Diário de um torturador americano em Bagdad

por Carlos Fresneda

Detido no presídio americano de Abu Ghraib, no Iraque. Aos novos e repugnantes pormenores sobre as torturas no presídio iraquiano de Abu Ghraib acrescentou-se agora a investigação da morte de pelo menos um prisioneiro devido a maus tratos dos soldados americanos. O diário de Ivan Chip Frederick, o sargento que tinha ao seu cargo os 900 presos na antiga masmorra de Saddam, estão a por o Pentágono em apuros.

Frederick, de 37 anos, foi escolhido para tomar as rédeas do presídio de Abu Ghraib devido aos seis anos de experiência que tinha como carcereiro na prisão de Buckingham, na Virgínia.

Os diários do sargento, detido há 82 dias na prisão de Camp Victory, no Iraque, à espera do julgamento de um tribunal marcial, vieram à luz graças ao seu tio William Lawson, que acusa o Pentágono de ter escolhido o seu sobrinho para "bode expiatório". Estes são alguns extractos do diário:

CONDIÇÕES DA PRISÃO

"Obrigavam-se os presos a viverem em celas frias e húmidas. Os IM [membros da Inteligência Militar] mandaram-nos enfiar um preso numa cela de isolamento com pouca ou nenhuma roupa, sem sanitas nem água corrente, sem ventilação nem janelas, até três dias".

"Nessas ocasiões estava presente algum agente do IM e inclusive do CID [Departamento de Investigação Criminal]. Mais ou menos na primeira semana de Janeiro de 2004 esperava-se que o ICRC [Comité Internacional da Cruz Vermelha] visitasse as instalações. Aceleraram-se os processos dos presos que ainda não haviam sido julgados. Falei em particular com o tenente coronel Phillabaum e perguntei-lhe como o IM quer que se façam as coisas e como estavam a ser tratados os presos. A sua resposta foi: "Não se preocupe com isso". Pedi apoio ao batalhão para saber o que fazer quanto à conduta de alguns presos e não consegui nada".

"Havia uns quantos habitáculos dentro das galerias... Muitas vezes ordenavam-me que enfiasse alguém num desses quartinhos, que medem uns 90 por 90 cm. Quando tratei do assunto com o comandante, respondeu-me: "Pouco me importa se tiverem que dormir em pé".

"Os presos eram obrigados a dormir em zonas não adequadas, como tendas nas quais havia entrado chuva, apenas com duas ou três mantas para se protegerem da intempérie. A um preso que se via ser um doente mental dispararam com projécteis não letais por estar próximo à grade, quando poderia ter sido usado um meio de coacção menos duro".

UTILIZAÇÃO DE CÃES

"Os IM nos animaram e disseram que estamos a fazer um grande trabalho, e que agora estavam a conseguir resultados positivos e informação. O CID esteve presente quando se utilizaram os cães de trabalho do Exército para intimidar os presos, a pedido do IM. Um agente do CID disse ao soldado do pavilhão A1 que apertasse um preso todo o possível, pois queria falar com ele no dia seguinte. Em 18 de Janeiro de 2004 houve um preso rebelde com um braço partido. Fizeram ao preso uma chave de cabeça e afogaram-no [até deixá-lo inconsciente] na presença da equipe dos agentes do CID".

MORTE DE UM DETIDO

"Por volta de Novembro trouxeram ao 1A um preso OGA. Apertaram-no tanto que o homem morreu. Puseram o corpo numa bolsa para cadáveres e mantiveram-no no gelo por umas 24 horas no duche do 1B. No dia seguinte veio o médico e colocou-o numa maca, pôs-lhe um IV [identidade] falso no braço e levou-o. Este OGA não chegou a ser julgado e portanto não tinha número".

INSTALAÇÕES SANITÁRIAS

"Havia uma grande praga de piolhos entre os presos. A única solução eram os aparelhos de fazer a barba".

"Presos infectados pela tuberculose foram alojados na mesma galeria que os demais prisioneiros e... os soldados possivelmente seriam infectados por este vírus, que se propaga no ar".

LIBERDADE RELIGIOSA

"Os presos têm uma mesquita no recinto, mas não se lhes permite comparecer à mesma".

O sargento alega que nem ele nem seus homens receberam adestramento especial quanto ao trato dos prisioneiros de guerra. A primeira vez que teve acesso à Convenção de Genebra foi meses depois, uma vez detido, através da Internet. A mulher do sargento Frederick, Martha, também decidiu romper o silêncio e apontar o seu dedo acusador aos comandos superiores: "Tenho a sensação de que estão a ocultar algo e que estão a fazer todo o possível para despejar todo o peso do que aconteceu sobre os ombros do meu marido".

Desde que o detiveram, junto com outros cinco militares acusados de crueldade e maus tratos (ainda que o número de implicados ascenda a 17), Frederick não pode entrevistar-se pessoalmente com o seu advogado, Gary Myers, com quem falou só pelo telefone. "Posso assegurar-lhes que o sargento Frederick não tinha nenhuma ideia sobre como humilhar os árabes até que se encontrou com militares de alta patente que o ensinaram como", declarou Myers.

O sargento Frederick começou a escrever o seu diário em Janeiro último, quando os altos comando do Exército no Iraque puderam ver as fotos que agora deram a volta ao mundo e decidiram iniciar a sua própria investigação. Frederick considerou conveniente guardar um registo de tudo o que aconteceu na prisão para guardas as costas, se fosse o caso. Curiosamente, e apesar de muitos dos pormenores dos diários de Frederick terem sido divulgados nos Estados Unidos pela agência AP, a imprensa norte-americana não divulgou a história e limitou-se a registar a "indignação internacional" provocada pelas imagens dos soldados a humilharem os prisioneiros iraquianos.

Nem um só congressista, seja republicano ou democrata, exigiu a abertura de um inquérito parlamentar ao acontecido na prisão de Abu Ghraib, a mesma na qual Saddam tinha suas câmaras de tortura. O Pentágono informou que a investigação militar continua a tramitar, que os responsáveis serão julgados por um tribunal marcial e que o general Geoffrey Miller, o mesmo que teve a seu cargo os prisioneiros de Guantanamo, assumiu o comando temporário dos cárceres do Iraque.

O candidato democrata John Kerrey exprimiu o seu "mal estar pelo tratamento vergonhoso dos prisioneiros iraquianos" e acabou por concluir: "Mas não podemos permitir que as acções de uns poucos ensombrem o tremendo e bom trabalho que milhares de soldados estão a fazer no Iraque e em outros lugares do mundo".

O original encontra-se em http://www.rebelion.org/imperio/040503cf.htm

Este artigo encontra-se em http://resistir.info .

05/Mai/04