"Calem-se!" — resposta aos críticos da guerra contra o Iraque

por Robert Fisk

Resistentes de Falluja. Calem-se. Essa é a nova linha de política externa dos nossos amos. Quando o senador Edward Kennedy caracterizou o Iraque como "o Vietnam de George W. Bush", o secretário de Estado, Colin Powell, advertiu-o que fosse "um pouco mais prudente e cuidadoso" nos seus comentários. Recordo que quando os Estados Unidos começaram a bombardear o Afeganistão, o porta-voz da Casa Branca sustentou que alguns jornalistas faziam "perguntas que o povo estadunidense não quer que se façam".

Já na década de 1980, quando informei que soldados iranianos num comboio de transporte de tropas para Teheran tossiam gás mostarda dos seus pulmões, misturado com sangue e muco, um funcionário do serviço exterior disse ao meu editor do Times que a minha nota "não ajudava". Por outras palavras, deixe de criticar Saddam, nosso aliado.

Pode ser, portanto, que essa política tenha estado desde há muito entre nós. Quando no ano passado as autoridades de ocupação ocultaram propositadamente os ataques contra soldados estadunidenses após o princípio da invasão, disseram aos jornalistas que investigavam a violência que não cobriam o quadro geral e que só pequenas zonas do Iraque resistiam. E um houve um estalidos desaprovadores com a língua quando alguns de nós decidiram examinar de perto a leis de imprensa emitidas pelo procônsul Paul Bremer no ano passado. Constituiu-se toda uma equipe de advogados da "Autoridade Provisória de Coligação" (APC) para ver a forma como podiam legalizar o encerramento e a censura de jornais iraquianos que "incitavam à violência". E sempre que fazíamos perguntas sobre isso, o porta-voz da APC — e o actual cavalheiro a cargo da mesma, Dan Senor — utilizava a mesma frase da semana passada: "não toleraremos a incitação à violência".

Assim, quando o encerramento decretado por Bremer do jornalzinho de Mogtada Sadr ateou essa mesma violência que supostamente queria evitar, o que disso o alto comissário estadunidense? "Não o toleraremos". Um dos maiores pecados do semanário foi haver condenado Paul Bremer por conduzir o Iraque "pelo caminho de Saddam", artigo que Bremer condenou com laborioso pormenor na carta que escreveu num árabe execrável, assinada pelo seu punho e escrita com a sua letra, enviada ao director da "malvada" publicação.

Pois bem, estou contra toda incitação à violência. Assim como estive contra a incitação à guerra mediante a utilização de acusações fraudulentas de armas de destruição maciça e vínculos secretos com a Al Qaeda, como estive contra a utilização do exército de Saddam contra as cidades iraquianas e como me oponho à utilização do exército estadunidense contra essas mesmas cidades. Recordemos que alguns dos perigosos milicianos de Mogtada Sadr combateram Saddam na insurreição de 1991, a mesma que nós apoiámos e depois traímos.

Saddam, naturalmente, sabia tratar a resistência. "Não toleraremos...", disse aos seus comandantes, e todos sabemos o que queria dizer com isso.

Não, os estadunidenses não são o exército de Saddam. Mas é provável que o sítio de Fallujah dê a essa cidade o mesmo estatuto de heróica entre as futuras gerações de sunitas iraquianos que tem hoje Bassorá — sitiada pela hordas de Saddam em 1991 — entre os xiitas iraquianos.

É evidente que o princípio do calar-se opera em ambos os sentidos. A 16 de Março de 2003, quando o mundo estava obcecado com a guerra que estalaria no Iraque três dias depois, ocorreu uma tragédia em outro campo de batalha, 800 quilómetros a Oeste de Bagdad. Nesse dia um soldado israelense e seu comandante lançaram um bulldozer Caterpillar de nove toneladas por cima de uma jovem pacifista estadunidense chamada Rachel Corrie, a qual, desarmada e claramente visível com um colete fluorescente, tentava proteger uma casa palestiniana que os israelenses tentavam destruir. O Caterpillar era parte da ajuda regular de Washington a Israel. Tel Aviv exonerou o seu exército de responsabilidade pela morte de Rachel — que foi captada em vídeo pelos seus estupefactos amigos — e o governo de Bush manteve um silêncio covarde.

A mãe aflita de Rachel, Elizabeth, foi a imagem da dignidade. Seus compatriotas, escreveu, "devem perguntar-se como é que um cidadão estadunidense inerme pode ser assassinado com impunidade por um soldado de um país aliado que recebe ajuda vultosa de Washington (...) Quando três estadunidense foram assassinados, aparentemente por palestinianos, numa explosão ocorrida a 15 de Outubro de 2003 (...) em 24 horas o FBI chegou a investigar os factos. Passou mais de um ano, e nem o FBI nem nenhuma outra equipe encabeçada pelos Estados fez nada para investigar a morte de uma estadunidense assassinada por um israelense".

Bem, a resposta é que Bush e seu governo sabem calar-se quando lhes convêm. Foi o que Condoleezza Rice tentou fazer a princípio quando a notificaram para comparecer perante a comissão investigadora do 11 de Setembro. E, graças ao servilismo de muitos repórteres que cobrem a Casa Branca e o Pentágono, o governo tem-na tranquila. Por que, por exemplo, ninguém perguntou sobre Rachel Corrie em nenhuma conferência de imprensa?

Parece que enquanto alguém disser "guerra ao terrorismo" está a salvo de críticas. Nenhum jornalista estadunidense investigou os vínculos entre as "regras de compromisso" do exército israelense — entregues com toda amabilidade às forças estadunidenses por ordens de Sharon — e a conduta do exército de Washington no Iraque. A destruição de casas de "suspeitos", a detenção em massa de iraquianos sem submete-los a julgamento, o encercamento de povoados "hostis" com arames farpados, o bombardeio de zonas civis por helicópteros Apache e tanques na caça de "terroristas" fazem parte do dicionário militar israelense.

Quando o exército israelense sofre baixas nas cidades sitiadas, ou quando o número de civis mortos se torna demasiado vergonhoso para manter o cerco, o exército israelense costuma proclamar uma "suspensão unilateral de operações ofensivas". Assim o fez em 11 ocasiões depois de sitiar Beirute em 1982. E neste sábado, dia 10, o exército estadunidense decretou uma "suspensão unilateral de operações ofensivas" na zona de Fallujah.

Nenhum repórter estadunidense disse uma palavra sobre este misterioso paralelismo nem fez perguntar sobre a ainda mais misteriosa utilização da mesma linguagem. E nos próximos dias há que averiguar quantos dos estimados 300 mortos em Falluja eram pistoleiros sunitas e quantos eram mulheres e crianças. Seguir as regras israelenses vai conduzir os estadunidenses ao mesmo desastre a que essas regras conduziram os israelenses. Mas suponho que calaremos a este respeito.

Afinal de contas, suspeito, os iraquianos provavelmente terão mais a dizer nas eleições presidenciais dos Estados Unidos do que os eleitores desse mesmo país. Eles decidirão se o presidente Bush ganha ou perde. O mesmo se aplica a Tony Blair. É curioso que um povo longínquo, de apenas 26 milhões de habitantes, possa mudar o nosso destino político. Quanto a nós, suponho que o que se espera é que nos calemos.

10 de abril de 2004
A versão em castelhano encontra-se em
http://www.jornada.unam.mx/017a1mun.php?origen=index.html&fly=2


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11/Abr/04