Árabes e africanos:
Marie ou a época dos lobos
Porque o que é de mais não presta, eu respondo a todos os meios
de comunicação, no seguimento do chamado caso do RER
D em que magrebinos e africanos imaginários teriam cometido o
pior...
Nota: texto escrito entre 13 e 15 de Julho (revisto a 19/07/04)
Neste país, todos os cidadãos podem viver tranquilamente, mas
alguns têm de repontar sempre, não por vontade ou gosto, mas
porque é de mais! Alguns são livres de viver sem serem agredidos,
estigmatizados, diabolizados, mas outros têm sempre de se erguer contra
os «Folcoches
[1]
mediáticos» e responder-lhes «com quatro pedras na
mão». Sim, como o herói de Bazin, os africanos, magrebinos e
muçulmanos «agradecem à imprensa, pois, agora, são
eles que caminham na vida com quatro pedras na mão» (H. Bazin,
Vipère au poing
).
A Época dos Lobos ou como uma jovem mitómana de 23
anos conseguiu levar os seus carneiros para o abate, com o Chefe do Estado
à frente, assim como o Governo, o Primeiro Ministro e uma parte da
Assembleia Nacional. A jovem pastora, levada por um delírio
mitómano, conduzia o seu rebanho de carneiros, cada qual balindo
histericamente, quando por fim o veterinário descobriu o remédio
para trazer Marie à realidade e os carneiros ao redil, não sem
dificuldades e alguma vergonha.
Marie. Ícone da Mitomania, que serviu, durante um fim-de-semana, os
fantasmas de uma imprensa desnorteada.
Entre os franceses, cuja França e imprensa, assim como um bando de
pseudo-intelectuais, lembram continuamente a cor da pele, as origens ou a
religião, elevam-se vozes para que a imprensa da vergonha, a imprensa da
valeta apresente desculpas. Mas desde quando é que os escrevinhadores,
patetas e outros coveiros do jornalismo independente e verdadeiro terão
a educação suficiente, a correcção e a honestidade
intelectual para pedir desculpa? Esta imprensa, que já não tem
que invejar o verdoso visível e a coscuvilhice de mau gosto das
Detective, Voici
e outras nojices. Esta imprensa, que se suicida em vez de denunciar aqueles
que gostariam de domá-la e fazer dela um capacho mediático:
«a imprensa de investigação é perigosa para a
democracia» (Edith Cresson). Claro que sim, Edith, aquela que a fez, em
parte, ir a tribunal? Aquela que denuncia as despesas insultuosas do sr.
Attali? O
Canard Enchaîné
, que tinha revelado o caso dos «diamantes de Bokassa»? É bom
recordar que, nesses tempos arcaicos, um jornalista cumpriu 18 meses de
prisão. Mas a imprensa lembra-se disso todos os dias, não
é? E, da ORTF e das ordens do Eliseu, quem é que se lembra? Mas
é triste constatar que, muitas vezes, no Ocidente se confunde
«liberdade» com «mostrar o rabo ou dizer baboseiras». Que
os jornalistas se passeiem nus, o poder está-se nas tintas, mas que
ponham a nu as manigâncias políticas, isso é que
não. As palavras da sra. Cresson explicam-no claramente. É claro
que «o jornalismo de investigação é perigoso para a
democracia». A mudança de atitude dos anti-Baudis, embora
criticável, pouco importa, mas os negócios de J. C. Mitterrand
não podem ser silenciados, tanto quanto os do sr. Pasqua e outros.
Recordo a anedota belga: «Qual a diferença entre N. Mandela e os
políticos franceses? Mandela esteve na prisão antes de ser
eleito». Aí está uma boa anedota!
Este fim-de-semana, a imprensa francesa encarniçou-se como um abutre
sobre o cadáver de todos os africanos mortos pela mão do racismo
e da intolerância. Este fim-de-semana, a imprensa caminhou sobre os
cadáveres do colonialismo e do esclavagismo. Este fim-de-semana, as
redacções de França tornaram-se as redacções
de Pieter Botha. Com os termos genéricos de magrebino e africano, a
imprensa e alguns responsáveis de associações de culto e
religiosas, mesmo de duvidosa fachada anti-racista, subentendem «escuro e
crespo» ou ainda «negro e encarapinhado». A trágica
ironia da sorte e o cinismo da situação terão querido que,
com uma chalaça corrente, nós acabássemos quase por
agradecer às organizações fascistas, como «Bloc
Identitaire», que não tenham tido a ideia de lançar um negro
ou árabe à água, para vingar a Marie. «Seis negros e
beurs inflingem um pontapé a uma jovem branca e deixam-na estendida no
chão» (Ref.:
Libération
, artigo de J. Durand e P. Tourancheau). «Beur» é um insulto
racista e são os que se manifestam contra o termo «judeu» que
o utilizam, com total desprezo em relação aos franceses de origem
magrebina. Nós teremos reparado bem nas maiúsculas utilizadas
para apontar a cor negra e a cor branca. Quanto à cor beur, o
Libération
vai seguramente especificá-la num dos seus próximos
números. É certamente a de «Bicot»,
«Bougnoule» ou ainda «Raton» ou o famoso
«Crouille»
[2]
? Mais adiante, num outro artigo, C. Coroller fala-nos do «acto dos
jovens árabes». E que quer dizer árabe? Que significa este
alinhamento de cores e raças? Do Sudão a Paris, para ser honesta,
há certamente cidadãos de língua árabe, mas de
origem africana. Este ódio ao árabe causa-me arrepios. Ao ouvir
falar dos massacres cometidos pelas «milícias árabes»
no Sudão, pensei que tropas árabes, vindas do Golfo, tinham
invadido o Sudão, para matar africanos, quando não é nada
disso. Os «milicianos árabes» são de facto africanos,
que falam árabe, mas que nada têm a ver com a Arábia.
Deliberadamente, muito contentes por bater nos árabes, nenhum jornal
francês, mesmo nenhum, explicou a realidade do problema. Toda a imprensa
dá a entender que os Milicianos Sudaneses são talvez um pouco
sauditas, um pouco egípcios, um pouco sírios ou, até,
iraquianos? Que racismo é este? Porquê estas mentiras? Porque,
quando não se explica, de certo modo, mente-se.
Esta maneira de «bater nos árabes», de detestar os
árabes e apontar o dedo a tudo o que é árabe ou que se
relaciona com os árabes (o Islão, logo por azar, é uma
herança árabe) como designando «a raça ou a
comunidade ideal a diabolizar, a atacar ou a neocolonizar». É muito
grave. Foi assim que, no Reino Austro-Húngaro, Georg von Schönerer
esteve na origem da «teoria anti-semita das raças». As teorias
deste racista imundo foram retomadas mais tarde por um tal Adolf Hitler. O
ódio aos árabes e ao Islão assume tamanha violência
neste país que, penso eu, um dia os cidadãos de origem
árabe ou africana terão de fazer as malas. Do que se passa na
Córsega ao que se lê nos jornais metropolitanos, vê-se que a
imprensa deste país é tão irresponsável como
racista. Atente-se nos artigos do
Libération
sobre o racismo na Córsega, que datam do mês de Maio, e
comparem-se com os do mesmo jornal que cobriram o caso «Marie».
É chocante. Uma viragem de 180 graus. Se a Extrema-Direita tomasse o
poder neste país e decidisse confinar os árabes, os africanos e
os muçulmanos em bantustões, quem se mexeria neste país?
Ninguém.
O que li no
Libération
e nos outros diários (
Libération
, que se diz de esquerda, é um bom barómetro para medir o impacto
das ideias da Frente Nacional, entre outras, tão enraizadas de maneira
normal e natural na cultura do Hexágono). Para mim, é propaganda
nacionalista. O árabe, o negro e o muçulmano são uma e a
mesma coisa e já não são nem franceses nem brancos.
São «o Negro, o Beur». «Franceses» é que
não.
Isto faz-me pensar no anti-semitismo do Reino Austro-Húngaro, numa frase
de G. Von Schönorer, furioso com a Imperatriz Elisabeth e outros
admiradores do poeta alemão Enrich Heine, que pretendiam erigir uma
estátua em sua homenagem: «eles queriam erigir um monumento
à memória deste judeu, autor de escritos vergonhosos e
imundos». A imprensa acertou o passo pelo fascista e escreveu,
então: «Vejam como pensa um judeu, como todos os judeus tomam
partido por este desavergonhado, tocando a reunir, como há também
alemães para acorrerem ao som deste tambor judeu».
São as reportagens da
France Télévision
, os artigos do
Figaro,
cujos títulos de certas revistas do grupo não primam nem pela
inteligência nem pela razão: «Islamismo: até onde se
estenderá o contágio» (Título do
Figaro Magazine
em 2003). Um autêntico título fascista, que nenhum intelectual
denunciou. Nenhum. E é tão espantoso como chocante ver como o
anti-semitismo não desapareceu na Europa e, sobretudo, no
Hexágono. Houve apenas uma transferência do «judeu» para
«o muçulmano» ou «o árabe». Na
Europe 1,
a uma hora de grande audiência, no programa do sr. Field, no dia a
seguir ao 11 de Setembro, um ouvinte declarou: «Eu cá não
compreendo os muçulmanos depois do que se passou em Nova-Iorque. Se eu
fosse muçulmano mudava de religião». O ouvinte queria fazer
passar uma mensagem, queria veicular a ideia de que os mulçumanos
são uma massa muito compacta, liderada por um cérebro
único, que deve responder pelos actos de todos. Esta ideia
reencontramo-la no cineasta Ellie Chouraqui, para quem os
«muçulmanos são responsáveis uns pelos outros».
Está-se mesmo a ver, sr. Chouraqui! Os espíritos mais brilhantes
através da história, até aos nossos dias e através
do mundo inteiro têm, dado a primazia ao «espírito
crítico» e desconfiam do «espírito
gregário», que denunciam. Mas o sr. Chouraqui, esse, com uma tal
afirmação e acusação só faz trair o seu
próprio espírito comunitário. Também é
interessante notar que o sr. Chouraqui não é
«inocente», na medida em que ofereceu a estreia dos «Dez
Mandamentos» a uma associação de apoio aos soldados
israelenses. De igual modo, ele anuncia por via publicitária, na
Radio J
que a estreia do espectáculo «Gladiador» será
oferecida às crianças israelenses. Não critico que se
pense nas crianças israelenses mais desfavorecidas, só que o sr.
Chouraqui não é «neutral» quando fala negativamente do
Islão, dos árabes e do anti-semitismo. E não é
normal que o Serviço Público lhe abra as portas, quando esse
mesmo Serviço Público é suposto não ignorar o apoio
do sr. Chouraqui a Israel. A sua reportagem, dirigida contra a comunidade
muçulmana e africana deste país, inscreve-se também no
ideal político do sr. Chouraqui: o sionismo. E, deve-se ter presente que
uma parte da imprensa e de certos políticos, artistas e intelectuais
deste país responderam ao apelo de Ariel Sharon, que pretendia que a
França se tornara um país tão inóspito para os
judeus, sobretudo por causa da comunidade muçulmana, que era
absolutamente necessário organizar a sua partida para Israel. Este apelo
de Sharon foi ouvido por muitos responsáveis de
associações de culto ou culturais judaicas. Alguns querem fazer
crer que ser anti-sionista é sinónimo de ser anti-semita, mas
fiquem a saber que, mesmo que venha a acabar na prisão ou fuzilada,
continuarei a denunciar o sionismo ultra. Os ciganos são vítimas
do racismo mais primário e mais violento do mundo: continuamente
perseguidos na Europa de Leste, continuamente expulsos de França, onde
não se tem vergonha de chamar-lhes «os Rom». Até os
jornalistas escrevem «Rom». Isto é inaceitável. Os
ciganos sofreram a mesma sorte, a mesma tragédia que os judeus. No
entanto, onde estão as Jornadas de Memória para eles? Onde
estão os monumentos aos ciganos? Eu acho que, decididamente, certas
pessoas têm uma memória selectiva e aproveito este correio para
denunciar o ódio fácil, o desprezo total que a Europa continua a
ter em relação àqueles que ela não tem vergonha de
designar por «os Rom».
Retomemos a questão do Sionismo ultra:
Elie Wiesel (lamentável prémio Nobel da Paz): «Se sois hoje
contra Israel, sois,
ipso facto
, antijudeu. E, sendo judeu, se sois contra Israel, sois um renegado. Os jovens
judeus da nova esquerda devem ser aberta e publicamente proclamados renegados
do povo judeu. Eles que façam o que entenderem, mas não deveriam
fazer parte do povo judeu. Não fazem.» Se um imã ou um
escritor árabe tivesse uma saída destas, toda a imprensa teria
feito um grande alarido, mas, no caso de Elie Wiesel, nada de criticá-lo
e, muito menos, denunciá-lo...
No entanto, em seguida, há que apontar o dedo a quem lança Fatwa
contra Ruchdie. E aquilo não é uma Fatwa? Então é o
quê?
Igualmente interessante, Vladimir Jabotinsky: «Toda a
colonização sionista, por limitada que seja, não deve ser
abandonada, mas prosseguida, mesmo contra a vontade da população
autóctone. É por esse motivo que a nossa
colonização só pode desenvolver-se sob a
protecção de uma grande potência que não esteja
preocupada com a vontade da população local, a fim de que seja
possível ficarmos separados dessa população por um muro de
ferro intransponível. Um acordo entre eles e nós, numa base
voluntária, é impossível. Enquanto tiverem a mais pequena
esperança de se desembaraçarem de nós, não
abandonarão essa esperança e nada poderá
convencê-los, nem as bonitas palavras, nem o dinheiro, pois eles
não são uma miscelânea indefinida, mas uma
nação, nação oprimida, mas nação
viva. Nenhum povo pode fazer as concessões que nós lhe pedimos,
enquanto tiver a esperança de poder desembaraçar-se de
nós. Só quando constatarem que a Cortina de Ferro entre eles e
nós é intransponível é que os extremistas entre
eles desistirão e os mais moderados aparecerão a pedir-nos
concessões nalguns aspectos práticos. Pedir-nos-ão que
lhes garantam que não os expulssamos ou que teremos a bondade de lhes
conceder direitos iguais» V. Jabotinsky,
Le Mur de Fer
(Nous et les Arabes).
«Não existe nem nunca existiu um povo palestiniano», Golda
Meir, 1969.
«Nós criaremos à Europa uma testa-de-ponte para a
Ásia, um bastião da Civilização contra a
Barbárie... O país estender-se-á do rio do Egipto (o Nilo)
até ao Eufrates. A população local não
poderá trabalhar, excepto para secar os pântanos e matar as
serpentes. Há que expulsá-los discretamente do país»,
Théodor Herzl (citado em
La Palestine, dernière colonie
, de Lucas Catherine, Anvers, EPO, 2003.
Leia-se o
L'État Juif
(1896). Este livro é a base do Sionismo actual. Certos jornalistas, que
falam do que não conhecem, deveriam lê-lo e meditar.
«Não foi o Holocausto, mas a assimilação, a pior
catástrofe que aconteceu ao judaísmo...», Nissim Dahan,
ministro da Saúde Pública israelense, 31 de Dezembro de 2001.
Eu gostaria muito de saber, antes de mais, por que razão a imprensa
não se insurge nunca contra este tipo de discursos? Por que razão
não os denuncia?
Quem terá esquecido, na esteira de N. Dahan, o discurso do rabino Ovadia
Yossef, que considera os «judeus vítimas do Holocausto» como
«más almas reencarnadas» ou os árabes como
«serpentes que Deus se arrependeu de ter criado». A imprensa entendeu
por bem não fazer grandes títulos nem sobre O. Yossef nem sobre
N. Dahan. Mas, se um muçulmano tivesse falado assim, o mundo inteiro
teria ouvido falar dele.
Até à chegada do general Sharon ao poder, com o apoio de mais de
60% dos israelenses, eu fazia parte daqueles que «reconheciam
Israel». No entanto, o comportamento da imprensa ocidental, os massacres
de Jenine, somados à recordação dos de Sabra e Chatila,
cometidos pelo mesmo homem, levaram a melhor sobre a minha visão
ingénua deste Estado chamado «Israel». Sim, o ódio, que
me choca profundamente, de artistas como Sophie Marceau, por exemplo, em
relação aos árabes e o desprezo natural com que passam por
cima dos Direitos do Povo Palestiniano é tão aterrador como os
discursos de Botha ou do KKK. Patrick Bruel, no programa 7/7, declarou, perante
uma Anne Sinclair toda sorridente: «Sim, Israel deve continuar firme,
Israel tem razão em continuar firme relativamente aos
palestinianos». Só que uma dezena de palestinianos acabavam de ser
mortos pelas balas de Tsahal na Esplanada das Mesquitas. A firmeza, para mim,
não tem nada a ver com o crime, mas, para Bruel, matar um árabe
é apenas «ser firme».
Na mesma ordem de ideias, após a primeira guerra do Golfo, Sophie
Marceau vinha apresentar o seu filme pro-israelense no programa 7/7: «Sim,
os israelenses acreditam nela e sentem-se felizes». E a sra. Sinclair,
incomodada pelo facto de ver Sophie Marceau a parafrasear, sem ser capaz de
explicar por que razão tinha um discurso ultra-sionista de base,
parecendo não conhecer sequer a ideologia sionista, lançou-lhe:
«Sim, Sophie Marceau, mas os palestinianos estão a sofrer».
Então, Sophie Marceau, admirada e surpreendida com a
objecção, prosseguiu estupidamente: «Os israelenses
acreditam nela». De facto, se Sophie Marceau é a paladina de
«é preciso bombardear o Iraque, pois antes de S. Hussein invadir o
Koweit, eles eram felizes» ou, ainda, ultimamente, «sim, Bush tem
razão em invadir o Iraque», Sophie Marceau é incapaz de um
raciocínio lógico, é incapaz de dizer por que é
preciso bombardear o Iraque e explicar como é que ela, socialista, pode
aderir às teses de Bush.
Eu pergunto a mim mesma se ela saberia situar o Iraque num mapa
geográfico ou mesmo dizer-nos o que a Mesoptâmia englobava. Diz
«gostar de Dostoievski», o que é muito simpático, mas
prefere o quê? «Crime e Castigo» ou «Humilhados e
Ofendidos»? A obra deste homem assenta na existência que encontra o
seu equilíbrio apenas na caridade pelas pessoas (o pai foi assassinado
pelos camponeses, por se comportar como um tirano) e na fusão das
culturas ocidental e oriental, no que se refere à colectividade (para os
russos). Em certos aspectos, Dostoievski tem muito em comum com Emmanuel
Mounier, o fundador da
Revue Esprit
e pai do Personalismo Comunitário. Não creio que a sua passagem
pela prisão, na Sibéria, no regime czarista Lenine e
Estaline não inventaram as prisões siberianas, apenas imitaram os
czares o tivesse deixado indiferente à humilhação e
ao sofrimento do povo palestiniano. O escritor escapou à
execução capital, mas não escapou ao sofrimento e
humilhação das prisões siberianas. Aqui está como
qualquer um é convidado a dizer tudo sobre qualquer coisa, mesmo quando
não sabe nada, nos programas da TV ou nas rubricas dos nossos
diários ou semanários. Mas é preciso confessar que certos
jornalistas gostam de ouvir os «vamos para a guerra», sobretudo,
quando a guerra ou a invasão visa os árabes. Este racismo, jamais
o caucionarei. Um grande número de movimentos berberistas
caiu por causa deste racismo que alardeiam, filho da herança colonial.
Os resultados insignificantes dos fascistas do RCD mostram isso. E não
falarei do FFS que quis legitimar o FIS, talvez por ser uma
invenção de um argelino simpático, oriundo da
Grande-Cabília, que não pediu asilo político em Zurique ou
Berlim, mas em Doha, na Arábia.
Há um momento na vida, em que se impõe não atender
às raízes culturais ou de culto, para não se morrer
asfixiado pela própria comunidade. Não é sr. Wiesel? Ser
livre, no sentido berbere do termo (amazigh), é também
libertar-se do seu grupo cultural. Ora, é triste verificar que certas
pessoas defendem o indefensável, precisamente porque ele é
«judeu como nós», «cristão como nós»
ou, então, «mulçumano como nós», etc.
E reflectindo honestamente, não vejo por que razão os
árabes deveriam detestar S. Hussein, se os israelenses têm o
direito de gostar de A. Sharon e os americanos de G. Bush. Não vejo por
que razão fazer explodir edifícios em Gaza ou em Bagdade é
menos fascista que fazê-lo em Telavive ou Nova-Iorque. Não vejo
por que razão se faz três minutos de silêncio pelos
americanos e nenhum por Sabra e Chatila, cujo martírio durou três
dias, em Setembro de 1986. O mais grave é que, se eu distinguia Bush de
Ben Laden até 2001, já não o faço, desde que vi
imagens de bebés sem vida, na CNN, acompanhadas da frase horrível
e fascista: «foi esta gente que nos agrediu no 11 de Setembro».
Crianças e bebés. Essas imagens deixaram-me um travo na boca de
«Nuremberga em Nuremberga» e as imagens do Iraque confirmaram-me
apenas que Bush é a mesma coisa que Ben Laden. Para mim, os EUA
são um Estado fascista que avança um pouco mais, dia após
dia, para o nazismo e apenas isso. O facto de Washington estudar a
possibilidade de Teerão estar envolvido nos atentados do 11 de Setembro
de 2001, reflecte, sem margem para dúvidas, o espírito de Bush:
um autêntico Hitler frustrado. Se Bush tivesse sido inteligente,
não se teria lançado contra o Afeganistão e o Iraque.
Não, teria esperado. Ora, ele destruiu uma boa parte do seu
exército, arruinou a economia. Oxalá ele estude o assunto e veja
que cortou as suas próprias pernas e as suas próprias asas. Tudo
o que este cretino censurou a S. Hussein, ele mesmo fez, desde a invasão
ilegal do Iraque à tortura dos iraquianos e outras coisas que iremos
saber dentro de algumas semanas.
Mas voltemos à conversa inicial: nós agradecemos aos
cabeças rapadas que ficaram em casa, sem dar ouvidos à SUA
IMPRENSA DOS BRANCOS (nem escura nem negra) para juntar violência
física ou assassinato racista aos insultos infundados, vindos de todos
os lados, tanto racistas como fascistas (Gaubert,
Os nazis dos subúrbios
). De passagem, Sharon ouviu o apelo da Licra que deveria retomar a sua
denominação de origem, dada a maneira como o sr. Gaubert fala dos
Mulçumanos e dos africanos. Agradecemos a Jean-Marie Le Pen ter deixado
a tarefa aos deputados Huchon, Lellouche, DSK, Dray de gritarem o seu
ódio contra franceses a quem chamam «jovens dos
subúrbios», fórmula racista, anti-árabe e
anti-africana que utilizam para não dizerem «magrebino»,
«africano» ou «muçulmano». Toda a França tem
pelo menos um árabe ou um africano no seio da sua família. Os
antilhanos sentem-se também atingidos, pois, do ponto de vista da
imprensa hipócrita, africano é o preto, que não é
nada africano e é também o meu pai e o meu irmão. Africano
não é quem tem pele negra, não, é quem vive em
África, quem é originário de África. E por que
razão se deverá dar-lhes uma cor, quando há milhares?
Será que a nossa imprensa viaja? Os jornalistas saem ao domingo?
Restringir o magrebino apenas aos frisados exóticos e à pele
escura parece-me redutor e digno dos Afrikaners ou dos Nacionais-Socialistas.
Eu acho piada quando penso nos socialistas que denunciaram os panfletos de
Mégret, onde estava desenhado um carapinha de beiços grossos.
Presentemente, é a imprensa dita de esquerda que faz o mesmo com o
africano. Ele será apenas um homem negro de cabelos encarapinhados? De
Mandela aos Tuaregues, passando por Désiré Kabila e o sr. Wade,
Zidane e Bouterflika ou, ainda, as cantoras Warda e Naget Hatabou e Bob Marley,
profeta do Reggae e símbolo ilustre da mestiçagem, parece-me, de
facto, que os jornalistas não conhecem África. Não
há nenhum tipo magrebino ou africano, mas tipos africanos. Ponham-se no
lugar de um magrebino de tipo nórdico, a quem não se cansam de
dizer: «tu não tens o tipo magrebino». Ou do mestiço, a
quem dizem: «tu não és africano» Com que direito?
Remeto para a canção de Laurent Voulzy, que sofreu esse racismo
Belle Île en Mer
. Vocês atiram com palavras parvas a comunidades das quais não
sabem nada, além das palavras Corão, Merguez, Mandioca,
Véu ou Mesquita. Vocês não sabem nada, absolutamente nada
dessas comunidades.
A imprensa, a Licra, o Crif e alguns políticos com telhados de vidro
não insultaram apenas magrebinos e africanos, mas famílias
mistas, mulheres «brancas naturais», como escreve a sra. Coroller,
que não é a única, casadas com homens negros, magrebinos
casados com africanas, asiáticas, francesas. A imprensa está
demasiada confinada aos seus estereótipos de 14-18, longe da verdade e
muito aquém das realidades da sociedade, que é suposta informar.
Não é fazendo reality-show que nos abrimos à
vida, não é indo todos os dias de casa para a sala de
redacção que se cresce francês. Não, as salas de
redacção estão desconectadas da realidade, do que chama
«os subúrbios», como se o subúrbio significasse
«bairro árabe» ou «bairro africano» ou, ainda,
«bairro muçulmano». Não é a juventude que
não está integrada, mas a imprensa e uma parte da classe
política que não vivem «a actualidade francesa». Se
analisarmos a expressão «jovens dos subúrbios», podemos
facilmente compará-la a termos da imprensa afrikaner como «jovens
do Sowetto» ou, até, «moradores dos bantustões». A
imprensa torna-se um gueto, uma torre de marfim, uma entidade esclerosada e
completamente demagógica, tendo a demagogia como ciência o
Populismo dos Mussolini, dos Le Pen ou dos de Villiers. Este caso terá
demonstrado como jornalistas, políticos e presidentes de
associações ditas anti-racistas fazem eles próprios vulgar
racismo, alimentam o racismo e é perfeitamente natural que eu deduza
serem alguns verdadeiramente racistas. Continuemos com o «sensatamente
político» silêncio da Extrema-Direita.
Agradecemos, ironicamente, a de Villiers que, depois de fazer uma campanha
racista, xenófoba e islamófoba para as eleições
europeias, se tenha calado. Agradeço ao jornal frentista
Minute
o facto de não estar na origem dos artigos publicados no
Libération, Le Monde, Le Parisien, Le Figaro,
pois os dele não podiam ser piores. Porque a imprensa não
traumatizou ninguém, dado que, para ela, os negros e aquilo
a que chama beurs (feuj é um insulto
anti-semita, mas beur uma metáfora exótica, que
permite tratar o magrebino como «mouro não integrado, que vive nos
subúrbios e gosta de Ben Laden») não têm alma,
portanto estados de alma e é natural «cagar-lhes em cima e
vomitar-lhes em cima», quer na France Télévision quer nas
emissões da Radio France ou na imprensa escrita. Imaginemos que pretos e
árabes agridem uma branca. É razão para enxovalhar toda a
comunidade? Será que um homem que agride ou viola uma mulher é
menos culpado por ser branco? Porquê a importância da origem? Por
que é sempre assim quando se trata de árabes ou negros?
De facto, agradeço à Extrema-Direita deste país ter-se
contido, para que se demonstre bem que, em França, não há
uma Extrema-Direita mas Extremas-Direitas. Não ouvi nem o Jean-Marie Le
Pen, nem a Marine Le Pen, nem o Bruno Mégret ou, mesmo, as
tendências SOS Racailles ou outros Blocs
Identitaires, que têm uma palavra de ordem do género
«as ratazanas, ou as alimentamos ou as eliminamos, é preciso
escolher» (VSD, Maio de 2004). A
Licra
vê nazis por toda a parte, mas, quando estão em dupla
página na VDS com os seus pen-ball, durante um treino
paramilitar, não os vê. O sr. Gaubert devia mudar de óculos
ou deixar de beber vodka. Basta que a Extrema-Direita fique silenciosa para
outros lobos uivarem em seu lugar. Ao ouvir militantes do UMP e alguns
socialistas, compreendo facilmente que Le Pen tenha conseguido passar na
primeira volta das presidenciais e, sobretudo, a razão por que Mitterand
abriu as portas da Assembleia Nacional à Frente Nacional, deturpando a
lei da proporcionalidade. Sim, compreendo, agora, que Le Pen não tem
ideias suas, mas partilha ideias com uma franja do PS e
do UMP.
Desde 17 de Outubro de 1961, foram várias as operações
punitivas, sempre criminosas, contra megrebinos e africanos neste país:
jovens mortos à queima-roupa por um racista ou um polícia; o
pequeno Toufik, de 10 anos, morto por um polícia, em Aubervilliers, com
uma bala na cabeça, quando estava na varanda; Malik Oussékina,
assassinado por dois CRS que, depois, foram promovidos; o jovem marroquino
atirado à água, depois de uma manifestação da
Frente Nacional; o pai de família, da Costa do Marfim, que foi afogado
por três jovens racistas; Makomé, de 18 anos, assassinado com uma
bala na cabeça por um polícia, no 18º bairro de Paris,
quando tinha as mãos algemadas atrás das costas (eu imagino o
terror deste jovem e os seus gritos); o argelino empurrado da janela por
três magalas racistas; a profusão de artigos racistas e fascistas,
conjugada com reportagens racistas (de Trappes a Chouraqui) e redutoras acerca
do Serviço Público, desde a Terça-feira do 11 de Setembro;
o tunisino caluniado, mesmo na morte, porque «o terrorista usava dois
pares de ceroulas» (USD, Outubro de 2001); sem esquecer o «Terrorista
dos aeroportos de Paris», que não era nada disso, mas foi arrastado
na lama por uma imprensa que desrespeita as leis da República, sejam
elas da Justiça ou da Moral. A Justiça, neste país, fala
de «presunção de inocência» mas, aparentemente, a
imprensa decidiu que magrebinos e africanos, tal como muçulmanos
não têm direitos. Ora, se a imprensa tem apenas o papel que a
sociedade lhe atribui, talvez seja a altura de o sr. Perben lhe dar cursos de
Direito. Talvez seja mesmo uma boa altura para o sr. Baudis recordar as regras
elementares, primárias, para não dizer primitivas, de
deontologia, que a imprensa parece ignorar. Este fim-de-semana, a boca dos
jornalistas abriu-se como a boca de um camião do lixo, quebrando,
triturando, revolvendo, reduzindo a migalhas duas comunidades, antes de ir
vazar as suas entranhas naquilo que ela chama PAF e que se transformou num
vazadouro público. A pena dos jornalistas afogou-se na tinta da vergonha
e da incorrecção. Nas redacções, não
é o cérebro que comanda a caneta, mas a caneta que comanda o
cérebro, dando azo a artigos de mau gosto, por irreflectidos, tanto
quanto irresponsáveis e carregados de ódio e de desprezo.
Acrescente-se ainda os artigos de
Le Monde
e os de
Libération,
passando pelas nojices distribuídas na rua (não é por
acaso que são gratuitas), o
Parisien
... Penso que a imprensa é a culpada das mentiras. A imprensa é
pior que a mitómana, já que não esperava senão um
sinal, qualquer facto sem importância para levar a água ao moinho
de Chouraqui, de Crukierman e de Gaubert. Sim, a imprensa quis inculcar que os
magrebinos e os africanos eram anti-semitas. A imprensa tentou dar vida ao
fantasma e ao delírio mitómano do sionismo ultra, que se serve do
anti-semitismo para defender Israel a todo o custo. A chantagem com o
anti-semitismo tomou uma forma detestável e perigosa neste
fim-de-semana, mas a culpa não é de quatro magrebinos e dois
africanos. A culpa é dos lobos que encontraram, este fim-de-semana, um
osso para roer. O sr. Gaubert, presidente da
Licra,
que fala de «nazis dos subúrbios» talvez esteja a falar do
sr. Bensoussan, que queimou uma jovem marroquina na cara. Ou, ainda, desses
imbecis que se automutilam e enviam mensagens judeofóbicas, para acusar
os magrebinos e os africanos, e que causam problemas à comunidade
judia, que, contudo, não os põe em tribunal... Mas Marie, tendo
compreendido quais eram os bodes expiatórios a denunciar e a
vítima a designar, não hesitou «em ser judia durante 13
minutos»
(Le Monde)
e em acusar magrebinos e africanos de a terem violentado e de terem desenhado
cruzes hitlerianas no ventre. E foi assim que ela fez a primeira página
dos jornais e das televisões. De tanto brincar com lobos, um dia
já ninguém acreditará neles e, quando aparecerem de facto,
será demasiado tarde. É uma coisa elementar. Basta pensar na
história de Pedro e o Lobo. Aparentemente, ninguém entendeu que o
caso de Epinay, de Alexandre Moïse, do rabino Fahri e, hoje, o de Marie
são demasiados actos anti-semitas montados, que não resultaram.
Quem é que acreditará na próxima Marie ou no
próximo rabino Fahri? O anti-semitismo foi banalizado por imbecis e
irresponsáveis. Também alguns, pelo seu afã em condenar
tudo e mais alguma coisa, estão a passar a mensagem de que é
preciso ser-se «vítima de um acto anti-semita» para se ser
escutado. Alguns já dizem «ouvimos falar disso porque ela disse ter
sido vítima de um acto anti-semita, de outro modo não haveria nem
inquérito nem caso». Eis o grande problema desta questão. O
resultado é mau. Para além de se ter insultado duas comunidades,
banalizou-se o anti-semitismo, a judeofobia e o racismo.
Chamavam-lhe contrapoder, chamavam-lhe garante da democracia, chamavam-lhe
progresso humano, chamavam-lhe mesmo a 5ª coluna e, oh desgraça das
desgraças!, só faltava que esta 5ª coluna se abatesse sobre
nós, nos caísse em cima, com um estrondo ensurdecedor e
criminoso. Mas a República que não se fie nisso: esta 5ª
coluna caiu porque a sua barriga balofa e a sua cara bochechuda tornaram-se
demasiado pesadas para a coluna vertebral as suportar. Este monstro barrigudo e
bochechudo foi-se abaixo à força de se alimentar de caviar e de
se remexer com empáfia e à-vontade nas poltronas estofadas de
restaurantes, tão sofisticados como tacanhos, da gente fina de Paris. E
ei-lo, tal Gargantua, deslocando-se num carrinho de mão, ocupando os
palcos da televisão ou as emissões radiofónicas. Um
jornalista não é um representante comercial que vende tapetes ou
aspiradores à televisão. Um jornalista, numa sociedade normal,
faz parte dos intelectuais. Da
Revista da imprensa
aos
Debates
demagógicos do sr. Ardysson e ao circo demagógico de outros
Mazerolle, que por pouco deixava o PAF, depois de ter apanhado uma bofetada
amplamente merecida, uma boa parte da imprensa deveria ser posta em causa.
A imprensa é tudo e mais alguma coisa, um anexo da
Samaritaine
, um petisco de cervejaria popular, a entrada de uma sarjeta. Em suma,
não nos podemos admirar que a indústria do armamento se interesse
por esta «arma de embrutecimento maciço». Os que falam de
liberdade de imprensa tornam-se comediantes ou, simplesmente, palhaços.
Que liberdade? Liberdade não é escrever parvoeiras, liberdade
também é recusar escrever parvoeiras, sujeitando-se a deixar uma
página em branco e preferindo comer batatas cozidas a empanturrar-se
à mesa dos lobos. Eu prefiro Robert Fisk a todos os bananas que escrevem
os artigos ditados por Murdoch. Prefiro a redacção de
Politis
à do
Figaro
. Vale mais ter o estômago colado às costas do que ter a alma no
estômago. A liberdade não é seguir o rebanho, deixando-se
levar pelos seus instintos mais bestiais, instintos que alguns animais
domésticos já não têm. A liberdade de uns
pára onde começa a dos outros. Ora, eu tenho a impressão
de que, durante todo o fim-de-semana, se pisaram o espaço e o corpo de
outros. Esta imprensa, que nos fala dos Saddam e dos Georges
Doubleiou, mas nos deixa dúvidas de como se comportaria sob uma
ditadura. Rastejaria e acertaria o passo. Isso é bem claro, pois a
razão do mais forte é sempre a melhor e, principalmente, porque
quem mais berra é quem tem razão. Mamadou e Karim não
têm os estúdios da France Télévision à sua
disposição (embora paguem a taxa) para se explicarem, não
têm amigos na direcção da France Télévision
ou nas salas de redacção da imprensa escrita. É esta a
realidade: Crukierman, Gaubert, o deputado Lellouche e outros
energúmenos têm todos os órgãos de imprensa à
sua disposição, mas aqueles a quem caluniaram não
têm espaço nenhum de comunicação à sua
disposição. É esta também a cobardia e a
ditadura relativa da imprensa neste país.
Hoje, de manhã, ao acordar aturdida pelo chamado caso do RER
D, a nossa imprensa não nos explica donde veio a
informação dos africanos e magrebinos. Marie falou de
africanos e magrebinos? O sr. Chirac falou de racismo e de anti-semitismo, mas
não de africanos e magrebinos? Donde é que saiu esse
esclarecimento? Do Comissariado da Polícia? Entre o Comissariado da
Polícia e as salas de redacção ou directamente das salas
de redacção? Falar de acto anti-semita, quando se constataram
cruzes gamadas na barriga da Marie, concordo, é normal. Em
contrapartida, falar de magrebinos e africanos, quando nada se provou, isso
não. E mais: que Fourniré e Dutrouc sejam um, francês, e
outro, belga, altera a natureza do seu crime? Será que o mesmo crime,
cometido por um magrebino daria direito a um linchamento mediático da
comunidade magrebina? Ouvimos nós os jornalistas magrebinos,
árabes ou africanos fazer generalizações e declarar que
todos os franceses são assassinos de mulheres e todos os belgas
são pedófilos, ou que a pedofilia é uma especialidade dos
brancos ou dos cristãos? Não. Que
processo foi o de Nuremberga? O do cristianismo? O da cultura alemã? O
do tipo germânico? O da raça branca ou o do nazismo?
Quem organizou o processo? Um tribunal ou jornalistas? A imprensa foi longe de
mais. Demasiado longe. A imprensa mete medo, mesmo muito medo.
Falou-se da religião e das origens de Michel Bensoussan, membro do
Betaar, que tem por ídolo o general Sharon? Fez-se a mesma publicidade
à volta da pequena marroquina que ele desfigurou com ácido? O
presidente da Câmara de Lyon nem sequer se chegou à cabeceira da
miúda.
Tão-pouco a imprensa escreveu um artigo ou uma reportagem acerca da
garota. Michel Bensoussan passeia-se pelas ruas de Lyon, porque tem talvez um
pai magistrado, jornalista ou político? Nós temos o direito de
fazer esta pergunta e devemos fazê-la. Floriant Truchaud, que tentou
mandar pelos ares a Mesquita de Paris, é de que origem? Italiana?
Francesa? Qual é a sua confissão religiosa? Maxime Brunerie
é católico ou protestante? A realidade é que a imprensa
só destaca a origem magrebina, africana e a cultura muçulmana. O
racismo também é isto.
A imprensa só se encarniça contra os muçulmanos e, quando
tem um tema sobre um imã ou uma jovem de véu, agarra-se a isso
como uma lesma a uma folha de couve, pois cuspir nos muçulmanos,
africanos e magrebinos não exige nem profissionalismo nem talento, ao
contrário do verdadeiro jornalismo. Tudo quanto pede é cuspir e
esganiçar-se como um cretino nos programas de televisão. Jogos de
palavras maldosos, artigos chatos e enfadonhos, sem vida, sem perfume, sem som,
sem cor, a morte, o aborrecimento, o ódio aos outros também, o
desprezo pelos outros, ao ponto de falar em seu lugar e atrever-se a pretender
compreender ou saber o que eles pensam ou, mesmo, o que sentem. Se permitirmos,
muito em breve, a imprensa francesa vai-nos dizer quando devemos rir e quando
devemos chorar. Se permitirmos, uma certa imprensa exigirá, um dia, que
o nosso cérebro nos seja interdito, a pretexto de que as nossas ideias
poderiam ser más. Se permitirmos, um dia, uma certa imprensa
exigirá que se proiba a nossa existência socio-cultural e
política. Se, uma certa imprensa faz campanha anti-africanos, é
que não suportaria ver muçulmanos e negros à cabeça
de partidos políticos, à cabeça de televisões
privadas. Le Pen e Mégret, esses, sim. Mamadou ou Ahmed, jamais! Ora
contem os negros e os árabes que apresentam os telejornais das 13h ou
das 20h, contem os cabeça de lista ou ministros de origem africana.
Em suma, com tal matraqueamento, uma parte da imprensa, apoiada por
responsáveis associativos e políticos, anti-árabes e
antimuçulmanos, tentou fazer-nos calar. Mas nós não nos
calaremos nunca. Nunca.
Longe da verdade, ultrapassada, atrasada, a imprensa envelhece mal, como as
suas rotativas. O progresso tecnológico é uma coisa, mas o
progresso moral e espiritual é outra. Alguns imbecis gostariam de nos
fazer crer que o progresso tecnológico está relacionado com o
progresso humano e espiritual de uma sociedade, quando é inteiramente
falso, sendo o progresso, muitas vezes, acompanhado por uma regressão
social enorme, que deixa à beira do caminho centenas de milhar de
pessoas. Isso aconteceu no século XIX, cuja Revolução
Industrial alguns gabam, esquecendo muito frequentemente a
situação das crianças e da gente camponesa e
operária da época. Alguns esquecem frequentemente o
calvário dos mineiros que conheceram mais os abismos negros das grutas
que a luz do dia. Alguns esquecem as centenas de milhares de africanos e
magrebinos, transportados em camiões até França, onde os
esperavam os contratos e uma cama miserável, numa barraca de bairro de
lata ou numa cabana das obras. Nessa época, não valia a pena
fazer bicha diante do Ministério do Interior, ou andar às voltas
na Praça do Châtelet, para reclamar os papéis.
Sim, nessa época, os papéis corriam atrás do magrebino e
do africano. Tudo isto a França amnésica ou de memória
muito selectiva esqueceu. Contrato, documentos, boletim de voto, jornais sem
orientação, tudo isso é apenas papel nesta França,
onde uma elite se empanturra com bolos, vaidosa da sua caneta Mont-Blanc e do
seu impermeável Burberry, tanto mais que a antiga marca de mau gosto
volta a estar na moda. Experimente usar uma túnica africana e
perguntar-lhe-ão se fez a sua roupa das cortinas. Mas se usar o
axadrezado da Burberry, que parece a toalha de cozinha da minha avó,
dir-lhe-ão: Oh, que bonito. O que se inveja é o
inglês, o celta e as pessoas divertem-se a beber o chá das cinco,
falando da sua costela british, quando foram os antepassados de
Mollah Omar, de Mao e um outro Moucharaf que ensinaram os ingleses a beber
chá. Admitamos, porém, que os britânicos continuam ainda
hoje a não perceber que são os reis da infusão e
não da civilização do chá. Uma infusão numa
chávena de porcelana não tem nada a ver com um chá
tuaregue de cravinho, uma chaleira de prata não tem nada a ver com uma
chaleira de porcelana, qualquer que seja a marca de luxo. Quanto ao smoking, os
anglo-saxões devem-no aos antepassados dos actuais prisioneiros de
Guantanamo. Com efeito, ser francês é o quê? Que quer dizer
cultura francesa? Quais são os costumes deste país?
Serão as festas religiosas, todas elas desvirtuadas pelo
comércio, o Halloween céltico que se festeja nas escolas laicas
(o Halloween é mais engraçado que um véu? Onde está
a lógica?), como se a Virgem Maria e o Menino Jesus não fossem
mais saudáveis que todas essa feiticeiras e mortos-vivos que rendem
culto aos
Scream
, ao
Hannibal Canibal
, em que o assassino, o criminoso passa a ser um herói simpático.
Não nos admiremos, pois, que um garoto de 14 anos «se livre da
namorada para fazer como no filme», sem falar do adolescente que, em
Fontenay aux Roses, matou os pais, disfarçado de mr. Scream. Ah, como
é belo o progresso! O halloween, o gótico, os scream, os
homicidas de serra eléctrica e outros Van Helsing, tudo isso é
verdadeiramente progressista. Quanto a
Kill Bill
, como é a obra do talentoso Tarantino, não faremos caso daquela
mulher grávida até ao pescoço, que é morta à
pancada e apanha, depois, uma bala na cabeça, ou ainda aquela cena em
que uma miúda assiste ao assassinato da mãe. Sim, o culto da
violência é uma coisa boa: aos 23 anos, Marie não se
inspira apenas no cinema, mas também nos casos quotidianos, segundo
parece (a dúvida impõe-se por vezes). E o
Pulpe Fiction
, que não tem nem pés nem cabeça, onde toda a gente mata
alguém e se droga, parecendo-se mais com Assassinos Natos
que com Mystic River. De facto, a violência de um
Mystic River, que nos confronta com casos do dia-a-dia das nossas
sociedades e com a miséria que os gera, é mais salutar que a
grande merda comercial de Kill Bill, que não analisa nada e
só vê os lucros a arrecadar. Neste país, alguns ministros
da cultura declararam guerra às canções estrangeiras, em
particular aos êxitos anglo-saxões, impondo quotas, mas eu,
cá, penso que é à violência que é preciso
impor quotas. Não sei se as imagens de Abou Graïb ou de
crianças iraquianas mutiladas foram, ou não, banalizadas pela
hemoglobina que se exibe gratuitamente nos ecrãs dos nossos cinemas.
Não sei se, para a Marie, as cruzes gamadas, os insultos racistas,
são elementos banais de jogos de vídeo ou de filmes violentos,
sem nenhum papel educativo ou moralizador. Infelizmente, essas cenas
mórbidas e maquiavélicas fazem parte de muitos filmes brutalmente
violentos. A violência foi banalizada e o anti-semitismo também.
Não compreendo que gente normal possa ver imagens da invasão do
Iraque, imagens do filme de Michael Moore, sem chorar ou sem ficar comovida. Os
rostos queimados pelo napalm, o corpo de uma criança de dois anos, no
máximo, deposto numa camioneta já cheia de cadáveres,
aquele homem que transporta o filho sem vida e a mancha que se vê, porque
o miúdo mijou-se antes de expirar... Em si, esta imagem, este horror,
é o nazismo. Aquela mancha é uma cruz gamada em si mesma. Uma
criança aterrorizada, ao ponto de fazer chichi e que agoniza um segundo
depois, eis também o nazismo, de que os meios de
comunicação não gostam de falar. Prefere-se ver o nazismo
nos subúrbios de França. O pequeno Ali foi pulverizado pela
barbárie tecnológica americana, uma criança foi mutilada e
querem fazer-nos crer que os negros e os magrebinos são os «novos
nazis». A violência também é isso, os mísseis
que o sr. Dassault fabrica, o mesmo sr. Dassault que se tornou dono do
Figaro
, porque o business é que conta. Mísseis, que
são dirigidos contra seres humanos, em nome da liberdade e da
civilização. Enquanto explodem no estrangeiro, na Arábia
ou em África, é a Guerra, mas, quando explodem na Europa ou nos
Estados Unidos, é o Terrorismo. Como se a guerra não fosse
sinónimo de terrorismo! Os iraquianos estão em guerra contra o
invasor e há quem fale dos prisioneiros que o invasor faz e dos
reféns que a Resistência faz. É o mundo de pernas para o
ar: o Resistente deveria aceitar o invasor e o invasor seria a vítima do
terrorismo, num país onde ele impõe uma guerra ilegal. A
Puta respeituosa, de Jean-Paul Sartre tem palavras menos
ordinárias que Bush, é certo, mas o que interessa ver é
que, contrariamente a ele, a Puta não tem as mãos
sujas. Os nossos jornalistas fazem a apologia das guerras de Washington e
só se distanciam de Washington quando as coisas dão para o torto.
Os nossos jornalistas começaram a falar de manipulação,
tentando desacreditar o filme Farheneit 9/11, sem dizer abertamente
que uma parte da imprensa, responsáveis de associações e
deputados ditos de esquerda são pelo fascista Bush. Os
americanos, conhecendo Bush e tendo visto as imagens de arquivo de M. Moore,
não podem ser manipulados. Mas, mais que o filme de M. Moore, mais que
as torturas sobre iraquianos, penso que foram os seus próprios mortos
que os fizeram mudar um pouco de opinião. Se os iraquianos fossem os
únicos a morrer no terreno, nenhum americano, excepto os anti-guerra
notórios, como S. Penn ou M. Sheen, criticaria Bush. O que dói
aos americanos é a morte dos seus soldados, dos seus filhos, e
não, certamente, o massacre de inocentes. É fácil aplaudir
Bagdade a ferro e fogo, isso é muito fácil, mas, no dia em que o
sangue dos vossos se verte nas ruelas de Bagdade, então torna-se
difícil aplaudir Bagdade a ferro e fogo.
Voltemos a M. Moore, pois mesmo na análise e comentário de
acontecimentos exteriores, a nossa imprensa é
verdadeiramente estranha. Começa por marginalizar o sr. Moore, criticar
Farheneit 9/11
, depois faz a apologia dele, quando, no Festival de Cannes, o
génio Tarantino lhe entrega a Palma de Ouro. Farheneit, no
mundo anglo-saxão, significa grau. Num só título, M. Moore
ironiza o grau que a febre da psicose e do terror atingiu nos
Estados Unidos, graças à propaganda do Governo e ao
matraqueamento da imprensa americana que se pôs às ordens de Bush.
O título é também uma alusão a
Farheneit 451
, de Ray Bradbury, um romance de ficção científica, que
descreve uma ditadura, onde a vigilância do cidadão atinge o seu
paroxismo máximo, onde a leitura dos cidadãos é vigiada e
onde as outras liberdades individuais são postas em causa. Assim, M.
Moore ilustra estes dois pontos: infiltração de um polícia
num grupo pacifista, os serviços secretos a perguntar a M. Moore o que
faz diante da embaixada saudita e, de fonte oficial, ficamos a saber a
possibilidade do Estado controlar as leituras de um cidadão.
Farheneit 9/11
é
Farheneit 451
nos Estados Unidos e não um romance de ficção
científica, cerca de 50 anos depois do aparecimento da obra-prima (1953).
Esta falta de análise pela imprensa especializada ou outra, que se
contenta em desenhar duas ou três estrelas como argumentos de
crítica em matéria de cinema, torna-se também inquietante.
A falta de cultura e de análise é flagrante e mete medo. A
imprensa mete-nos medo. Ela mete-nos muito medo.
Volvamos à conversa inicial ou ao rebanho de Marie.
Ondas hertzianas, transistores aos berros (o megalómano populista da
RMC, que não tem nada a invejar ao Le Pen, estava histérico.
Não sei donde saiu este berrador que é tido por jornalista),
ecrãs de televisão a rebentar pelas costuras, políticos,
responsáveis (irresponsáveis, na realidade) de
associações de culto e culturais, todos disputam um lugarzinho
nos ecrãs e nas ondas radiofónicas: desembrulhar, embrulhar e
voltar a embrulhar, eis o que significa política e imprensa no
Hexágono. Tristes trópicos, não é sr.
Lévy-Strauss? Triste França, na verdade! Isto dá para
escrever um bom ensaio de etnologia! A dança dos braços, as
caretas e os gritos guturais da nossa França de elite ou da
nossa imprensa tem qualquer coisa de mórbido e de decadente.
Se o que é próprio de uma República é ser popular,
ela não deve, por esse facto, tornar-se populista. À força
de falar de Cartas de Nobreza, a imprensa faz-se monárquica
e à força de falar de Tenores políticos, o
político torna-se berrador e tenta vender o seu peixe em hasta
pública. Só que nós não estamos nem num mercado nem
no 1º de Abril, embora muitos já o façam crer.
Tal como uma enfiada de salsichas vermelhas, na montra de um talho, eles
desfilaram pelos corredores da France Télévision e da Radio
France, sem contar com a prosa de supermercado vertida nos diários, que
se seguem uns aos outros e se assemelham todos... Eles exortam à luta
contra o racismo e contra o anti-semitismo, mas são os primeiros a
apontar o dedo à população dos subúrbios
desfavorecidos e a subentender, quando não o dizem directamente, que o
africano e o magrebino são os culpados, sem qualquer prova de facto,
mas, de facto, com muitos preconceitos. Este fim-de-semana, não foram os
ravers de 20 anos que se juntaram no campo, ao som da Techno.
Não, foram os nossos políticos, os nossos jornalistas
quarentões e cinquentões que se encristaram como galinhas e
galos, a baterem-se pelos grãos lançados como pasto pela Marie. E
o certo é que não há vão de escada onde
«não se ouça cacarejar os galináceos que fazem a
opinião» (A. Souchon). A França de elite e a imprensa
puseram-se ao mesmo nível. Neste momento, em que temos um Conselheiro de
Região pago a cerca de 2000 euros por mês, que, em directo da
Quinta, berra como um vitelo, espojando-se na sordidez, como um
esganado por dinheiro, só diz asneiras, podemos facilmente
compreender o provérbio chinês: uma sociedade, como um
peixe, não apodrece pelo rabo, mas pela cabeça. Alguns
têm sorte: ser-se pago para fazer de burro numa quinta e receber 13 000
francos, como Conselheiro Regional, quando o Governo até tentou suprimir
o subsídio de solidariedade, é uma grande sorte. Não sendo
a educação um privilégio, como não é a
correcção, uma parte da nossa França de elite não
sabe comportar-se em sociedade. Assim, a sra. Gilbert, tendo estado na
prisão por uma história de anéis, aparece nos ecrãs
de televisão, a zurrar como um burro, o que é, apesar de tudo,
menos humilhante que fazer de serpente com plumas na
Lui
. E vem o sr. Baudis falar da pornografia a banir do PAF, quando a rainha da
pornografia francesa mostra as ventas nos estúdios da TV, da
pública à privada, a horas de grande audiência,
sujeitando-se às piadas sexistas («ela gosta de montar a
cavalo», etc.) e machistas dos Foucault e outros animadores,
que se aferrem ao seu lugar no audiovisual como um ditador ao seu trono. Triste
PAF! Prefiro reler os velhos
Pif
a ver este enxurro de estupidez. Se a imprensa e a dita fina flor
querem participar no grande estendal, então tudo pode ser permitido: boa
parte da imprensa, escrita ou audiovisual, não é mais do que uma
enorme cloaca.
Este parágrafo não se refere a jornalistas que apresentaram
abertamente as suas desculpas.
Correcção e humildade é também o que falta aos
nossos jornalistas, que só pensam depois de ter acusado e são
incapazes de reconhecer os seus erros, pedindo perdão aos
cidadãos e comunidades a quem acusam de todos os males, quando usam e
abusam das palavras. Se um engenheiro, uma secretária, um vendedor, um
futebolista, um cozinheiro, um sapateiro, um empregado de correios, um cantor,
um actor podem facilmente dizer perdão ou meti a pata na
poça, um jornalista é incapaz disso. Quando muito, apesar
da asneira à vista, atreve-se a responder-nos: não, eu
não fiz merda.
Um jornalista nunca se engana e, quando se engana, a culpa é do
despacho noticioso, a culpa é dos despachos que se acumulam nos nossos
computadores e não temos tempo de verificar tudo e partimos do
princípio de que recebemos uma informação correcta e,
depois, o Presidente da República reage (se Jacques manda,
é preciso obedecer, como é da praxe. São verdadeiros
putos! Eis, pois, o que me dão estes desgraçados, que puseram a
funcionar uma K7 audio, na radio, ou um vídeo que repetiram todo o
fim-de-semana. O primeiro prémio vai para a LCI, onde Malik Bouthi fez
de cabeça rapada, cuspindo sobre o Islão e nos magrebinos,
esquecido, aparentemente, das suas origens magrebinas. Por que não
esmagar aqueles a quem chamam jovens dos subúrbios, para ter
um lugarzinho no PS? Defender o racismo antijudeu, fazendo racismo
antimulçumano, devo dizer que o SOS Racismo é muito bom nisso.
SOS Racismo não foi imitado pelo SOS Racailles, por um simples acaso.
A imprensa, como adolescente mentecapto, brinca connosco depois deste
fim-de-semana vergonhoso, com os nossos pequenos figurões a
dizer ou a escrever: Se eu soubesse, não teria escrito. Como
se molhar a pena no tinteiro fosse mais vital do que fazer trabalhar as
meninges. Como se fossem obrigados a escrever seja o que for, a dizer qualquer
coisa, desde que se escreva ou se diga.
É quase como se os magrebinos e os africanos tivessem de calar a boca e
PEDIR DESCULPA ou dizer OBRIGADO À IMPRENSA, particularmente no que se
refere à imprensa radiofónica. A Radio France caiu no
ridículo. Esta odiosa maneira de baralhar as coisas, tentando fazer crer
que os magrebinos e os africanos não tinham sido caluniados e difamados,
não engrandece certa imprensa e estou a pensar, sobretudo, na France
Info, RFI, Europe 1 e RMC.
Ontem, um polícia foi detido por ter atropelado dois ciclistas, mas
nenhuma rádio ou televisão falou da sua origem ou
religião. Será que só se deve falar das origens africanas
e magrebinas? Só a confissão muçulmana é que deve
ser destacada? De que religião e de que origem é o sr.
Fourniré que matou nada menos que nove raparigas? Teremos cometido
crimes piores que os de um assassino em série, para nos matraquearem
durante todo o fim-de-semana? Qual é a religião do sr.
Fourniré? Qual é a religião do Pedrinho
maluco, qual é a religião de todas as pessoas que cometem
delitos todos os dias? Quais as suas origens? Em todo o caso, não tendo
a imprensa falado de origem magrebina e de religião muçulmana,
sobram apenas duas religiões. Portanto, podemos fazer um jogo: apostar
na religião da pessoa. Chamar-lhe-emos O Jogo da imprensa.
E esse relatório dos RG, que fala da delinquência entre os
magrebinos ou nos subúrbios (já que magrebino é igual a
jovem de subúrbio, na síntese política e
mediática), é um relatório étnico ou visa uma
etnia? Aparentemente é esse o caso. Qual é o número das
outras etnias? Vamos mais longe, desenvolvamos esta lógica e
peçamos aos RG que nos dêem os números dos crimes de sangue
neste país e a religião e a etnia daqueles que os cometem. Por
exemplo: qual é a categoria socio-profissional, a origem étnica e
a religião que mais frequentemente se encontram nos crimes
pedófilos? Não basta dizerem-nos que Rachid roubou mais
auto-rádios que François, é ainda preciso dizer qual dos
dois é capaz de violar crianças ou matar mulheres em
série? Aqui está aonde levam as derrapagens racistas dos
políticos e da imprensa. Qual é a religião dos
pedófilos notórios? Qual é a sua cor de pele? O QUE
É DE MAIS NÃO PRESTA. Mesmo os RG não são pagos
para escrever ensaios etnológicos retrógados, dirigidos contra
uma comunidade. Este relatório é uma estupidez à medida
das leis retorcidas, que nos fazem justiça com dois pesos e duas
medidas, uma estupidez à medida das cidades-gueto onde a França
enterra as franjas mais pobres da população, para nos vir,
depois, falar de fechamento comunitário. Amontoam-se
africanos num gueto e, seguidamente, faz-se notar que eles gostam de
túnicas compridas e de mandioca? Amontoam-se árabes em guetos,
longe de tudo e, depois, os RG constatam que eles gostam de comer borrego morto
segundo o rito muçulmano? Que raio de estupidez imunda é esta?
Quem é que construiu as cidades-gueto e quem é que decidiu
lá concentrar negros e árabes? Fui eu? Foi o sr. Comunitarismo ou
o sr. Fechamento Comunitário? Foi porque Jacques Chirac, Giscard, os
falecidos Pompidou e Mitterrand imaginaram que iam fabricar cosmonautas nas
coelheiras dos 4 000 ou do Vale Fourré e se
enganaram? Este relatório é imundo e demonstra também que
a maturidade do ou dos redactores levanta um sério problema, pois, mesmo
aos 20 anos faz-se melhor, muito melhor.
Em Hassi-Messaoud, alguns ocidentais, pagos pelas companhias
petrolíferas, praticam um superfechamento comunitário: nenhuma
relação com os argelinos, álcool e comida à
vontade, atrás de grades doiradas. Idem, nas bases de Luanda e de
Cabinda, em Angola. Idem, na base de Brazzaville, no Congo. O fechamento
comunitário dos expatriados franceses também se
vê, portanto, em África e na Arábia. Vamos, então,
filmar o fechamento identitário franco-francês em África.
Vamos ver as antenas parabólicas dos expatriados franceses em
África. Vamos, então, ver como os orfanatos de Djibouti
estão cheios de mulatos abandonados, filhos de pai francês. Antes
de apontar o dedo ao fechamento comunitário deliberado e desejado por
certas pessoas, que a imprensa faça o seu trabalho e mostre à
França o fechamento comunitário no estrangeiro. Mas é bem
verdade que é melhor ficar na sua vivenda, à beira da piscina,
que ir chatear-se com os negros de Brazza.
Se Fourniré fosse africano e muçulmano, nós
teríamos direito à sua origem marroquina ou da Costa do Marfim.
Mas, aparentemente, ele é indígena. Aparentemente, os
maiores crimes são coisa dos indígenas? Gostaria de saber de que
origem e de que religião são todos os jornalistas que falam das
origens e das religiões dos outros. Deixemo-nos de cinismos de mau
gosto. Fourniré nem é a França nem é o
cristão. Mas continuemos com a ironia. Admiremos esta imprensa e esta
classe política que nos servem o dia de hoje, porque
há o dia de ontem e haverá o dia de amanhã. Devemos ao sr.
Jean-Marie Cavada, de A marcha do Século, a popularidade
deste barbarismo. Nem toda a gente pode falar de França como
H. Troyat, escritor oriundo da imigração russa ou,
ainda, como PPDA.
Os jornalistas divertem-se como os americanos dos anos 70 (a época dos
chicanos): estudam-nos, põem-nos alcunhas para nos
identificar como o black, o beur, o
magrebino, o muçulmano, o jovem do
subúrbio, o jovem das cidades-dormitório. A
loucura da imprensa é tal que se esquece de que nas
cidades-dormitório há mais trintões e quarentões do
que jovens e todos os anos nos faz um leafting, imaginando talvez
que um magrebino e um africano não passa dos 14 anos. Um pouco como C.
Trénet, que dizia que «os negros eram crianças
grandes». Era preciso ensinar-lhes tudo, pobrezinhos, eram crianças
para toda a vida!
Presume-se sermos muito jovens, jovens para sempre, educadores e mediadores
sociais, imãs, estúpidos, iletrados e até analfabetos, com
problemas de identidade, integristas, não integrados, que gostamos de
Ben Laden e de Mollah Omar, que gostamos da morte, que estamos desempregados,
que somos drogados, vítimas do insucesso escolar, que usamos véus
islâmicos, comemos merguez, passamos droga, roubamos auto-rádios,
degolamos carneiros na casa de banho, agredimos ao longo do dia, estamos mais
na prisão que em liberdade. Em suma, nós seríamos uns
falhados e, em conclusão, más reses. Coisa a deitar para o lixo.
Nós não somos indivíduos. Nós não somos
cidadãos. Nós somos NÓS e nunca Eu, Tu, Ele, Ela,
Nós, Vós, Eles, Elas. Nós só somos NÓS. Um
NÓS vago, bem compacto, uma coisa enorme que ameaça, que se
desloca como um fantasma pelos guetos, isolados de tudo, zonas que não
fariam parte da República, zonas indefinidas. A este propósito,
uma jornalista fez a descoberta dos territórios perdidos da
República. Em contrapartida, eu acabo de fazer uma também
importante, a dos jornalistas perdidos da República.
Nós estaríamos, pois, em zonas sem lei, um pouco como
a desaparecida Atlântida, zonas de sombra, onde matulões
magrebinos, de rosto ameaçador, se passeiam com facas, onde colossos
africanos têm quinze mulheres de 16 anos. Nós somos o
subúrbio pobre, nós somos os vãos de escada degradados,
nós somos os elevadores que caiem, nós somos os CV deitados para
o lixo, nós somos o NÓS irresponsável, o NÓS
comunitário, o NÓS que cria problemas, o NÓS terrorista, o
NÓS anti-semita, o NÓS que anda em rebanho, a horda de
Átila que se abate sobre a França, pilhando, escavacando,
destruindo tudo o que encontramos no caminho, NÓS somos Aníbal
que sonha anexar a França, NÓS temos de sofrer pela
audácia de existir, NÓS ousámos nascer em França,
NÓS temos a desfaçatez de representar o fracasso colonial do
Império francês, NÓS temos a audácia de sermos
muçulmanos num país que seria judeo-cristão. Nós
temos a audácia de criticar a França. Nós temos a
audácia de reclamar os nossos direitos porque cumprimos os nossos
deveres, NÓS temos a audácia de sermos filhos e netos de
independentistas, NÓS temos, para alguns, o descaramento de usar o
lenço da cabeça das nossas avós ou bisavós.
Estes lenços que floresceram em França são talvez os
minaretes das mesquitas interditas. Como as bretãs, numa determinada
altura, decidiram usar bem alto os seus campanários, parece,
hoje, que algumas muçulmanas usam o seu minarete na
cabeça. Este país, que se afirma
judeo-cristão para desculpar a sua aversão ao
Islão e à cultura árabe no seu conjunto, viu no seu solo,
cidadãos cristãos ajudarem o ocupante a massacrar os judeus,
como, numa outra época, fechou com grande zelo os campanários das
igrejas bretãs, alegando ser a solução para integrar
e dominar os bretões. Procuram motivos, tentam justificar-se, mas
isso é tão inútil como lamentável. Mas como
esconder-se atrás da religião judaica e cristã, quando
neste país se maltratam uns e outros? Robespierre não era
muçulmano e Pétain também não. Os padres que foram
cúmplices no suplício das gentes da Vendeia, afogadas às
centenas, não eram nem judeus nem muçulmanos. Neste país,
cristãos mataram cristãos, cristãos mataram judeus, como
também alguns os defenderam. Então não se escondam
atrás do termo genérico judeo-cristão. Que
quer dizer muçulmano? Aquele que se submete à vontade de Deus,
Alá, em árabe. Quem é o pai dos muçulmanos?
Abraão. Então expliquem-me como é que o Islão
não é judeo-cristão. Expliquem-me o que fazem, no
Islão, Moisés e Jesus. Expliquem-me o nome judeu de
muitíssimos muçulmanos, expliquem-me por que é que os
nomes muçulmanos são mais cristãos que os
nomes dos cristãos do Ocidente. O sr. de Villiers, por
exemplo, que me esclareça sobre a raíz cristã do seu nome.
O meu nome é mais cristão do que o de Charles Martel e de muitos
dos reis do Ocidente que, no entanto, representaram o cristianismo? O meu nome
é mesmo mais cristão do que o do Papa ou, até, o de
São Paulo e São Pedro? É preciso deixar de fazer como se
Jesus de Nazaré tivesse nascido no Quartier Latin e o Islão fosse
a única religião árabe. O Cristianismo também
nasceu no mundo árabe. O Catolicismo é uma herança do
Maronismo. A Igreja de Antíoco ergueu-se antes da Igreja
Católica. É no mundo árabe que os baptismos
cristãos continuam a fazer-se em arameu e, à maneira de
São João Baptista, é no Iraque, na Síria, na
Palestina e no Líbano, entre outros, que a Missa se continua a dizer na
língua de Jesus e de São João Baptista. É na grande
sala das orações da Mesquita dos Omíadas que se encontra o
Mausoléu de São João Baptista e não no Vaticano ou
em Washington. Sim, na Mesquita dos Omíadas, não numa Igreja, mas
numa Mesquita. É preciso deixar de fazer como se o Cristianismo e o
Judaísmo fossem estranhos ao Corão, pois o Islão
não pode juntar-se à cultura judeo-cristã por
ser já judeo-cristão. Os muçulmanos
são, assim, os últimos a praticar o sacrifício de
Abraão. O problema deste país é que as pessoas nunca
procuraram compreender o significado do Islão e o percurso do Judeu e do
Cristão que se realizaram e completaram no
Islão. Para compreender isso, é necessário estudar a
História dos países árabes e é também
necessário conhecer a cultura desses países.
Não houve agressão semita, é certo. Mas, na sua mentira,
uma cidadã decidiu que os agressores imaginários deviam ser
magrebinos e africanos. É o racismo na sua forma mais banal, na sua
forma oficiosa e oficial. Vejamos, então: «Marie mentiu».
Imagino que as mães magrebinas e africanas de Sarcelles devem ter
suspirado de alívio, ao saber que o(s) filho(s) de 15 ou 20 anos
não tinha(m) tido a infelicidade de sair a correr da
estação de Sarcelles. Quem, mais que um adolescente ou um jovem
de 15 a 20 anos, faz algazarra e corre com os amigos? Se uns jovens magrebinos
e africanos tivessem deixado a estação a correr, porque se
divertiam ou estavam atrasados para o autocarro, iriam para a prisão?
Tê-los-iam forçado a confessar um crime que não cometeram?
Mas Marie não fez nada de mal. Mentiu simplesmente. Acusou apenas
magrebinos e africanos. Banal, não é? Fácil, não
é? A isto se chama preconceitos racistas.
Marie não fez nada de mal, limitou-se a desenhar cruzes gamadas na
barriga, cruzes gamadas ou flores (cada qual tem o seu estilo) e ela optou
pelas cruzes gamadas, talvez por ser mais fácil que desenhar as
mãos de Fatma ou Corões. Ela acusou, muito naturalmente,
magrebinos e africanos de terem feito isso, de lhe haverem cortado o cabelo com
uma faca, rasgado a roupa, atirado ao chão o carrinho onde tinha o
bebé, de terem concluído que ela era judia porque morava no
16º bairro. Em suma, Marie não fez nada de mal. Nenhuma
associação judia apresentará queixa, pois desenhar cruzes
na barriga, como se poderiam desenhar flores, é aceitável.
Nenhuma associação anti-racista e anti-semita apresentará
queixa, porque, se Marie acusou uns magrebinos e uns africanos de a terem
atacado por julgarem que ela era judia, devido a uma morada no 16º bairro,
foi porque ela, em si, não tem esse preconceito. Marie não fez
nada de mal e até pediu perdão. A quem? Não aos
Negros ou aos Magrebinos.
Se o sr. Crukierman soube «apelar aos imãs das
cidades-dormitório para falarem aos jovens», via comunicado na RFI,
como se fosse o ministro do Interior ou o Reitor da Mesquita de Paris, ele
nunca ousou apelar aos padres para falarem aos jovens do centro ou a
Marie. Isto diz muito da mentalidade do sr. Crukierman, que enferma do
espírito do Decreto Crémieux. O sr. Crukierman
está bem mais longe das ideias de Nelson Mandela do que das de Pieter
Botha. Desprezo o sr. Crukierman desde a sua declaração pro-Le
Pen, sob a forma de uma ameaça dirigida à comunidade
muçulmana, no dia seguinte à primeira volta das
presidenciais. Um judeu, que ameaça com o nome de um homem que bateu
numa deputada judia, atirando-a ao chão, depois de a ter empurrado
contra a parede, ou, ainda, de um homem que declarou que «as câmaras
de gás era um pormenor da História de França», para
não falar da graçola à sr. Durafour, não tem um
mínimo de consciência e, quando se trata do Presidente do CRIF,
é tão indigno como vergonhoso. Ele não tem nenhuma
correcção, nem sentido da Honra.
O sr. Crukierman, tal como outros, gostaria que, neste país, houvesse
uma escala de valores, mas a França não é a África
do Sul de Botha, nem Israel de Sharon. A coberto do anti-semitismo, alguns
tentam defender o sionismo ultra, como acontece com Alex Moise, que enviava
insultos anti-semitas a si próprio. E isso não é inocente,
num homem que representava o Likoud em França. Quando Julien Dray atira
o seu ódio (ele tem todo o direito) contra Tarik Ramadan («eu
dar-lhe-ia, de bom grado, um murro nas trombas»), eu pergunto a mim mesma
por que é que ele não tem vontade de dar esse murro a Papon e por
que é que nunca o quis dar a Jean-Marie Le Pen pelas suas piadas
anti-semitas e pela sua opinião acerca das câmaras de gás
no quadro da História de França. Eu pergunto a mim mesma como
teria reagido Julien Dray ou Crukierman, se o sr. Ramadan tivesse dito o mesmo
que Le Pen. Mas, como escreve a sra. Coroller no
Libération
, no artigo Traumatizada, Le Pen é um branco
vulgar. Isto é grave.
Mas donde vem essa escala de valores? Pois, se a Dieudonné foi interdito
o serviço público por causa de uma cena onde ele fazia de
extremista israelense (quando o extremista é negro ou árabe, isso
já não choca), o sr. Le Pen, com todas as suas
manifestações anti-semitas, como «Durafour
crematório» e «as câmaras de gás são um
pormenor da História», pavoneia-se pelos corredores da France
Télévision e da Radio France, sem problemas. Mas a verdade
é que há negros, brancos e beur, o que nos traz de
volta a Pieter Botha, também ele, talvez, um branco vulgar,
traumatizado. O nazi Botha fez milhares e milhares de discursos e nunca
foi incomodado pela ONU pela sua ideologia nazi. Pior ainda: Washington apoiou
Botha e votou contra a libertação de Nelson Mandela. De qualquer
modo, a ONU chamou Israel à ordem a 10 de Novembro de 1986 pelas suas
relações com o regime de Botha -- em 1986,
Resolução 41/35, ponto C, Relações entre
Israel e África do Sul, extracto, ponto 1: «a Assembleia
Geral volta a condenar energicamente a colaboração sempre cada
vez mais estreita entre Israel e o regime racista da África do Sul,
principalmente nos domínios económico, militar e nuclear.
Gostaria, também, que os que se servem do anti-semitismo, para fazer
passar as suas ideias à Botha, tivessem a coragem de assumir as suas
opiniões. Defender Israel, quando é Sharon quem está na
chefia, é duvidoso e partir para a guerra contra os franceses, que
são negros e árabes, é próprio de uma mentalidade
afrikaner. Eu sou membro de uma Associação para a Defesa dos
Direitos do Povo Palestiniano e a maioria dos membros desta
Associação são indígenas, de cultura
cristã e judaica. Por isso, não compreendo a razão por que
Crukierman e Gaubert, entre outros, têm esta ideia fixa dos
mulçumanos, árabes e negros. Ariel Sharon, segundo a
Jeune Afrique
(há vários artigos) efectuou frequentes viagens à
África do Sul, durante o governo de Botha. O regime agradava-lhe muito.
Esse facto não me tornou anti-semita. Assim, seria talvez a altura de
certas pessoas terem a coragem de assumir as suas ideias racistas e fascistas e
deixassem de se servir de tudo e mais alguma coisa para se defenderem.
Terá sido preciso esta história de uma mitómana para
compreenderem que brincar ao Pedro e o Lobo não era nem
inteligente nem aceitável? Eu relembro que, quando o lobo chegou de
facto à aldeia, ninguém acreditou no Pedro que se fartara de
gritar vem aí o lobo e o fim da história toda a gente
conhece.
Abaixo, transcrevo o extracto de um discurso de Botha que faz com que, em caso
nenhum, admita que um jornalista, um país, um político,
faça do racismo antinegro ou anti-árabe um jogo ou uma
banalidade. O que se passou em França neste fim-de-semana é uma
completa vergonha.
Extracto do discurso de P. Botha, O meu programa de
exterminação física dos negros da África do
Sul, Agosto de 1980 (Ver
Magazine Réflexe,
Jan./Fev. 1990): «Vivemos no meio de selvagens que não suportam o
nosso sangue, que nos odeiam e querem arrancar-nos o que adquirimos. Em verdade
vos digo, esta é uma terra dada por Deus e pela qual nos devemos bater
até à última gota do nosso sangue. Nós não
somos obrigados a provar a ninguém, e muito menos aos Pretos, que somos
um povo superior. Já demonstrámos isso aos Pretos mil e uma
vezes. Nós não afirmamos, como fazem outros brancos, que gostamos
dos negros. O facto de os negros se parecerem com seres humanos e agirem como
seres humanos não faz deles necessariamente seres dotados de
inteligência. Os sapos não são porcos-espinhos e os
lagartos não são crocodilos só pelo facto de se
assemelharem. Se Deus tivesse querido que fôssemos iguais aos negros,
ter-nos-ia criado uniformemente, com a mesma cor, com a mesma
inteligência. Mas criou-nos diferentes brancos, negros, amarelos,
desde há anos. De qualquer modo, é reconfortante saber que,
apesar das aparências, a Europa, a América, o Canadá, a
Austrália estão connosco, uns e outros, digam eles o que
disserem. No que diz respeito às relações
diplomáticas, sabemos que linguagem se deve utilizar e onde se deve
utilizar. Para justificar o meu ponto de vista, peço que me digam se
há um só país branco que não tenha investido ou que
não tenha interesses na África do Sul. Quem compra o nosso ouro?
Quem compra os nossos diamantes? Quem faz comércio connosco? Quem nos
ajuda a desenvolver a arma nuclear? O desejo de poder não começou
connosco. A lei da natureza quer que o pequeno peixe seja comido pelo grande.
Daí, nós estarmos intimamente convencidos de que o Negro é
uma matéria-prima para o Branco. Irmãos e Irmãs, unamos os
nossos esforços para combater o diabo negro. Aceitemos, pois, que o
negro é o símbolo da pobreza, da inferioridade mental, da
preguiça e da incapacidade emocional. A alimentação,
enquanto suporte do genocídio que vamos levar a cabo em
relação aos negros, deve ser utilizada. Já desenvolvemos
excelentes venenos que matam lentamente (veneno a pôr nos alimentos) e
possuem, para mais, a virtude de tornar as mulheres estéreis. O meu
último apelo é que as operações nas maternidades
sejam intensificadas. Nós não pagamos aos responsáveis dos
serviços hospitalares para eles ajudarem as crianças negras a vir
ao mundo, mas para as eliminar à nascença. Se esse serviço
trabalhasse eficazmente, uma grande tarefa seria cumprida. O meu governo
pôs de lado um fundo especial, para que este programa seja executado
convenientemente nos hospitais e clínicas». (P. Botha).
Esperando que este discurso recorde a alguns que estigmatizar e apontar o dedo
a uma cor de pele ou a uma religião deu sempre lugar a massacres, a
genocídios e não serviu nenhuma nação até
hoje. Quem oprime não colhe senão o ódio que semeia. Basta
olhar à nossa volta para compreender.
Saudações
Notas
[1] Folcohe, personagem do livro de Hervé Bazin Vipère au
poing, editado pela Europa-América, em 1960, com o título
De víbora na mão. Optou-se, aqui, pela
tradução Com quatro pedras na mão.
[2] Pejorativos utilizados em França para designar os árabes,
magrebinos, norte-africanos.
[*]
Poetisa socialmente comprometida
O original encontra-se em
http://fr.groups.yahoo.com/group/CubaSolidarityProjet/message/6305
.
Tradução de MJS e ASA.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info
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