Glossário da ocupação iraquiana
Todas as vezes que há guerra ou uma ocupação de outro país, os propagandistas e
os seus media substitutos exigem linguagem que tranquilize, desculpe e
esconda a realidade amarga ou a cobiça sórdida. Numa tentativa de obter um
entendimento mais profundo do que está realmente a acontecer no Iraque, este
glossário elucida a terminologia habitualmente utilizada nos media. Os seu
objectivo é permitir-nos ver através do nevoeiro linguístico.
Há um problema fundamental com um glossário deste género. Os propagandistas
cunharão sempre novas expressões para desculpar ou amenizar aspectos das
actividades do
ocupante, e os aspectos da ocupação cuja menção não pode ser evitada. Contudo,
os propagandistas detestam referir-se aos aspectos inconfortáveis ou
repugnantes da guerra de ocupação. Exemplo: é muito claro que os militares
americanos não publicarão listas das mortes de civis iraquianos.
(NB: eles compilam algumas listas, mas não as mostram
[1]
).
Os responsáveis dos hospitais iraquianos são "desestimulados" a
compilar listas de baixas civis e conceder aos jornalistas visitas às morgues.
A lista
dos tópicos "proibidos" aos medias complacentes é longa, mas um
subconjunto é apresentado abaixo.
Finalmente, as justificações para a guerra contra o Iraque, e a subsequente
ocupação,
foram mudando ao longo do tempo. A terceira lista (abaixo) documenta as
justificações oferecidas pelos ocupantes americanos até à data. Esta lista em
crescimento é o cemitério das justificações.
Glossário
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Terminologia mal usada
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Tradução
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Abuso de prisioneiros
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Tortura de prisioneiros.
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Al-Qaeda
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Rei dos bicho-papão.
Não havia ligação entre a Al-Qaeda e o Iraque anterior a 2003, e mesmo agora os
EUA não conseguem mostrar provas de uma conexão iraquiana.
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Embaixador
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Proconsul,
É muito estranho chamar Paul Bremer de embaixador; o homem até usa botas da
tropa!
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Forças anti-iraquianas
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Todas as oposições.
(-- e exemplo claro de dupla linguagem)
"Logo após a ocupação, os Estados Unidos e seus aliados --militares e
ideológicos-- referiram-se à resistência iraquiana como 'elementos
estrangeiros', 'terroristas' ou 'antigos leais ao regime de Saddam'. Esta
fraseologia tornou-se redundante e os porta-vozes militares
estadunidenses agora estão a referir-se às guerrilhas como 'forças
anti-iraquianas' como a sugerir que as tropas americanas, britânicas, [...]
representam o Iraque mas os iraquianos que resistem à ocupação são
anti-iraquianos."
--Tariq Ali, "The Iraqi Resistance: a New Phase",
CounterPunch, April 10, 2004.
Referir-se a muitos grupos dá a impressão de que um segmento significativo da
população está unido contra os EUA, e isto contradiz a afirmação propagandística
de que a oposição é uma "pequena minoria". Além disso, os
americanos, incluindo Bush, são famosos pelo seu desconhecimento do quem é quem
no país. Assim, esqueça os pormenores, e ponha tudo no grupo da cesta grande!
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Vingança
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Matar 100 vezes dos deles por cada um dos nossos.
"A história iraquiana já está a ser escrita. Como vingança pelo
assassínio brutal de quatro mercenários americanos -- pois é o que eles eram --
os US Marines executaram um massacre de centenas de mulheres e crianças e
guerrilheiros na cidade muçulmano-sunita de Faluja. Os militares
estadunidenses dizem que a grande maioria dos mortos eram militantes. Falso,
dizem os médicos. Mas as centenas de mortos, muitos dos quais eram na verdade
civis, foram um reflexo vergonhoso da soldadesca americana que
efectuou estes ataques indisciplinados a Faluja."
--Robert Fisk, "By endorsing Ariel Sharon's plan George Bush
has legitimised terrorism", The Independent, April 16, 2004.
NB: o princípio de vingar as perdas do ocupante através da punição colectiva é
um crime de guerra.
Em Lídice, durante a Segunda Guerra Mundial, os alemães mataram pelo menos 172
civis para "vingar" alguns dos seus próprios homens, e isto foi
considerado um crime de guerra. Em Faluja, o assassínio de quatro mercenários
resultou em "centenas" de civis iraquianos assassinados. Ariel Sharon
aprovaria.
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Lealistas baathistas
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Um outro falso grupo muito conveniente.
Se os EUA rejeitam os "grupos islâmicos" e os "bathistas",
quem sobra?
NB: "baathistas" tanto poderiam ser os nacionalistas que a CIA ajudou
a assassinar na década de 1960 ou aqueles que aderiram aos criminosos que
assassinaram o antigo grupo. Os baathistas perseguidos (aqueles que se
opuseram a Saddam) podem ter um ressentimento legítimo contra os EUA, os
outros eram os FDPs dos EUA.
"Evidentemente, a CIA ajudou a levar os criminosos do partido de Saddam
Hussein ao poder e inevitavelmente enfraqueceu as perspectivas da democracia
iraquiana. Algumas fontes confiáveis acreditam que mais de dez mil pessoas
foram assassinadas e mais de uma centenas de milhar presa por ocasião do golpe
e das semanas sangrentas que se seguiram, descritas pelos historiadores Peter e
Marion Sluglett [...] como 'uma das mais terríveis violênias até agora
experimentadas no Médio Oriente do pós-guerra".
--Hanna Batatu, "CIA Lists Provide Basis for Iraqi
Bloodbath", 1978.
Ver
Como a CIA ajudou Saddam a tomar o poder e a dizimar a intelectualidade iraquiana
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Cano das espingardas
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Espingardas de quem?
"Na semana passada, em meio ao crescente caos em cidades iraquianas,
Bremer denunciou brutalmente grupos 'que pensam que o poder no Iraque deveria
vir do cano de uma espingarda'. Aparentemente ele não se referia às forças
americanas e britânicas que tomaram o poder no Iraque inteiramente e
exclusivamente pela utilização prolongada dos canos de milhares de
armas".
--Paul Foot, "The beam in Bremer's eye",
The Guardian,
April 14, 2004.
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Baixas
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Baixas americanas, naturalmente.
Utiliza-se baixas tanto para mortos como para feridos. Nos relatos do Pentágono
"baixas" só incluem as fatalidades; os feridos não contam na sua
pavorosa contabilidade.
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Cessar fogo
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Guerra por outros meios.
" Com o 'cessar fogo', bombardeamentos em grande escala eram raros. Com o
alto nos grandes bombardeamentos, os americanos não estavam a atacar com
artilharia pesada e sim basicamente com atiradores de elite
(snipers)
".
--Raul Mahajan, "Report from Fallujah -- Destroying a Town
in Order to Save it", April 12, 2004.
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Contratados civis
(Civilian contractors)
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Mercenários.
"Hoje há mais mercenários no Iraque do que soldados britânicos -- um número
estimado de 40.000 'security contractors'. Os anúncios na secção
trazeira de
Soldier of Fortune
, a revista da especialidade para mercenários literatos, indica tempos de
bonança para a profissão.
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Limpeza
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Massacre.
"É crítico que limpemos o corpo político iraquiano do veneno que permanece
ali após os 35 anos do governo totalitário de Saddam Hussein"
--Dan Senor (assistente do proconsul americano), April 12, 2004.
Comentário ao ataque dos US Marine contra Faluja e Najaf.
NB: Faluja e Najaf eram conhecidas por sua oposição a Hussein, não podiam ser
um "veneno".
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Coligação
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"serviçais simbólicos"
(John Pilger, Apr. 1, 2004)
"Coligação" só quando isto é adequado para os americanos. Quando se
trata de relatar baixas, só as dos militares americanos contam. Quando se
trata de proporcionar contratos sumarentos, as companhias americanas obtêm a
fatia do leão. O que pensam os membros da "coligação" acerca disto?
Os britânicos estão a queixar-se de que não são nem mesmo consultados --- eles
gostariam muito de actuar como segundo violino.
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Autoridade Provisória da Coligação
Coalition Provisional Authority (CPA)
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Autoridade Americana de Ocupação.
"Coligação"? Só quando lhes for conveniente. Provisória? Começa a
parecer antes como permanente.
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Democracia
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Um senhor da guerra, um voto.
Sátrapas escolhidos prontos para aprovar a ocupação do Iraque, a pilhagem dos
seus
recursos e a construção de várias bases militares. É especialmente bizarro que
enquanto os EUA conclamam o Médio Oriente a "democratizar-se" se
tenham envolvido
activamente no derrube do governo eleito do Haiti. Ali, gangs
liderados por esquadrões da morte armados, treinados e financiados pelos EUA
montaram o golpe. Assim, na versão americana, o respeito pela democracia pode
ser aplicado mesmo a líderes de esquadrões da morte.
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Intelecto devastador
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Louvores entusiasmados
"Bremer foi descrito num número especial do
Financial Times
da semana passada como 'uma figura imponente com um intelecto devastador'
".
--Paul Foot, "The beam in Bremer's eye", Guardian, April 14,
2004.
Será especialmente interessante ver o que dirá o FT quando Bremer for
substituído. A contagem decrescente para o despedimento de Bremer já começou,
e John Negroponte já foi indicado como o seu provável substituto.
A experiência de Negroponte em organizar os contras na Nicarágua e os seus
anos como proconsul em Honduras dão-lhe credenciais impecáveis. Ele é um outro
destes "intelectos que devastam".
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Eleições
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Algum dia no futuro quando o Iraque estiver pronto para a democracia.
Os americanos querem "estabilidade" primeiro, e então, após um
período experimental suficientemente longo, pode haver "eleições". Os
EUA, naturalmente, continuam como o único árbitro para julgar se o Iraque está
ou não "estável".
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Fim das grandes operações de combate
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O dia 1 de Maio de 2003, o
princípio da ocupação do Iraque.
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Extremista
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Qualquer um que se oponha à ocupação americana.
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Ai-reiq
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Iraque.
Mesmo após vários anos obcecados com o Iraque, o presidente e a maior parte da
sua corte pronunciam mal o nome do país.
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Pontos explosivos
(Flashpoints)
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Cidades onde os iraquianos levantam-se contra a ocupação.
"Flashpoints" é a expressão favorita da BBC quando se refere ao
conflito no Iraque. Quando se refere aos territórios ocupados pelos
israelenses ela utiliza "pontos quentes"
(hotspots)
.
Contrastar com a linguagem que a BBC utilizava um mês atrás quando se referia ao
gang armado que montou um golpe contra o governo eleito no Haiti:
"cidades levantam-se contra o governo opressivo de Aristide".
Não importava que líderes de esquadrões da morte e pessoas acusadas de crimes em
massa tenham liderado os rebeldes na tomada de cidades, brutalizando a
população.
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Estrangeiros
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Olha quem fala!
"Enquanto isso, um comandante da U.S. Marine declarou que nem todos os
combatentes na cidade iraquiana de Faluja são iraquianos. O Tenente-General
James Conway, o comandante Marine em Faluja, disse que há alguns combatentes
estrangeiros em Faluja --- e informou que eles podem ter estado ali desde há
algum tempo"
--BBC Online, April 7, 2004.
Alguém deveria chamar a atenção daquele cavalheiro para o facto de que ele é
um estrangeiro também.
E será isto uma justificação para atacar uma cidade?
" 'Combatentes estrangeiros' estavam agora na batalha, segundo o
secretário de Estado americano Donald Rumsfeld. Os media americanos
acompanharam esta insensatez, apesar de nem um único operacional da al-Qaeda
ter sido preso no Iraque e de dos 8500 'detidos de segurança' em mãos
americanas apenas 150 parecerem ser de fora do Iraque. Apenas 2 por
cento" --Robert Fisk.
"Uma guerra que foi baseada sobre mentiras e ilusões contem uma simples
verdade: os iraquianos não nos querem", The Independent, Apr. 9, 2004.
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Detectar ameaças
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Criar ameaças.
"O sr. Bush também disse que a lição daqueles ataques foi que a América
tem ter tratar de 'detectar ameaças' antes que elas frutifiquem, uma política
que catalisou a invasão liderada pelos EUA do Iraque"
--BBC Online, April 14, 2004.
A política americana não é tanto sobre responder a "ameaças
detectadas", mas sim "semear e colher as ameaças"
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Cedência do poder
(Handover of power)
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Redenominação cosmética da ocupação.
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Corações e mentes
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O sr. é um Lindo Rapaz só se houver estabilidade.
"Ganhar corações e mentes por trás das paredes seguras dos palácios de
Saddam, ou num veículo blindado, é impossivel. Mas dado o nível de risco,
podemos agora mover-nos para um ponto de viragem na condução das operações. Se
a insurgência provocar as forças da coligação, então o progresso firme para uma
democracia pacífica no Iraque será interrompido. Sem um claro e acordado
processo político, os comandantes do exército argumentarão em favor da
prioridade da segurança das suas próprias tropas".
--Tim Garden, "Coalition forces fight a losing battle to win
the peace",
The Guardian
, April 6, 2004.
"Para ganhar os corações e as mentes a América precisa acender as luzes,
proporcionar água limpa, dar empregos às pessoas e impor lei e ordem. Mas
dificilmente algo assim aconteceu porque a administração Bush -- ligado a
firmas como a Halliburton e Bechtel -- roubou a maior parte do dinheiro
destinado a tais tarefas."
--Christian Parenti, "Autopsy of a Failed Occupation",
AlterNet.org, April 14, 2004.
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Melhoria
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As coisas estão realmente a ficar pior.
Uma das justificações para a contínua ocupação é ajudar o Iraque a emergir como
um país próspero. Infelizmente as coisas estão a ficar pior. Quase um ano de
ocupação e a maior parte do país não tem electricidade, os sistemas de saúde
quase entraram em colapso e assim por diante.
Naturalmente, quem pergunta o que está a acontecer no terreno torna-se
então alguém "do contra".
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Conselho Governante Iraquiano
Iraqi Governing Council (IGC)
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Sátrapas expectantes.
No dia 10 de Abril um membro do IGC queixou-se de que eles não foram
consultados sobre a carnificina americana contra Faluja e Najaf. Isto é assim
tanto para "governar" quanto para "aconselhar".
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Matar ou capturar
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Morto ou vivo.
A terminologia do Far West utilizada pelo porta-voz do CentCom quando declara a
intenção de encontrar o clérigo Moqtada Sadr. NB: O pai de Sadr é
altamente reverenciado no Iraque, e a família é famosa pela sua oposição a
Hussein. Naturalmente, este ramboísmo é aceitável devido ao inato preconceito
anti-islâmico dos ocupantes -- para eles, o clérigo é apenas mais uma
"cabeça com turbante"
(raghead).
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Exército Mahdi
(Mahdy Army)
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Milícia dos esfarrapados.
“Os jovens e geralmente pouco educados seguidores do jovem clérigo foram
alcunhados o Exércido Mahdi. Eles não são um exército — são antes um grupo mal
resolvido de iraquianos xiitas com Kalashnikovs. Como disse um voluntário,
Syad Mustafa: 'Não temos quaisquer bases. Não temos quaisquer tanques. Não
temos quaisquer jactos.' ”
— Luke Harding, “Huge US attack to crush Iraq rebels”,
The Guardian
, 28/Abr/2004.
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Contrução da nação (também conhecida como Construção da paz)
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Construir instituições neo-coloniais.
"O que os imperialistas denominam 'contrução da nação' ou 'construção da
paz' refere-se à necessidade de construir e manter um regime político e social
no 'pós-guerra', ou mais precisamente, no cenário de intervenção pós-militar.
Isto
exige uma modalidade de compromisso qualitativamente mais intensa caracterizada
por séria micro-administração do governo por procuração
(proxy government).
Segundo o estudo de melhores práticas da Rand Corporation, a 'construção da
nação' não é basicamente reconstruir a economia do país, mas sim transformar as
suas instituições políticas".
--Alejandro Bendaña (Antigo representante nicaraguense na
ONU), "Nicaragua's And Latin America's 'Lessons' For Iraq",
FocusWeb.org, April 8, 2004.
"[O Gabinete do Secretário da Defesa] recentemente tomou conhecimento do
emergente estilo americano de guerra e começou a ultrapassar a gramática
tradicional da guerra com uma nova. Contudo, esta nova gramática --que se foca
na obtenção de vitórias militares rápidas-- estava preparada só para ganhar
batalhas, não guerras. Portanto, o cumprimento com êxito do objectivo da
administração de construir um governo democrático no Iraque, por exemplo, ainda
está em causa, com uma insurgência a crescer rapidamente".
--Lt. Col. Antulio J. Echevarria, "Toward an American Way of
War", Strategic Studies Institute, March 2004.
Assim, mesmo os militares consideram que embora tendo vencido a batalha podem
bem perder a guerra. Obviamente, alguns estão a questionar a
"gramática" de Rumsfeld.
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Não covardia
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A versão britânica de
"resolução".
"Não me acovardarei perante o combate histórico do Iraque".
--Tony Blair,
The Observer
, April 11, 2004.
Nada como sugerir que os outros têm de continuar a lutar. Isto foi
expresso quando Blair estava, apropriadamente, nas Bermudas.
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Pacificação
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Campanha de contra insurreição.
"Com a sua mão pesada, e o crescente reconhecimento iraquiano da sua
intenção de dominar, os Estados Unidos acrescentaram combustível a uma
insurreição que tem estado a crescer aos saltos. A única resposta da
administração Bush a este desenvolvimento é a aplicação de mais forças. Quando
aplicada a uma revolta profundamente enraizada na população civil isto
significa guerra de contra-insurreição, com utilização abundante de armas
mortais, e portanto escalada nas baixas civis. Assim, depois de uma guerra
inicial de agressão estamos agora a descer para uma guerra de pacificação.
Isto envolverá uma nova destruição do Iraque a fim de salvá-lo --- para os fins
do Ocidente e para salvar a campanha eleitoral de Bush"
--Edward Herman, "Temos de destruir [preencha o nome do país] a fim de
salvá-lo", Swans.com, April 12, 2004
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Pacificadores
Peacekeepers
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Tropas de ocupação
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Clérigo radical
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Oxímoro conveniente.
Alguém que pode galvanizar a resistência.
Os clérigos moderados são, naturalmente, o tipo de rapazes que apreciamos.
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Reconstrução
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Conseguir que o petróleo jorre.
Quanto recentemente (Abril) perguntaram a um porta-voz do CentCom onde se podia
ver um projecto de reconstrução que beneficiasse directamente a população
iraquiana, ele não foi capaz de citar um único! A maior parte dos projectos de
reconstrução estão centrados na indústria petrolífera.
"Um jornalista americano descobriu que muitos projectos de reconstrução
que alegadamente haviam sido 'reconstruídos' na realidade mal foram tocados.
Uma escola 'reparada' estava inundada com esgotos. Quando visitei Ramadi e
Faluja em Janeiro, as pessoas de ambas as cidades estavam iradas com as faltas
cronicas de água e electricidade. As centrais eléctricas, estações de
telefones e sistemas de esgotos permaneciam todas destruídas e bombardeadas.
Segundo a ONG CorpWatch, só 10 por cento dos US$ 2,2 mil milhões de contratos
para a Halliburton foram gastos para atender necessidades comunitárias."
--Christian Parenti, "Autopsy of a Failed Occupation",
AlterNet.org, April 14, 2004.
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Resolução
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Teimosia obstinada.
Uma característica má vontade em reconhecer que foram cometidos erros, e que
retirar transmite um sinal de "fraqueza". Retirar transmitindo um
"sinal de força", significaria então que os EUA tem de seguir o
exemplo de Sharon ao retirar-se de Gaza. No caso de Gaza, isto envolveu
transformá-la num gigantesco campo de prisioneiros, assassinando líderes,
impedindo a entrega de ajuda alimentar de emergência.
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Círculo xiita
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Nova terminologia de análise militar da CNN.
Assim como o "triângulo sunita" [observe], esta expressão dá a
impressão que estas áreas são pequenas e portanto não causam preocupação. As
pessoas a viverem ali são "uma pequena minoria". Nunca se menciona
quantas pessoas ali vivem.
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Maioria silenciosa.
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Pretensão de que a maior parte dos iraquianos apoiam a ocupação.
Enquanto a Casa Branca faz o seu melhor para evitar comparações com o Vietnam,
escolhe ressuscitar uma das expressões favoritas de Nixon para justificar a
continuação da Guerra do Vietnam. Nixon afirmava que a maioria silenciosa era
favorável à guerra. Assim como isto era um falso argumento então, é um falso
argumento hoje.
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Ligeiro sobressalto
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Terminologia militar para uma insurreição.
"As coisas estão a ficar pior, muito pior, no Iraque. Os horrores de
ontem demonstraram isso. Ainda na véspera o Brigadeiro General Mark Kimmitt,
[...], assegurou-nos que havia apenas um "sobressalto" de violência no Iraque.
Não uma súbita onda de violência, assinala, não um aumento terremoto, nem mesmo
um 'surto' em violência -- outra das expressões favoritas do general. Não,
apenas uma pequena-pequeníssima, mesmo diminuta, um inocente pequeno
'sobressalto'. De facto, ele disse que isto era um 'ligeiro sobressalto'."
-- Robert Fisk, "
Things are getting much worse. It's not just a 'spike' or an 'uptick' in
violence", The
Independent, April 1, 2004.
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Pequena minoria, também conhecida como extremistas
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Maioria oposta à ocupação
"Dentre as mais rizíveis afirmações da administração Bush está aquela de
que os mujaheddin são um um pequeno grupo de 'extremistas' isolados repudiados
pela maioria da população de Faluja. Nada podia estar mais longe da
verdade".
--Raul Mahajan, "Report from Fallujah -- Destroying a Town
in Order to Save it ", April 12, 2004.
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Soberania
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Neo-Colonização.
"Agora a Imprensa Livre recusa-se a olhar para o que está por baixo da
afirmação de uma intenção de garantir 'soberania' e transferência de poder aos
iraquianos em 30 de Junho, a ver os meios pelos quais uma presença militar
americana e o poder de vento e constrangimentos sobre a constituição e leis do
Iraque resultariam na dominação continuada deste país".
--Edward Herman, "We Had To Destroy [Fill in Country Name]
In Order To Save It", Swans.com, April 12, 2004
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Estabilidade
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Uma ocupação tranquila.
Quando os iraquianos se submeterem e ficarem silenciosos no seu terreno, e
quando os media cessarem de se lhe referir, então o Iraque poderá ser
considerado "estável".
"Estabilidade" é também uma justificação para a ocupação continuada
--- se as forças americanas abandonarem, então estalará a anarquia, e
"mesmo os iraquianos não querem isso".
Isto ignora o facto de que a maior parte dos iraquianos já vive sem segurança,
electricidade, água limpa, empregos adequados, liberdade de imprensa. Chamar
anárquica a esta situação daria à anarquia uma conotação má.
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Êxito
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Provocar uma insurreição ou uma elevada contagem de cadáveres.
"O presidente do U.S. Joint Chiefs of Staff [Gen. Myers] disse
quinta-feira que a mortífera insurgência que disparou este mês é 'um sintoma do
êxito que estamos a ter aqui no Iraque' e um esforço para minar a transição do
país para o auto-governo".
--Sewell Chan, "General Calls Insurgency in Iraq a Sign of
U.S. Success",
Washington Post,
April 16, 2004.
Eco do Vietnam: o general aguçou os seus dentes no Vietnam, onde uma alta
contagem de corpos era considerada um "êxito".
Ecos de Gaza:
"esta operação foi um grande êxito".
--Ariel Sharon, Out/2002, comentando o bombardeamento do campo de
refugiados de Khan Yunis onde uma bomba de uma tonelada despejada por um F16
matou 14 palestinianos e feriu 80.
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Triângulo sunita
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Terminologia CNN para uma outra pequena minoria.
"E, como os ataques contra as forças americanas aumentaram em torno de
Faluja e outras cidades muçulmanas sunitas, disseram-nos que esta área era o
"Triângulo sunita", apesar de ser muito maior do que o que isto implica e não
ter formato triangular"
--Robert Fisk, "Uma guerra que foi baseada em mentiras e
ilusões tem uma simples verdade: os iraquianos não nos querem", The
Independent, Apr. 9, 2004.
A utilização de palavras como "triângulo" tem muito a ver com
"peritos militares" que desenham linhas sobre mapas para a BBC ou a
CNN. Ver círculo xiita.
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Riqueza de alvos
(Target rich)
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Assassínio em massa.
Inclusive de civis não combatentes.
"Peritos dos Mariners dizem que Faluja está entre os mais 'ricos alvos' de
campos de batalha para atiradores de elite
(snipers)
desde a batalha de Stalingrado na Segunda Guerra Mundial... Durante cerca de
duas semanas de conflito em Faluja, um cabo não identificado destacou-se como o
principal atirador, com 24 assassínios confirmados". O
Los Angeles Times
relata que atiradores americanos têm estado a matar centenas de insurgentes:
"Por vezes um sujeito é abatido, e nós o deixamos estertorar um bocado no chão
a fim de destruir o moral dos seus companheiros", explicou um cabo dos
Mariners, "a seguir eu dou um segundo tiro".
—Tony Perry, “For Marine snipers, war is up close and personal”,
Los Angeles Times
, 19/Abr/2004
NB: Os
snipers
continuam a assassinar iraquianos mesmo durante os supostos "cessar-fogo".
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Terrorismo
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A violência da resistência.
Quando generais americanos e Rumsfeld queixam-se da violência contra as tropas
dos EUA, a etiqueta "terrorismo" soa cada vez mais vazia. NB:
violência contra uma força de ocupação totalmente armada
não é
terrorismo.
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Bandidos & terroristas
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Demonizando o bicho-papão.
"Donald Rumsfeld apregoa que a resistência é de apenas uns poucos
'bandidos, gangs e terroristas'. Isto é um perigoso pensamento auto-ilusório.
A guerra contra a ocupação agora está a ser combatida abertamento, por pessoas
regulares a defenderem os seus lares e vizinhança -- uma
intifada
iraquiana"
--Naomi Klein, "An Iraqi
intifada
",
The Guardian,
April 12, 2004.
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Problema da trafegabilidade.
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Os iraquianos viajarem para outras cidades no Iraque.
Expressão utilizada por um analisa militar da CNN para se referir à
possibilidade de que combatentes da resistência iraquiana possam juntar-se às
peregrinações para viajar a outros "pontos explosivos"
"Com as peregrinações temos um problema de trafegabilidade".
-- Kelly McCann, Military Annalyst, CNN, April 11, 2004.
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ONU
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Ocupação vestida com moldura azul.
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Resolução inabalável
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Obtusidade armada
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Vietnam
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Sim, pântano
"[Presidente Bush] afastou como 'falsas' comparações entre o combate no
Iraque e a sangrenta Guerra do Vietanm que transtornou os EUA três décadas
atrás. 'Acontece que também penso que a analogia envia a mensagem errada às
nossas tropas e envia a mensagem errada ao inimigo', acrescentou"
--BBC Online, April 14, 2004
Não é uma questão da "mensagem", é uma questão de avaliar o que era
aquela guerra e o que a ocupação americana do Iraque está a tentar alcançar. A
resistência à criação de um regime subserviente aos americanos implica que a
analogia com o Vietnam é útil.
A comparação com o Vietnam tem mais a ver com referências ao pântano, mas pouco
mais. Contudo, há muitas diferenças, e uma impressionante unidade de trato com
a lógica de continuar ambas as guerras. No caso do Vietnam, havia uma lógica
em andamento ideológica e de realpolitik para alcançar a vitória. O que é
diferente no Iraque, e no público americano em particular, é a falta de
ressentimento/reacção uma vez que as delgadas justificações para a guerra foram
desvendadas.
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Exército voluntário
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Exército profissional
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Alguns tópicos de propaganda "proibidos"
A lista dos tópicos esquecidos pelos media é longa. Há ítens que soam
inocentes, como a temperatura no Iraque, cuja divulgação subitamente é
"suspensa" durante o verão. O conhecimento de que as tropas
americanas trabalham em condições que perigam seriamente a sua saúde e
segurança está igualmente a ser suprimido. O que acontece à população
iraquiana em condições semelhantes raramente é mencionado. O paralelo com o
Vietnam é notório; enquanto ali havia alguma menção aos efeitos do Agente
Laranja sobre militares americanos, houve um número insignificante de relatos
acerca dos efeitos sobre as populações locais. No Iraque, prevalece o mesmo
sindroma nos relatos dos media.
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Tópicos omitidos pelos media:
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Explicação
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Síndroma da Guerra do Golfo
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Recentemente foi descoberto que alguns soldados já foram atingidos pelo
Síndroma da Guerra do Golfo. Este síndroma matou mais soldados
após
a guerra de 1991 do que durante a guerra quente. Acontecerá isto mais uma vez?
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Responsabilidade pelo bombismo de Kerbala
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Opinião de Tariq Ali: a grande questão é saber quem estava por trás do
bombismo de Kerbala que matou mais de 200 xiitas. A intenção dos bombistas foi
provocar hostilidades entre as comunidades xiita e sunita. Todos os grupos
negam responsabilidade pela bomba. Assim, a questão que permanece é quem foi
a força sinistra por trás disto.
(Tariq Ali on DemocracyNow, 23/Abr/2004).
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Prisioneiros iraquianos ou "detidos"
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Não são mantidas quaisquer listas ou elas não estão disponíveis para os membros
das famílias dos prisioneiros --- estes não sabem se a pessoa é um prisioneiro
ou se "desapareceu". O mesmo acontecia durante a era de Hussein.
Fonte: May-Ying Welsh, FlashPoints.net, April 13, 2004.
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Baixas iraquianas
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Isto certamente é uma pérola reveladora:
"Quando as baixas cresciam na cidade sitiada de Faluja, a Al Jazeera com
sede no Qatar era uma das únicas cadeias de notícias a difundir a partir de
dentro, transmitindo imagens de destruição e vítimas civis -- incluindo
mulheres e crianças. Mas quando a "âncora" da CNN Daryn Kagan entrevistou o
editor-chefe da rede, Ahmed Al-Sheik, na segunda-feira -- uma rara oportunidade
para conseguir informação independente acerca dos acontecimentos em Faluja --
ela utilizou a ocasião para aborrecer Al-Sheik perguntando-lhe se as mortes de
civis eram realmente 'a estória' em Faluja."
--FAIR, April 14, 2004.
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Urânio empobrecido
(Depleted Uranium)
a afectar os iraquianos.
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Houve algumas referênias aos efeitos do DU sobre os soldados amerianos, mas não
investigação em profundidade dos efeitos sobre os iraquianos.
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Natureza das doenças que afligem os iraquianos
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Os médicos iraquianos deparam-se com uma epidemia de doenças transportadas pela
água, e têm dificuldade em enfrentá-la.
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O curriculum escolar
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Os antigos livros escolares foram removidos, ou pelo menos a foto de Hussein
foi removida. Vários grupos estranhos estão a fornecer livros de proveniência
desconhecida ou com uma mensagem ambígua.
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Temperatura no verão
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No ano passado as temperaturas do verão em Bagdad foram censuradas na livre
imprensa americana. Serão temperaturas acima dos 50º C de alguma forma
provocativas?
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Tortura
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Alguns iraquianos foram mortos sob custódia americana, e os seus corpos
mostravam sinais de torturas. Assim, será que os EUA contrataram torturadores
do antigo regime ou estarão a utilizar os seus próprios torturadores?
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Remuneração de soldados e pensões
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Pouca atenção é dada à remuneração dos soldados e suas esposas. Algumas das
esposas dos soldados sobrevivem com selos alimentares
(food stamps)
! A pensão ou compensação paga aos sobreviventes é patética.
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Abastecimento de electricidade ou água
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Não há estatísticas sobre a capacidade disponível dos sistemas eléctricos ou de
abastecimento de água.
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Produção de petróleo
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Quantos milhões de barris estão a ser bombeados, e o que está a acontecer à
receitas obtidas? Quem está a auditar isto?
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Assassínio de intelectuais
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Há um dilúvio de assassínios ou sequestros de intelectuais bem conhecidos. As
advertências/ameaças contra essas pessoas aparecem no jornal financiado pelos
EUA. O que está por trás disto?
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Custo
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Estimativas do ano passado quanto ao custo da ocupação montavam a US$ 4 mil
milhões/mês. Considerando que há resistência activa, qual é o custo agora?
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A israelização das tácticas militares americanas
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Os israelenses vangloriam-se de que os EUA estão a aplicar as suas tácticas no
Iraque. Uma vez que várias destas práticas equivalem a crimes de guerra, então
quais são as implicações para os EUA? Estão os EUA a aplicar "assassínios
selectivos", tortura, demolições de casas? E por que não empregar a coisa
real -- por os israelenses a combaterem nesta guerra?
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Aumentando os preços do petróleo.
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Se a guerra também significa a salvaguarda das reservas de petróleo, por que o
preço do petróleo aumentou?
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A indústria mercenária
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Soldados de elite por todo o mundo estão a abandonar as suas unidades para se
juntarem aos operadores mercenários no Iraque. Os britânicos notam que custa
US$ 3 milhões treinar uma das suas tropas de elite (SAS), e eles estão
preocupados com a possibilidade de serem recrutados por companhias mercenárias.
Em média, soldados a trabalharem como mercenários ganham mais do que 20 vezes
o seu salário padrão no exército (sem impostos). Assim, estão os exércitos
nacionais a serem substituídos por exércitos de companhias mercenárias?
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O cemitério das justificações
A lista das justificações para a guerra e a subsequente ocupação continua a
expandir-se. Todas as vezes que uma justificação é demolida, uma outra é
produzida. Aqui está uma breve lista das justificações que foram demolidas e
umas poucos que são raramente discutidas.
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Justificação
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O que lhe aconteceu?
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WMD (Armas de destruição em massa)
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Seguramente jogada fora.
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Terror
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Falso desde o princípio. As acções americanas estão a
causar
o terrorismo.
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Liberdade
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"Duas noites atrás, o mais importante terrorista, George Bush, conversou
acerca da 'liberdade no Iraque'. Não da 'democracia' no Iraque. Não a
'democracia' nunca mais foi mencionada. A 'democracia' foi simplesmente deixada
fora da equação. Agora trata-se apenas de 'liberdade' -- liberdade de Saddam
ao invés daquela liberdade de ter eleições. E o que é que esta suposta
'liberdade' envolve? Um grupo de iraquianos indicados pelos americanos cederá
o povo para um outro grupo de iraquianos indicados pelos americanos. Será
isto a 'histórica passagem poder' da 'soberania' iraquiana. Sim, posso ver bem
porque George Bush quer testemunhar uma "mudança" de soberania. 'Nossos
rapazes' devem ficar fora da linha de fogo -- deixem os iraquianos serem os
sacos de areia."
--Robert Fisk, "
By endorsing Ariel Sharon's plan George Bush has legitimised
terrorism ", The Independent, April 16, 2004.
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Democracia
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Ver "liberdade".
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Estabilidade
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As acções americana estão a provocar o oposto
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Libertação
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Só a libertação da produção de petróleo. A ocupação indica claramente que os
iraquianos estarão sob uma canga americana por algum tempo.
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Apoios às nossas tropas
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Não ouvimos isto mais. Foi só um pretexto para conseguir que aqueles que se
opunham à guerra calassem a boca durante a mesma.
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Tolerância religiosa
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"Estamos presos numa luta histórica no Iraque. Se falhássemos, o que não
acontecerá, seria mais do que o poder da América a ser derrotado. A esperança
de liberdade e tolerância religiosa seria destruída".
--Tony Blair, The Observer, April 11, 2004.
Esta declaração foi expressa na mesma semana em que os americanos tentavam
"matar ou capturar" o clérigo M. Sadr.
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Os iraquianos querem que os americanos intervenham.
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Há um crescente número de inquéritos a tentar provar que os iraquianos estavam
a favor da guerra ou estão a fazer
"o melhor" agora (mesmo sem electricidade). O valor destes
inquéritos é dúbio, e mesmo assim é claro que os iraquianos querem que os
americanos deixem o país.
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Petróleo
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Embora esta motivação reine suprema, é curioso que a Livre Imprensa raramente
queira questionar o regime Bush sobre isto. E porque deveriam os EUA ter de
conquistar o Iraque para poder comprar petróleo?
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Bases militares e "projecção de poder"
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Há sete bases militares planeadas neste momento.
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Apoio a Israel
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Finalmente, Philip Zelikow, um conselheiro de Bush, revelou que a guerra
EUA-Iraque foi lançada para
"proteger Israel". A Imprensa Livre não deu seguimento a isto, nem
levantou questões acerca dos motivos porque os israelenses não estão a combater
esta guerra. "Israel: porta-aviões da América no Médio Oriente"
começa a chamar por mais ao invés de aliviar (especialmente a US$ 6 mil
milhões/ano).
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Interesses corporativos
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Com poucas excepções, o papel das grandes corporações americanas na promoção da
guerra não foi investigado.
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Mais glossários!
Seguir as pistas da dupla linguagem é um modo interessante de entender o estado
do
império americano. Depois de escrever uns tantos deles, e tendo compilado
centenas de
termos de propaganda, emergem os seguintes padrões desta linguagem.
1) A terminologia muda constantemente. Quando os propagandistas descobrem uma
contradição na terminologia que dá resultados com conotações negativas, os
termos serão imediatamente renovados. Um exemplo interessante é a denominação
do grotesco muro circundando porções do West Bank. Inicialmente era chamado
"grade de separação" -- com uma ênfase sobre grade, a indicar algo
frágil e movível. A palavra "separação" era infeliz porque implicava
"apartheid" e para os propagandistas isto era anátema. A expressão
substitutiva foi "grade de segurança". E agora os propagandistas
israelenses estão promover "grade de segurança para prevenção
terrorista"! Esta última é exagerada, demasiado longa e transparente — será
substituída.
2) Um outro aspecto curioso desta terminologia emergente é a participação de
bom grado dos "jornalistas" na propagação das expressões criadas
pelos propagandistas. Exemplo:
James Reynolds da BBC declara: "Costumava ser chamada grade de segurança
mas os responsáveis sentiram que o nome não funcionava no exterior. Assim,
agora a barreira tem um novo nome oficial "a grade de prevenção do
terrorismo"
[2]
. Não se preocupe, a partir deste momento este "jornalista"
irá palrar as últimas terminologias cozinhadas pelos seus manipuladores
israelenses.
3) É evidente --a partir dos "pontos de conversação" gerados pelos
consultores dos vários media-- que a nova terminologia é posta à prova em grupos
focais, e é prestada muita atenção à sua "estruturação". Quando as
circunstâncias mudam, ou uma expressão se torna transparente para o público,
ela é logo substituída.
4) Alguém poderia esperar que um público educado resistisse ao abuso de
linguagem e às manipulações pretendidas, e que tal propaganda não fosse
efectiva. Talvez fosse necessária subtileza para não estimular hostilidade
entre a audiência alvo. Entretanto, ao invés de uma tendência para a
subtileza, testemunhamos o oposto! No ano passado a terminologia da propaganda
tomou
emprestada até mesmo a terminologia colonial/imperial.
Os propagandistas nem mesmo se preocuparam por terem as políticas americanas
etiquetadas como "imperialismo". A razão disto, em parte, tem a ver
com
a natureza auto-referencial dos novos media.
Isto significa que uma declaração lida por um repórter a partir dos relvados da
Casa
Branca é considerada notícia. A terminologia utilizada tem pouco a ver com as
condições sobre o terreno, digamos, no Iraque. Quando as pessoas não estão
conscientes do que está a acontecer no Iraque, a terminologia utilizada pode
até mesmo imitar o jargão colonial --- isso não parece importar.
5) É surpreendente como o jargão de propaganda gerado pelos EUA no Iraque se
assemelha às expressões que os propagandistas israelenses tem usado ao longo
de anos. Há muitas expressões "civis" para encobrir uma ocupação
militar. Exemplo: os israelenses utilizam "administração civil"
para se referirem à ocupação militar; os americanos utilizam semelhante
terminologia civil no Iraque. Tanto Israel como os EUA tentam retratar as suas
ocupações como benígnas e mesmo esclarecidas (construção da nação, reforma,
etc). Na frente militar, os EUA estão a reciclar a dupla linguagem israelense
ao mesmo tempo que adoptam as tácticas dúbias e muitas vezes falidas de
Israel. Pode-se aguardar a utilização de "assassínios selectivos" e
tudo o mais no Iraque. As tácticas são partilhadas e a terminologia certamente
se seguirá.
________
Notas
[1] "US Military Keeps Track of Some, If Not All, Civilian Casualties in
Iraq",
MemoryHole
.
[2] James Reynolds, "Sharon prepares barrier defence," BBC Online,
Jan. 18, 2004.
[*]
Paul de Rooij
é escritor, vive em Londres, e pode ser contactado pelo email
proox@hotmail.com
(todos os attachments serão automaticamente eliminados).
©2004 Paul de Rooij.
O original encontra-se em
http://www.counterpunch.org/rooij04232004.html
Este documento encontra-se em
http://resistir.info
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