Tremem as pernas dos bancos centrais

Juan Torres López [*]

banco central, cartoon.

Durante décadas, os bancos centrais falaram antes de todos, dizendo o que era preciso fazer e com a arrogância típica de quem está certo de possuir a verdade absoluta. Os seus dirigentes sempre atuaram como árbitros da política económica em geral e guardiões únicos da credibilidade institucional.

Por isso, a cautela e até mesmo o silêncio atual surpreendem tanto. A presidente Lagarde fala com uma modéstia inédita:   "simplesmente não podemos oferecer uma orientação". Na Reserva Federal, Powell, em vez de pontificar como era habitual, limitou-se a sublinhar "a incerteza que rodeia o choque do petróleo".

Nestes dias, os bancos centrais dão a imagem do jogador que observa do banco de suplentes sem saber se o treinador lhe vai pedir para entrar em campo nem o que deverá fazer se tiver de jogar.

Uma atitude muito diferente daquela que adotaram quando a guerra na Ucrânia eclodiu e os preços da energia dispararam. Imediatamente sustentaram que a inflação era de natureza monetária e responderam com o seu único instrumento:   a subida das taxas de juro. Sem se importarem que a inflação tivesse uma origem claramente externa; nem que aumentar o preço do dinheiro sobre custos energéticos já disparados significasse atirar mais lenha para a fogueira.

Arrogância injustificada

A tradicional atitude arrogante dos bancos centrais sempre foi, no mínimo, notável, porque todos eles carregam um longo historial de previsões erradas e de consequências devastadoras.

Powell insistiu que a inflação pós-pandemia era "transitória". Não era. A presidente Lagarde garantiu que seria "muito improvável" um aumento das taxas em 2022. Aumentou-as nesse mesmo ano. O Banco da Reserva da Austrália prometeu publicamente que as taxas não subiriam até 2024; aumentou-as em 2022.

Não se trata de casos isolados. Estudos académicos mostram que as projeções dos principais bancos centrais têm sido sistematicamente enviesadas na mesma direção (apresentando cenários mais otimistas do que a realidade) e que os seus erros, por coincidência, tendem sempre a favorecer o setor financeiro e os grandes capitais.

Mais independência e poder, pior desempenho

É muito significativo que os grandes erros e fracassos dos bancos centrais tenham ocorrido precisamente quando gozavam de total independência e, além disso, sempre pela mesma razão.

Sendo uma das suas principais funções garantir a estabilidade financeira, verifica-se que a crescente independência dos bancos centrais não impediu uma maior recorrência de episódios de instabilidade. A base de dados mais recente regista mais de 151 crises bancárias sistémicas entre 1970 e 2019, 200 de dívida soberana desde 1960 e 414 cambiais desde 1950:   o período de maior densidade de crises de toda a história documentada.

Nem sequer se pode dizer que a inflação se tenha mantido controlada graças à política monetária, pois foi moderada por fatores estruturais: a integração da China, que fez descer os preços industriais no Ocidente; e as políticas de austeridade, o envelhecimento demográfico, a desigualdade e a fraqueza do investimento que mantiveram a economia com o travão puxado. Quando essas forças desapareceram — com a pandemia e as guerras comerciais —, a inflação regressou com virulência e os bancos centrais não souberam prever nem explicar o fenómeno.

Além disso, uma coisa é controlar um indicador estatístico e outra é travar os aumentos de preços daquilo que mais importa. A inflação geral acumulada na UE entre 2010 e 2024 foi de 39%, mas os preços da habitação subiram 53%. Enquanto os preços ao consumidor se moderavam devido a fatores estruturais, os ativos — habitação, bolsa, dívida — encareceram, sem que os bancos centrais tenham sido capazes de o evitar. E é esta inflação que mais condiciona a vida económica real.

Mais difícil ainda.

A razão pela qual se verificam tantas falhas, os erros contínuos e graves dos bancos centrais, é algo cada vez mais evidente. Não são, como se quer fazer crer, instituições técnicas ou neutras. Como expliquei em pormenor no meu livro Mais difícil ainda, elas respondem a um desenho ideológico baseado, desde os anos 80, em três grandes pilares:   a inflação é um fenómeno monetário, a sua independência é um princípio orientador indispensável para evitar expectativas inflacionistas e as taxas de juro são a ferramenta necessária e suficiente para influenciar os preços.

O primeiro cai perante a evidência: a inflação tem múltiplas causas e aplicar sempre a mesma resposta é como receitar o mesmo tratamento para qualquer doença.

O segundo revelou os seus limites nas crises. Durante a pandemia, a coordenação com os governos foi inevitável, embora improvisada e sem um quadro institucional claro.

O terceiro é cada vez mais questionado. As taxas de juro não afetam da mesma forma todos os setores nem garantem uma transmissão eficaz ao conjunto da economia.

Mudança de atitude ou falta de rumo?

Perante tantas falhas acumuladas, cabe perguntar-se se a moderação destas últimas semanas significa que os bancos centrais se aperceberam desse viés e dos seus efeitos nocivos e que, por isso, estão dispostos a corrigir o rumo.

Naturalmente, não podemos saber o que se passa na cabeça dos seus dirigentes, mas conhecemos as suas análises e os instrumentos a que continuam a agarrar-se para tomar medidas face aos problemas económicos. E aí não há muito margem para otimismo.

A economia global está sob tensão há algum tempo e os preços sobem devido a múltiplos fatores:   as tarifas de Trump, a concentração dos mercados, a restrição do crédito, a bolha da inteligência artificial e, mais recentemente, a guerra no Irão. No entanto, os bancos centrais continuam a ponderar se devem ou não utilizar o único instrumento de sempre: as taxas de juro. E o problema é evidente. Subir as taxas arrefece a procura, mas não resolve os estrangulamentos nem barateia a energia. O que provoca, em contrapartida, é um efeito claro:   encarece o financiamento, trava o investimento e enfraquece a atividade. E não é preciso ser um génio para perceber que, em economias em recessão como a europeia, que cresce a 0,9%, ou a dos Estados Unidos, afetada pelos direitos aduaneiros, isso poderia ser o golpe final que as travaria de repente. Mais uma vez, aumentar agora as taxas só beneficiaria os grandes detentores de capital e paralisaria ainda mais a atividade económica.

O silêncio atual dos bancos centrais não é humildade. É paralisia. Não se assemelha ao do sábio que se cala porque sabe que palavras precipitadas causam danos. É o do técnico que, diante de um painel de controlo para o qual foi treinado em condições de laboratório, descobre que os indicadores não respondem como o manual prevê.

O que os factos estão a impor, com a força acumulada de vários choques simultâneos, é o reconhecimento de que os modelos dos bancos centrais não servem. Torna-se cada vez mais evidente que o único instrumento que utilizam produz efeitos imprevisíveis quando os problemas são de natureza mista e complexa. A arquitetura da política monetária está mal concebida e não é útil face aos problemas económicos do nosso tempo.

Tudo indica que os bancos centrais começam a tomar consciência disso. Dizem-no, nas entrelinhas, quando admitem, como Lagarde, que não podem "oferecer orientação", ou quando Powell sublinha a incerteza como se fosse uma novidade e não a condição permanente da economia real.

Por isso, agora que o treinador lhes diz para se prepararem para entrar em campo, as pernas tremem-lhes.

As reformas necessárias

É um erro regozijar-se com a moderação e cautela atuais dos bancos centrais. É apenas uma demonstração da sua impotência que nos indica a urgência de os reformular profundamente.

É preciso ampliar o seu mandato para além do controlo da inflação, incluindo a estabilidade financeira sistémica, a prevenção de bolhas de ativos, a sustentabilidade ambiental e os objetivos de desenvolvimento sustentável, avaliando os efeitos distributivos de cada decisão.

É preciso redefinir a medição da inflação, incluindo o preço efetivo da habitação — e não a renda hipotética equivalente — e os ativos que realmente determinam o bem-estar das pessoas e a boa margem das empresas.

É imprescindível substituir a abordagem generalista das taxas de juro por instrumentos cirúrgicos:   coeficientes de capital anticíclicos, limites à relação empréstimo-valor nas hipotecas, requisitos de liquidez setoriais que atuem sobre os focos de fragilidade sem asfixiar o conjunto da economia...

É urgente reformar a sua governação: os órgãos de governo dos bancos centrais são socialmente homogéneos, o que gera pontos cegos coletivos. É necessária diversidade de abordagens, prestação de contas real perante os parlamentos e avaliações externas independentes.

E é fundamental institucionalizar a coordenação da sua política monetária com a política fiscal, não como subordinação, mas como arquitetura: protocolos formais, transparentes e sujeitos a prestação de contas.

O problema não é que os bancos centrais se enganem tanto. É que agem como se nunca pudessem errar. E que nós lhes estamos a permitir isso.

21/Março/2026

[*] Catedrático da Faculdade de C. Económicas da Universidade de Sevilha.

O original encontra-se em juantorreslopez.com/a-los-bancos-centrales-les-tiemblan-las-piernas/

Este artigo encontra-se em resistir.info
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22/Mar/26

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