"Não há razão para apoiar políticas destinadas
ao fracasso"
— Carta de 52 antigos diplomatas britânicos a Tony Blair
Caro primeiro-ministro:
Nós os subscritores, antigos embaixadores britânicos, altos
comissários, governadores e responsáveis internacionais de
nível superior, incluindo alguns com longa experiência no
Médio Oriente e outros com experiência alhures, observamos com
crescente preocupação as políticas que o Sr. tem seguido
no problema árabe-israelense e no Iraque, em estreita
cooperação com os Estados Unidos. Seguindo a conferência
de imprensa em Washington na qual o Sr. e o Presidente Bush reiteraram estas
políticas, sentimos que é tempo de tornar públicas as
nossas ansiedades, na esperança de que elas sejam encaminhadas no âmbito
do
Parlamento e que isto conduza a uma reavaliação fundamental.
A decisão dos EUA, UE, Rússia e ONU de lançar um
"mapa da estrada"
(road map)
para a resolução do conflito
Israel/Palestina levantou as esperanças de que as grandes
potências fariam pelo menos um esforço determinado e colectivo
para resolver um problema que, mais do que qualquer outro, durante
décadas envenenou as relações entre o Ocidentes e os
mundos islâmico e árabe. Os princípios legais e
políticos sobre os quais tal regularização seria baseado
foram bem estabelecidos: o Presidente Clinton agarrou o problema durante a sua
presidência, os meios necessários para uma
regularização foram bem compreendidos e acordos informais sobre
vários deles já foram alcançados. Mas as
esperanças estavam mal fundamentadas. Nada de efectivo foi feito nem
para avançar as negociações nem para reduzir a
violência. A Grã-Bretanha e os outros patrocinadores do mapa da
estrada simplesmente esperaram a liderança americana, mas esperaram em
vão.
O pior estava para vir. Após todos aqueles meses desperdiçados,
a comunidade internacional foi agora confrontada com o anúncio por Ariel
Sharon e o Presidente Bush de novas políticas que são unilaterais
e ilegais e que custarão ainda mais sangue israelense e palestiniano.
Nosso desalento perante este passo atrás é intensificado pelo
facto de que o Sr. próprio parece tê-lo endossado, abandonando os
princípios que durante cerca de quatro décadas guiaram os
esforços internacionais para restaurar a paz na Terra Sagrada e que
foram a base para os êxitos que aqueles esforços produziram.
Este abandono de princípios veio no momento em que, correctamente ou
erradamente, somos retractados por todo o mundo árabe e muçulmano
como parceiros numa ilegal e brutal ocupação do Iraque.
A condução da guerra no Iraque tornou claro que não havia
plano efectivo para a regularização pós-Saddam. Todos
aqueles com experiência naquela área previram que a
ocupação do Iraque pelas forças da coligação
encontraria séria e teimosa resistência, como se demonstrou.
Descrever a resistência como sendo conduzida por terroristas,
fanáticos e estrangeiros não é nem convincente nem
útil. A política deve levar em conta a natureza e a
história do Iraque, o mais complexo país da região. Por
mais que muitos iraquianos possam ansiar por uma sociedade democrática,
a crença de que agora poderia ser criada uma pela
coligação é ingénua. Esta é a visão
de virtualmente todos os especialistas independentes acerca da região,
tanto na Grã-Bretanha como na América. Ficamos felizes ao notar
que o Sr. e o presidente saudaram as propostas esboçadas por Lakhdar
Brahimi. Devemos estar prontos para proporcionar aquele apoio que ele pede, e
dar autoridade à ONU para trabalhar com os próprios iraquianos,
incluindo aqueles que agora estão activamente a resistir à
ocupação, a fim de esclarecer a confusão.
As acções militares das forças da coligação
devem ser guiadas por objectivos políticos e pelas exigências do
próprio teatro do Iraque, não por critérios deles remotos.
Não é suficiente dizer que a utilização da
força é um assunto para os comandantes locais. Armas pesadas
inadequadas para a tarefa em mãos, linguagem inflamatória, as
actuais confrontações em Najaf e Faluja, tudo isto tem aumentado
ao invés de isolar a oposição. Os iraquianos assassinados
pelas forças da coligação provavelmente totalizam 10 a
15 mil (é uma desgraça que as próprias forças da
coligação pareçam não ter estimativas), e o
número de assassinados só em Faluja no mês passado é
aparentemente de várias centenas incluindo muito homens, mulheres e
crianças civis. Frases tais como "Nós choramos cada perda
de vida. Nós os saudamos e às suas famílias pela sua
bravura e o seu sacrifício", referindo-se aparentemente só
àqueles que morreram do lado da coligação, não
são bem medidas para moderar as paixões que estes
assassínios despertam.
Partilhamos a sua visão de que o governo britânico tem interesse
em trabalhar tão estreitamente quanto possível com os EUA sobre
estas duas questões relacionadas, e em exercer influência real
como uma aliado leal. Acreditamos que a necessidade de tal influência
é agora um assunto da mais extrema urgência. Se isto for
inaceitável ou não for benvindo, não há
razão para apoiar políticas que estão destinadas ao
fracasso.
Fielmente,
Sir Graham Boyce (embaixador no Egipto 1999-2001);
Sir Terence Clark (embaixador no Iraque 1985-89);
Francis Cornish (embaixador em Israel 1998-2001);
Sir James Craig (embaixador na Arábia Saudita 1979-84);
Ivor Lucas (embaixador na Síria 1982-84);
Richard Muir (embaixador no Kuwait 1999-2002);
Sir Crispin Tickell (representante britânico permanente na ONU 1987-90);
Sir Harold (Hooky) Walker (embaixador no Iraque 1990-91),
e 44 outros
[Lista completa dos signatários: Brian Barder; Paul Bergne; John Birch;
David Blatherwick; Graham Boyce; Julian Bullard; Juliet Campbell; Bryan
Cartledge; Terence Clark; David Colvin; Francis Cornish; James Craig; Brian
Crowe; Basil Eastwood; Stephen Egerton; William Fullerton; Dick Fyjis-Walker;
Marrack Goulding; John Graham; Andrew Green; Vic Henderson; Peter Hinchcliffe;
Brian Hitch; Archie Lamb; David Logan; Christopher Long; Ivor Lucas; Ian
McCluney; Maureen MacGlashan; Philip McLean; Christopher MacRae; Oliver Miles;
Martin Morland; Keith Morris; Richard Muir; Alan Munro; Stephen Nash; Robin
O'Neill; Andrew Palmer; Bill Quantrill; David Ratford; Tom Richardson; Andrew
Stuart; David Tatham; Crispin Tickell; Derek Tonkin; Charles Treadwell; Hugh
Tunnell; Jeremy Varcoe; Hooky Walker; Michael Weir; Alan White].
Publicado em "The Guardian", 27/Abr/04.
Este artigo encontra-se em
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