O diário
El Tiempo
é o jornal de maior tiragem da Colômbia, ligado aos grupos
económicos da oligarquia daquele país.
Tem defendido o governo de Alvaro Uribe e a sua aliança com o
imperialismo americano. Daí a importância deste editorial.
Algo mais que um escândalo
por
El Tiempo
O escândalo da tortura e humilhação dos prisioneiros
iraquianos na prisão de Abu Ghraib alcançou, internacional e
localmente, proporções descomunais. Desde o massacre de 507 civis
inocentes, perpetrado por tropas estadunidenses na aldeia vietnamita de My Lai
em 1968, não se apresentava diante do mundo um caso que golpeasse de
maneira tão devastadora a imagem e a credibilidade dos Estados Unidos,
deixando na corda bamba o carismático e controverso secretário da
Defesa, Donald Rumsfeld, cuja demissão é hoje pedida por
vários sectores políticos e jornalísticos
norte-americanos.
Mas, em ano eleitoral, o presidente George Bush não se vai desfazer do
seu ministro estrela. Seria como admitir uma derrota e isto não é
fácil a um dirigente a que sobra tanto espirito bélico como lhe
falta o autocrítico. Além disso, não a reclama a maioria
do próprio público norte-americano, que às vezes parece
cego e surdo ante as tropelias que o seu país comete no mundo exterior.
Mas o sucedido na sórdida cadeia de Abu Ghraib desgasta seriamente a
autoridade moral de Rumsfeld, que há meses estava ao corrente destes
abusos e nada disse. Já não poderá falar ao Congresso nem
à imprensa nem à comunidade internacional com a
mesma arrogância de antes. Tão pouco o presidente Bush pode
assumir o ar triunfalista de há um ano atrás. Teve que baixar a
cabeça e moderar as suas agressivas posições unilaterais,
frente às críticas formuladas desde o início na Europa e
nas Nações Unidas contra a invasão do Iraque.
No entanto, nada garante que as posições internacionais mais
conciliadoras da administração Bush, perante o progressivo
afundamento da sua campanha militar no Iraque, nem as desculpas públicas
pelo comportamento dos seus soldados torturadores, possam atenuar o tremendo
dano que sofreu a sua causa bélica. O ocorrido é simplesmente
demolidor para o argumento central (além das célebres armas de
destruição maciça que nunca apareceram) sobre o qual
Washington montou a guerra: a necessidade de levar a democracia, os direitos
humanos e o império da lei a um país amordaçado pela cruel
tirania de Saddam Hussein. O assunto é aínda mais prejudicial
para a credibilidade da sua estratégia, quando veio à luz que os
maus tratos dos prisioneiros não foram uma aberração
isolada na prisão de Abu Ghraib, mas que tem sido prática
sistemática noutras instalações militares no Iraque, no
Afeganistão e em Guantánamo.
Os mais acérrimos adversários dos Estados Unidos não
poderiam imaginar uma forma melhor de desacreditar a sua política
externa. A maneira como foram vexados e humilhados os prisioneiros iraquianos
pisoteia valores íntimos da cultura e da idiossincrasia árabes.
A difusão dessas horripilantes fotografias em todos os meios de
comunicação do mundo é mais grave que muitas derrotas
militares. E representa um retrocesso na influência e credibilidade de
Washington no mundo árabe, que levará anos a recuperar. Comenta a
revista
The Economist
que essas impressionantes imagens, em especial aquela de um homem encapuzado e
cheio de fios eléctricos, como se estivesse pronto para ser
electrocutado, pode converter-se numa imagem emblemática que
perseguirá a consciência americana durante anos e anos, como
sucedeu com aquela famosa fotografia de uma menina vietnamita desnuda, que
corria espavorida por uma estrada depois de um bombardeamento com napalm da
força aérea estadunidense.
As repercussões do sucedido não se limitam, enfim, ao mundo
islâmico. No campo universal dos direitos humanos, no qual os Estados
Unidos quiseram erigir-se como juiz supremo, a perda de autoridade
também é incalculável. Mais ainda quando se revela que a
administração Bush apenas reagiu ante a evidência
irrefutável das fotografias que deram a volta ao mundo, mas não
atendeu ou melhor, desprezou de maneira olímpica as
denúncias que meses antes haviam formulado a Cruz Vermelha
Internacional, a Human Rights Watch e outros organismos humanitários,
sobre a prática da tortura nas prisões do Iraque.
Talvez isto tivesse que suceder. Desde que o governo de George W. Bush,
orientado por ideólogos militaristas como o vice-presidente Dick Cheney
e o secretário da Defesa, Rumsfeld, intimamente vinculados às
grandes corporações económicas desse país, tornou
explícita a sua recusa de qualquer norma do Direito Internacional, e
desde que a forma como Washington conduz a sua guerra contra o terrorismo
começou a violar todas as normas legais e valores éticos pelos
quais é suposto que esteja lutando, um escândalo como o da
prisão de Abu Ghraib estava destinado a estalar.
Ficou, pois, muito abalada a autoridade moral de Washington para exigir, como o
faz periodicamente aos demais países e governos, o respeito dos direitos
humanos, quando as suas próprias tropas contradizem de maneira
tão vergonhosa as lições que nesta matéria pretende
dar à humanidade. Não foi por acaso, que o Departamento de
Estado se absteve de divulgar esta semana o seu relatório anual sobre
direitos humanos no mundo. A dupla moral tem os seus limites, mesmo quando se
trata de uma superpotência.
O original encontra-se em
El Tiempo, de Bogotá. Tradução de Carlos Coutinho.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info
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