Permitam-me que, em primeiro lugar, felicite os organizadores deste encontro
internacional, em especial os responsáveis do sítio web
resistir.info e os amigos das Câmaras Municipais de Serpa e de Moura,
por terem ousado tomar a iniciativa de um encontro como este, apesar de todas
as dificuldades, e de terem sabido resolver tão bem todos os problemas
daí decorrentes. Uma vez mais, obrigado.
O tema deste encontro, "Civilização ou
Barbárie", está no centro das interrogações do
presente. Embora milhões de pessoas não tenham, ainda, uma clara
consciência do que está em curso neste imenso enfrentamento que,
contra a maioria esmagadora dos povos, põe frente-a-frente uma minoria
de poderosos, ávidos de impor o seu domínio universal, cada dia
que passa reforça-se o sentimento geral de que o mundo se encontra,
hoje, numa angustiante encruzilhada de caminhos.
Estaremos condenados, como pretendem os porta-vozes do capitalismo, a sofrer a
lógica implacável de um sistema, cuja motivação
é, antes de mais, o lucro egoísta, com todas as suas
terríveis e bárbaras consequências, ou teremos a
força e os meios para nos libertamos? Sabe-se que, a esta pergunta
fundamental, alguns já responderam não haver outro sistema
viável, a não ser o capitalista, e a queda da URSS trouxe a prova
da solidez e da durabilidade do seu reino. Um reino que eles se esquecem de
dizer ser o da exploração e da opressão, que gera e
propaga a fome, o desemprego, a ignorância, as doenças, a
poluição universal, as guerras permanentes e cujo resultado
será a destruição de todos os valores da
civilização e da própria humanidade.
Não se trata apenas da visão apocalíptica de algumas
Cassandras modernas que se dão por vencidas, desesperadas com o
desmoronar do magnífico sonho que vinha na esteira da
Revolução de Outubro, mas também da conclusão a que
chegam certos espíritos, apartados da reflexão e da
acção revolucionárias. Em pânico com o rumo do mundo
e o balanço que fazem das ameaças catastróficas que sobre
ele pesam, alguns vão ao ponto de encarar a perspectiva do seu
aniquilamento, não apenas como uma possibilidade, mas como a grande
probabilidade, sem, contudo, explicarem as razões disso e sem
considerarem que uma outra via é possível para inverter estas
sinistras previsões.
Num livro recente, intitulado
Introdução ao Século das Ameaças,
um deles, Jacques Blamont, membro da Academia das Ciências e
especialista francês em investigação espacial, traça
um quadro negro do futuro. Permitam-me apresentar uma passagem, citada
recentemente por um semanário parisiense. Eis o que se pode ler
aí:
"Os próximos cinquenta anos verão as tensões, as
doenças, as penúrias exacerbarem-se e nós já
não temos tempo para desenvolver novas opções, novos
medicamentos, novas regras de jogo... Um acontecimento de amplitude
comparável ao da peste negra, isto é, a redução da
população mundial a um terço, parece a consequência
inevitável da nossa gestão dos recursos planetários... O
mundo foi avisado de que tem de morrer, mas não acredita."
O autor prossegue na enumeração das inquietantes
interrogações que se perfilam no horizonte: Como alimentar os 9
mil milhões de seres humanos que, em breve, povoarão a terra?
Como irão sobreviver aqueles que, por volta de 2050, se
amontoarão em gigantescas metrópoles e representarão 80%
da população mundial?
Seria ilusório crer que, como nota o autor, os milhares de
milhões de pessoas, cujas condições de vida não
cessam de piorar e que, hoje, subsistem com menos de um dólar por dia,
"prisioneiras de uma condição que lhes deixa a
violência como única arma", aceitarão, eternamente, a
sorte que lhes está reservada. Mas esta mesma "futurologia",
que tem em conta as teses de Huntington sobre o "choque das
civilizações", evita apontar os culpados e pôr em
causa as razões profundas do fracasso de uma sociedade que desemboca num
tempo de guerra sem fim. Será que os estrategas dos Estados Unidos
não programaram já, como revelava uma publicação
americana muito séria,
Covert Action,
após as agressões contra o Afeganistão e o Iraque, uns
sessenta outros conflitos, grandes e pequenos, que eles pretendem desencadear,
"para segurança da América", nos anos a vir,
além daqueles em que já estão empenhados indirectamente
contra os palestinianos e outros povos da América Latina e de
África?
Que se pode, então, fazer para impedir esta marcha aparentemente
inelutável para o abismo? Não é preciso ser-se economista
sábio ou sociólogo avisado para dizer donde vem o mal. As causas
tornam-se cada vez mais evidentes aos olhos de todos. A raiz do problema
e já não são apenas os comunistas a dizê-lo
está no próprio capitalismo, cuja única regra e
única moral, desde a época em que nasceu "na lama e no
sangue", continua a ser a lei do lucro.
Após a eliminação da União Soviética da cena
mundial e o acesso do seu país à posição de
superpotência única, os dirigentes americanos afirmam, com
arrogância, a sua vontade de domínio universal e de
apropriação das riquezas essenciais (em particular, os
hidrocarbonetos) dos países que cobiçam. Para se assenhorearem
delas, não recuam perante qualquer hipocrisia, perante qualquer mentira,
para tentarem justificar-se, e é em nome da "luta contra o
terrorismo" e pelo alargamento do que eles chamam "democracia",
que não é outra coisa senão a ditadura deles, que se
arrogam o direito de intervir em todo o lado.
A sua incrível ausência de consciência moral, a sua
determinação em usar os meios mais extremos para atingir os seus
fins seja qual for a selvajaria e as terríveis
consequências foram involuntariamente postas a claro por Madeleine
Albright, então secretária de Estado do Presidente Clinton,
quando interrogada pelo canal americano CBS acerca das consequências do
bloqueio ao Iraque no destino das crianças do país.
"Soubemos, disse-lhe o jornalista, que meio milhão de
crianças morreram em consequência do bloqueio ao Iraque. É
mais do que Hiroshima e a senhora sabe isso. Será que valeu a
pena?" A resposta da senhora Albright, que merecia ficar registada nos
anais, pois, mais que os longos discursos, é elucidativa do grau de
perversão a que chegaram os dirigentes de um país que pretende
dar ao mundo lições de humanismo e de respeito pelos direitos do
Homem: "Foi uma escolha difícil disse ela mas
pensamos que o preço a pagar valia a pena...".
"O preço a pagar"? Apenas a vida de 500 000 crianças!
E a pagar para quê? Para a apropriação, em
benefício de multimilionários, de novos recursos
petrolíferos, para assegurar o seu domínio de regiões
inteiras de países situados a milhares de quilómetros das costas
americanas, para defender e manter o mais possível uma
situação que confina centenas de milhares de pessoas na
miséria e no subdesenvolvimento, para impedir que povos acedam a uma
plena soberania e avancem na via do progresso social.
Certamente que, aos olhos daqueles que reinam em Washington, "isso valia a
pena", como "vale a pena" bombardear cidades desprotegidas,
massacrar dezenas de milhares de civis desarmados, destruir um país
inteiro, as suas casas, as suas escolas, os seus hospitais, submeter aos mais
horríveis e degradantes suplícios os patriotas revoltados com a
ocupação do seu país. "Valia a pena", pois essa
é a lógica necessária de um Estado que pretende defender a
civilização contra todos aqueles que "baptiza",
uniformemente, com o nome de "terroristas", quando, pelas suas
sangrentas agressões, multiplicadas contra os povos, ele é que
merecia bem mais justamente esse qualificativo.
Ao fazer a crítica feroz do capitalismo, Berthold Brecht põe em
cena personagens, gângsteres e polícias, que servem com o mesmo
zelo a sociedade de patifes a que pertencem. Já não se sabe
muito bem quem é quem, dado que tanto uns como outros estão
associados nos mesmos tráficos e parecem-se muito no seu comportamento.
Uma vez mais, a realidade ultrapassa a ficção, como mostra um
caso conhecido, que é bom recordar, de tal maneira ele é
simbólico. É o do actual vice-presidente americano Richard
Cheney que, de 1993 a 2000, foi presidente do conselho de
administração de uma das maiores empresas de
construção, a Halliburton. Sendo, actualmente, adjunto, ao mesmo
tempo que conselheiro muito ouvido de George W. Bush, Cheney não se
esqueceu, muito pelo contrário, daquela firma, cujos interesses
continuam, evidentemente, a ser-lhe muito próximos. Foi assim que essa
empresa conseguiu obter sem concurso público um contrato
de 7 mil milhões de dólares para a reconstrução, no
Iraque, de diversos locais devastados pela guerra. Não se sabe ao certo
se Cheney apontou de antemão, aos chefes militares americanos, as
construções e instalações que pretendia ver
destruídas prioritariamente, para que o rendimento financeiro fosse
maior. Mas por que razão não o havia de fazer? Massacrem,
queimem, destruam tudo! A Halliburton com o apoio de Cheney e por
alguns milhares de milhões de dólares que irão para os
seus bolsos encarregar-se-á de reconstruir. Negócio
é negócio! Tudo o que é bom para a Halliburton e para
Cheney é bom para a América e, portanto, bom para o mundo
"globalizado" que Bush e os seus querem.
Assim, haverá outras guerras para deitar a mão a outras riquezas
petrolíferas e a outros pontos estratégicos, para destruir outras
cidades com as suas populações, outras pontes, outros aeroportos,
outras linhas de caminho-de-ferro, outras estradas, outros hospitais, outras
escolas, outros locais de cultura milenar, a fim de arrecadar outros lucros.
E, porquê parar, depois da guerra do Iraque, quando se está em
tão bom caminho?
Em Washington, essa questão nem se levanta. Nem do lado dos dirigentes
republicanos, nem do lado dos democratas, pois uns e outros são os
gestores do mesmo sistema. Apesar das diferenças de forma e de
linguagem, no fundo, eles representam os mesmos interesses, o mesmo projecto de
impor o domínio político, económico e cultural dos Estados
Unidos a todo o mundo, com a consequente acentuação de todos os
males que caracterizam um sistema abalado por crises repetidas e minado por
insuperáveis contradições.
Mas, então, que fazer? A resposta que junta os defensores interessados
do sistema e, simultaneamente, os ideólogos que, como aquele que
já citei, constatam o desastre mas não encaram que possa haver
uma solução, é a de que não há nada a fazer.
Para os primeiros, como proclama um dos seus teóricos oficiais, o
sistema capitalista é o resultado acabado da marcha da História e
está provado que não pode haver outro. Para os segundos, o mundo
está condenado à ruína e à destruição
e é inútil recusar ver a realidade de frente. A única
coisa ainda possível é retardar o mais possível a sua
falência inevitável e, para isso, prepararmo-nos, armando-nos
até aos dentes, para o combate contra os principais perigos, designados
como islamismo e "terrorismo". Assim, é desejável, diz
o autor citado, que os governantes franceses, compreendendo finalmente a
situação, desenvolvam, como fazem os dos Estados Unidos, uma
política intensiva de rearmamento.
Não haveria, pois, para os povos, nenhuma outra perspectiva senão
a de se submeterem à ditadura dos imperialistas americanos e de
aceitarem um mundo de desigualdades e opressão reforçada, de que
eles são os campeões. Um mundo onde se afirmam, cada vez mais
visíveis e insuportáveis, os contrastes e a
oposição entre pobres e ricos, entre explorados e exploradores,
entre fracos e poderosos.
Os senhores do momento, confiantes nas suas armas supersofisticadas, no seu
poderio financeiro, na sua formidável capacidade de
corrupção, querem dar de si uma imagem de invencibilidade, que os
seus meios de comunicação, jornais, rádios e
televisões, se esforçam por consolidar quotidianamente, para
convencer o mundo de que é inútil opormo-nos a eles.
As ignomínias de que são culpados os seus soldados, as
violações, que eles multiplicam, das convenções
internacionais, só podem servir, ao fim e ao cabo, a sua causa.
É o que pensam, apesar de tudo, os estrategas do Pentágono. Pois
o horror dos crimes cometidos, mesmo que a sua revelação seja
provisoriamente incómoda, deve provar a força da sua
determinação e constituir uma advertência para aqueles que
não aceitam a sua lei. É o mesmo raciocínio que os
inspirava no Vietname e guiava, também, os colonialistas franceses na
Argélia. Sabe-se, também, como, nos dois casos, a despeito do
seu formidável poder de fogo, da sua superioridade técnica e
financeira, do seu enquadramento ministrado em escolas especializadas para
fazer a guerra sem problemas morais, os imperialistas sofreram derrotas
contundentes por parte de povos sem meios, mas invencíveis pela
indomável vontade de independência e de liberdade que os exaltava.
No começo desses mesmos conflitos, os agressores proclamavam igualmente
a sua certeza numa vitória rápida. "Os poucos bandos de
rebeldes argelinos serão rapidamente aniquilados" prometiam
os chefes civis e militares franceses. Mas a guerra, com os seus massacres, os
seus horrores, as suas centenas de milhares de mortos, os seus milhares de
aldeias destruídas, durou mais de sete anos, para acabar na
vitória da Argélia.
"O trabalho será feito rapidamente e os boys
regressarão depressa ao país" proclamavam George Bush
e os seus, no início da guerra contra o Iraque. É sabido o que
acontece. Não passa um dia sem que os ataques desencadeados contra os
mercenários americanos e seus aliados não se saldem com novas
baixas nas suas fileiras, sem que novas acções de patriotas
testemunhem, espectacularmente, a inquebrantável vontade dos iraquianos
de prosseguir a luta pela libertação, apesar da
traição de alguns e dos multiplicados esforços para os
dividir e desfigurar o seu empenhamento.
Revelam-se, assim, aos olhos do mundo inteiro, os limites das possibilidades
dos agressores imperialistas. Como para todos aqueles que, no decurso da
História, fixaram como objectivo sujeitar o mundo e se embriagaram com o
seu próprio poderio, ao ponto de acreditarem que podiam, com uma
política de terror e de exterminação generalizada,
assegurar a sua vitória, virá um dia em que terão de se
capacitar de que a resistência inflexível dos povos pode ser mais
forte que eles.
Faltam, sem dúvida, ainda muito tempo, muitos esforços, muito
sangue e sacrifícios para deter esta corrida desenfreada no único
caminho que o sistema capitalista e os que dele beneficiam deixam aberto, que
é o da miséria, da exploração intensiva e das
guerras sem fim, um caminho que não pode levar senão ao caos e
à barbárie. Contra esta assustadora perspectiva, dezenas e
dezenas de milhões de pessoas, cada vez mais numerosas, erguem-se em
todos os continentes. Ultrapassando as suas diferenças, elas afirmam,
nas suas formidáveis manifestações, a vontade de salvar a
humanidade e de promover um outro mundo. Um mundo que permitirá a cada
povo desenvolver-se na liberdade e no progresso, a cada trabalhador, a cada ser
humano viver plenamente numa sociedade finalmente humana.
Será uma utopia acreditar em tal futuro e, apesar dos reveses e dos
recuos temporários, continuar a batermo-nos por ele? Já
aconteceu, no decurso da História, que uma sociedade, tendo cumprido o
seu tempo, se veja de tal maneira num beco sem saída, que aqueles mesmos
que beneficiavam com isso pressintam que forças novas estão
prestes a emergir. Para se abrigarem da realidade, eles podem proclamar, como
Francis Fukuyama e alguns outros, que chegámos ao "fim" da
História, quando o "fim" que se aproxima não é o
da História, mas o deles, o de um sistema condenado, que não pode
sobreviver, recusando, contudo, aceitar o seu desaparecimento.
Algumas dezenas de anos antes da Revolução Francesa, o rei
Luís XV, sentindo, também ele, que a época da monarquia
absoluta e do sistema feudal não poderia sobreviver-lhe muito tempo,
teve uma frase premonitória: "Depois de mim, o
dilúvio". O dilúvio varreu o seu regime, mas o que veio
depois foi a aurora de uma nova era, aquela que a Revolução de
1789 abriu.
A sociedade capitalista, já fortemente abalada pelas
revoluções socialistas passadas e pelos movimentos de
libertação dos povos, verá, também ela, o seu fim
chegar. Não existe nenhum remédio milagroso que possa
fazê-la sobreviver eternamente.
Depois dela, uma outra "aurora" virá que, se o mundo quiser
escapar à barbárie em marcha, não pode ser senão a
do socialismo. As forças para lá chegar existem. O que lhes
falta ainda é a coesão, estados-maiores conscientes e
responsáveis que gozem da confiança popular e possuam uma clara
visão das etapas a percorrer.
Há mais de cento e cinquenta anos, face à burguesia ainda
triunfante, Karl Marx lançava a célebre palavra de ordem:
"Proletários de todo o mundo, uni-vos!"
Mais que nunca, ela continua actual, mas nós poderíamos
completá-la hoje, para proclamar:
"Anti-imperialistas de todo o mundo, unamo-nos!"
É também esta, estou convicto, a mensagem que ficará do
nosso encontro de Serpa.
[*]
Intervenção no Encontro Internacional 'Civilização
ou Barbárie', Serpa, 23 de Setembro de 2004.
Tradução de MJS.
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