A China reindustrializa a sua universidade enquanto o Ocidente busca a felicidade

– A universidade perdeu o controlo do conhecimento, uma vez que a Internet a suplantou e fagocitou de forma insuperável. Só a China está a reagir a este novo cenário.

Matthew Blackburn

universidade.

Pequim substituiu milhares de cursos a fim de orientar o seu sistema universitário rumo aos setores que considera estratégicos. A comparação com a Europa obriga-nos a fazer uma pergunta tão desafiadora quanto inevitável:   terá o Plano de Bolonha falhado nas nossas universidades? Pois eu digo-vos que sim.

De vez em quando surge uma manchete destinada a provocar uma mistura de alarme e fascínio:   "China elimina 12 mil cursos universitários". O leitor conclui que um país assim decide sacrificar as humanidades no altar da inteligência artificial e transformar a universidade numa imensa escola de tecnologias desumanas. No entanto, a realidade é um pouco mais complexa do que a manchete e bastante mais interessante.

A China não está a destruir o seu sistema universitário, mas sim a reorganizá-lo de forma industrial. Entre 2021 e 2025, substituiu milhares de cursos de licenciatura e criou outros tantos orientados para setores estratégicos.

Não se trata simplesmente de encerrar cursos, mas sim de substituir uns por outros. A diferença é radical, porque revela uma ideia de universidade que na Europa ou nos EUA é impossível conceber:   uma instituição deve responder às necessidades do presente e às previsões do futuro.

A China obriga-nos a colocar, pelo menos, três questões às quais só podemos responder com um tabu:   1) O modelo europeu de universidade é compatível com a realidade do século XXI? Na sua maioria, não.   2) A Europa ou os EUA conseguem enfrentar de forma competitiva uma reforma universitária comparável à da China? De forma alguma.   E 3), a pergunta de um milhão: a reforma universitária de Bolonha foi um fracasso? Sem dúvida.

Esta última questão é a mais grave de todas, porque revela um facto que nenhuma geração está disposta a reconhecer, exceto a dos nascidos no século XXI — jovens que, entre a universidade e a formação profissional, optam maioritariamente por esta última, porque a universidade atual lhes parece decepcionante. Hoje, é um segredo público que o famoso "Plano de Bolonha" foi um fracasso.

No século XXI, o monopólio do conhecimento pertence à Internet, não à universidade. Durante décadas, pelo menos em teoria, a universidade investigava, transmitia conhecimento e formava as gerações que viriam a integrar as profissões mais qualificadas. Hoje, esses objetivos são melhor cumpridos por outras instituições. Nesse contexto, a universidade perdeu o controlo do conhecimento. A Internet suplantou-a e fagocitou-a de forma insuperável. As salas de aula estão vazias, mas as redes sociais estão sobrecarregadas. As empresas e o mercado fizeram o resto.

O comércio e as suas leis impõem à universidade um ritmo impossível de acompanhar nas salas de aula e nos laboratórios académicos. A ciência está nas empresas e no mercado, não nas salas de aula.

A revolução digital, a inteligência artificial e a aceleração tecnológica alteraram profundamente a relação entre conhecimento e trabalho, ou seja, entre a universidade e a empresa. Setores profissionais inteiros reinventam-se em questão de meses, enquanto os sucessivos planos de estudos universitários são alterados com uma lentidão desesperante, dando lugar a novos planos mais ineficazes do que os anteriores.

Quando um curso consegue adaptar-se a uma inovação tecnológica, essa inovação já se extinguiu ou foi substituída por outra. No entanto, a estratégia silenciosa de Pequim é desmesurada e não tem precedentes.

Nestas circunstâncias, a China optou por intervir diretamente na estrutura universitária. E, no futuro, poderá discutir-se se as suas decisões foram acertadas ou não, mas, pelo menos, existe uma estratégia reconhecível. Não se limita a anunciar grandes princípios nem a produzir reformas administrativas. A China é um país muito silencioso e a Europa um continente ensurdecido e narcisista. O Ocidente apresenta um panorama muito distinto do chinês.

Aqui, a universidade parece ter-se habituado a viver numa reforma permanente que raramente enfrenta os problemas reais, entretida como está na busca da felicidade — desde o ensino básico onde se educa as crianças para serem felizes —, na confirmação de ideologias diversas, na captação de reformados cuja presença nas aulas substitui a ausência das gerações realmente necessárias, à acreditação pública de espaços livres do politicamente incorreto e à demonstração, perante o seu Deus e perante a história, de que as nossas Faculdades se encontram no lugar ideologicamente correto da democracia e da Agenda 2030, embora esse lugar seja cientificamente irrelevante para uma globalização que termina onde começa o poder mundial hegemónico da República Popular da China e as suas políticas orientadas para o bem-estar social.

Em síntese:   a universidade europeia está encantada consigo própria, como Narciso perante o espelho. Mas o espelho está partido e Narciso não o sabe, porque a sombra do idealismo alemão é, além de muito alongada, extremamente míope.

Não é que a universidade não saiba o que fazer com a inteligência artificial. É que não sabe o que fazer com nada. E com o que menos sabe o que fazer é com os seus melhores professores e alunos. São esses que, a cada dia que passa, têm menos peso numa universidade que, essencialmente, só pensa em como aprovar legalmente aqueles que reprovam, para que se formem sem aumentar as estatísticas do insucesso académico.

No entanto, a vida não é um miragem. A realidade universitária não é um sonho, mas sim um período da tua biografia em que estás a jogar, por vezes de forma definitiva, o teu futuro.

Os procedimentos de avaliação mudam, os indicadores multiplicam-se, elaboram-se novos documentos estratégicos e surgem terminologias e promessas sucessivamente renovadas. No entanto, a questão decisiva continua sem resposta:   de que conhecimentos necessita realmente a sociedade do século XXI e como deve a universidade organizá-los, se é que o consegue fazer?

Esta situação obriga-nos a pensar em novas formas de organização cultural e científica. Fundações, centros de investigação independentes, projetos editoriais e instituições especializadas podem tornar-se espaços capazes de desenvolver tarefas que a universidade desempenhou durante décadas e que hoje, por impotência própria, parece abandonar progressivamente, sendo a alma mater engolida por um mercado que ama mais o dinheiro do que o próximo e o lucro próprio do que o serviço público.

16/Julho/2026

O original encontra-se em www.lahaine.org/mundo.php/china-reindustrializa-su-universidad-mientras-occidente-busca

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17/Jul/26

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