Outra falsificação
por John Pilger
Os accionistas pretendiam a saída do editor do
Mirror
muito antes de este publicar as fotos alegadamente falsas. Será que
alguém se importou com o facto de a BBC e outros jornais terem caído nas
farsas dos governantes
dos EUA e do Reino Unido?
Piers Morgan foi despedido do cargo de editor do
Daily Mirror
porque dirigia o único jornal popular da Grã-Bretanha que
apresentou a "guerra ao terror" como uma fraude e a invasão
do Iraque como um crime. Ele fora marcado muito antes de o
Mirror
ter
publicado aquelas fotos aparentemente falsificadas de tropas britânicas a
torturarem prisioneiros iraquianos.
Em 4 de Julho de 2002, dia da independência americana, o
Mirror
publicou uma reportagem minha, apresentada na primeira página sob a
manchete "De luto no 4 de Julho" que mostrava Bush ladeado pela
bandeira americana. Acima dele constavam as palavras: "A política
de bombardear primeiro e perguntar depois de George W. Bush matou o dobro do
número de civis que morreram no 11 de Setembro. Os EUA são agora
o principal Estado canalha do mundo".
Isto era o
Mirror
na sua maior pujança; uma vez que se distinguira a si próprio
como o primeiro jornal de circulação em massa do mundo ocidental
a se opor à invasão americana do Vietnam e, antes disso, à
invasão britânica de Suez. Até então ninguém enfrentara as
políticas opressoras do governo britânico e do seu principal
aliado. A maior parte dos media eram então consumidos e manipulados
pela falsa questão das não existentes armas de
destruição em massa do Iraque: "a 45 minutos do
ataque", dizia a primeira página do
London Evening Standard
; "Ele tem-nas ... Vamos apanhá-lo", dizia o
Sun
.
Em contraposição, o
Mirror
relatava que Bush e Blair mentiam, que a
"libertação" do Afeganistão instalara senhores
da guerra tão bárbaros como os Taliban, que as forças
americanas haviam matado quase o dobro do número de civis mortos nas
Torres Gémeas em 11 de Setembro de 2001, e que a iminente invasão
do Iraque fora planeada há muito. Certamente não era o
primeiro a dizê-lo, mas permitia a leitores populares que compreendessem
os
acontecimentos.
No dia seguinte à publicação da peça "luto no
4 de Julho", um executivo superior da companhia de investimento de Nova
York Tweedy Browne, um dos principais accionistas do grupo jornalístico
Trinity
Mirror, telefonou ao
Mirror
e fez um discurso aos berros para a sua administração,
exigindo a cabeça de Morgan e a minha. Esta pressão continuou
pois
a imprensa de Murdoch nos Estados Unidos e de outros jornais lunáticos
de extrema-direita e ainda emissoras de rádio/TV gritaram contra o
Mirror
"traidor". Quando, em 1 de Maio último, o
Mirror
publicou as suas fotografias da "tortura", a Tweedy Browne mais uma
vez
liderou a acusação dos poderosos accionistas, nomeadamente a
Fidelity Asset Management, a maior companhia mutual dos EUA, dirigida pelo
bilionário Edward C Johnson III, um doador de dinheiro para a campanha
de reeleição de Bush. "Teremos de olhar muito
cuidadosamente", disse um executivo do Deutsche Asset Management, outro
accionista, "para o que faz o Trinity Mirror a seguir a fim de proteger o
valor da marca
Mirror".
Será que a influência corporativa sobre a imprensa, e ao
seu direito de estar errada, foi alguma vez expressa de forma tão eloquente?
Morgan sobreviveu apenas um ano quando uma nova administração do
Trinity Mirror, sob a chefia executiva de Sly Bailey, ordenou-lhe "abaixar
o tom" da cobertura anti-guerra e devolver o jornal às celebridades
e mordomos serviçais (que nunca dele saíram). Nos meses seguintes,
o
Mirror
, assim como o outro diário anti-guerra na Grã-Bretanha, o
Independent
, foi vingado. Hoje, Bush e Blair são universalmente considerados
suspeitos e execrados, e a derrota do seu atroz empreendimento parece
assegurada.
Ao trazer estas verdades ao grande público, o
Mirror
afastou-se do bando como nenhum jornal popular o fizera, e o papel que
desempenhou não pode ser enterrado na lama da Fleet Street. Durante
dois anos o
Mirror
representou a maioria do povo britânico, cujo entendimento
crítico da charada da pré-invasão de Blair esteve sempre
à frente dos jornalistas. O
Mirror
fez aquilo que um jornal deve fazer: manteve o registo correcto. Ao
invés de canalizar e amplificar as mentiras oficiais, o
Mirror
mais frequentemente desafiou-as e desmascarou-as junto a um público
leitor que muitas vezes é rejeitado ou tutelado por aqueles que afirmam
saber "o que o público realmente quer".
Depois da saída de Morgan, nenhum jornal exigiu que o ministro da
Defesa produzisse a "prova incontroversa" de que as fotografias do
Mirror
eram falsificadas. Alguns rumores e as justificativas de um regimento com um
registo
documentado de brutalidade no Iraque, a enfrentar pelo menos cinco processos
por assassínio, foram aceites. Se o
Mirror
foi crucificado, seria apenas por dinheiro? Ao invés de insistir
nisto, como mostram os editores do sítio web MediaLens, "uma media
acovardada conluiou-se a fim de amontoar insultos sobre o editor
despedido e declarar a decisão como 'correcta', 'necessária' e
'inevitável' ".
A BBC, tendo-se livrado de um repórter, Andrew Gilligan, que tramou
Blair, e tendo brincado devidamente perante o branqueamento do inquérito
Hutton, permitiu a Andrew Neil que dominasse as suas notícias do
despedimento de Morgan com um ataque ao "muito tendencioso e enviesado
jornalismo" do Mirror e isto a partir de uma caricatura que meneava
a sua taça de champanhe para os 5000 homens despedidos pelo seu mestre,
Murdoch, cuja obscena campanha de difamação no
Sunday Times
incluiu o ataque ao programa de actualidades Death on
the Rock, o qual levantou um véu do Estado secreto britânico e do
seu terrorismo.
A conivência dos media respeitáveis no crime épico do
Iraque raramente é discutida. Recentemente houve
excepções honrosas. David Rose, que escreveu grandes artigos de
investigação para o
Observer
que ligavam Saddam Hussein à al-Qaeda e a ataques de antrax nos EUA
afirmações há muito desacreditadas afirmou
no
Evening Standard
que olhava "para trás com vergonha e descrença" pelo
seu apoio à invasão. Nos Estados Unidos, um certo número
de jornalistas têm escrito lamentosamente acerca do modo indiferente como
a imprensa mais livre do mundo permitiu ao regime Bush escapar impune às
suas mentiras. Charles Lewis, a antigo repórter-estrêla da CBS e
agora director do Centre for Public Integrity, disse-me que se tivessem os
media "cumprido o seu papel constitucional único e enfrentado as
mentiras da administração, tal como aquelas ligando o Iraque
à al-Qaeda, há muita, muita possibilidade de que não
tivéssemos ido à guerra".
Com a excepção do
Mirror
, do
Independent
e intermitentemente do
Guardian
, o mesmo se pode dizer dos media britânicos. A televisão
britânica raramente mostrou o pleno horror do "choque e pavor"
que o mundo árabe viu através das suas cadeias por
satélite. Os videotape e fotografias foram saneados. Phillip Knightley
chama a atenção para o facto de que havia um "acordo
não escrito de que nada demasiado horrendo fosse apresentado no
écran ou nas primeiras páginas. Tirar a fotografia de um
avô iraquiano a chorar com a sua pequena neta nos braços,
seriamente ferida num ataque de bombas da Coligação em
Bassorá... Não pode recordar isto? Não estou
surpreendido..." Esta foto, como muitas outras a mostrar o sofrimento de
civis, foi divulgada na sua totalidade pela imprensa árabe, mas foi
cortada na Grã-Bretanha e nos EUA de modo a não ser
visível o que era deixado dos
pés horrivelmente mutilados da criança. A
desculpa foi que isto não seria "de bom gosto".
A campanha contra a BBC feita pelo mestre da manipulação de Blair, pela
imprensa de Murdoch, pelo
Telegraph
de Conrad Black e finalmente por Hutton, foi da qualidade de Goebbells: um
diversionismo deliberado e perverso ao extremo. Nenhum seguidor da agenda de
guerra do governo foi mais dedicado do que a BBC. Um vasto inquérito
à cobertura do Iraque da Media Tenor pelos principais emissores mundiais
descobriu que a BBC havia coberto apenas 2 por cento das
manifestações anti-guerra ainda menos do que os emissores
americanos. Um estudo da Cardiff University não descobriu qualquer
evidência de que a BBC fosse alguma coisa senão pró-guerra.
Historicamente, a BBC sempre apoiou as guerras do establishment ao declarar o
status quo (guerreiro) como neutro e os dissidentes como
"enviesados". A propaganda tornada respeitável domina a
própria linguagem e o tom das notícias.
Assim, o Panorama da BBC1 de 23 de Setembro de 2002 afirmou ter "prova
concreta" acerca das armas de destruição em massa do Iraque,
tendo aceite como verdadeira uma estória falsa sobre um
laboratório secreto de armas biológicas sob um grande hospital em
Bagdad. Tal como a maior parte dos media, a BBC cooperou com a maior de todas
as vigarices: a apresentação de Colin Powell no Conselho de
Segurança das Nações Unidas em Fevereiro do ano passado
como uma justificação final para a invasão. Esta era
composta de desenhos semelhantes a banda desenhada, tal como o "Slide
21", do qual Powell disse: "Aqui vêem fábricas
móveis montadas tanto sobre camiões como vagões
ferroviários". Powell chamou a isto
"diagramising"
. Das imagens de satélite que apresentou, afirmou; "As fotos que
estou prestes a mostrar são por vezes difíceis de interpretar
para pessoa média, difíceis para mim. O meticuloso trabalho de
análise da foto exige peritos com anos e anos de experiência, a
examinar horas e horas sobre mesas luminosas". Isto era a
"evidência irrefutável" de "65
instalações que abrigaram armas químicas".
Era tudo falso, como o profundamente cínico Powell deu a entender
posteriormente. O próprio Bush desde então gracejou acerca da
falta de evidência de armas. Paul Wolfowitz revelou que a
"estória" das ADM foi "acordada" por ser a
única que o público engoliria; Donald Rumsfeld admitiu que
não havia ligação entre o Iraque e a al-Qaeda.
Graças à sua propaganda, mostrada sem contestação
na maior parte dos media, milhões de americanos ainda acreditam nisto.
No Iraque, os soldados falam sobre matar e maltratar iraquianos como sendo a
"devolução do 11 de Setembro".
Na Grã-Bretanha, proteger a reputação do exército
britânico do actual contágio de revelações é
uma tarefa prioritária. Ironicamente, Piers Morgan, que tem um
irmão no exército, sempre foi relutante em publicar qualquer
coisa que sugerisse que "os nossos rapazes" eram como os seus
enlouquecidos aliados. Quanto o
Mirror
publicou as fotografias da "tortura" em 1 de Maio, o jornal
enfatizou que os transgressores eram soldados "canalhas". Foi errado.
Falsas ou não, o que as fotografias do Mirror revelaram foi um rastro de
abusos e coisas piores que perpassava através de todo o exército
britânico no Iraque. Muitas das provas disto foram coleccionadas por um
incansável solicitador de Birmingham, Phil Shiner, a actuar para 13
famílias iraquianas, e pelo
Independent on Sunday (IoS)
, cujas excelentes investigações quase salvaram a honra do
jornalismo britânico. O IoS revela que há agora aproximadamente
40 casos de assassínios alegadamente ilegais de civis iraquianos e de
prisioneiros pelas forças britânicas desde a invasão.
Quando comparadas com as 37 mortes suspeitas de prisioneiros efectuadas pelos
americanos no Iraque e no Afeganistão, a escala potencial do crime
britânico torna-se evidente, embora seja claro que estes números
representam apenas a superfície. A prova de que soldados do Queen's
Lancashire Regiment executaram tortura sistemática sob a
direcção de um oficial deve ir ao supremo tribunal. "Em
alguns casos oficiais realmente tomaram parte", afirma a Amnistia
Internacional. Apesar disso, em 14 de Maio um coronel deste regimento
atreveu-se a sugerir que o "ego" de Morgan era o preço da
"vida do soldados" uma linha quase certamente virada para ele.
Os jornalistas estão bem conscientes daquilo que a Amnistia chama de
abuso sistemático. Um ano atrás o
Sun
publicou "cópias de artista" de fotografias tiradas pelos
soldados do Royal Regiment of Fusiliers mostrando-os a pendurarem prisioneiros
de guerra iraquianos de uma empilhadeira e forçando-os a simular actos
sexuais. Vários dos soldados foram processados.
Um locutor da BBC referiu-se a tais fotografias como "simples
lembranças". Imagine a resposta se elas tivessem sido de
iraquianos a torturarem prisioneiros de guerra britânicos. No dia em que
Morgan foi despedido, um repórter da BBC, Nicholas Witchell, afirmou:
"Após a aterradora realidade daquilo que os americanos têm
estado a fazer, as fotos do
Mirror
ameaçavam comprometer o trabalho de todo o soldado
britânico". Ao contrastar a "realidade" do abuso
americano com a irrealidade "das fotos do
Mirror
", Witchell tratou de branquear o exército britânico enquanto
choramingava que o seu bom "trabalho" no Iraque pode ser
"comprometido". Será que os estagiários da BBC
aprendem argúcias como esta?
O exército britânico não está a fazer pior no Iraque
do que fez na sua longa história de ocupações coloniais.
A tortura foi desenvolvida como uma estratégia na Palestina (onde os
britânicos foram os pioneiros na táctica de terror de
demolições de lares), em Chipre, no Cameroon britânico, no
Brunei, na Guiana Britânica, em Aden, no Borneo e na Irlanda do Norte.
Na Malásia, a conversão de aldeias inteiras em campos de
concentração e a utilização de desfolhantes
carcinogénicos foram copiados pelos americanos no Vietnam. Na Irlanda
do Norte, os interrogadores britânicos refinaram os seus métodos,
relata a Amnistia, "para o objectivo ou o efeito de provocar uma avaria ou
um colapso dos processos mental de um homem".
Pouco disto foi relatado na época. Hoje, graças a um par de
jornais "canalhas", à câmara digital e à
Internet, o público está a obter a verdade, dia a dia, imagem a
imagem, facto a facto. Michael Berg, cujo filho Nick foi decapitado no Iraque
e que culpa Bush e Rumsfeld, pergunta: "Como pode você assumir a
responsabilidade quando não há consequências?" Como
eles manipulam as Nações Unidas para estabelecer um regime
fantoche em Bagdad, os americanos e os britânicos estão a conceder
imunidade a processos para as suas próprias tropas. Depois de tudo, diz
o comentador da BBC, os pecados dos soldados "não se comparam com
as torturas e execuções sistemáticas de Saddam
Hussein" Assim, será a tirania de Saddam Hussein é agora a
bússola moral do ocidente?
Será que os jornalistas permitirão a Blair escapar impune com
mais uma charada? Ou será que perguntarão porque o Artigo
7º do estatuto do Tribunal Penal Internacional, do qual a
Grã-Bretanha é signatária, não está a ser
invocado? Isto torna claro que o comportamento britânico e americano no
Iraque é categorizado sob "crimes contra a humanidade", para o
quais a responsabilidade final situa-se, como sempre, no topo.
O original encontra-se em
New Statesman
de 31/Maio/2004.
Tradução de JF
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info
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