Carta do povo de Faluja a Kofi Annan
Por fim ao bombardeamento da cidade,
impedir o assalto anunciado contra Faluja
por Kassim Abdullsattar al-Jumaily
[*]
À
Sua Excelência Kofi Annan
Secretário-geral das Nações Unidas
Nova York
Faluja, 14 de Outubro de 2004
Excelência:
É mais que evidente que as forças estadunidenses estão a
cometer diariamente crimes de genocídio no Iraque. Neste momento,
enquanto lhe escrevemos, as forças estadunidenses estão a
perpetrar esses crimes na cidade de Faluja. Os aviões de guerra dos EUA
estão a lançar as mais potentes bombas contra a
população civil da cidade, assassinando e ferindo centenas de
pessoas inocentes. Ao mesmo tempo, os seus tanques atacam a cidade com
artilharia pesada. Não foram desenvolvidas acções por
parte da Resistência de Faluja nas últimas semanas porque as
negociações entre os representantes da cidade e o governo
[interino de Ilyad Allawi] avançavam. Nesse clima, os novos
bombardeamentos por parte dos EUA verificaram-se enquanto o povo de Faluja se
dispunha a preparar-se para o jejum do Ramadão. Agora muitos deles
estão presos entre as ruínas das suas casas destruídas e
ninguém os pode ajudar enquanto os combates continuam.
Na noite de 13 de Outubro um só bombardeamento estadunidense destruiu 50
casas com os seus residentes dentro. Será isto um crime de
genocídio ou uma lição sobre a democracia estadunidense?
É óbvio que os estadunidenses estão a executar actos de
terror contra o povo de Faluja por uma só razão: a sua recusa em
aceitar a ocupação.
Sua Excelência e o mundo inteiro sabem muito bem que os estadunidenses e
seus aliados devastaram o nosso país sob o pretexto da ameaça de
armas de destruição maciça. Agora, após toda a
destruição e os assassinatos de milhares de civis, admitiram que
as armas não foram encontradas. Mas nada disseram sobre os crimes que
cometeram. Vão os EUA pagar alguma compensação como se
obrigou o Iraque a fazer após a Guerra do Golfo de 1991?
Al-Zarqawi: um pretexto inventado pelos EUA
Sabemos que vivemos num mundo de critérios duplos. Em Faluja [os
estadunidenses} criaram um novo e vago objectivo: "al-Zarqawi".
Al-Zarqawi não é senão um novo pretexto para justificar os
seus crimes, matando e bombardeando civis todos os dias. Passou-se quase um
ano desde que criaram este novo pretexto e cada vez que destruem casas,
mesquitas, restaurantes e matam crianças e mulheres dizem
"lançámos uma operação com êxito contra
al-Zarqawi". Nunca dirão que o mataram porque tal pessoa
não existe. E isso significa que o assassínio de civis e o
genocídio quotidiano prosseguirá.
O povo de Faluja assegura a V. Exa. que essa pessoa, se existir, não
está em Faluja nem provavelmente em nenhum outro lugar do Iraque. O
povo de Faluja pediu muitas vezes que qualquer pessoa que veja al-Zarqawi lhe
dê a morte. Agora todo o mundo percebeu que este homem não
senão um herói hipotético criado pelos estadunidenses. Ao
mesmo tempo, o representante de Faluja, nosso dirigente tribal, denunciou em
repetidas ocasiões as acções de sequestro e o
assassínio de civis, nós não temos nenhuma
relação com qualquer grupo que se comporte de maneira tão
desumana.
Excelência: Apelamos a si e a todos os dirigentes do mundo para que
exerçam a pressão mais forte possível junto à
administração Bush para que ponha fim aos seus crimes em Faluja e
para que retire o seu exército da cidade. Faluja gozava de
tranquilidade e paz quando saíram. Não fomos testemunhos de
nenhuma desordem na cidade. A administração civil funcionava bem
apesar dos seus limitados recursos. Simplesmente não demos as boas
vindas às forças de ocupação. Esse é o
nosso direito de acordo com a carta das Nações Unidas, com o
Direito Internacional e com as normas da humanidade. Se os estadunidenses
acreditam ao contrário, deveriam abandonar antes as Nações
Unidas e todas as suas agências antes de actuar de modo contrário
à Carta que subscreveram.
É muito urgente que V. Exa., juntamente com os dirigentes mundiais,
intervenha de maneira imediata para prevenir um novo massacre.
Tentámos contactar os vossos representantes no Iraque a fim de
pedir-lhes que sejam mais activos a este respeito mas, como sabe V. Exa.,
estão a viver na "Zona Verde" [de máxima
segurança em Bagdad], onde não podemos aceder. Queremos que as
Nações Unidas tomem partido sobre a situação de
Faluja bem como da de muitas partes do nosso país.
Com os nossos melhores cumprimentos,
Kassim Abdullsattar al-Jumaily
Presidente do Centro de Estudos dos Direitos Humanos e da Democracia
Em nome do povo de Faluja e do:
Conselho da Shura de Al-Faluya
Associação de Sindicatos
Sindicato dos Professores
Conselho dos Dirigentes tribais
Casa da Fatwa e da Educação Religiosa
O original encontra-se em
http://www.nodo50.org/csca/agenda2004/resistencia/faluya_22-10-04.html
Esta carta encontra-se em
http://resistir.info
.
|