A esmagar geleia no Iraque
A prevista ofensiva dos EUA para tomar a cidade iraquiana de Faluja aos
combatentes anti-americanos, prevista há muito, começou. A
resistência encontrada, ainda que dura por vezes, foi muito menor do que
haviam previsto os marines e soldados americanos, coadjuvados pelas
forças iraquianas leais ao governo interino de Iyad Allawi, que se
moveram para o coração de Faluja.
Espera-se que os combates continuem por mais uns poucos dias, mas os
comandantes americanos estão confiantes em que Faluja logo estará
sob o seu controle, preparando o caminho para o estabelecimento da ordem
necessária para as eleições nacionais marcadas
para Janeiro de 2005.
Mas será assim? Os planeadores militares americanos esperavam enfrentar
milhares de combatentes da resistência iraquiana nas ruas de Faluja,
não as centenas que estão actualmente a combater. Eles esperavam
esmagar a rede de Abu Musab al-Zarqawi e seus combatentes islâmicos
estrangeiros, e até à data não encontraram os
líderes de topo daquela organização. Quando as
forças americanas afundam-se em Faluja, os combatentes iraquianos
estão a montar ataques extensos por todo o resto do Iraque.
Longe de confrontar-se numa batalha decisiva contra os combatentes da
resistência, parece que quanto mais os americanos espremem Faluja mais a
violência explode em outros lados. É um exercício de
futilidade, semelhante ao esmagamento de geleia. Quanto mais se tenta
agarrar o problema, mais ele desliza através dos dedos.
Esta espécie de guerra, ainda que frustrante para os soldados e marines
americanos que a travam, é exactamente a luta prevista pela
resistência iraquiana. Eles sabem que não podem suportar
taco-a-taco as forças militares mais poderosas do mundo e pretender
vence-las.
Enquanto a liderança militar americana luta para entender uma
situação que se deteriora a cada dia, os combatentes
anti-ocupação americana continuam a executar um plano de jogo que
foi preparado desde o primeiro dia.
O presidente Bush declarou prematuramente "missão cumprida" em
Maio de 2003. Para os americanos, isto significava que as grandes
operações de combate no Iraque haviam cessado, que
havíamos vencido a guerra. Mas para os iraquianos isto significava
alguma coisa diferente. No Iraque nunca houve um "momento Missouri",
em que o governo se tenha rendido formalmente. O facto é que o governo
de Saddam Hussein nunca se rendeu, e ainda está muito em evidência
no Iraque de hoje na forma da resistência anti-americana.
Enquanto na América estávamos a declarar vitória, o
governo de Saddam estava a planear a sua guerra. As primeiras batalhas foram
combatidas em Março e Abril de 2003. Resistência
simbólica, não engajamento decisivo. Os iraquianos combatiam
apenas o suficiente para estabelecer o princípio da resistência,
mas não o suficiente para desperdiçar os seus recursos.
A partir de Maio de 2003 a resistência cresceu em dimensão e
refinamento. Alguns atribuem isto à incompetência das
políticas de ocupação dos Estados Unidos no
pós-guerra. Se bem que isto certamente tenha sido um factor a facilitar
a
resistência, permanece o facto de que o que está a ocorrer hoje no
Iraque é parte de um plano bem concebido cujo objectivo é
restaurar o Partido Baath no poder. E as políticas da
administração Bush estão a jogá-lo nas suas
mãos.
Os ataques terroristas executados contra as Nações Unidas e
outras organizações internacionais de ajuda tiveram êxito
em afugentar do Iraque os vestígios de envolvimento estrangeiro
com que a administração Bush contava para apresentar uma face
internacional à ocupação conduzida pelos EUA. No caos e
anarquia que se seguiu, os Estados Unidos foram obrigados a utilizar cada vez
mais força numa tentativa de restaurar a ordem, criando uma
situação Catch-22
[NT]
em que quanto mais forças forem usadas mais resistência geramos,
exigindo mais força em resposta.
O ciclo de violência alimentou a resistência, desestabilizando
enormes áreas do Iraque que ainda estão fora do controle do
governo iraquiano e dos militares americanos. Operações
ostensivas em Najf, Sadr City e Samarra pouco fizeram para aguentar estas
cidades.
Hoje, os combatentes no Iraque operam livremente, continuando a sua orgia de
morte e destruição a fim de atrair a inevitável resposta
americana com mão pesada. Faluja é um primeiro exemplo.
Enquanto é improvável que os EUA efectuem um golpe fatal na
resistência iraquiana, estão a ter êxito em arrasar enormes
áreas de Faluja, recordando o lamento da era do Vietnam de que
tínhamos de destruir a aldeia a fim de salvá-la.
As imagens de Faluja somente alimentarão o sentimento anti-americano no
Iraque, permitindo aos combatentes anti-EUA recrutarem dez novos combatentes
para cada recém-cunhado 'mártir' que perdem na actual batalha
contra os americanos.
A batalha por Faluja é suposta ser o campo de provas do novo
Exército Iraquiano. Ao invés disso pode muito bem provar que
é uma pílula fatal. A realidade é que não existe
Exército Iraquiano. Das dezenas de milhares de recrutados para as suas
fileiras, hoje há apenas uma unidade efectiva, o 36º
Batalhão.
Esta unidade combateu lado a lado com os americanos em Faluja, Najaf e Samarra.
Segundo a opinião geral, comportou-se bem. Mas esta unidade só
pode vencer quando opera ao lado do esmagador apoio militar americano. Se
deixada a defender-se por si própria, ela seria massacrada pelos
combatentes da resistência. Pior, esta unidade que aparece como um
símbolo do ideal do novo Exército Americano é realmente a
antítese do que deveria ser o novo Exército Iraquiano.
Apesar de a administração Bush ter suprimido a
formação
de unidades de milícia organizadas de acordo com linhas étnicas e
religiosas, o 36º Batalhão deveria ser reconhecido pelo que
realmente é uma milícia curda, retida pelos militares
americanos porque o restos de Exército Iraquiano é relutante ou
incapaz de efectuar a luta contra os combatentes da resistência iraquiana.
A batalha por Faluja expôs não só a falácia da
estratégia militar americana quanto à confrontação
com a resistência no Iraque como também o esvaziamento do governo
interino de Iyad Allawi, o qual é tão incapaz de construir
qualquer coisa que se assemelhe a militares iraquianos viáveis, capazes
de assegurar a sua posição no Iraque sem apoio militar americano.
Faluja provavelmente marca o princípio de uma fase da guerra do
Iraque muito longa e sangrenta. Nesta fase esburacam-se as forças armadas
americanas sob as ordens da rejuvenescida administração Bush.
Ela quer alcançar a vitória a qualquer custo contra uma
resistência iraquiana que prefere deixar o Iraque afundar
num pântano de morte e destruição a fim de atolar e
finalmente expulsar o ocupante americano.
É uma guerra que os Estados Unidos não podem vencer, e em que
Allawi não pode sobreviver. Infelizmente, uma vez que inquéritos
recentes mostram que uns 70% do povo americano apoiam a guerra no Iraque,
é uma guerra que se alastrará até que mude a
dinâmica da política interna americana, e a maré da
opinião pública se vire contra a guerra.
Tragicamente, isto significa muito mais anos de conflito no Iraque que
resultarão em mais milhares de mortos de ambos os lados,
incompreensível sofrimento para o povo do Iraque, e imprevisível
instabilidade para todo o Médio Oriente.
______
NT-
Expressão que designa uma situação, insolúvel,
em que a causa é o efeito e o efeito é a causa. Exemplo:
Preciso dos meus óculos para encontrar os meus óculos.
[*]
Ex alto inspector de armas da ONU no Iraque no período 1991-1998.
O original encontra-se em
http://english.aljazeera.net/NR/exeres/718AE278-58EE-431F-8045-5A3F505021B8.htm
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info
.
|