muito. Certamente não era o primeiro a dizê-lo, mas permitia a leitores populares que compreendessem os acontecimentos.

No dia seguinte à publicação da peça "luto no 4 de Julho", um executivo superior da companhia de investimento de Nova York Tweedy Browne, um dos principais accionistas do grupo jornalístico Trinity Mirror, telefonou ao Mirror e fez um discurso aos berros para a sua administração, exigindo a cabeça de Morgan e a minha. Esta pressão continuou pois a imprensa de Murdoch nos Estados Unidos e de outros jornais lunáticos de extrema-direita e ainda emissoras de rádio/TV gritaram contra o Mirror "traidor". Quando, em 1 de Maio último, o Mirror publicou as suas fotografias da "tortura", a Tweedy Browne mais uma vez liderou a acusação dos poderosos accionistas, nomeadamente a Fidelity Asset Management, a maior companhia mutual dos EUA, dirigida pelo bilionário Edward C Johnson III, um doador de dinheiro para a campanha de reeleição de Bush. "Teremos de olhar muito cuidadosamente", disse um executivo do Deutsche Asset Management, outro accionista, "para o que faz o Trinity Mirror a seguir a fim de proteger o valor da marca Mirror". Será que a influência corporativa sobre a imprensa, e ao seu direito de estar errada, foi alguma vez expressa de forma tão eloquente?

Morgan sobreviveu apenas um ano quando uma nova administração do Trinity Mirror, sob a chefia executiva de Sly Bailey, ordenou-lhe "abaixar o tom" da cobertura anti-guerra e devolver o jornal às celebridades e mordomos serviçais (que nunca dele saíram). Nos meses seguintes, o Mirror , assim como o outro diário anti-guerra na Grã-Bretanha, o Independent , foi vingado. Hoje, Bush e Blair são universalmente considerados suspeitos e execrados, e a derrota do seu atroz empreendimento parece assegurada.

Ao trazer estas verdades ao grande público, o Mirror afastou-se do bando como nenhum jornal popular o fizera, e o papel que desempenhou não pode ser enterrado na lama da Fleet Street. Durante dois anos o Mirror representou a maioria do povo britânico, cujo entendimento crítico da charada da pré-invasão de Blair esteve sempre à frente dos jornalistas. O Mirror fez aquilo que um jornal deve fazer: manteve o registo correcto. Ao invés de canalizar e amplificar as mentiras oficiais, o Mirror mais frequentemente desafiou-as e desmascarou-as junto a um público leitor que muitas vezes é rejeitado ou tutelado por aqueles que afirmam saber "o que o público realmente quer".

Depois da saída de Morgan, nenhum jornal exigiu que o ministro da Defesa produzisse a "prova incontroversa" de que as fotografias do Mirror eram falsificadas. Alguns rumores e as justificativas de um regimento com um registo documentado de brutalidade no Iraque, a enfrentar pelo menos cinco processos por assassínio, foram aceites. Se o Mirror foi crucificado, seria apenas por dinheiro? Ao invés de insistir nisto, como mostram os editores do sítio web MediaLens, "uma media acovardada conluiou-se a fim de amontoar insultos sobre o editor despedido e declarar a decisão como 'correcta', 'necessária' e 'inevitável' ".

A BBC, tendo-se livrado de um repórter, Andrew Gilligan, que tramou Blair, e tendo brincado devidamente perante o branqueamento do inquérito Hutton, permitiu a Andrew Neil que dominasse as suas notícias do despedimento de Morgan com um ataque ao "muito tendencioso e enviesado jornalismo" do Mirror — e isto a partir de uma caricatura que meneava a sua taça de champanhe para os 5000 homens despedidos pelo seu mestre, Murdoch, cuja obscena campanha de difamação no Sunday Times incluiu o ataque ao programa de actualidades Death on the Rock, o qual levantou um véu do Estado secreto britânico e do seu terrorismo.

A conivência dos media respeitáveis no crime épico do Iraque raramente é discutida. Recentemente houve excepções honrosas. David Rose, que escreveu grandes artigos de investigação para o Observer que ligavam Saddam Hussein à al-Qaeda e a ataques de antrax nos EUA — afirmações há muito desacreditadas — afirmou no Evening Standard que olhava "para trás com vergonha e descrença" pelo seu apoio à invasão. Nos Estados Unidos, um certo número de jornalistas têm escrito lamentosamente acerca do modo indiferente como a imprensa mais livre do mundo permitiu ao regime Bush escapar impune às suas mentiras. Charles Lewis, a antigo repórter-estrêla da CBS e agora director do Centre for Public Integrity, disse-me que se tivessem os media "cumprido o seu papel constitucional único e enfrentado as mentiras da administração, tal como aquelas ligando o Iraque à al-Qaeda, há muita, muita possibilidade de que não tivéssemos ido à guerra".

Com a excepção do Mirror , do Independent e intermitentemente do Guardian , o mesmo se pode dizer dos media britânicos. A televisão britânica raramente mostrou o pleno horror do "choque e pavor" que o mundo árabe viu através das suas cadeias por satélite. Os videotape e fotografias foram saneados. Phillip Knightley chama a atenção para o facto de que havia um "acordo não escrito de que nada demasiado horrendo fosse apresentado no écran ou nas primeiras páginas. Tirar a fotografia de um avô iraquiano a chorar com a sua pequena neta nos braços, seriamente ferida num ataque de bombas da Coligação em Bassorá... Não pode recordar isto? Não estou surpreendido..." Esta foto, como muitas outras a mostrar o sofrimento de civis, foi divulgada na sua totalidade pela imprensa árabe, mas foi cortada na Grã-Bretanha e nos EUA de modo a não ser visível o que era deixado dos pés horrivelmente mutilados da criança. A desculpa foi que isto não seria "de bom gosto".

A campanha contra a BBC feita pelo mestre da manipulação de Blair, pela imprensa de Murdoch, pelo Telegraph de Conrad Black e finalmente por Hutton, foi da qualidade de Goebbells: um diversionismo deliberado e perverso ao extremo. Nenhum seguidor da agenda de guerra do governo foi mais dedicado do que a BBC. Um vasto inquérito à cobertura do Iraque da Media Tenor pelos principais emissores mundiais descobriu que a BBC havia coberto apenas 2 por cento das manifestações anti-guerra — ainda menos do que os emissores americanos. Um estudo da Cardiff University não descobriu qualquer evidência de que a BBC fosse alguma coisa senão pró-guerra. Historicamente, a BBC sempre apoiou as guerras do establishment ao declarar o status quo (guerreiro) como neutro e os dissidentes como "enviesados". A propaganda tornada respeitável domina a própria linguagem e o tom das notícias.

Assim, o Panorama da BBC1 de 23 de Setembro de 2002 afirmou ter "prova concreta" acerca das armas de destruição em massa do Iraque, tendo aceite como verdadeira uma estória falsa sobre um laboratório secreto de armas biológicas sob um grande hospital em Bagdad. Tal como a maior parte dos media, a BBC cooperou com a maior de todas as vigarices: a apresentação de Colin Powell no Conselho de Segurança das Nações Unidas em Fevereiro do ano passado como uma justificação final para a invasão. Esta era composta de desenhos semelhantes a banda desenhada, tal como o "Slide 21", do qual Powell disse: "Aqui vêem fábricas móveis montadas tanto sobre camiões como vagões ferroviários". Powell chamou a isto "diagramising" . Das imagens de satélite que apresentou, afirmou; "As fotos que estou prestes a mostrar são por vezes difíceis de interpretar para pessoa média, difíceis para mim. O meticuloso trabalho de análise da foto exige peritos com anos e anos de experiência, a examinar horas e horas sobre mesas luminosas". Isto era a "evidência irrefutável" de "65 instalações que abrigaram armas químicas".

Era tudo falso, como o profundamente cínico Powell deu a entender posteriormente. O próprio Bush desde então gracejou acerca da falta de evidência de armas. Paul Wolfowitz revelou que a "estória" das ADM foi "acordada" por ser a única que o público engoliria; Donald Rumsfeld admitiu que não havia ligação entre o Iraque e a al-Qaeda. Graças à sua propaganda, mostrada sem contestação na maior parte dos media, milhões de americanos ainda acreditam nisto. No Iraque, os soldados falam sobre matar e maltratar iraquianos como sendo a "devolução do 11 de Setembro".

Na Grã-Bretanha, proteger a reputação do exército britânico do actual contágio de revelações é uma tarefa prioritária. Ironicamente, Piers Morgan, que tem um irmão no exército, sempre foi relutante em publicar qualquer coisa que sugerisse que "os nossos rapazes" eram como os seus enlouquecidos aliados. Quanto o Mirror publicou as fotografias da "tortura" em 1 de Maio, o jornal enfatizou que os transgressores eram soldados "canalhas". Foi errado.

Falsas ou não, o que as fotografias do Mirror revelaram foi um rastro de abusos e coisas piores que perpassava através de todo o exército britânico no Iraque. Muitas das provas disto foram coleccionadas por um incansável solicitador de Birmingham, Phil Shiner, a actuar para 13 famílias iraquianas, e pelo Independent on Sunday (IoS) , cujas excelentes investigações quase salvaram a honra do jornalismo britânico. O IoS revela que há agora aproximadamente 40 casos de assassínios alegadamente ilegais de civis iraquianos e de prisioneiros pelas forças britânicas desde a invasão. Quando comparadas com as 37 mortes suspeitas de prisioneiros efectuadas pelos americanos no Iraque e no Afeganistão, a escala potencial do crime britânico torna-se evidente, embora seja claro que estes números representam apenas a superfície. A prova de que soldados do Queen's Lancashire Regiment executaram tortura sistemática sob a direcção de um oficial deve ir ao supremo tribunal. "Em alguns casos oficiais realmente tomaram parte", afirma a Amnistia Internacional. Apesar disso, em 14 de Maio um coronel deste regimento atreveu-se a sugerir que o "ego" de Morgan era o preço da "vida do soldados" — uma linha quase certamente virada para ele.

Os jornalistas estão bem conscientes daquilo que a Amnistia chama de abuso sistemático. Um ano atrás o Sun publicou "cópias de artista" de fotografias tiradas pelos soldados do Royal Regiment of Fusiliers mostrando-os a pendurarem prisioneiros de guerra iraquianos de uma empilhadeira e forçando-os a simular actos sexuais. Vários dos soldados foram processados.

Um locutor da BBC referiu-se a tais fotografias como "simples lembranças". Imagine a resposta se elas tivessem sido de iraquianos a torturarem prisioneiros de guerra britânicos. No dia em que Morgan foi despedido, um repórter da BBC, Nicholas Witchell, afirmou: "Após a aterradora realidade daquilo que os americanos têm estado a fazer, as fotos do Mirror ameaçavam comprometer o trabalho de todo o soldado britânico". Ao contrastar a "realidade" do abuso americano com a irrealidade "das fotos do Mirror ", Witchell tratou de branquear o exército britânico enquanto choramingava que o seu bom "trabalho" no Iraque pode ser "comprometido". Será que os estagiários da BBC aprendem argúcias como esta?

O exército britânico não está a fazer pior no Iraque do que fez na sua longa história de ocupações coloniais. A tortura foi desenvolvida como uma estratégia na Palestina (onde os britânicos foram os pioneiros na táctica de terror de demolições de lares), em Chipre, no Cameroon britânico, no Brunei, na Guiana Britânica, em Aden, no Borneo e na Irlanda do Norte. Na Malásia, a conversão de aldeias inteiras em campos de concentração e a utilização de desfolhantes carcinogénicos foram copiados pelos americanos no Vietnam. Na Irlanda do Norte, os interrogadores britânicos refinaram os seus métodos, relata a Amnistia, "para o objectivo ou o efeito de provocar uma avaria ou um colapso dos processos mental de um homem".

Pouco disto foi relatado na época. Hoje, graças a um par de jornais "canalhas", à câmara digital e à Internet, o público está a obter a verdade, dia a dia, imagem a imagem, facto a facto. Michael Berg, cujo filho Nick foi decapitado no Iraque e que culpa Bush e Rumsfeld, pergunta: "Como pode você assumir a responsabilidade quando não há consequências?" Como eles manipulam as Nações Unidas para estabelecer um regime fantoche em Bagdad, os americanos e os britânicos estão a conceder imunidade a processos para as suas próprias tropas. Depois de tudo, diz o comentador da BBC, os pecados dos soldados "não se comparam com as torturas e execuções sistemáticas de Saddam Hussein" Assim, será a tirania de Saddam Hussein é agora a bússola moral do ocidente?

Será que os jornalistas permitirão a Blair escapar impune com mais uma charada? Ou será que perguntarão porque o Artigo 7º do estatuto do Tribunal Penal Internacional, do qual a Grã-Bretanha é signatária, não está a ser invocado? Isto torna claro que o comportamento britânico e americano no Iraque é categorizado sob "crimes contra a humanidade", para o quais a responsabilidade final situa-se, como sempre, no topo.

O original encontra-se em New Statesman de 31/Maio/2004.
Tradução de JF


Este artigo encontra-se em http://resistir.info .

11/Jun/04