Os limites das possibilidades dos agressores imperialistas

por Henri Alleg [*]

Henri Alleg. Permitam-me que, em primeiro lugar, felicite os organizadores deste encontro internacional, em especial os responsáveis do sítio web resistir.info e os amigos das Câmaras Municipais de Serpa e de Moura, por terem ousado tomar a iniciativa de um encontro como este, apesar de todas as dificuldades, e de terem sabido resolver tão bem todos os problemas daí decorrentes. Uma vez mais, obrigado.

O tema deste encontro, "Civilização ou Barbárie", está no centro das interrogações do presente. Embora milhões de pessoas não tenham, ainda, uma clara consciência do que está em curso neste imenso enfrentamento que, contra a maioria esmagadora dos povos, põe frente-a-frente uma minoria de poderosos, ávidos de impor o seu domínio universal, cada dia que passa reforça-se o sentimento geral de que o mundo se encontra, hoje, numa angustiante encruzilhada de caminhos.

Estaremos condenados, como pretendem os porta-vozes do capitalismo, a sofrer a lógica implacável de um sistema, cuja motivação é, antes de mais, o lucro egoísta, com todas as suas terríveis e bárbaras consequências, ou teremos a força e os meios para nos libertamos? Sabe-se que, a esta pergunta fundamental, alguns já responderam não haver outro sistema viável, a não ser o capitalista, e a queda da URSS trouxe a prova da solidez e da durabilidade do seu reino. Um reino que eles se esquecem de dizer ser o da exploração e da opressão, que gera e propaga a fome, o desemprego, a ignorância, as doenças, a poluição universal, as guerras permanentes e cujo resultado será a destruição de todos os valores da civilização e da própria humanidade.

Não se trata apenas da visão apocalíptica de algumas Cassandras modernas que se dão por vencidas, desesperadas com o desmoronar do magnífico sonho que vinha na esteira da Revolução de Outubro, mas também da conclusão a que chegam certos espíritos, apartados da reflexão e da acção revolucionárias. Em pânico com o rumo do mundo e o balanço que fazem das ameaças catastróficas que sobre ele pesam, alguns vão ao ponto de encarar a perspectiva do seu aniquilamento, não apenas como uma possibilidade, mas como a grande probabilidade, sem, contudo, explicarem as razões disso e sem considerarem que uma outra via é possível para inverter estas sinistras previsões.

Num livro recente, intitulado Introdução ao Século das Ameaças, um deles, Jacques Blamont, membro da Academia das Ciências e especialista francês em investigação espacial, traça um quadro negro do futuro. Permitam-me apresentar uma passagem, citada recentemente por um semanário parisiense. Eis o que se pode ler aí:

"Os próximos cinquenta anos verão as tensões, as doenças, as penúrias exacerbarem-se e nós já não temos tempo para desenvolver novas opções, novos medicamentos, novas regras de jogo... Um acontecimento de amplitude comparável ao da peste negra, isto é, a redução da população mundial a um terço, parece a consequência inevitável da nossa gestão dos recursos planetários... O mundo foi avisado de que tem de morrer, mas não acredita."

O autor prossegue na enumeração das inquietantes interrogações que se perfilam no horizonte: Como alimentar os 9 mil milhões de seres humanos que, em breve, povoarão a terra? Como irão sobreviver aqueles que, por volta de 2050, se amontoarão em gigantescas metrópoles e representarão 80% da população mundial?

Seria ilusório crer que, como nota o autor, os milhares de milhões de pessoas, cujas condições de vida não cessam de piorar e que, hoje, subsistem com menos de um dólar por dia, "prisioneiras de uma condição que lhes deixa a violência como única arma", aceitarão, eternamente, a sorte que lhes está reservada. Mas esta mesma "futurologia", que tem em conta as teses de Huntington sobre o "choque das civilizações", evita apontar os culpados e pôr em causa as razões profundas do fracasso de uma sociedade que desemboca num tempo de guerra sem fim. Será que os estrategas dos Estados Unidos não programaram já, como revelava uma publicação americana muito séria, Covert Action, após as agressões contra o Afeganistão e o Iraque, uns sessenta outros conflitos, grandes e pequenos, que eles pretendem desencadear, "para segurança da América", nos anos a vir, além daqueles em que já estão empenhados indirectamente contra os palestinianos e outros povos da América Latina e de África?

Que se pode, então, fazer para impedir esta marcha aparentemente inelutável para o abismo? Não é preciso ser-se economista sábio ou sociólogo avisado para dizer donde vem o mal. As causas tornam-se cada vez mais evidentes aos olhos de todos. A raiz do problema – e já não são apenas os comunistas a dizê-lo – está no próprio capitalismo, cuja única regra e única moral, desde a época em que nasceu "na lama e no sangue", continua a ser a lei do lucro.

Após a eliminação da União Soviética da cena mundial e o acesso do seu país à posição de superpotência única, os dirigentes americanos afirmam, com arrogância, a sua vontade de domínio universal e de apropriação das riquezas essenciais (em particular, os hidrocarbonetos) dos países que cobiçam. Para se assenhorearem delas, não recuam perante qualquer hipocrisia, perante qualquer mentira, para tentarem justificar-se, e é em nome da "luta contra o terrorismo" e pelo alargamento do que eles chamam "democracia", que não é outra coisa senão a ditadura deles, que se arrogam o direito de intervir em todo o lado.

A sua incrível ausência de consciência moral, a sua determinação em usar os meios mais extremos para atingir os seus fins – seja qual for a selvajaria e as terríveis consequências – foram involuntariamente postas a claro por Madeleine Albright, então secretária de Estado do Presidente Clinton, quando interrogada pelo canal americano CBS acerca das consequências do bloqueio ao Iraque no destino das crianças do país.

"Soubemos, disse-lhe o jornalista, que meio milhão de crianças morreram em consequência do bloqueio ao Iraque. É mais do que Hiroshima e a senhora sabe isso. Será que valeu a pena?" A resposta da senhora Albright, que merecia ficar registada nos anais, pois, mais que os longos discursos, é elucidativa do grau de perversão a que chegaram os dirigentes de um país que pretende dar ao mundo lições de humanismo e de respeito pelos direitos do Homem: "Foi uma escolha difícil – disse ela – mas pensamos que o preço a pagar valia a pena...".

"O preço a pagar"? Apenas a vida de 500 000 crianças! E a pagar para quê? Para a apropriação, em benefício de multimilionários, de novos recursos petrolíferos, para assegurar o seu domínio de regiões inteiras de países situados a milhares de quilómetros das costas americanas, para defender e manter o mais possível uma situação que confina centenas de milhares de pessoas na miséria e no subdesenvolvimento, para impedir que povos acedam a uma plena soberania e avancem na via do progresso social.

Certamente que, aos olhos daqueles que reinam em Washington, "isso valia a pena", como "vale a pena" bombardear cidades desprotegidas, massacrar dezenas de milhares de civis desarmados, destruir um país inteiro, as suas casas, as suas escolas, os seus hospitais, submeter aos mais horríveis e degradantes suplícios os patriotas revoltados com a ocupação do seu país. "Valia a pena", pois essa é a lógica necessária de um Estado que pretende defender a civilização contra todos aqueles que "baptiza", uniformemente, com o nome de "terroristas", quando, pelas suas sangrentas agressões, multiplicadas contra os povos, ele é que merecia bem mais justamente esse qualificativo.

Ao fazer a crítica feroz do capitalismo, Berthold Brecht põe em cena personagens, gângsteres e polícias, que servem com o mesmo zelo a sociedade de patifes a que pertencem. Já não se sabe muito bem quem é quem, dado que tanto uns como outros estão associados nos mesmos tráficos e parecem-se muito no seu comportamento. Uma vez mais, a realidade ultrapassa a ficção, como mostra um caso conhecido, que é bom recordar, de tal maneira ele é simbólico. É o do actual vice-presidente americano Richard Cheney que, de 1993 a 2000, foi presidente do conselho de administração de uma das maiores empresas de construção, a Halliburton. Sendo, actualmente, adjunto, ao mesmo tempo que conselheiro muito ouvido de George W. Bush, Cheney não se esqueceu, muito pelo contrário, daquela firma, cujos interesses continuam, evidentemente, a ser-lhe muito próximos. Foi assim que essa empresa conseguiu obter – sem concurso público – um contrato de 7 mil milhões de dólares para a reconstrução, no Iraque, de diversos locais devastados pela guerra. Não se sabe ao certo se Cheney apontou de antemão, aos chefes militares americanos, as construções e instalações que pretendia ver destruídas prioritariamente, para que o rendimento financeiro fosse maior. Mas por que razão não o havia de fazer? Massacrem, queimem, destruam tudo! A Halliburton – com o apoio de Cheney e por alguns milhares de milhões de dólares que irão para os seus bolsos – encarregar-se-á de reconstruir. Negócio é negócio! Tudo o que é bom para a Halliburton e para Cheney é bom para a América e, portanto, bom para o mundo "globalizado" que Bush e os seus querem.

Assim, haverá outras guerras para deitar a mão a outras riquezas petrolíferas e a outros pontos estratégicos, para destruir outras cidades com as suas populações, outras pontes, outros aeroportos, outras linhas de caminho-de-ferro, outras estradas, outros hospitais, outras escolas, outros locais de cultura milenar, a fim de arrecadar outros lucros.

E, porquê parar, depois da guerra do Iraque, quando se está em tão bom caminho?

Em Washington, essa questão nem se levanta. Nem do lado dos dirigentes republicanos, nem do lado dos democratas, pois uns e outros são os gestores do mesmo sistema. Apesar das diferenças de forma e de linguagem, no fundo, eles representam os mesmos interesses, o mesmo projecto de impor o domínio político, económico e cultural dos Estados Unidos a todo o mundo, com a consequente acentuação de todos os males que caracterizam um sistema abalado por crises repetidas e minado por insuperáveis contradições.

Mas, então, que fazer? A resposta que junta os defensores interessados do sistema e, simultaneamente, os ideólogos que, como aquele que já citei, constatam o desastre mas não encaram que possa haver uma solução, é a de que não há nada a fazer. Para os primeiros, como proclama um dos seus teóricos oficiais, o sistema capitalista é o resultado acabado da marcha da História e está provado que não pode haver outro. Para os segundos, o mundo está condenado à ruína e à destruição e é inútil recusar ver a realidade de frente. A única coisa ainda possível é retardar o mais possível a sua falência inevitável e, para isso, prepararmo-nos, armando-nos até aos dentes, para o combate contra os principais perigos, designados como islamismo e "terrorismo". Assim, é desejável, diz o autor citado, que os governantes franceses, compreendendo finalmente a situação, desenvolvam, como fazem os dos Estados Unidos, uma política intensiva de rearmamento.

Não haveria, pois, para os povos, nenhuma outra perspectiva senão a de se submeterem à ditadura dos imperialistas americanos e de aceitarem um mundo de desigualdades e opressão reforçada, de que eles são os campeões. Um mundo onde se afirmam, cada vez mais visíveis e insuportáveis, os contrastes e a oposição entre pobres e ricos, entre explorados e exploradores, entre fracos e poderosos.

Os senhores do momento, confiantes nas suas armas supersofisticadas, no seu poderio financeiro, na sua formidável capacidade de corrupção, querem dar de si uma imagem de invencibilidade, que os seus meios de comunicação, jornais, rádios e televisões, se esforçam por consolidar quotidianamente, para convencer o mundo de que é inútil opormo-nos a eles.

As ignomínias de que são culpados os seus soldados, as violações, que eles multiplicam, das convenções internacionais, só podem servir, ao fim e ao cabo, a sua causa. É o que pensam, apesar de tudo, os estrategas do Pentágono. Pois o horror dos crimes cometidos, mesmo que a sua revelação seja provisoriamente incómoda, deve provar a força da sua determinação e constituir uma advertência para aqueles que não aceitam a sua lei. É o mesmo raciocínio que os inspirava no Vietname e guiava, também, os colonialistas franceses na Argélia. Sabe-se, também, como, nos dois casos, a despeito do seu formidável poder de fogo, da sua superioridade técnica e financeira, do seu enquadramento ministrado em escolas especializadas para fazer a guerra sem problemas morais, os imperialistas sofreram derrotas contundentes por parte de povos sem meios, mas invencíveis pela indomável vontade de independência e de liberdade que os exaltava.

No começo desses mesmos conflitos, os agressores proclamavam igualmente a sua certeza numa vitória rápida. "Os poucos bandos de rebeldes argelinos serão rapidamente aniquilados" — prometiam os chefes civis e militares franceses. Mas a guerra, com os seus massacres, os seus horrores, as suas centenas de milhares de mortos, os seus milhares de aldeias destruídas, durou mais de sete anos, para acabar na vitória da Argélia.

"O trabalho será feito rapidamente e os boys regressarão depressa ao país" — proclamavam George Bush e os seus, no início da guerra contra o Iraque. É sabido o que acontece. Não passa um dia sem que os ataques desencadeados contra os mercenários americanos e seus aliados não se saldem com novas baixas nas suas fileiras, sem que novas acções de patriotas testemunhem, espectacularmente, a inquebrantável vontade dos iraquianos de prosseguir a luta pela libertação, apesar da traição de alguns e dos multiplicados esforços para os dividir e desfigurar o seu empenhamento.

Revelam-se, assim, aos olhos do mundo inteiro, os limites das possibilidades dos agressores imperialistas. Como para todos aqueles que, no decurso da História, fixaram como objectivo sujeitar o mundo e se embriagaram com o seu próprio poderio, ao ponto de acreditarem que podiam, com uma política de terror e de exterminação generalizada, assegurar a sua vitória, virá um dia em que terão de se capacitar de que a resistência inflexível dos povos pode ser mais forte que eles.

Faltam, sem dúvida, ainda muito tempo, muitos esforços, muito sangue e sacrifícios para deter esta corrida desenfreada no único caminho que o sistema capitalista e os que dele beneficiam deixam aberto, que é o da miséria, da exploração intensiva e das guerras sem fim, um caminho que não pode levar senão ao caos e à barbárie. Contra esta assustadora perspectiva, dezenas e dezenas de milhões de pessoas, cada vez mais numerosas, erguem-se em todos os continentes. Ultrapassando as suas diferenças, elas afirmam, nas suas formidáveis manifestações, a vontade de salvar a humanidade e de promover um outro mundo. Um mundo que permitirá a cada povo desenvolver-se na liberdade e no progresso, a cada trabalhador, a cada ser humano viver plenamente numa sociedade finalmente humana.

Será uma utopia acreditar em tal futuro e, apesar dos reveses e dos recuos temporários, continuar a batermo-nos por ele? Já aconteceu, no decurso da História, que uma sociedade, tendo cumprido o seu tempo, se veja de tal maneira num beco sem saída, que aqueles mesmos que beneficiavam com isso pressintam que forças novas estão prestes a emergir. Para se abrigarem da realidade, eles podem proclamar, como Francis Fukuyama e alguns outros, que chegámos ao "fim" da História, quando o "fim" que se aproxima não é o da História, mas o deles, o de um sistema condenado, que não pode sobreviver, recusando, contudo, aceitar o seu desaparecimento.

Algumas dezenas de anos antes da Revolução Francesa, o rei Luís XV, sentindo, também ele, que a época da monarquia absoluta e do sistema feudal não poderia sobreviver-lhe muito tempo, teve uma frase premonitória: "Depois de mim, o dilúvio". O dilúvio varreu o seu regime, mas o que veio depois foi a aurora de uma nova era, aquela que a Revolução de 1789 abriu.

A sociedade capitalista, já fortemente abalada pelas revoluções socialistas passadas e pelos movimentos de libertação dos povos, verá, também ela, o seu fim chegar. Não existe nenhum remédio milagroso que possa fazê-la sobreviver eternamente.

Depois dela, uma outra "aurora" virá que, se o mundo quiser escapar à barbárie em marcha, não pode ser senão a do socialismo. As forças para lá chegar existem. O que lhes falta ainda é a coesão, estados-maiores conscientes e responsáveis que gozem da confiança popular e possuam uma clara visão das etapas a percorrer.

Há mais de cento e cinquenta anos, face à burguesia ainda triunfante, Karl Marx lançava a célebre palavra de ordem: "Proletários de todo o mundo, uni-vos!"

Mais que nunca, ela continua actual, mas nós poderíamos completá-la hoje, para proclamar: "Anti-imperialistas de todo o mundo, unamo-nos!"

É também esta, estou convicto, a mensagem que ficará do nosso encontro de Serpa.

[*] Intervenção no Encontro Internacional 'Civilização ou Barbárie', Serpa, 23 de Setembro de 2004. Tradução de MJS.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info .

07/Nov/04