O agravamento da crise da dívida:
Quem nos pôs nesta confusão e quais são as opções políticas reais?

por Michael Hudson [*]
entrevistado por Mike Whitney [**]

Mike Whitney: Na sexta-feira à tarde o governo anunciou planos para colocar os dois gigantes hipotecários, Fannie Mae e Freddie Mac, sob "conservatorship" Os accionistas serão virtualmente eliminados (suas acções já afundaram em mais de 90 por cento) mas o Tesouro dos EUA intervirá para proteger a dívida das companhias. Em alguma medida também protegerá suas acções preferenciais, as quais o Morgan-Chase reduziu os preços para a metade.

Isto parece ser a mais arrasadora intervenção governamental nos mercados financeiros da história americana. Se estas duas companhias são nacionalizadas, isto acrescentará 5,3 milhões de milhões (trillion) de dólares ao balanço do país. Assim, a minha primeira pergunta é: por que o Tesouro está a salvar portadores de títulos e outros investidores nas suas dívidas hipotecárias? Qual é o interesse publico nisto tudo?


Hudson: O Tesouro enfatizou que estava pressionado para finalizar os pormenores da tomada até domingo à tarde antes que os mercados asiáticos abrissem para negócios. Esta preocupação reflecte o balanço de pagamento e portanto a dimensão militar do salvamento. Os bancos centrais da China, Japão e Coreia são grandes possuidores destes títulos, precisamente devido à grande dimensão da Fannie Mae e do Freddie Mac – seus US$5,3 milhões de milhões em dívida apoiada por hipotecas que você mencionou e os US$11 milhões de milhões totais do mercado hipotecário estado-unidense.

Quando você olha para o balanço dos activos estado-unidenses disponíveis para bancos centrais estrangeiros comprarem com os US$2,5 a US$3,5 milhões de milhões que eles possuem, o imobiliário é a única categoria de activos suficientemente grande para absorver os fluxos de saída da balança de pagamentos que os gastos militares dos EUA, o comércio exterior e a fuga de capital de investimento estão a lançar. Quando os militares dos EUA gastam dinheiro no exterior para travar a Nova Guerra Fria, estes dólares são cada vez mais reciclados em títulos dos EUA apoiados por hipotecas, porque não há outro mercado suficientemente grande para absorver as somas em causa. Lembre-se que nós não permitimos aos estrangeiros – especialmente asiáticos – comprarem alta tecnologia, "segurança nacional" ou infraestruturas chave. O governo preferiria vê-los comprar troféus inócuos tais como o Rockfeller Center, ou participações minoritárias em bancos com património negativo tais como as acções do Citibank vendidas aos sauditas e bahrainis.

Mas há um limite sobre quão abertamente o governo estado-unidense pode explorar bancos centrais estrangeiros. Ele precisa manter a reciclagem de dólares em andamento, a fim de impedir uma depreciação aguda do dólar. O Tesouro portanto deu garantias informais a governos estrangeiros de que garantirão pelo menos o valor do dólar do dinheiro que os seus bancos centrais estão a reciclar. (Estes governos ainda perderão quando o dólar afunda contra divisas duras – simplesmente quase toda divisa excepto o dólar nos dias que correm.) Um fracasso em proporcionar garantias de investimento a estrangeiros frustraria a continuação dos gastos militares dos EUA além mar! E uma vez que os estrangeiros são salvos, o Tesouro tem de salvar também os investidores americanos, simplesmente por razões políticas.

MW: A Fannie e o Freddie têm estado a arcar com hipotecas de risco desde há muito tempo, subdeclarando os riscos sobretudo para aumentar os preços das suas acções de modo a que os seus administradores possam pagar a si próprios dezenas de milhões de dólares em salários e opções de acções. Agora eles estão essencialmente insolventes, quando o próprio principal está em causa. Houve crítica generalizada quanto a isto, ano após ano. Por que nada foi feito?

Hudson: A Fannie e o Freddie eram bem conhecidos pelo seu lobbying pesado em Washington. Eles compraram o apoio de congressistas e senadores que conseguiram penetrar nos comités de supervisão financeira de modo a estarem em posição de arrecadar financiamentos de campanhas junto à Wall Street que queria assegurar que nenhuma regulação real tivesse lugar.

Ao nível mais vasto, o secretário do Tesouro Paulson disse que estas companhias estão a ser tomadas a fim de reflacionar o mercado imobiliário. A Fannie e o Freddie eram quase sozinhas a suportar o mercado das hipotecas lixo que estavam a enriquecer a Wall Street.

Os administradores afirmavam que pagavam-se a si próprios pela "inovação". No vocabulário financeiro orwelliano de hoje, "inovação" significa a criação de privilégios especiais para a extracção de renda. O privilégio estava a conseguir o proverbial "almoço gratuito" (isto é, renda económica) ao tomar empréstimos às baixas taxas de juro do governo para comprar e reempacotar hipotecas a fim de vendê-las com uma margem de juros elevados. Sua "inovação" repousa na ambiguidade que lhes permitiu posar como sector público quando queriam tomar emprestado a taxas baixas, e árbitros do sector privado quando queriam obter uma arrecadação a partir de margens mais altas.

Os auditores do governo agora estão a descobrir que a sua inovação era cozinhar os livros da contabilidade, estilo Enron. Quando as hipotecas atrasadas e os incumprimentos aumentavam, a Fannie e do Freddie não reduziram os valores dos seus haveres hipotecários para preços realistas. Eles disseram que fariam isto aproximadamente dentro de um ano – em 2009, depois de os desreguladores da administração Bush terem saído. A ideia era deitar as culpas sobre Obama quando eles finalmente falissem.

Mas ao nível mais profundo, a "inovação" que criou uma brecha para a extracção de renda era a fraude que fazia com que cada vez mais empréstimos de más hipotecas pudessem continuar por um período de tempo prolongado. A realidade é que nenhum aumentos exponencial da dívida alguma vez pôde ser pago durante mais do que uns poucos anos, porque nenhuma economia alguma vez foi capaz de produzir um excedente com rapidez suficiente para manter o passo com a "mágica do juro composto". Esta frase é em si própria um sinónimo do aumento exponencial do crescimento da dívida.

O caminho para a escravidão pela dívida

MW: Numa entrevista anterior você disse: "A economia atingiu o seu limite de dívida e está a entrar na sua fase de insolvência. Nós não estamos num ciclo e sim no fim de uma era. O velho mundo da dívida a aumentar em pirâmide não pode ser restaurado". Pode ampliar esta visão para os desenvolvimento actuais?

Hudson: Até quando cada vez mais dinheiro pode ser bombeado para dentro do mercado imobiliário, enquanto o rendimento pessoa disponível não está a crescer o suficiente para pagar estas dívidas? Como podem as pessoas pagar hipotecas que excedem o valor da renda da sua propriedade? De onde virá a "procura do mercado"? Os especuladores já se retiraram do mercado imobiliário no fim de 2006 – e naquele ano eles representavam cerca de um sexto de todas as compras.

O melhor que este salvamento do fim de semana pode fazer é adiar as perdas de dívidas hipotecárias más. Mas isto é muito diferente de realmente restaurar a capacidade dos devedores para pagar. O sr. Paulson fala de mais concessões de empréstimos para apoiar os preços imobiliários. Mas isto impedirá a habitação de cair a níveis que as pessoas possam adquirir sem incorrer em dívida hipotecária cada vez mais profunda. Os preços da habitação ainda estão imóveis, acima da tradicional definição de equilíbrio – preços cujos encargos são apenas iguais ao que custariam para arrendar permanentemente.

O objectivo do Tesouro é ressuscitar a Fannie e o Freddie como entidades que concedem empréstimos – e portanto como veículos para a economia dos EUA tomar emprestado dos bancos centrais estrangeiros e dos grandes investidores institucionais que mencionei acima. Mais concessão de empréstimos é suposto apoiar os preços imobiliários para impedir que caiam demasiado como fariam de outra forma – e de facto o objectivo é manter a pirâmide da dívida a crescer. O único meio de fazer isto é emprestar aos devedores de hipotecas o suficiente para que paguem os encargos de juros e amortização sobre o volume existente de dívida que eles suportam. E uma vez que a maior parte das pessoas não está realmente a ganhar mais – e de facto estão a descobrir que os seus orçamentos encolhem – a única base para que assumam mais empréstimos é inflacionar o preço do imobiliário que está a ser comprometido como colateral para refinanciar a hipoteca.

É pura hipocrisia de Hank Paulson da Wall Street afirmar que tudo isto está a ser feito para "ajudar os proprietários de casas". Eles são veículos para fazer dinheiro, não os beneficiários. Eles estão na base de uma cadeia alimentar cada vez mais carnívora e financeiramente extractiva.

Praticamente todos os peritos imobiliários concordam em que no próximo par de anos muitos dos proprietários de casas de hoje descobrir-se-ão bloqueados no lugar em que estão a viver. Sua situação é em grande medida como a dos servos medievais que estavam ligados à sua terra. Eles não podem vender, porque o preço de mercado não cobrirá a hipoteca que possuem, e eles não têm as poupanças necessárias para pagar a diferença.

O assunto é agravado pelo facto de que as taxas de juro estão escalonadas para serem reajustadas a taxas mais elevadas a partir do resto de anos e até 2010, aumentando o fardo financeiro. Você pode recordar que Alan Greenspan recomendou que os compradores de casas tomassem hipotecas com taxas ajustáveis (ARMs) porque o americano médio muda-se a cada três anos. No momento em que a taxa de juros saltasse, explicou ele, eles podiam vender a um novo comprador nesta dança das cadeiras – presumivelmente com cada vez mais cadeira a serem acrescentadas.

Mas os compradores de casa hoje não podem mudar-se, de modo que eles se encontram cravados com encargos de juros em ascensão a acumular com encargos em ascensão em combustível, aquecimento e electricidade, transportes, custos alimentares, seguro de saúde e mesmo impostos sobre a propriedade quando estas começam a alcançar a Bolha de Preços em aumento.

O governo evitou cuidadosamente nacionalizar as companhias e com isso trazê-las para o seu próprio balanço. Ele criou uma "conservatorship" (uma palavra que meu corrector ortográfico não reconhece). Assim, o salvamento da Fannie e do Freddie dá a entender que os republicanos estão simplesmente a tentar jogar o jogo do faz de conta até que deixe o governo em Fevereiro, e depois disso podem culpar o próximo Congresso democrata pelo fracasso do "milagre da dívida a juros compostos".

Portanto, trata-se da política habitual: jogar para o curto prazo. No longo prazo – mesmo no próximo ano – o mercado imobiliário continuará a afundar.

MW: As notícias económicas continuam cada vez mais sombrias, mas você nunca saberá disto ao ouvir os políticos na Convenção Republicana. A única vez que a economia foi mencionada de algum modo foi no contexto da louvação dos mercados livres e da globalização. O crash habitacional e o colapso do mercado de crédito não foram mencionados. Poderia você contar-nos o que pensa significar para o futuro da América o crescimento dos números do desemprego, da procura em queda do consumidor, do disparo dos arrestos e das perturbações em curso nos mercados de crédito? Será isto apenas uma mancha sobre o radar ou estaremos nós em meio a um grande retrocesso que resultará na queda dos padrões de vida e numa recessão profunda e prolongada?

Hudson: Os republicanos preferem distrair as atenções do fracasso do regime Bush nos últimos oito anos. Se as atenções forem voltadas para o Iraque e o terrorismo, para personalidades e estilos, a discussão séria de tais assuntos pode ser eliminada. É o que o noticiário dos media estão a fazer.

Quando políticos falam acerca da economia, a estratégia básica é disputar a eleição de Novembro em torno de quem tem o mais lindo sonho que as pessoas gostariam de acreditar. Espantosamente, um grande número de americanos realmente espera ter uma boa oportunidade para se tornarem milionários. Eles simplesmente não estão a olhar para o lado da dívida na folha do balanço.

A mais notável dinâmica económica de hoje é a polarização entre aqueles que vivem dos retornos da riqueza (finanças e extracção de juros e renda de propriedades, mais ganhos de capital quando os preços dos activos são inflacionados) e aqueles que vivem daquilo que podem ganhar, lutando para pagarem impostos e dívidas que assumiram. As contas do rendimento nacional e do produto – PNB e rendimento nacional – nada dizem acerca da polarização da propriedade, e não incluem ganhos de capital, os quais constituem a maior parte da riqueza que está a ser obtida nestes dias, não pelo investimento directo real para aumentar os meios de produção como afirmam os lobbyistas com a teoria económica do gotejamento.

Aqui está como as coisas são hoje: Os 1 por cento mais ricos da população recebem 57,5 por cento de todo o rendimento gerado pela riqueza – isto é, pagamento pelo privilégio, a maior parte dele herdado. Estes retornos – juros, renda e ganhos de capital – não são primariamente um retorno de empreendimentos. Eles são inércia pura, deprimindo os mercados. Eles não "libertam" mercados, excepto ao proporcionar um almoço gratuito para as famílias mais ricas. Os 20 por cento mais ricos da população recebem uns 86 por cento de todo este rendimento – isto é, o que realmente está a aumentar os balanços familiares.

O que o povo ainda encara como uma democracia económica está a tornar-se uma oligarquia económica. Políticos estão à procura de apoio para a campanha principalmente junto a esta oligarquia porque é aqui que está o dinheiro. Assim eles conversam acerca de uma economia com uma cara feliz para apelar ao optimismo americano, ao passo que são bastante pragmáticos para saber a quem servir se quiserem ter êxito e não serem ostracizados.

Durante a década de 1990 a população dos 90 por cento da base tentou recuperar o terreno perdido entrando em dívida para comprar casas e outras propriedades. O que eles não viam era a necessidade de um crescimento insaciável da dívida para manter uma bolha imobiliária e financeira em expansão. Todo este crédito impôs encargos financeiros, o qual tem sido amplamente responsável por polarizar a riqueza tão agudamente nas últimas décadas.

Estes encargos de dívida têm crescido de uma forma tão pesada que os devedores são capazes de pagar apenas tomando emprestados os juros que são devidos. Eles conseguiram tomar emprestado durante os últimos poucos anos através do comprometimento do imobiliário ou de outros colaterais cujos preços estão a ser inflacionados pela política do Federal Reserve. O Tesouro também contribui para isso concedendo favoritismo fiscal, retirando impostos sobre a propriedade e as finanças. Isto força o trabalho e o capital industrial tangível a optar pela folga fiscal, mesmo quando estão a ser forçados a arcar com um fardo de dívida mais pesado.

Os proprietários das casas não ganham com este "equilíbrio" de preços mais elevado no mercado habitacional. Preços mais elevados significam simplesmente mais encargos de dívida. A elevação dos rácios preço/renda e preço/rendimentos para propriedades financiadas pela dívidas, acções e títulos obriga os assalariados a incidirem cada vez mais profundamente na dívida, dedicando cada vez mais anos da sua vida de trabalho para pagar pela habitação e comprar acções e títulos que proporcionem rendimento para a sua aposentadoria.

A expansão da dívida para comprar propriedade parece auto-justificada enquanto os preços dos activos estiverem a subir. Esta inflação dos preços dos activos é eufemisticamente chamada "criação de riqueza" quando foca os preços do imobiliário, das acções e dos títulos – mesmo quando o rendimento pessoal e as condições de vida e de trabalho são desgastados.

Assim, voltamos à sua questão mais vasta. Não vejo a procura dos consumidores a subir muito, excepto pelos turistas estrangeiros em visita a gastarem o seu dinheiro quando o dólar cai. Aqui em Nova York, os compradores estrangeiros estão a suportar o mercado imobiliário. A baixa da Wall Street já forçou a cidade a adiar o seu prometido corte de impostos sobre a propriedade e a sua expansão do metro. Minha esposa e eu acabámos de receber a nossa conta do condomínio esta semana. Havia uma nota explicativa a dizer-nos que os únicos cortes nos impostos serão para possuidores de propriedades comerciais. As taxas dos impostos sobre a propriedade residencial sobem.

Ficou pior. Sem melhores meios de transportes, os assalariados serão espremidos por todo o país. Preços mais altos do gás, electricidade, cuidados de saúde e alimentos estão a sobrepujar os demais gastos e a forçar a pessoas a incidirem em ainda mais dívida. Eis porque os atrasos nos pagamentos e os incumprimentos estão a subir. Mesmo arrendamentos estão a subir, apesar da queda nos preços imobiliários. É por isso que as casas arrestadas não podem ser arrendadas, de modo que milhões de casas podem ser removidas do mercado.

MW: O que quer dizer exactamente com "moderna escravidão pela dívida"?

Hudson: É o que acontece quando os assalariados são obrigados a entregar todo o seu rendimento, acima das necessidades básicas da subsistência, ao sector FIRE – sobretudo para o serviço da dívida mas também para pagar o seguro obrigatório e, mais recentemente, o fardo fiscal que as finanças e a propriedade removeram de si próprias.

A característica que distingue a escravidão (peonage) é a falta de opção. É a antítese dos mercados livres. Como mencionei a cima, muitas famílias hoje encontram-se presas a casas que têm património líquido negativo. Sua dívida hipotecária excede o preço de mercado. Estas casas não podem ser vendidas – a menos que a família possa pagar a diferença ao banqueiro que efectuou o mau empréstimo hipotecário. O fosso pode exceder todo o rendimento familiar num ano inteiro – o mesmo que fazer no papel um ganho de preço maior do que o seu salário líquido anual.

Mas o que importa tudo isto, em retrospectiva, se a casa era para viver, não para comprar e vender? Esta dimensão do valor de uso foi abandonada ao enfatizar a riqueza em papel.

Em resumo, escravidão pela dívida é o outro lado da moeda numa economia rentista. O saldo líquido negativo que estamos a ver hoje é uma componente chave da escravidão pela dívida. Ele força os escravos da dívida a passarem as suas vidas a tentar cavar o seu caminho para fora da dívida. Quanto mais desesperados eles ficam, mais riscos eles assumem, e mais profundamente afundam. Em Kansas City, um dos meus estudantes escreveu seu trabalho de classe sobre como a causa imediata de muitos incumprimentos de hipotecas é o jogo da dívida. O Missouri tem um bocado de cristãos fundamentalistas os quais pensam que Deus está a observá-los cuidadosamente. Sendo boas pessoas, eles querem dar a Deus uma oportunidade para premiá-los por viverem uma vida honesta. De modo que eles vão jogar nos barcos que estão atracados ao longo do rio. Mas as probabilidades estão contra eles, e isto parece como se Einstein estivesse errado quando disse que Deus não joga aos dados. O jogo – e grande parte da especulação financeira – tem tudo a ver com probabilidades, e estas são em grande parte contra os jogadores assim como estão contra os devedores. Sendo leis da natureza, as leis das probabilidades são como o privilégio do proprietário da terra: uma licença de jogo proporciona a casa com uma oportunidade para arrecadar renda económica da mesma.

A deflação da dívida e a comutação fiscal das finanças e da propriedade para o trabalho

No curto prazo, aparentemente o crescimento lento e a deflação serão problemas maiores do que a inflação. As commodities, incluindo o ouro e o petróleo, estão a cair quase diariamente, enquanto os activos bancários estão ser constantemente degradados, os arrestos estão a subir e o mercado de acções está a cambalear. A crise financeira que começou no mercado imobiliário desencadeou um boicote dos produtos estruturados e agora está a difundir-se através do conjunto da economia.

O Federal Reserve já reduziu as taxas de juros em 3,5 por cento e utilizou a metade do seu balanço (US$450 mil milhões) para escorar o vacilante sistema bancário. Mas a situação continua a ficar pior. Os bancos restringiram a concessão de empréstimos, e os gastos do consumidor estão prejudicados em quase todas as áreas. Aparentemente o Fed está falto de munição. É tempo de considerar alternativas fiscais para a queda actual, tal como cortar impostos sobre folhas de pagamentos para dar mais dinheiro às famílias a fim de aumentar a procura, ou iniciar projectos maciços de infraestruturas?

Hudson: Por "deflação" suponho que você queira dizer deflação da dívida – drenagem de poder compra devido ao aumento do serviço da dívida e do seguro obrigatório, mais o esmagamento salarial que o governo louva para "aumentar a produtividade" a fim de "criar riqueza" para os administradores pagarem-se o que cortaram dos cheques de pagamentos do trabalho. Haverá menos gastos do consumidor – mas mesmo assim os preços no consumidor podem não se reduzir se o dólar retomar a sua queda, especialmente se o apreçamento de monopólio continuar a ser permitido.

Sua solução é na verdade a necessária, e o sr. Obama prometeu elevar os salários e o limite salarial sujeito à retenção do FICA. Penso que uma ideia melhor seria voltar ao imposto sobre o rendimento original de 1913 e isentar salários que simplesmente cubram a subsistência. Eu restauraria um ponto de corte nos US$102 mil em dólares de hoje, correspondente aos termos do imposto sobre o rendimento de 1913. As pessoas que ganham menos não teriam de preencher um formulário para declarar rendimentos.

Esta ideia realmente tradicional libertaria rendimento a ser gasto na melhoria dos padrões de vida. Ao invés disso, altos escalões de rendimento e de propriedade estão a ser hoje isentos de impostos, e as suas poupanças fiscais estão a ser gastas principalmente em fazer empréstimos que são utilizados para aumentar o preço da riqueza e dos bens de luxo.

Foi contra isto que advertiram os economistas clássicos, mas a comutação dos impostos para fora da propriedade e em direcção ao trabalho está a ser feita hipocritamente em seu nome. Para conseguir a espécie de mercados livres que eles advogam, os impostos deveriam cair sobre o sector FIRE (finanças, seguros e imobiliário) e os monopólios, não sobre salários ou lucros industriais bona fide resultantes de investimento em capital tangível e emprego.

MW: Em Junho ultimo você escreveu um documento pioneiro para uma conferência pós-keynesiana na Universidade de Missouri, em Kansas City. O título era "Como a bolha imobiliária conduz os compradors de casas à escravidão pela dívida". Anteriormente você escrevera um agora famoso artigo de capa na Harpers sobre a escravidão pela dívida. O seu documento de Kansas City apresentava gráficos a mostrar como o favoritismo fiscal para o imobiliário e outros clientes da banca e do sector financeiro estimula a inflação de activos, levando a bolhas maciças na situação líquida tais como aquelas que estamos actualmente a experimentar no Mercado habitacional. Poderia dar um resumo breve da sua tese?

Hudson: Meu documento explicava como aquele dinheiro de que o cobrador de impostos desiste é "libertado" para ser pago aos bancos como juros. Esta é a palavra-de-ordem dos investidores imobiliários: "Renda é para pagar juro". O sector FIRE adoptou uma retórica populista para induzir os proprietários de casas a acreditarem que baixar o imposto sobre a proriedade acabará por lhes dar mais dinheiro. Parece à primeira vista que isto aconteceria. Mas na prática, novos compradors – e especuladores – vêm ao Mercado e comprometem os cortes fiscais em ainda mais aumentos dos preços da habitação. O vencedor neste novo Mercado anti-fiscal é o comprador que se compromete a pagar o corte fiscal aos bancos como juros num empréstimo hipotecário para comprar propriedade.

Como descreve o meu documento:

"O favoritismo fiscal para o imobiliário, piratas corporativos e no final das contas para os banqueiros libertou rendimento a ser comprometido para arcar com cada vez mais dívida, o qual tem sido utilizado para alimentar a inflação dos preços dos activos que ascende os preços de casas, acções e títulos corporativos – mas não aumentam a produção. … Moldar o Mercado para favorecer as finanças e a propriedade em relação à indústria e ao trabalho não cria um "mercado livre". Favorece a compra e venda alavancada pela dívida de imóveis, acções e títulos, distorcendo mercados por caminhos que des-industrializam a economia. [E] eliminar impostos da propriedade e das finanças é mais uma distorção do que uma virtude, a menos que a alavancagem da dívida seja considerada virtuosa.

"Esta é a tragédia da nossa economia hoje. A criação de crédito, poupança e investimento não está a ser mobilizada para aumentar novos investimentos directos ou elevar padrões de vida, mas para subir preços para o imobiliário e outros activos já existents e para títulos financeiros (acções e títulos) já emitidos. Isto carrega a economia com dívida sem proporcionar os meios para pagá-la, excepto por nova e ainda mais rápida inflação dos preços dos activos.

Isto é em grande medida o resultado da renúncia ao planeamento e a estruturação dos mercados para os grandes bancos e outras instituições financeiras. Lobbyistas políticos reescreveram a maior parte das leis fiscais de hoje e patrocinaram a desregulamentação geral dos controles e contrapesos que vigoravam desde o fim do século XIX. Naquele tempo, há apenas uma centena de anos atrás, parecia que a riqueza – e a banca – estava a ser industrializada, ao passo que a riqueza da terra e dos monopólios tornar-se-ia mais socializada e as suas rendas plenamente tributadas. Ao invés de preços imobiliários em ascensão, o "almoço gratuito" das rendas proporcionaria a fonte básica das finanças públicas. A tecnologia e produtividade aumentaria a formação de capital industrial e elevaria os padrões de vida do trabalho. Estas políticas libertariam os mercados da extracção de rendas e também de impostos pois o fardo fiscal era comutado para a propriedade.

Mas não foi isto que aconteceu. O sistema financeira utilizou o seu poder para extrair favores fiscais para o imobiliário e pressionar pela desregulamentação de monopólios como a principal fonte dos seus juros e de colateral para os eus empréstimos".

MW: O que pensa dos efeitos positivos que haveria em tributar a propriedade ao invés do rendimento e do lucro industrial?

Hudson: Haveria dois importantes efeitos positivos. Primeiro, libertaria o trabalho e a indústria do fardo fiscal. E analogamente exigiria que a renda económica actualmente utilizada para pagar juros e depreciação fosse paga ao invés como renda fiscal da propriedade. Isto libertaria uma soma equivalente de ter elevada na forma de rendimento e imposto sobre vendas. Isto era a ideia clássica de mercados livres. Tal como está hoje a questão, o subsídio fiscal para o imobiliário e as finanças deixa mais rendimento de rendas líquido para ser capitalizado nos empréstimos bancários. Isto é um travesti dos "mercados livres" que os lobbystas para os bancos e os ricos em geral afirmam advogar.

Substituir impostos sobre rendimento e vendas por um imposto sobre a renda da terra tornaria os preços imobiliários mais comportáveis, porque o juro agora "liberto" será pago aos bancos para suportar um alto encargo com dívida seria ao invés disso colectado e utilizado para baixar o fardo fiscal sobre o trabalho e a indústria. Isto reduziria o custo da produção e o custo de vida, que estimo em cerca de 16 por cento do rendimento nacional.

Proprietários e arrendatários de casas pagariam a mesma quantia que pagam agora, mas o sector público recuperaria o custo de construir transportes e outras infraestruturas básicas devido ao mais alto valor de rendas que esta despesa cria. O sistema fiscal seria baseado sobre direitos de uso da propriedade, incidindo sobre os proprietários de um modo que recupera o valor ascendente da sua propriedade resultante da locação da renda, potenciada pelos transportes públicos e outras infraestruturas, e a partir do nível geral de prosperidade, pelos quais os senhorios não são responsáveis e sim simplesmente os beneficiários passivos na prática actual.

Uma política fiscal neo-progressista objectivaria recapturar o valor de localização da terra criado por despesas em infraestrutura pública, escolas e o nível geral de prosperidade. A pirâmide da dívida seria muito mais pequena, e as poupanças poderia assumir a forma de investimento no património outra vez. O crescimento mais lento da dívida, habitação e preços de escritórios, e impostos mais baixos sobre rendimento e vendas tornariam a economia mais competitiva internacionalmente.

MW: Gostaria de ampliar o que disse no seu artigo e corrija-me se eu estiver errado. Diz você que o código fiscal de hoje coloca um obstáculo à mudança política progressista, e coloca cada vez mais poder nas mãos de banqueiros e especuladores que lucram com os ciclos de crescimento e queda. Por outras palavras, retrabalhar o sistema fiscal tem de ser a pedra angular de qualquer plataforma progressista? Será este o principal ponto que tenta provar?

Hudson: É certamente o ponto fiscal que quero mostrar. Mas penso que o meu ponto mais importante é a análise de como a matemática do juro composto intromete-se cada vez mais na economia. A ligação fiscal é que quando as finanças esvaziam cada vez mais riqueza, a Wall Street converte seu poder económico em poder político. Seu objectivo principal é libertar-se do fisco – comutando o fardo para o trabalho.

Um meio de alcançar esta comutação fiscal tem sido redefinir impostos como um "utilizador de comissões" ("user fee"). Foi o que fez a Comissão Greenspan em 1983 quando impôs pesada tributação regressiva sobre o trabalho atgravés das retenções salariais do FICA para a Segurança Social e o Medicare ao invés de financiar estes programas a partir do orçamento geral, para ser pago pelos escalões mais elevados. O Trust Fund da Segurança Social gerou um pesados excedente fiscal, o qual foi utilizado para cortar taxas nos impostos dos escalões mais elevados de riqueza.

As "letras pequenas" do código fiscal tornaram o imobiliário comercial livre de ter de pagar imposto de rendimento ao pretender que os senhorios estavam a perder dinheiro sobre a sua propriedade com a depreciação dos edifícios – como se o aumento do valor de localização da terra não fizesse mais do que compensar. O mais importante, o juro era tratado como despesas fiscalmente dedutível. Isto encorajou a alavancagem da dívida ao invés do investimento em património, criando um enorme mercado para banqueiros criarem crédito e colectarem juros sobre ele.

MW: Diz você no seu artigo que há "um simbiose entre finanças, seguros e imobiliário", a qual está no núcleo da Bolha Económica. E que isto cria uma "retro-alimentação entre crédito bancário e preços de activos. O caminho mais rápido e mais fácil para a riqueza não é ganhar lucros investindo na indústria, mas entrar em dívidas para cavalgar a onda de inflação do preço dos activos. O resultado é uma comutação da riqueza procurando afastar-se da indústria para manobras financeiras com crédito para aproveitar a onda da inflação do preço dos activos".

Será esta financiariação uma tendência irreversível, ou haverá um meio que possamos revitalizar a base industrial da América? Deveríamos considerar a nacionalização da decadente indústria automobilística e por pessoas a trabalhar enquanto construímos veículos para o futuro?


Hudson: A nacionalização pode não ser a resposta à medida que os interesses financeiros substituíram o governo como os novos planeadores centrais da sociedade. Temo que a nacionalização sob as condições políticas de hoje significaria "socializar as perdas", tendo o governo de arcar com elas e então liquidar as companhias ao habitual preço de concessão para novos compradores a crédito, tudo em benefício da Wall Street.

Se há algum sector a ser nacionalizado, deveria ser o FIRE – finanças, seguros e imobiliário – juntamente com a tomada da infraestrutura básica de volta para o domínio público, desprivatizando-a. O plano da Era Progressista que tornou a América um país rico e dominante era o governo fornecer serviços básicos tais como caminhos de ferro, correios e estradas ou canais ao preço de custo ou subsidiado. Isto baixava o preço de estrutura por todo o espectro económico, capacitando os Estados Unidos a vender a preços baixos a outras economias.

Estamos agora no Ano 2 da chamada crise do crédito, que a Bloomberg News chama "a pior crise financeira desde a Depressão". Cada vez mais peritos estão a destacar as políticas monetárias do Fed como a fonte das perturbações. Surpreendentemente, mesmo o New York Times aderiu admitindo que Greenspan desempenhou um papel central na bolha habitacional.

Aqui está o que o New York Times disse recentemente: "A quem culpar? Na estimação de muitos economista, principia pelo Federal Reserve. O banco central baixou as taxas de juro a seguir ao fim calamitoso da bolha tecnologia em 2000, baixou-as mais após os ataques terroristas de 11 de Setembro de 2001, e a seguir manteve-as baixas, mesmo quando especuladores começaram a comerciar casas como acções dot-com. Enquanto isso, o Fed sentou e observou como os magos financeiros da Wall Street engendraram investimentos diabolicamente complicados ligados a hipotecas, gerando enormes quantias de capital especulativo que tornaram o imobiliário uma conflagração".

MW: Como caracterizaria a actuação de Greenspan na crise actual?

Hudson: Ele foi o seu animador (cheerleader), com apoio da Universidade de Chicago e uma grande quantidade de think tanks da extrema direita. O sr. Greenspan deu a toda esta teoria económica do gotejamento uma patina de racionalidade e também uma retórica pretendendo que a bolha financeira estava a ajudar os proprietários das casas ao invés dos prestamistas e da Wall Street. O seu papel foi traduzir a propaganda da Ayn Rand em eufemismos populistas.

O papel de um animador financeiro é confundir as questões económicas, acima de tudo ao descrever incidir na dívida como "alavancagem da dívida" para acelerar a "criação de riqueza". Ao olhar para trás, podemos ver agora que isto era realmente criação de dívida. Quando o sr. Greenspan falava acerca de riqueza, ele não queria dizer a daquela espécie a que se referia Adam Smith em A riqueza das nações – meios de produção tangíveis. O sr. Greenspan queria dizer obrigações de pagamento nos balanços sobre esta riqueza na forma de acções, títulos e direitos de propriedade. Adam Smith dizia que para contar estas formas monetárias de riqueza juntamente com a terra e o capital real da Grã-Bretanha seria duplicar a contagem. Para Greenspan, o lado do passivo do balanço da economia – o que os produtores devem às finanças e aos donos da propriedade – tornam-se a única espécie de riqueza realmente lhe importa.

Esta perspectiva de dentro para fora foi em grande medida responsável pela des-industrialização, pelo downsizing e pelo outsourcing da economia dos EUA. A ideia do sr. Greenspan de "mercados livres" era simplesmente desregulamentá-los – de forma encoberta, com certeza, pela nomeação de não regulamentadores para as posições regulamentadoras chave do governo. Isto resultou na venda de activos, os quais criaram alguns bilionários visíveis (atacantes corporativos, rebaptizados nestes dias como "activistas possuidores de acções) e portanto ganharam o louvor do sr. Greenspan por ostensivamente desempenharem um papel positivo na "criação de riqueza".

No final das contas o vocabulário económico transmutou-se em duplicidade

A dimensão política

Não tenho bases em teoria económica, e nunca tive qualquer interesse particular neste tópico. Minha frustração com a direcção do país – particularmente na guerra do Iraque e no desmantelamento de liberdades civis – levou-se a procurar respostas em lugares em que normalmente não teria olhado. Agora estou convencido de que a guerra no Iraque e a rápida mudança rumo à polícia de Estado aqui na América são corolários lógicos da polarização económica que tem suas raízes em políticas que são fundamentalmente enviesadas e servem os estreitos interesses de corporatistas, banqueiros e outros interesses escusos.

Hudson: Em relação à sua repugnância à teoria económica, alguns dos meus melhores estudantes na New School afastaram-se da disciplina quando descobriram que ela não estava a tratar os problemas que os preocupavam. O campo foi esterilizado por mais do que uma geração de intolerância da Escola de Chicago.

A profissão da ciência económica não parece ser receptiva à reforma de acordo com as linhas que o interessariam. Ela tornou-se principalmente uma retórica brilhante para descrever a oligarquia financeira como se esta fosse democracia económica populista. Muitas pessoas tentaram expandir o seu âmbito , e fracassaram. Thorstein Veblen fez uma tentativa um século atrás, sua análise – basicamente, economia política clássica – foi exilada para a sub-cave académica da sociologia. Os economistas preferiram colocar viseiras quando chega o momento de olhar a distribuição da riqueza e a distinção clássica entre rendimento "ganho" e "não ganho" (isto, parasita). Exactamente quando o sexo estava a tornar-se não reprimido, a distribuição da riqueza tornou-se o novo tópico de discussão politicamente incorrecto.

Nos velhos filmes acerca de invasores do espaço, tal como The Thing, havia geralmente um cientista dotado de visão que dizia: "Vamos tentar entender-nos com isto. Ele é mais inteligente do que nós, porque veio num disco voador com toda aquela grande tecnologia". O monstro do espaço exterior golpeava o homem, matando-o brutalmente.

É como o Terminator do futuro. "Ele não sente compaixão. Ele não sente dor. Você não pode entender-se com ele", diz o herói do filme. "Tudo o que ele faz é matar".

Esta é a tarefa que os Chicago Boys tomaram sobre si, a defesa de mercados financiarizados como sendo "livres". Você não pode raciocinar com eles. A razão não é a tarefa. Eles não estão ali para serem justos.

Mas para alcançar este papel censor, a ortodoxia económica de hoje pretende que os mercados trabalham de um modo justo para proporcionar oportunidades a toda a gente – alguma coisa como um esperma com uma probabilidade de herdar mil milhões de dólares de um cleptocrata russo ou de um magnata americano do imobiliário ou de um operador da Wall Street. Para promover esta visão, é preciso carpinteirar uma retórica pretendendo que os mercados são "livres", não conduzindo à servidão. É preciso pretender que é a regulamentação do governo dos cleptocratas que está a conduzir à servidão ao invés de proteger a população das finanças predatórias.

Quanto à sua preocupação com a polícia de Estado, em última análise a agressão militar que é necessária para promover "mercados livres" a ponta de revólver, estilo Pinochet, a construção do império sempre foi a par com o empobrecimento da população do centro imperial assim como da sua periferia. Para começar, impérios e guerras não compensam, pelo menos nos tempos modernos. Na melhor das hipóteses, é como a guerra no Iraque – um veículo para a administração Bush canalizar milhares de milhões de dólares "faltantes" para os seus apoiantes de campanha, a reciclar novamente em novos fundos de campanhas republicanas. A economia à solta chama-se em imperialismo e transforma-se no despojamento de activos.

Uma segunda e mais puramente política dimensão da guerra imperial é afastar a atenção dos eleitores para longe das questões económicas, apelando ao seu nacionalismo e chauvinismo.

A teoria de Hobson do imperialismo era que à população interna falta o rendimento para consumir o que produzia, de modo que os produtores tinham de procurar mercados externos. Isto levava à guerra. Mas hoje, o modo "pós industrial" de imperialismo é mais acerca da reciclagem da riqueza para produzir ganhos de capital, principalmente globalizando e privatizando a Economia da Bolha. Os mercados mais importantes para a "criação de riqueza" não são de bens e serviços, mas de imóveis e activos financeiros. Assim, somos trazidos de volta às suas perguntas iniciais de hoje, acerca de como a Fannie Mae e o Freddie Mac patrocinarão mais vendas de títulos apoiados por hipotecas.

MW: Penso que o seu artigo apresenta um caminho cristalino para evitar o desastre e transformar a sociedade pela mudança do código fiscal de modo a que ele fortaleça a classe média e nivele o campo de jogo "os que têm e os que não têm". Mas como se pode atingir isto sem partir as suas ideias em bocados incisivos e construir um vasto movimento baseado no povo dedicado às questões da classe trabalhadora e à justiça económica? Haverá um meio de efectuar estas mudanças sociais transformativas sem arrancar com um terceiro partido político, um Partido Trabalhista Americano, talvez?

Hudson: Se a próxima administração democrata demonstrar ser mais do mesmo, a pressão para criar um novo partido na verdade aumentará. Mais frequentemente a reforma económica tem vindo do topo, mas não vejo isto da parte dos republicanos, dada a sua corrupção. Dentro do Partido Democrata a questão é se o Wall Street Democratic Leadership Committee (que nos deu Gore e Lieberman após os Clintons) continuará a impor o seu sufocamento.

Qualquer melhoria real precisará de uma campanha educativa para preparar o terreno para fazer da reforma económica a peça central de eleições importantes. Este papel educativo muitas vezes foi preenchido por terceiros partidos. Na década de 1890, por exemplo, a principal campanha da Era Progressista verificou-se fora do democratas e em grande medida também fora dos republicanos.

08/Setembro/2008

[*] Michael Hudson: Antigo economista da Wall Street especializado em balança de pagamentos e imobiliário no Chase Manhattan Bank (agora JPMorgan Chase & Co.), Arthur Anderson, e posteriormente no Hudson Institute (nenhum parentesco). Em 1990 ajudou a estabelecer o primeiro fundo de dívida soberana do mundo para a Scudder Stevens & Clark. Foi Conselheiro Económico Chefe de Dennis Kucinich na recente campanha primária presidencial dos democratas, e aconselhou os governos americano, canadiano, mexicano e lituano, bem como o United Nations Institute for Training and Research (UNITAR). Professor Investigador Emérito da Universidade do Missouri – Kansas City (UMKC), autor de muitos livros, incluindo Super Imperialism: The Origin and Fundamentals of U.S. World Dominance . Email: mh@michael-hudson.com
[**] Mike Whitney: vive no estado de Washington. Email: fergiewhitney@msn.com

O original encontra-se em http://www.counterpunch.org/whitney09082008.html


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
10/Set/08