Teoria da violência: Colocação em cena
por Georges Labica
[*]
Pois todas as vezes que eu falo é preciso que grite.
Que grite à violência e à opressão
Jeremias
Nossa época banha-se na violência. Banhamo-nos na
violência. A própria palavra é talvez a mais obcecante e a
mais arraigada nos nossos discursos e nos nossos escritos. Denuncia-se as
violências. Acusa-se de violências. Defende-se de ser violento.
Queixa-se de violências. "A violência torna-me doente e
contudo tornou-se a ordem natural do mundo"
[1]
. Isto vale para os indivíduos, de todas as idades e de toda qualidade,
para os grupos, para as nações, para as etnias, para as
religiões, para as filosofias e as ideologias. Nenhum
maniqueísmo ali encontra lugar, pois não é nunca de
sentido único, ao contrário pois todas as misturas são
possíveis e praticadas com audácia: num dia, denuncia-se, em
outro se é acusado, em outro ainda se defende, o maldizente pode ser, ao
mesmo tempo, o culpável e o que protesta, inocenta-se aquele que se
incriminou, enegrece-se aquele que se branqueou, invoca-se a sua boa fé
e faz-se a sua autocrítica... Continua verdadeiro entretanto, como o
foi desde a noite dos tempos, que se impõe o veredicto do mais forte. A
palavra pode ser dada ao acusado, como se diz no tribunal, mas é na
verdade o único privilégio que ele dispõe, e na medida em
que ele dispõe, o acusador possui os meios para a sanção,
os quais ele não pretende dispensar. "Conforme você seja
poderoso ou miserável...". Mas o que é esta violência
e em que redes capturá-la? Proteiforme, ela tem a arte de deslizar, sob
as três aparência em que se dá a ver.
Ela é
profusa
e mesmo superabundante. Ela engloba tanto as formas clássicas de
criminalidade e de delinquência como aquelas que surgem constantemente
nas nossas sociedades de mercantilização e de desigualdades, aos
quais ela não está absolutamente limitada uma vez que não
poderia fazer abstracção dos conflitos armados, guerras,
massacres e guerrilhas, antigas e modernas, elas também confundidas sob
uma única denominação, e que se deve tomar em conta,
juntamente com os aspectos físicos, os aspectos morais e
psicológicos que, por serem menos visíveis, não são
de menos gravidade.
Ela é
difusa.
Ela infiltra todos os sectores da vida social: urbana, rural, escolar,
conjugal, carcerária, empresarial, comercial, financeira, institucional,
militar, policial, diplomática... Suas maneiras desafiam o
recenseamento: injúrias verbais, ameaças gestuais,
perseguições morais, pancadas, agressões, golpes,
arrombamentos, vigarices, malversação, roubos, sevícias,
violações, ferimentos, mutilações, torturas,
assassínios ... Nestes diferentes registos desdobra-se toda uma gama de
comportamentos onde intervêm os indivíduos, os grupos
(associações ou gangs), as multidões, os exércitos,
mesmo os povos, para não mencionar os instrumentos, não importa
qual objecto podendo servir para cometer um acto violento.
Em consequência, a violência é
confusa.
É insustentável a aposta de pensar e definir sob este
único termo situações tão dissemelhantes e por
vezes contraditórias como violências ordinárias e
violências extraordinárias (quem decide?)
[2]
, pequenos delitos e crimes de sangue, violências contra as pessoas,
contra os bens e contra a natureza, violências contra outro e contra si,
violências premeditadas e violências sofridas, violências
deliberadas e legítima defesa, violências de Estado e
violências civis, violências humanas e violências naturais,
violências legais e ilegalismos, violências conservadoras e
violências revolucionárias... Os códigos penais perdem-se
na casuística, os tribunais são a sede das embrulhadas
procedimentais e as jurisprudências acumulam infindavelmente as
decisões controvertidas. O que dizer da lista sempre incompleta dos
sistemas políticos, das filosofias e das ideologias, estipendiados para
a sua violência intrínseca, todos estes ismos de fascismo,
nazismo, totalitarismo, colonialismo, stalinismo, maoismo, capitalismo,
islamismo, imperialismo, racismo, etc e por que não a política em
pessoa? Existem, além disso, violências consideradas não
só como subtraídas a toda sanção como dignas de
elogio e de reconhecimento: as condecorações dos
heróis
de guerra medem-se pelo número de homicídios que cometeram...
para a salvação da pátria. Pode-se falar de
violências salutares? Para a prisão, com o seu mito da
reinserção, não. Para o colonialismo, exportador da
civilização
[3]
, tão pouco. E para a boa pequena palmada de
outrora? Paradoxo de hoje: empanturra-se a primeira, reabilita-se a segunda e
proscreve-se a última. Restaria o desporto, mas sem anfetaminas, nem
EPO...
[NT 1]
Há por fim violências apreciadas como não violentas. O
gesto do cirurgião a cortar um esterno ao extrair um
coração a fim de repará-lo não é diferente
daquele do
padre azteca a mergulhar a sua faca de obsidiana no peito do sacrificado,
entretanto, e não é devido à anestesia, eles nada
têm a ver um com o outro. Em contraste com a crueza, não
há quem se conforte a evocar a "doce violência"?
[4]
A violência de hoje é pior do que aquela de ontem? A
questão é debatida, mas ela é relativa ao domínio
encarado, conforme se trate da criminalidade e das violências
físicas ou se considere as hecatombes dos conflitos mundiais e das
repressões em massa, magnificadas em relação ao
número mais pequeno das vítimas dos afrontamentos localizados e
incessantes. A estimativa global ao longo dos últimos 50 anos
elevar-se-ia a 60 milhões de mortos, feridos e inválidos, fazendo
do século XX, e do XXI, não tão mal iniciado, o
século por excelência das matanças em massa. Uma
constatação tende a corroborar este julgamento, saber, como se
salientou, que faz apenas precisamente um meio século que a
violência "em si mesma" é tomada a sério
[5]
e é objecto de estudos específicos, quando não figurava
na maior parte dos dicionários de especialidade. O facto de que, nas
nossas sociedades, as violências sejam melhor conhecidas graças
às declarações e à apresentação de
queixas das vítimas (violações, incestos), aos
inquéritos e às estatísticas oficias, nacionais e
internacionais e de modo geral aos meios de informação,
não muda grande coisa a uma tal constatação.
Alguém poderia mesmo confortar-se com a multiplicação dos
especialistas e dos peritos em violência: investigadores em
ciências humanas e sociais, dos psicólogos aos historiadores,
corpos médicos, psiquiatras e analistas, criminólogos,
agressólogos, acidentólogos e vitimólogos, professores do
ensino secundário, forças de polícia, religiosos de todas
as
categorias e obediências, agentes sociais diversos, desde os assistentes
sociais aos conselheiros conjugais e
"grands frères"
[NT 2]
das cidades até os astrólogos e outros mágicos. Grandes
testemunhos reflectiram esta miséria agravada, tais como
Nord
ou
Rigodon
de Céline, ou
L'Acacia
de Claude Simon.
Acrescentemos que o nosso tempo gratificou-nos com algumas novas malfeitorias:
a importunação no trabalho, diferente da
importunação sexual, o terrorismo em massa, diferente do terror
simples, evitando omitir a info-com, que condiciona a opinião
pública e domestica as consciências. Por conseguinte, é
vão perguntar se a violência "aumenta", ela já
aumentou, profusa, difusa e confusa. Aquilo que a aumenta, a acompanha e a
desmultiplica até à náusea, é
a palavra
confundida com os bombardeamentos político-mediáticos,
empregados para alimentar constantemente medos, fantasmas e desejos de
segurança
[6]
. A representação tão pouco é inocente. Em uma
trintena de anos a arrogância apoderou-se dos domínios do
assassínio e do sexo, o romance e o cinema levaram-nos aos limites
extremos, não há
thriller,
por exemplo, sem "cena de crime" e "de cu", impostas aos
escritores e aos realizadores. Ora, seria muito estranho que não se
encontrasse aí algum reflexo da nossa sociedade.
A existência (e a indefinibilidade) da violência, sabe-se,
não data de ontem. Ela é extensiva à
aparição da raça humana. Ela lhe é, de certa
forma, congénita e irremediavelmente inscrita na sua natureza, sob a
forma da pulsão (instinto) agressiva. Era preciso que os nossos mais
longínquos ancestrais tivessem a capacidade de se defender no universo
hostil que era o seu. Eis porque, no neolítico, com o advento da
civilização, a violência passou a ser considerada como
profundamente nefasta para o corpo social, cujo contrato fundador tinha como
função essencial mantê-la à margem, na
impossibilidade de eliminá-la totalmente. A fim de evitar o
arbitrário do direito dos mais fortes, os políticos
esforçaram-se por preservá-la, reservando-a a representantes
devidamente mandatados. Ela assim foi medida segundo os critérios do
permitido e do proibido, do legítimo e do usurpado, do junto e do
injusto. As religiões, por sua vez, ostracizaram-na, sempre pondo de
parte os casos de excepção: não era necessário
defender o seu país e conquistar um pouco para além dele, impor
bons pensamentos e castigar os sacrílegos, ateus ou cépticos, por
exemplo? A força distinguia-se da violência, ao ponto de ser a
muralha. Ela estava ao serviço do Bem, a violência do Mal, duas
categorias que iriam assegurar a infatigável fortuna das
teodicéias, teológicas e metafísicas. O temor da desordem
e da anarquia, o medo concretamente obcecante da destruição e da
morte, das ruínas e do sangue, perfeitamente fundamentados, punham nos
píncaros os antídotos do Amor, da Fraternidade e da Paz, e
despertavam os sonhos de ilhas afortunadas que se gostaria de encontrar ou
às quais se desejaria abordar. As doutrinas da
não-violência apresentavam-se por fim e afirmavam poder resolver
os problemas da violência por meios que não a implicariam e cuja
ambição era mantê-la afastada. Frouxo, o inferno e o
paraíso esqueçamos a custódia do purgatório
transpunham
post mortem
a violência e a paz. O além não seria melhor do que aqui
em baixo: o castigo e a recompensa, para uns as chamas, para outros
mulheres
voluptuosas
(houris).
Não se podia imaginar a comutação radical de uma
humanidade reconciliada? Qual religião o teria desejado?
Em resumo, a violência, com um V, não existe. Ela está
tão estilhaçada quanto um puzzle que não se pudesse reunir
as peças. Não é verdade tão pouco que todas as
violências sejam equivalente e não só pelas razões
jurídicas da avaliação do delito e da
sanção, do crime e do castigo. Há grandes
violências e menores, importantes e derivadas: não se pode por no
mesmo plano o furto de uma mãe para alimentar seu filho e o mercador de
sono, que num hotel podre espolia seus "locatários"; mas
acontece que a primeira é punida mais severamente que a segunda; e o
arrombamento de uma residência secundária por alguns jovens
delinquentes (bem ditos "primários"), comparado aos
non lieux
[NT 3]
ou às suspensões de complacência em favor de
prevaricadores eleitos e de altos responsáveis assaltantes de fundos
públicos? O que é a criminalidade ordinária, inclusive
aquela de sangue, em relação a actividades de máfias?
Mais ainda, há sem dúvida uma hierarquia dentre as
violências. Citemos aquela que Helder Câmara propôs:
"A mãe de todas as violências confunde-se com as
injustiças dos países desenvolvidos em relação aos
povos em vias de desenvolvimento e dos ricos contra os pobres. Qual é
a primeira violência que engendra a reacção dos pobres e
dos países subdesenvolvidos, senão uma violência provocada,
em caso algum mais culpável que a outra? A terceira das
violências é a repressão pela qual os governos e os
países ricos procuram esmagar a violência anterior. Esta
violência é injusta ou, pelo menos, errónea pois não
tende a suprimir a causa e sim o efeito. Porque é uma violência
ao serviço de uma outra violência, a única ou a primeira
que deveria ser extirpada, a violência da injustiça"
[7]
. Ou seja, três violências: a básica, a reactiva e a
repressiva. Nós as reencontraremos.
Após um percurso que atravessa notáveis relatos de
violência, tomados à nossa tradição cultural, e que
me pareceram possuir a força dos paradigmas (capítulos I, II,
III), após um recenseamento dos significados que autorizam uma
confrontação histórica (capítulo IV), e não
sem ter longamente rastreado significados (capítulo V) e
antónimos (capítulos VII e VIII) parei na tese geral, que em
primeiro lugar levou-me a correlacionar violência e sofrimento, poucas
das violências parecem escapar a uma dependência da dor e do
tormento, enquanto esta última permitia estabelecer a sequência
violência 1 / sofrimento / violência 2,
que convinha à
compreensão tanto da criminalidade visível quanto da
criminalidade escondida (capítulo VI). Esta distinção,
por sua vez, apoiada numa análise do poder (capítulo IX),
resultava em por à luz, na violência
estrutural
ou
sistémica,
um verdadeiro embasamento das violências, pelo menos à escala da
nossa época (capítulo X). Portanto, tornava-se possível
formular uma resposta à anatematização sem recurso da
Violência e encarar os meios de combater uma situação da
qual se pode dizer: "Todos os homens nascem livres e iguais em direito,
à excepção da maioria dentre eles"
[8]
(Conclusão).
Para esta finalidade, vasculhei amplamente o material disponível, o que
equivalia a confrontar-me com a dupla e inultrapassável dificuldade de
enfrentar uma literatura ligada essencialmente à expressão e
à descrição das formas da violência, que
praticamente se confundia com a história humana, e que portanto eu me
achava constrangido a reduzir a escolhas arbitrárias, e, só para
o período contemporâneo, a enfrentar fontes, não unicamente
bibliográficas, a cada dia um pouco mais indomináveis, tomando
como objecto a violência em pessoa, e condenando-me às estreitas
fronteiras do meu próprio território. Acreditei por fim que meu
interesse já antigo (15, 20, 25 anos?) pelas questões ligadas
à violência autorizava-me a propor um balanço sob a forma
desta
Teoria da violência.
Notas
1- Cf. Imre Kertész,
Roman policier
, Arles Actes Sud, 2OO6, p. 44.
2- E mesmo imaginários, logorréicos e artificiais. Por
exemplo, esta declaração de uma personagem política,
após alguns infortúnios ridículos: "Dominique
de Villepin": "Para os meus próximos, é uma
verdadeira violência.
É o que há de mais doloroso. Desejaria tudo fazer para
protegê-los contra esta crueldade" (
Paris-Match,
Junho 2006).
3- Eis o que dizia Clémenceau respondendo a Jules Ferry, aquando de um
debate na Câmara em Julho de 1885: "Olhe a história da
conquista destes povos que dizeis bárbaros e vereis a violência,
todos os crimes desencadeados, a opressão, o sangue a jorrar aos
borbotões, o fraco oprimido, tiranizado pelo vencedor (...) Quantos
crimes atrozes, horrendos, foram cometido em nome da justiça e da
civilização" (citado por Henri Cartier,
Comment la France "civilise" ses colonies,
Paris, Les Nuits rouges éd., 2006, p. 5.
4- Por exemplo, Philippe Carles fala da "doce violência, não
violenta" para evocar o estilo do tenor saxofonista Harold Land (
Dictionnaire du jazz
, Paris Robert Laffont éd., 1988) ; Louis Calaferte, por sua vez,
escreve "
sob a violência mole dos Verões" (
Terre céleste
, Paris, Tarabuste éd., 1999, p.85).
5- Cf. Hannah Arendt,
Du mensonge à la violence
, Paris, Calmann-Lévy, 1972, p. 111, note.
6- O clima assim criado não deixa de ter efeitos, mesmo que sejam
difíceis de determinar, em particular nos espíritos
frágeis. "Uma criança americana, ao sair do
secundário, relata Yves Michaud, terá visto algo como 100 mil
actos de violência televisada" (
La Violence
, Paris, PUF, 1986, p. 87). Um relatório enviado ao ministro da Cultura
propunha, em Novembro de 2002, "a interdição absoluta"
da violência na televisão entre as 06h30 e as 22h30.
7 Cf. Leonardo Boff,
Giovanni Paolo II, il grande restauratore,
in
http://www.giovaniemissione.it/
.aprile 2005, citado por Edio Vallini,
Note sulla teologia della liberazione,
apud
Marxismo Oggi,
2005/3, p. 24.
8- Cf. Yves Paccalet,
L'humanité disparaîtra, bon débarras !
, Paris, Arthaud, 2006, p. 76.
Notas do tradutor
NT 1- EPO: abreviatura de eritropoietina, hormona de natureza
glicoprotéica utilizada no doping.
NT 2- Grands frères: Agentes de prevenção e
mediação social, geralmente contratados por empresas de
transportes para dirimir conflitos e reduzir actos de vandalismo.
NT 3- Non lieux: Decisão jurídica pela qual se declara que
não há lugar para continuar um processo.
[*]
Georges Labica (Toulon, 1930), professor emérito das Universidades.
Ensinou filosofia política e a história e a teoria do marxismo na
Universidade de Paris-X Nanterre.
O presente texto é a introdução de "La théorie
de la
violence", a ser publicado pela
Librairie Philosophique J. Vrin
, Paris, 2008, 265 pgs., ISBN 9782711643516. Tradução de
JF.
O livro é constituído pelos seguintes capítulos:
Introdução,
I- Do lado do Livro de Job,
II- Do lado do martírio,
III- Do lado da demência,
IV- Ontem e hoje,
V- À procura do sentido,
VI- Do sofrimento,
VII- Da-violência,
VIII- Da não-violência,
IX- Do poder,
X- Do sistema,
Conclusão, Resistências
Este ensaio encontra-se em
http://resistir.info/
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