A UE enlouqueceu – tem de ser travada

O sentimento pró-europeu e as atitudes pró-ocidentais são um sinal de insensatez e duplicidade moral.

Sergey Karaganov [*]
entrevistado por Alexander Kareevsky

Lista de fabricantes de drones na Europa.

A Europa Ocidental está a ser cada vez mais arrastada para a guerra na Ucrânia. Já há declarações dos nossos responsáveis nesse sentido. Entretanto, as notícias sobre os preparativos da UE para a guerra estão a suscitar cada vez mais questões. Como devemos responder a isto? Para dar um exemplo, mencionarei a notícia de que os alemães já produziram 5 000 drones baseados em projetos ucranianos. É ridículo ouvir isso: que projetos ucranianos? É claro que a indústria de defesa alemã está a trabalhar diretamente em drones que estão a atacar o nosso território. E lembram-se do caso "Taurus"? Os alemães fizeram uma jogada inteligente: não fornecem formalmente tais armas e agora decidiram, aparentemente, atormentar-nos com drones, dos quais estão a produzir cada vez mais. Com o tempo, a defesa contra os drones tornar-se-á cada vez mais difícil. É claro que, mais cedo ou mais tarde, será encontrada uma contramedida, mas, por enquanto, podemos ver que os drones são muito mais perigosos do que os mísseis, por exemplo. Embora, claro, isso dependa da forma como são utilizados. No entanto, a questão continua a ser muito complexa, e a descarada atitude dos líderes da UE, que se sentem claramente imunes a qualquer punição, sugere que é necessária uma resposta.

Já respondemos. Sergey Shoigu, em particular, afirmou que existem alvos legítimos no território da UE e que o Ministério da Defesa publicou uma lista dos locais onde estes drones estão a ser fabricados. E, de facto, em resposta, a porta-voz da Comissão Europeia, Anitta Hipper, já afirmou, e cito:   "A Comissão Europeia não tem provas das alegações da Federação Russa". Por outras palavras, na opinião dela, estamos aparentemente a inventar ataques às nossas cidades, às nossas infraestruturas, incluindo infraestruturas civis, incluindo infraestruturas civis estratégicas, e assim por diante. E os países que relataram isto, a Finlândia e os Estados Bálticos, fingem não saber de nada. Antes disso, deixem-me lembrar-vos mais uma vez:   foram eles próprios que disseram que "vimos algo a passar por aqui. Não vimos... Não vinha na nossa direção, estava a voar para outro lado". Ou seja, estão a fazer-se de parvos. O que devemos fazer em relação a isto? Como podemos fazer com que estes europeus ocidentais vejam a razão? Há alguma forma? E em que nível de confronto nos encontramos atualmente?

Continuam a surgir muitas notícias do Golfo Pérsico. Parece que há, e sublinho a palavra parece, uma certa distensão das tensões, como se costumava dizer na época soviética. Além disso, há muitas declarações recentes feitas pelo próprio Trump. Parece que o lado iraniano também está a fazer uma declaração sobre a abertura do Estreito de Ormuz. A propósito, os preços das ações estão a subir com estas notícias e assim por diante. Mas, em suma, esta é a situação neste momento; é o quadro que está atualmente a emergir. Voltemos à Europa e, claro, discutamos o Irão.

Sergey Karaganov: Em primeiro lugar, precisamos de fazer algo em relação a nós próprios. Temos de compreender que, mais uma vez, a Europa Ocidental desencadeou uma guerra contra a Rússia. Essa é a pura verdade.

O iniciador desta guerra foram os Estados Unidos da América, que arrastaram a UE atrás de si. E agora os americanos, ai perceberem que não conseguirão derrubar-nos e, além disso, que uma escalada para o nível nuclear é provável e possível, mesmo em território norte-americano, começaram a recuar, embora ainda estejam a aquecer as mãos junto ao fogo da guerra europeia em pleno andamento.

Quanto aos europeus ocidentais, as elites da UE, estão completamente em bancarrota. Não têm qualquer fundamento para se manterem no poder:   nem moral, nem político, nem económico; fracassaram em todas as frentes. Estão a incitar a histeria militar a fim de desviar a atenção dos seus próprios problemas, mas também se estão a preparar para a guerra. E isto deve ser levado a sério. Deixem-me lembrar-vos que, nos últimos quinhentos anos, a Europa tem sido, em geral, a fonte de todas as grandes desgraças da humanidade, incluindo a maioria das guerras, inclusive as duas guerras mundiais. Por isso, não podemos baixar a guarda.

É importante perceber que uma guerra mundial já começou. Está a ser travada na Europa, em grande parte pelos europeus ocidentais, enquanto os Estados Unidos da América, juntamente com Israel, começaram a desestabilizar o sul da Eurásia.

Por isso, temos de ter absolutamente claro que esta é a situação em que nos encontramos. O que deve a UE fazer? A América é um assunto à parte, precisa simplesmente de ser firmemente contida e afastada desta situação. A UE tem de finalmente perceber que será destruída se a agressão continuar. E quanto mais cedo perceber isto, menos pessoas do nosso povo morrerão.

Por isso, parece-me que chegará o momento em que o Presidente [Vladimir Putin] terá de nomear um comandante-chefe no teatro de operações com autoridade para utilizar qualquer tipo de arma, e até mesmo o dever de o fazer, e incorporar na doutrina militar uma disposição que estabeleça que, caso nos seja declarada guerra, e esta tenha sido declarada por um inimigo que nos supera em termos demográficos e económicos, teremos de utilizar armas nucleares. Naturalmente, não de imediato. Primeiro, podemos atacar os alvos indicados pelo nosso Ministério da Defesa, ou outros. Muito provavelmente, estes serão alvos simbólicos ou centros de comunicações, que serão atingidos com munições convencionais. Se não pararem, teremos de passar a um nível superior.

Estes europeus ocidentais têm de ser travados; enlouqueceram mais uma vez. Além disso, se não os travarmos agora, a situação será pior dentro de alguns anos, porque o nível de propaganda antirussa já está a exceder o da era de Hitler. E, consequentemente, a população está a sucumbir a ela.

Há uma maneira muito simples de parar isto:   colocar uma forte ênfase na dissuasão nuclear e deixar claro que a UE deve ser travada. Além disso, como já foi mencionado, alguns deles estão a preparar-se para expandir as suas capacidades nucleares e até para desenvolver novas forças nucleares. Não se pode permitir que macacos possuam armas nucleares.

É por isso que temos de pôr um fim definitivo à UE agora. Preferia que isto fosse feito sem o uso de armas nucleares e, certamente, sem um ataque massivo; afinal, a Europa faz parte da nossa alma, da nossa cultura. Mas temos de compreender que a Europa Ocidental é a personificação de todos os grandes males que afligem a humanidade e a Rússia. E tem de ser travada. Enlouqueceu.

Alexander Kareevsky: Sergey Alexandrovich, sabe, se entrarmos em pormenores – porque já há muito que fala sobre isto, e com razão, e os acontecimentos que se desenrolam confirmam o que tem dito, nomeadamente que a UE se tornará ainda mais descarada. É claro que existem muitas propostas sobre como garantir que deixem de se comportar da forma como se comportam.

Dmitry Medvedev já afirmou que existem alvos legítimos na Europa Ocidental e assim por diante. A lista publicada pelo nosso Ministério da Defesa. Sejamos honestos: esta é a nossa última tentativa de os trazer à razão, por assim dizer, de os assustar, para que tomem uma decisão. Mas mesmo agora, quando falo com os meus colegas, todos dizem: "O que é isto, outra linha vermelha? Se quisessem, já teriam atacado há muito tempo". O que diz a isso?

Sergey Karaganov: Esperámos pela reconciliação durante demasiado tempo; havia, e talvez ainda haja, um sentimento pró-europeu muito forte na nossa sociedade e entre a nossa elite, embora deva salientar que, nas circunstâncias atuais, o sentimento pró-europeu e as atitudes pró-ocidentais são um sinal de insensatez e duplicidade moral. Por isso, precisamos agora de agir de forma decisiva, percebendo que a UE tem de ser travada. Se não for travada, haverá uma grande guerra, que conduzirá à destruição da Europa de qualquer forma, mas não precisamos de perder o nosso melhor pessoal e arriscar as nossas cidades em nome da UE. Tem de ser travada. Libertou-se das suas travas mais uma vez, como já aconteceu muitas vezes na história.

Deixem-me repetir: precisamos de nomear um comandante-chefe no teatro de operações com autoridade e responsabilidade para utilizar armas nucleares caso a Europa se recuse a recuar ou mesmo a render-se. Em breve estaremos em posição de lhes apresentar um ultimato se continuarem a comportar-se desta forma. Trata-se de um assunto sério. Pode ser possível chegar a um acordo com os americanos a dada altura; ainda há pessoas sensatas por lá. Na Europa Ocidental, já não restam pessoas assim. Naturalmente, elas existem a um nível humano normal, mas são cada vez menos e estão a ser postas de lado. As elites da UE estão loucas; degeneraram completamente no plano intelectual. E, além disso, não têm medo de nós. Precisamos que nos temam verdadeiramente; precisamos de lhes incutir terror.

Penso que teremos de tomar medidas mais duras:   cortar amarras e começar a testar armas nucleares, entre outras coisas. Se isso não ajudar, teremos de atacar alvos na Europa Ocidental, com o aviso de que, se continuarem, as próximas ondas de ataques serão nucleares. Esqueçam o disparate de que uma guerra nuclear não pode ser ganha; ela pode ser vencida.

Mas Deus nos livre que isso aconteça, porque isso seria um pecado grave. No entanto, se não conseguirmos parar uma Europa que enlouqueceu, será um pecado mortal, imperdoável tanto para o nosso povo como para toda a humanidade. A besta deve, se não ser exterminada, pelo menos ser trancada firmemente numa jaula.

Alexander Kareevsky: Sr. Karaganov, o senhor diz sempre o que pensa com franqueza, especialmente na televisão em direto. Há muita conversa entre nós, pessoas comuns, neste momento. Podemos ver que, no topo, parte da elite é precisamente essa multidão pró-europeia, pró-ocidental e assim por diante, os anglofilos e todos os outros que sempre estiveram na Rússia:   sempre tivemos ocidentalistas, eslavófilos e assim por diante. E muitos desta camada superior da nossa elite querem manter as coisas como eram antes, voltar a Courchevel [estação de ski, NR] e assim por diante. Talvez precisemos de resolver as coisas internamente, por nós próprios. E quem é o nosso inimigo? É claro que o inimigo é o regime de Kiev; os rapazes estão a lutar contra eles, está tudo claro. Mas nós próprios dizemos que há alguém por trás disso. E quem é esse alguém? Compreendemos claramente: se é a UE, então por que razão vendemos gás, petróleo e tudo o resto para lá? Se não é o inimigo, e é teoricamente possível chegar a um acordo com ele, então essa é uma política diferente. Talvez precisemos de nos organizar: quem somos nós e o que queremos, afinal? Regra geral, o povo apoia as ações do presidente. Mas, na minha opinião, nem todos na elite o fazem.

Sergey Karaganov: Repito: nas circunstâncias atuais, o sentimento pró-europeu é um sinal de fraqueza mental, corrupção moral e traição. É "vlasovismo". [isto significa traição, NR] Temos de tratar as pessoas que estão a tentar negociar com a Europa mais uma vez precisamente desta forma. Devem ser expulsas, por meios suaves sempre que possível, das nossas mentes e das nossas fileiras. E se os meios suaves falharem, então terão de ser aplicadas medidas severas. Repito: estamos mais uma vez perante a ameaça de uma grande guerra. Temos de a impedir. A guerra já começou. Se não a pararmos agora, e, infelizmente, temos hesitadp há quatro anos, as coisas só vão piorar. Haverá mais armas, poderão surgir novas armas nucleares e haverá novos enxames de drones. Haverá uma elite ainda mais brutalizada e uma população ainda mais doutrinada. Esquecemo-nos de que a propaganda na Europa Ocidental hoje, particularmente na Europa do Noroeste, relativamente à Rússia, é tão má quanto, ou mesmo pior do que, a propaganda de Hitler durante a Grande Guerra Patriótica, ou seja, a Segunda Guerra Mundial. Temos de levar isto o mais a sério possível. A UE tem de ser travada. Se não a travarmos, teremos de a destruir. Preferiríamos não o fazer, porque, afinal, a Europa faz parte da nossa cultura.

Embora, claro, tenhamos finalmente de nos voltar para o que nos é mais caro e compreender quem somos. E somos uma grande nação-civilização eurasiana, com as nossas raízes espirituais no sul, em Bizâncio, na Palestina, no mundo muçulmano e no mundo budista, enquanto o nosso sistema político veio do Oriente. A influência de Pedro, o Grande, em parte tecnológica e em parte cultural, foi benéfica para nós. Mas prolongámos a nossa jornada europeia por pelo menos 120-130 anos. Se nos tivéssemos afastado da Europa naquela altura, como pretendia Alexandre III, penso que não teríamos tido um século XX tão trágico e terrível. Não podemos permitir que isto volte a acontecer. Temos de pôr fim à Europa nos nossos corações, caso contrário teremos de lhe pôr fim fisicamente. E isso é algo que gostaríamos muito de evitar.

Alexander Kareevsky: Sr. Karaganov, foi por isso que sorri quando falou: parece um pouco mais benevolente em relação à Europa hoje do que o habitual. Pergunto-me o que estará por trás disso?

Sergey Karaganov: Estou mais benevolente?

Alexander Kareevsky: Hoje, sim. Disse: "Parte da nossa alma está lá". Não costumava dizer isso.

Sergey Karaganov: Eu disse isso porque tenho estado profundamente envolvido nesta questão. Afinal, temos uma presença lá. Se não fosse pela influência europeia, não teríamos Karamzin, não teríamos Pushkin, não teríamos Tchaikovsky, Mussorgsky, Tolstoy, nem mesmo Dostoevsky, que, como sabe, era bastante cético em relação à Europa. Mais que suficiente. Portanto, a Europa é a fonte de todos os males, especialmente para a Rússia, tanto morais como militares. Quinhentos anos de história monstruosa, e ainda mais, que remontam ao tempo de Alexandre Nevski. Temos de pôr fim à nossa história europeia, e aqueles que estão ansiosos por regressar à Europa, às suas mansões ou à sua capital, devem ser removidos da nossa elite ou expulsos. No entanto, alguns deles já fugiram graças à operação militar na Ucrânia. Mas não vale a pena continuar isto indefinidamente e desperdiçar os nossos melhores homens a tentar persuadir a Europa Ocidental a entrar na razão. Temos de começar a revidar.

Alexander Kareevsky: Bem, continuamos a tentar persuadir a Europa, apelando a qualquer sentido de razão que possam ter, e assim por diante, mas até agora com muito pouco êxito.

Sergey Karaganov: Não há qualquer sensatez ali. Estão a ficar mais ousados bem diante dos nossos olhos, isso é tudo. Está errado. Estamos a lidar com uma matilha de hienas sem cérebro. Precisam de ser espancadas na cabeça com um pau ou simplesmente mortas. É a única maneira.

Alexander Kareevsky: As pessoas vão contestá-lo da seguinte forma. Os europeus ocidentais não param de dizer:   "Foram vocês que começaram a guerra na Ucrânia e, assim que a terminarem, seremos amigos novamente e tudo ficará maravilhoso; a culpa não é nossa. Foram vocês que começaram". O que tem a dizer sobre isso?

Sergey Karaganov: Os Estados Unidos, já agora, também não podemos esquecê-los, e a UE iniciou a sua agressão contra a Rússia na altura em que queríamos fazer parte da Europa e do Ocidente. Isso foi em meados da década de 1990, quando decidiram expandir a NATO. Escrevi e falei sobre isso – provavelmente ainda se lembra – que isto conduziria inevitavelmente, mais cedo ou mais tarde, à guerra. E eles avançaram deliberadamente, provocando-nos conscientemente. Nós aguentámos isso durante demasiado tempo. Esse foi o nosso erro. Não podemos aguentar mais. Temos de compreender que, repito mais uma vez, se tivermos de pôr fim à Europa do Noroeste, é uma escolha terrível, mas é uma escolha necessária para toda a humanidade. Esta úlcera tem de ser tratada com medicamentos de alguma forma, ou simplesmente extirpada.

Alexander Kareevsky: Está a falar da Europa Ocidental. Mas veja como o povo da Hungria sofreu uma lavagem cerebral. Eles querem viver como na Europa Ocidental, percebe? Mesmo que os migrantes estejam a violar o seu próprio povo nas passagens subterrâneas, dizem: "Aguenta, isto pode passar", como dizem no nosso filme. Reformataram as suas mentes muito rapidamente. E parece-me que é assim em toda a Europa. E estão a tentar empurrar-nos nessa direção também. Quer que seja assim aí? A vida lá é fantástica.

Sergey Karaganov: Como assim? É uma infelicidade nossa acharmos que a vida lá é fantástica. A vida lá está a ficar cada vez pior. É claro que os europeus ocidentais estão muito zangados connosco, porque nós, outrora, nos anos 50, 60 e mais tarde, os privámos da sua superioridade militar, e foi sobre esta base que se construiu a sua capacidade de impor a sua cultura, os seus interesses políticos, o colonialismo, o racismo e, mais importante ainda, de saquear o mundo inteiro. Nós minámos essa base. É por isso que as elites da Europa Ocidental, talvez nem toda a população tenha consciência disso, nos odeiam com paixão. E estão a fazer lavagem cerebral ao seu próprio povo. Lembrem-se de como os nossos antecessores costumavam dizer:   "A Alemanha é um país culto". Como podiam dizer isso? Bem, agora os europeus estão a ser transformados em fascistas alemães. É por isso que precisamos de os travar antes que, tendo enlouquecido, mergulhem numa guerra de grandes proporções, verdadeiramente de grandes proporções. Eles estão a travar uma guerra contra nós.

Sergey Karaganov: Sim. E declarar um teatro de guerra europeu.

Não estamos em guerra na Ucrânia contra o infeliz e enganado povo ucraniano, embora haja um número impressionante de pessoas lá que foram enganadas e sofreram lavagem cerebral. Estamos em guerra lá contra o Ocidente coletivo e, acima de tudo, contra a Europa. Temos de interiorizar isto, compreendê-lo, reconhecê-lo e deixar de depositar as nossas esperanças em noções ridículas e tolas.

Não precisamos de uma Europa assim. Tanto mais porque a Europa que outrora amámos já desapareceu há muito. Essa era a Europa do Renascimento, a Europa dos grandes poetas e dos grandes pensadores. Nas últimas décadas, degenerou. Garanto-vos. Eu também fui outrora um eurofilo e até um dos fundadores do Instituto da Europa. Quando me envolvi nisso, percebi que as coisas estavam mal.

Alexander Kareevsky: Sabem, aconselharia aos nossos eurofilos em altos cargos que lessem Thomas Mann, o seu romance A Montanha Mágica. É um romance muito longo, é verdade, e contém várias reflexões de um jesuíta e de um maçom. Thomas Mann era um antifascista; não era um russofóbico fervoroso. Mas, através de uma das personagens principais, ele mostra como eles nos vêem. Esse foi um romance de 1924, caros amigos. Eles nunca nos consideraram seus iguais, e continuam assim.

Sergey Karaganov: Ouçam, esse é o nosso problema. Como podemos considerar esses indivíduos moralmente corruptos e bastardos (embora haja pessoas decentes entre eles) como nossos iguais? É ridículo quando dizemos que eles nos tratam mal. As suas elites estão a transformar-se em sub-humanos. Portanto, devemos tratá-los em conformidade. E dizer que somos iguais é humilhante para nós. Somos um grande país, uma grande cultura – aliás, uma cultura que deu continuidade e desenvolveu as melhores tradições do humanismo europeu. Vejam, estamos em guerra na Ucrânia, mas não temos uma propaganda antiucraniana feroz, embora, em princípio, devesse haver alguma durante uma guerra. Portanto, guardámos o melhor da Europa para nós. Não resta nada disso lá. É por isso que precisamos de nos afastar dela e, se isso não funcionar, destruí-la.

Alexander Kareevsky: Percebo que nos desviamos para discussões bastante filosóficas e políticas, mas elas são absolutamente vitais para compreendermos quem é o nosso inimigo neste momento. Porque, de facto, o sentimento pró-europeu é forte; tendemos a recordar os bons tempos. Sabemos que a Europa fez muito bem ao mundo, mas tem este calcanhar de Aquiles. Sempre foi muito racista.

Sergey Karaganov: Esquecemo-nos de que a Europa é a personificação de todos os maiores males da humanidade: colonialismo, racismo, as ideologias mais vis e genocídios em massa por todo o mundo. Não só o genocídio de judeus e russos, soviéticos, mas também em África, na Índia e em todo o mundo, povos e continentes inteiros foram destruídos. Por isso, temos de compreender que esta é uma praga da qual nos devemos isolar o mais possível. E se não nos pudermos isolar, ela tem de ser destruída.

Alexander Kareevsky: Afinal, ainda há alguma hipótese? Pela sua resposta, deduzi que não há. Mas gostaria ainda assim de apelar mais uma vez a algum tipo de resolução. A esperança é a última a morrer. E, no entanto, há certas reviravoltas, não sei, no Golfo Pérsico com a América, ou algo mais, por isso será que esta grande guerra na Europa poderá, afinal, ser adiada significativamente? Na minha opinião, os países não estão prontos para lutar neste momento: nem eles nem nós. Mas esta falta de preparação não determina nem exclui esta guerra. Ainda há esperança de que tudo isto seja adiado por enquanto? Porque, neste momento, a sensação é de que a guerra estará aqui amanhã.

Sergey Karaganov: E as coisas vão piorar. Temos de agir agora; devíamos ter agido ontem e anteontem. Já falei sobre isto. Até discutimos isso consigo mais tarde. Esperámos demasiado tempo, esperámos demasiado tempo e fomos influenciados pelos nossos eurofilos durante demasiado tempo. Já disse quem são agora. Por isso, repito: parte da Europa, quando se desmoronar, espero que não pereça sob os nossos ataques nucleares, embora uma parte significativa dela o mereça; parte desta Europa, penso eu, regressará a uma vida normal e aos valores humanos. Trata-se da Europa do Sul: Espanha, Itália, Grécia. Trata-se de uma parte significativa da Europa Central.

E temos de nos isolar do resto como da peste, do contágio. Ou destruí-lo. Deus nos livre, porque, afinal, pessoas inocentes perecerão. É por isso que gostaria muito que tomássemos medidas decisivas para impedir uma guerra nuclear verdadeiramente grave na Europa.

Embora uma guerra nuclear limitada seja possível, e possamos ter de recorrer a ela. E sairemos vitoriosos, embora, claro, a amargura permaneça, porque o uso de armas de destruição maciça, quando crianças perecem, é um grande pecado. Mas repito: se não detivermos o Ocidente, que agora se tornou selvagem — os EUA fazem parte deste Ocidente, mas estão a agir com mais cautela neste momento, embora estejam atualmente a colocar Israel contra os árabes e a incendiar toda a Eurásia meridional à medida que se retiram da Eurásia —, se não os detivermos, o mundo perecerá numa grande guerra termonuclear. Não podemos permitir que isto aconteça. Em primeiro lugar, não podemos permitir que nos esgotem nesta guerra contra estes zés-ninguéns. Não podemos dar-nos ao luxo de perder mais dos nossos rapazes. E, em segundo lugar, temos de evitar uma grande guerra termonuclear, que inevitavelmente irromperá se este conflito global que agora está a deflagrar continuar a enfurecer-se. A primeira coisa que precisamos fazer é apagar a UE.

Alexander Kareevsky: Eu realmente não gostaria que a situação evoluísse desta forma. Por outro lado, pelo que disse – já estamos a falar há tanto tempo – parece que não há saída.

Sergey Karaganov: E não deve haver saída. Temos de assumir uma posição firme contra a UE; se necessário, temos de a punir. Repito: já não ganharemos nada de bom com a Europa. Em tempos, ganhámos algo com ela. Embora eu lhe lembre que não recebemos o cristianismo da Europa, nem recebemos o islamismo da Europa, e há muito mais coisas que não recebemos da Europa.

26/Abril/2026

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  • Eis porque a Rússia tem de considerar lançar um ataque nuclear contra a Europa Ocidental
  • [*] Presidente honorário do Conselho de Política Externa e de Defesa da Rússia

    O original encontra-se em swentr.site/news/639064-eu-has-gone-mad/

    Esta entrevista encontra-se em resistir.info
    Comentários em https://t.me/resistir_info

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