Iraque, o novo país das maravilhas

por Robert Fisk

O 'presidente' Ghazi Al-Yawer, o 'vice-presidente' Ibrahim Al-Jaafari e o 'primeiro-ministro' Iyad Allawi, após as suas juras. Assim, afinal das contas, os inimigos de Washington fixaram a data. A entrega da "plena soberania" foi adiantada em segredo para que o ex-funcionário de inteligência da CIA que agora se apresenta como "primeiro-ministro" do Iraque pudesse evitar outra sangrenta ofensiva dos inimigos dos Estados Unidos. Aquela que se supunha vir a ser a mais importante data da história moderna do Iraque foi alterada — como se fosse uma festa de aniversário — pelo medo do que fosse chover na quarta-feira.

"Deplorável" é a palavra que acode à mente. Eis-nos aqui a entregar "plena soberania" ao povo iraquiano — "plena", naturalmente, sempre e quando esqueçamos os 160 mil soldados estrangeiros aos quais o primeiro-ministro Iyad Allawi aparentemente pediu para permanecer no país; "plena" na medida em que não levemos em conta dos 3 mil diplomatas estadunidenses que constituirão a mais numerosa embaixada do seu país no mundo — sem sequer dizer a esse povo que havíamos mudado a data.

Poucos, excepto os iraquianos, naturalmente, entenderam o mais cruel paradoxo deste acontecimento. Porque foi o novo ministro iraquiano do Exterior — não deveríamos colocar o seu posto também entre aspas? — que decidiu filtrar, durante a reunião da NATO na Turquia, a notícia da "antecipação" da entrega da soberania ao Iraque. Assim, esta nova data sem precedentes na história moderna do Iraque foi anunciada não em Bagdad e sim na capital do antigo império otomano, que outrora reinou sobre o Iraque.

Alice no País das Maravilhas não teria feito melhor: o espelho reflecte todo o trajecto de Bagdad a Washington. Com a sua ironia selvagem, Ibsen teria podido fazer justiça a esta ocasião. Depois de tudo, o que teria podido resultar mais familiar que apelo de Allawi aos iraquianos para "combater os inimigos do povo".

O poder foi entregue ritualmente através de documentos legais. O novo governo jurou sobre o Corão. O procônsul estadunidense, Paul Bremer, deu um aperto de mãos formal a Allawi e embarcou no seu C130 para voar para casa, protegido por membros das forças especiais com óculos escuros.

Dava trabalho recordar que Bremer foi escolhido para o cargo há mais de um ano porque era perito em "contraterrorismo" — definitivamente, isto tem mesmo de ser posto entre aspas — e que aqueles a quem se referia como "fracassados" (fanáticos baathistas) conseguiram voltar quase todo o povo iraquiano contra os Estados Unidos e a Grã-Bretanha nuns poucos meses.

Segundo foi dito esta segunda-feira por Allawi, os "fracassados" e "remanescentes" pertenciam a Saddam Hussein. Os que não tenham cometido crimes até poderiam ser integrados no novo governo, anunciou. Mas já havia ficado claro que o primeiro-ministro considera aplicar a lei marcial, esse sine qua non de toda ditadura árabe, nesta ocasião imposta a um Estado árabe — Deus nos ajude — por um exército ocidental comandado por um governo que se proclama cristão. Quem foi o último homem a impor a lei marcial no Iraque? Por acaso não foi Saddam Hussein?

Não, Allawi e seus sequazes — juntamente com defraudador condenado Ahmed Chalabi, agora ressuscitado do seu túmulo político — não são pequenos Saddam. De facto, a ascensão de Allawi à fama deve-se ao facto de que foi leal a Saddam até que recolheu seus trastes e fugiu para Londres. Por pouco foi assassinado por Saddam antes que — e isto segundo a sua própria confissão — este recebesse os xelins do reino (MI6) e os dólares do CIA e — mais uma vez segundo confissão própria — de outras 12 agências de inteligência.

Ontem Allawi falava em "dia histórico". No que se refere ao primeiro-ministro, os iraquianos estão a ponto de desfrutar de "plena soberania". Nós os que pomos entre aspas as "libertação" do Iraque em 2003 devemos agora fazer o mesmo com a "soberania". Por aspas tornou-se parte do ofício de repórter no Médio Oriente.

Talvez o mais notável de tudo tenha sido a exigência de Allawi de que "os mercenários que vêm ao Iraque de países estrangeiros" devem ir embora. Há, naturalmente, 80 mil "mercenários" ocidentais no Iraque, a maioria enfeitados com roupa ocidental. Mas claro que Allawi não falava deles. E aqui está um problema. Deve chegar o dia em que teremos de renunciar aos lugares comuns, quando tivermos de abandonar os pesadelos estadunidenses. A Al Qaeda não tem uma filial no Iraque. E os iraquianos não planearam os ataques do 11 de Setembro de 2001.

Mas não temos que nos preocupar. O novo ministro iraquiano logo imporá a lei marcial — os jornalistas que acreditem poder deixar de fazer críticas devem reflectir de novo — e portanto podemos todos esperar uma petição ao Capitólio para aumentar o número de soldados estadunidenses "por solicitação formal do governo provisório".

Aguardemos, pois, a primeira expulsão de jornalistas. Segundo "se espera", serão celebradas eleições democráticas no Iraque dentro de cinco meses. Bom, já veremos.

Certo, Allawi promete um futuro Iraque com "uma sociedade de todos os iraquianos, sem distinções étnicas, de cor ou de religião". Mas entre os iraquianos aos quais Allawi jurou proteger ao que parece não figuram os 5 mil prisioneiros existentes nos notórios acampamentos estadunidenses no país. Pelo menos 3 mil continuarão no cativeiro, a maior em poder do exército de Washington.

Ontem houve muitas promessas de que Saddam Hussein e seus colegas serão processados, ainda que, de modo nada surpreendente, os advogados iraquianos sintam que há assuntos urgentíssimos por resolver. Paul Bremer aboliu a pena de morte no Iraque, mas parece que Allawi quer restabelece-la. Ao lhe ser perguntado se Hussein poderia ser executado, enfatizou que "isso é algo que se debate no sistema judicial do Iraque". Precisou, contudo, que é a favor da pena capital.

Segundo fontes americanas, os EUA têm estado a pressionar Allawi durante duas semanas ou mais com as esperança de que os seus ministro possam, pelo menos em teoria, funcionar sem o apoio de Washington. Os assessores estadunidenses já se retiraram de muitas instituições iraquianas. Contudo, ao aparecer em público nesta segunda-feira, o novo primeiro-ministro pronunciou palavras que poderiam ter vindo de George W. Bush. Advertiu às "forças do terror" que "não esqueceremos que esteve connosco e quem esteve contra nós nestas crise". E enquanto os membros do novo "gabinete" se adiantavam para por as mãos sobre o Corão, uma multidão de bandeiras iraquianas drapejava sobre o palanque nas suas costas, ainda que não fossem esses estranhos estandartes de cor azul e branca que o antigo conselho interino inventou há dois meses.

O verdadeiro problema para Allawi é que tem de ser um líder independente ao mesmo tempo que depende de uma força estrangeira, ocidental e cristã ainda por cima, para escorar o seu governo. Não pode proporcionar segurança sem o apoio de uma força estranha, mas tão pouco tem controle sobre essa força. Não pode ordenar aos estadunidenses que se vão embora. Mas aqui está a verdadeira pergunta:

Se Allawi pretende deveras governar o Iraque, a demonstração mais poderosa que poderia fazer é exigir a retirada imediata de todos as forças estrangeiras. Em questão de horas seria um herói na sua pátria e os estadunidenses estariam acabados.

Mas terá Allawi sabedoria para perceber que esse passo definitivo poderia salvá-lo? Que poderia dizer-lhe isso nesta hora crítica e sangrenta? Já se soube de sátrapas sustentados por Washington que traíram os seus amos. Contudo, agora a dolorosa equação em Bagdad é que Allawi depende do exército cuja evacuação necessita para demonstrar a sua própria credibilidade.

As potência ocupantes ocidentais deixaram atrás de si um rastro de legislação de duvidosa legitimidade no Iraque. Grande parte dela permite que as companhias estrangeiras extraiam os lucros da reconstrução — assunto no qual os iraquianos não têm opção —, e muitas pessoas no país não estão interessadas em que se prolongue a vigência das leis de ocupação de Bremer. Não é provável, por exemplo, que alguém vá passar um mês na prisão por conduzir sem licença. Mas, por que as empresas dos Estados Unidos e outros países ocidentais devem gozar de imunidade perante as leis iraquianas? Quando um mercenário britânico ou estadunidense assassinar um iraquiano, não poderá ser conduzido a um tribunal local.

Contudo, Allawi está atado a esses mesmos mercenários. E por isso, de maneira triste e inevitável, ele e o seu governo fracassarão.

A insurgência tem agora vida própria... e um plano. Se puder sustentar uma luta independentista para os nacionalistas das zonas muçulmanas sunitas que se estendem para norte e para oeste de Bagdad, os sunitas poderão reclamar o direito de formar o primeiro governo iraquiano independente uma vez que os estadunidenses tenham ido embora.

O original encontra-se em The Independent , a versão em espanhol em
http://www.jornada.unam.mx/025a1mun.php?origen=index.html&fly=2


Este artigo encontra-se em http://resistir.info .

30/Jun/04