Na Europa Central e Oriental (ECO), a Alemanha e a Polónia têm sido defensores extremamente entusiásticos e veementes da campanha bélica dos EUA e da guerra por procuração dos EUA na Ucrânia. Ambos os países anunciaram objetivos de expansão militar de grande envergadura. A Alemanha pretende ter o exército convencional mais forte da Europa até 2039, aumentando o seu efetivo de 181 000 para 460 000; enquanto a Polónia planeia rivalizar com ela, aumentando as suas forças armadas dos atuais 217 000 para 500 000 até à mesma data. Devido à sua dimensão e proximidade, ambos os países continuarão a ser atores importantes na guerra em curso na Ucrânia.
Em julho, a conferência da NATO em Ancara confirmou a criação da NATO 3. Os membros europeus da aliança concordaram com aumentos significativos nas despesas militares para permitir que os Estados Unidos concentrem os seus recursos na derrota da China. Isto não significa que os EUA estejam a abandonar a Europa, mas sim que estão a exigir que os Estados europeus da NATO assumam o fardo financeiro da sua guerra por procuração contra a Rússia. Os EUA manterão o controlo estratégico da NATO na Europa e continuarão a ser o decisor final.
Um mês antes, a Alemanha e a Polónia assinaram um acordo militar em Varsóvia para aumentar a cooperação militar e resolver algumas das disputas entre os dois países. Este inclui a construção de mais fortificações polacas East Shield por tropas de engenharia alemãs. Foram também celebrados acordos sobre a segurança no Mar Báltico, relativos à infraestrutura de comando conjunto; às rotas marítimas; à mobilidade militar e à infraestrutura para melhorar a movimentação de tropas e equipamento através das fronteiras e para os Estados Bálticos. O acordo prevê a mobilização de [caças] Eurofighters alemães para o norte da Polónia e de sistemas Patriot no sudeste do país. A Alemanha planeia estacionar permanentemente na Lituânia uma força do tamanho de uma brigada, com cerca de 5 000 efetivos. Estão previstos exercícios em grande escala, denominados "Grand Eagle", na Polónia para novembro de 2026.
Retórica de guerra
Os líderes polacos e alemães continuam a utilizar uma retórica de estado de guerra para persuadir a população a dar prioridade às despesas militares em detrimento do seu nível de vida.
Na Alemanha, o ministro da Defesa do país alertou que o país "não está preparado para se defender dos problemas de segurança que a Europa irá enfrentar no futuro". Da mesma forma, em Ancara, o chanceler alemão Merz afirmou: "A NATO tem de se tornar mais europeia para que possa continuar a ser transatlântica. (…) Nos últimos anos, fizemos muito pouco pela nossa própria segurança. Estamos agora a compensar isso." Para esclarecer o que isto significa na prática, Merz também declarou que: "O Estado-providência que temos hoje já não pode ser financiado com o que produzimos na economia".
Uma retórica semelhante está a ser utilizada por políticos polacos de destaque. Falando sobre a perspetiva de uma vitória russa na Ucrânia, o ministro dos Negócios Estrangeiros Radosław Sikorski recentemente advertiu que a Polónia seria o próximo alvo de Moscovo, declarando que os polacos prefeririam "comer erva" a tornarem-se uma colónia russa. Os políticos polacos protestaram contra os anúncios feitos pela administração Trump de que iria retirar algumas tropas da Polónia e chegaram mesmo a sugerir que as tropas que estão a ser retiradas da Alemanha fossem transferidas para a Polónia. Em resposta, os EUA voltaram atrás no seu anúncio de que iriam suspender o destacamento de longo prazo de tropas na Polónia, afirmando que iriam enviar mais 5 000 soldados para o país.
Polónia
A crescente subordinação da Alemanha e da Polónia à divisão global do trabalho militar dos EUA tem um custo elevado.
A guerra na Ucrânia e a militarização na Europa têm um impacto desproporcionalmente perturbador nos países da Europa Central e Oriental. Este é particularmente o caso da Polónia, que é o maior e mais importante país da NATO em termos estratégicos na região. A Polónia processa a maior parte da ajuda militar ocidental destinada à Ucrânia, e cerca de 10 000 soldados norte-americanos estão estacionados no seu território. Em conjunto com a Alemanha, foi concedido à Polónia um estatuto reforçado no flanco oriental da NATO. Sucessivos governos polacos têm apoiado a estratégia dos EUA na região. No início da guerra, Joe Biden escolheu Varsóvia como local para proferir o seu discurso de apoio à Ucrânia. A administração Trump também aclamou a Polónia como "a nova grande potência da Europa" e o "aliado ideal" de Washington.
A Polónia foi diretamente afetada pela guerra que se desenrola do outro lado da sua fronteira. Centenas de milhares de refugiados fugiram para a Polónia após o início das hostilidades. Houve também inúmeras ocasiões em que mísseis e drones (nem sempre é claro de quem) violaram o espaço aéreo polaco ou aterraram no seu território.
O custo económico da NATO 3 para a Polónia e a Alemanha
As economias da Alemanha e da Polónia estão profundamente interligadas. O declínio da economia alemã sob pressão dos EUA, incluindo a destruição dos gasodutos Nord Stream 1 e 2 e a subsequente dependência da dispendiosa energia norte-americana, também tem efeitos negativos na Polónia. A Alemanha continua a ser o parceiro comercial mais importante da Polónia, com o comércio bilateral a atingir 180 mil milhões de euros em 2025.
Os aumentos nas despesas militares estão a impor novos encargos a ambas as economias. As alegações dos governos de que as despesas com a defesa impulsionam a indústria transformadora e o investimento económico global são, em grande parte, infundadas
A Polónia tem liderado o aumento das despesas militares, com as despesas com a defesa estimadas em aproximadamente 38 mil milhões de dólares para 2024–2025 e com uma projeção de totalizar cerca de 450 a 470 mil milhões de dólares entre 2025 e 2035, fortemente financiadas por empréstimos do Estado. O país destina agora quase 5% do seu PIB às forças armadas (atingindo 4,7% em 2025 e 4,8% em 2026), com o governo a propor atingir os 5% até 2035. A maior parte do equipamento foi adquirido à Coreia do Sul e aos Estados Unidos, refletindo uma reorientação estratégica dispendiosa nas parcerias de aquisição.
A Alemanha planeia quase duplicar as suas despesas com a defesa ao longo de quatro anos, rompendo com décadas de contenção orçamental para elevar as despesas a níveis nunca vistos desde o fim da Guerra Fria. O país gastou 2,22% do PIB em 2025, aumentando para 2,69% em 2026, com metas de 3,5% até 2029 e 5% até 2035. A projeção para 2030 relativa às despesas anuais com a defesa poderá atingir os 183,7 mil milhões de euros, no âmbito de um compromisso de 783,8 mil milhões de euros entre 2026 e 2030, financiado por planos para contrair empréstimos superiores a 800 mil milhões de euros até ao final da década.
Divisões no eixo Berlim-Varsóvia
A subordinação aos EUA traz também consigo enormes contradições políticas. Apesar da crescente convergência entre a Polónia e a Alemanha em matéria de militarização, o legado do imperialismo alemão e os horrores do "Lebensraum" nazi na Segunda Guerra Mundial estão profundamente enraizados na Polónia.
A rivalidade entre os principais partidos políticos da Polónia, aliada à preparação para as eleições parlamentares marcadas para outubro de 2027, torna a unidade entre os partidos extremamente difícil. O novo Acordo Polaco-Alemão mantém-se apenas a nível ministerial e não constitui um tratado bilateral formal, em parte devido à oposição do presidente Karol Nawrocki. Este prometeu vetar qualquer futuro tratado que permita a presença de bases alemãs permanentes ou de tropas de combate no país.
Nawrocki afirmou ainda: "Os polacos nunca esquecerão o que significaram as botas alemãs no nosso solo". A oposição parlamentar do partido Lei e Justiça (PiS) (que se dividiu recentemente) utiliza a hostilidade em relação à Alemanha e à Polónia como arma para atacar o primeiro-ministro Tusk, acusando-o de ser pró-alemão. Nawrocki tem também apelado continuamente para que a Alemanha pague as reparações da Segunda Guerra Mundial e declarou que a Polónia está preparada para defender as suas fronteiras ocidentais. Consequentemente, o governo de Tusk está empenhado em evitar qualquer aparência de brandura ou de servir os interesses de Berlim.
Uma das principais divergências entre o governo e a oposição diz respeito à forma de financiar o aumento das despesas militares da Polónia. Em maio de 2025, o Conselho Europeu aprovou o programa SAFE, que oferece aos Estados-Membros empréstimos a longo prazo para equipamento de defesa. À Polónia foi atribuída a maior parte – 44 mil milhões de euros do total de 150 mil milhões de euros do mecanismo.
O projeto de lei que o viabilizou foi aprovado por uma margem estreita no parlamento, com a oposição de direita a votar contra, argumentando que obrigaria a Polónia a comprar mais armas a países europeus como a Alemanha. O líder da oposição do PiS, Jarosław Kaczyński, condenou o acordo como um passo no sentido do "domínio alemão" e um golpe na aliança com os EUA. O presidente Nawrocki vetou então a legislação, propondo, em vez disso, recorrer aos lucros não realizados do banco central e às reservas de reavaliação provenientes das reservas de ouro e de moeda estrangeira. O governo prometeu avançar na mesma, embora agora com um acesso menos flexível aos fundos.
Queda do apoio na Polónia à guerra na Ucrânia
Tem-se verificado recentemente um declínio acentuado no apoio à guerra na Europa Oriental, incluindo na própria Ucrânia, onde, em junho deste ano, só um em cada quatro adultos (24%) afirma que a Ucrânia deve continuar a lutar até vencer a guerra e a aprovação da liderança dos EUA caiu para apenas 7%. Na Polónia, as atitudes em relação ao apoio à Ucrânia também enfraqueceram.
A decisão do presidente Zelensky de dar a uma unidade militar o nome do Exército Insurgente Ucraniano (UPA), de inspiração banderista, e o novo enterro de um líder do UPA causaram indignação na Polónia. A Polónia responsabiliza o UPA pelo Massacre da Volínia, que vitimou até 100 000 civis durante a Segunda Guerra Mundial. A proposta do "Panteão Ucraniano", apresentada no mês passado, veio agravar o receio de que a Ucrânia esteja a glorificar estes massacres. Em resposta, o presidente polaco revogou a Ordem da Águia Branca concedida a Zelensky.
As recentes controvérsias minaram significativamente o apoio interno à posição da Polónia sobre a guerra na Ucrânia. As sondagens de julho mostram que 45,2% dos polacos opõem-se agora à continuação da ajuda militar a Kiev, uma queda acentuada em relação aos 77,5% que a apoiavam no final de 2022. A oposição é também forte no que diz respeito a um envolvimento mais alargado: mais de 80% dos inquiridos são contra o envio de tropas polacas para a Ucrânia. Além disso, uma sondagem de junho registou 60% de oposição à adesão da Ucrânia à União Europeia.
Devido à fraqueza da esquerda polaca, a oposição à guerra tem vindo da direita nacionalista. Partidos como a Confederação, de extrema-direita, e o partido (ainda mais à direita) Confederação da Coroa Polaca têm tirado partido do crescente cepticismo em relação ao apoio à Ucrânia. Como esta oposição provém da direita, tem sido acompanhada por uma hostilidade crescente para com os refugiados ucranianos na Polónia. Pela primeira vez desde o início da guerra, a oposição a que a Polónia acolha refugiados ucranianos superou o apoio a essa medida (52% contra 42%). A crescente hostilidade para com os ucranianos tem sido acompanhada por um aumento dos ataques violentos contra eles na Polónia.
Divisões na Alemanha e oposição ao militarismo
Na Alemanha, há uma hostilidade crescente em relação à redução da segurança social para financiar o aumento das despesas militares. Há também uma oposição crescente ao militarismo e à política do governo alemão relativamente à guerra na Ucrânia.
Os partidos pró-guerra da Alemanha estão em crise. A coligação governamental CDU/CSU-SPD, que propôs aumentos maciços nos gastos militares e endividamento sem precedentes, caiu para 36% nas sondagens, face aos quase 45% registados nas eleições gerais de fevereiro de 2025. A Reuters noticiou, a 29 de julho, uma sondagem que revelou que apenas 15% das pessoas estão satisfeitas com o desempenho do chanceler Merz.
As sondagens alemãs refletem profundas divisões e insatisfação com as consequências económicas do apoio alemão à guerra na Ucrânia.
A Deutsche Welle noticiou em fevereiro que, embora 52% apoiassem um apoio mais forte à Ucrânia, 35% consideravam que a Alemanha deveria deixar de apoiar a Ucrânia. A mesma sondagem revelou uma diminuição do número de cidadãos alemães que temiam um ataque russo à NATO.
No entanto, uma maioria relativa de alemães preferiria uma resolução pacífica do conflito. RBC-Ukraine, em fevereiro deste ano, noticiou uma sondagem da YouGov que revelou que "58% dos cidadãos alemães tendem a apoiar ou apoiam totalmente a realização de negociações entre Merz e Putin. Entretanto, 26% dos inquiridos afirmaram opor-se à ideia."
Uma sondagem do YouGov, em fevereiro de 2026, revelou que 40% dos alemães apoiavam "uma paz negociada para pôr fim aos combates, mesmo que isso signifique que a Rússia continue a controlar algumas partes da Ucrânia". Enquanto 33% se opunham.
A oposição à política de guerra do governo está a crescer fora da coligação, embora os Verdes continuem a assumir uma postura belicista. O partido Die Linke, que se opõe a mais ajuda militar, subiu para 12% numa sondagem de julho, face aos 8,8% registados em 2025. A AfD, de extrema-direita, regista agora 27% nas sondagens, em comparação com os 20,8% anteriores, tirando partido da oposição aos danos económicos da guerra, à desindustrialização, à destruição dos gasodutos Nord Stream 1 e 2 e à perda da energia russa barata.
A resistência cívica à pressão de Merz a favor de uma economia de guerra também está a aumentar. The Guardian noticiou no mês passado que um número crescente de jovens alemães está a optar por não cumprir o serviço militar, com um aumento acentuado dos pedidos de objeção de consciência. Em maio, o Morning Star noticiou que 45 000 alunos alemães participaram em greves e protestos contra o serviço militar obrigatório em mais de 150 vilas e cidades no Dia da Vitória na Europa, exigindo a revogação da Lei de Modernização do Serviço Militar, o fim do alistamento dissimulado e a suspensão do recrutamento militar nas escolas.
Não se registaram ações semelhantes na Polónia, onde o governo tem tentado reforçar as suas forças armadas através do desenvolvimento de forças territoriais, em vez de recorrer ao serviço militar obrigatório.
Além disso, as manifestações na Alemanha revelam como a esquerda pode aumentar a sua força e impacto ao opor-se ao Estado belicista. Die Linke está a beneficiar da sua oposição a todas as exportações de armas e à decisão da Alemanha de prosseguir com o rearmamento.
Conclusões
A guerra por procuração dos EUA na Ucrânia já durou mais do que a Primeira Guerra Mundial, sem fim à vista. Ancara confirmou o que há muito vinha sendo sinalizado: Trump aproveitou o conflito para forçar os membros europeus da NATO a arcar com o fardo de derrotar a Rússia, libertando Washington para se concentrar na China. No entanto, para a Alemanha e a Polónia, os custos estão a aumentar.
Economicamente, ambos estão a comprometer-se com despesas de defesa numa escala nunca vista desde o fim da Guerra Fria, financiadas através de empréstimos que irão comprometer o bem-estar e o investimento social. Politicamente, o consenso interno está a fraturar-se. Não se trata de crises paralelas, mas sim de sintomas de uma única contradição: a tentativa de construir uma máquina de guerra europeia sob o controlo dos EUA está a ser imposta a sociedades cada vez menos dispostas a pagar o seu preço.
O eixo Berlim-Varsóvia, apesar de toda a sua convergência militar, assenta em alicerces frágeis: a oposição e as divisões estão a aumentar. A esquerda enfrenta uma dupla tarefa: denunciar esta subordinação e propor um quadro alternativo de segurança e diplomacia europeias comuns, ao invés de uma nova Guerra Fria que nenhum dos dois países pode suportar e que as suas populações não querem.