A administrar a narrativa de negação da Ucrânia

– As placas tectônicas da geopolítica e da geofinança estão mudando – afastam-se radicalmente de um Ocidente cada vez mais descontrolado.

Alastair Crooke [*]

Gen. Valeriy Zaluzhny.

A inflexão já começou. Foi anunciada pelo Financial Times (FT) e The Economist – os dois meios de comunicação que tão fielmente transmitem qualquer ‘narrativa de substituição’ aos sherpas globalistas (aqueles que carregam a bagagem montanha acima, em nome dos nababos montados).

The Economist lidera com entrevistas a Zelensky, general Zaluzhny e o comandante de campo militar da Ucrânia, general Syrsky. Todos os três são entrevistados – nada menos que em The Economist. Tal coisa não ocorre por acaso. É uma mensagem destinada a transmitir a nova narrativa da Classe Dominante ao ‘bilhão de ouro’ (todos eles irão lê-la e absorvê-la).

Superficialmente, é possível ler o artigo de The Economist como um apelo por mais dinheiro e muito mais armas. Mas a mensagem subjacente é clara: “Qualquer um que subestime a Rússia está caminhando para a derrota”. A mobilização da força russa foi um sucesso; não há problema com o moral russo; e a Rússia está preparando uma grande ofensiva de inverno que começará em breve. A Rússia tem enormes forças de reserva (de até 1,2 milhão de homens). Considerando que a Ucrânia agora tem 200 mil homens que são treinados militarmente para o conflito, isso é inelutável. Por outras palavras, a Ucrânia não pode vencer.

A isto acrescenta-se uma enorme lista de compras de armas solicitadas. Mas a lista de compras é uma “torta no céu” [uma promessa ilusória, NT]; o Ocidente simplesmente não as tem em stock. Ponto.

‘A Grande Leitura’ do FT, em contraste, é uma descarga de profunda raiva ocidental contra aqueles tecnocratas russos ‘reformistas’ siloviki [forças de ordem estatais, NT] que, ao invés de romper com Putin sobre a SMO, vergonhosamente permitiram que a economia russa sobrevivesse às sanções ocidentais. A mensagem proferida – com os dentes cerrados – é que a economia da Rússia sobreviveu com êxito às sanções ocidentais.

O principal estratega militar dos EUA, coronel Douglas Macgregor, expande aqui a mensagem:   Mesmo o fornecimento de sete ou oito mísseis Patriot é “sem escalada”. Terá, na melhor das hipóteses – ‘impacto marginal’ no campo de batalha da Ucrânia; é uma mera fachada. Scott Ritter, em discussão com o juiz Napolitano, acredita que as entrevistas de The Economist revelam o Ocidente afastando Zelensky – enquanto Zaluzhny administra sua grande dose de realidade (isso será chocante para muitos leais aos sherpas). A ênfase da entrevista de The Economist foi, portanto, inequivocamente no general Zaluzhny, com Zelensky intencionalmente desenfatizado – o que Ritter sugere indica que Washington deseja “trocar de cavalos de liderança”. Outra ‘mensagem’?

Só para esclarecer, o general Zaluzhny disse certa vez que se considera um discípulo do general russo Gerasimov, chefe do Estado-Maior. Zaluzhny supostamente está familiarizado com os escritos deste último. Em resumo, Zaluzhny é conhecido em Moscou como soldado profissional (embora comprometido com a causa nacionalista ucraniana).

Então, o Ocidente está preparando sua narrativa para sair desse conflito invencível – a Ucrânia – e seguir em frente?

Isso é viável? O Ocidente não está muito profundamente investido narrativamente no enredo de ‘Bleed Russia’ ('sangrar a Rússia'); Putin não pode vencer; para que isso aconteça? Não, pode acontecer. Veja o que aconteceu no Afeganistão:  um enorme e lucrativo negócio foi encerrado em poucos dias. E pouco mais de um ano depois, em seu aniversário, o desastre de Cabul mal é noticiado na imprensa ocidental.

As manchetes da mídia passaram sem problemas do Afeganistão para a Ucrânia, quase sem olhar para trás. E já, uma ‘cabra amarrada’ diversionista está sendo preparada para atrair a atenção complacente dos media de massa ocidentais, enquanto o meme da Ucrânia é discretamente arquivado, e a ‘agressão’ da Sérvia contra Kosovo se torna a nova ‘agressão’.

A Sérvia pode ser percebida pela Classe Dominante ocidental como uma ‘fruta fácil’ com a qual a OTAN poderia polir sua imagem manchada (pós-Afeganistão e Ucrânia). Simplificando, a Sérvia diariamente está sendo ameaçada por autoridades da UE e dos EUA:   Junte-se à Europa para sancionar a Rússia; reconhecer formalmente a independência do Kosovo; abandonar os sérvios que vivem no Kosovo há séculos; aderir à UE e à OTAN – como parte de um bloco anti-russo; ou ‘senão’, todos esses acordos legais anteriores não têm importância e serão ignorados.

O ponto crucial? A clara maioria dos sérvios é a favor da Rússia. É duvidoso que qualquer governo em Belgrado sobreviva ao cumprimento de tais ultimatos – mas a Sérvia está em uma situação vulnerável. É uma ilha cercada por países da OTAN e da UE. O governo de Belgrado está propondo enviar 1.000 policiais sérvios ao Kosovo para proteger os direitos da população sérvia local, mas a OTAN pode querer usar isso como pretexto para mostrar sua força militar.

A questão principal é: a Ucrânia encontrará seu ‘pouso suave’? Certamente o ‘Biden Coletivo’ pode preferir isso. Um ‘pouso suave’, no entanto, parece improvável. O Grande Velho Duque de York [NR]não marchou com 10.000 homens até o topo da colina, apenas para marchar para baixo novamente (como diz a velha canção). E Putin não mobilizou 380.000 homens (incluindo voluntários), apenas ‘para marchar com eles ‘para baixo novamente’. A ruptura com a UE e os EUA é profunda. O chanceler Scholtz dizendo que quando a Rússia se retirar da Ucrânia, a Alemanha pode se dignar a tomar seu gás e petróleo novamente, é pura ilusão. Dizer que não há confiança é um eufemismo. Dito isso, Moscou vai querer administrar as coisas de forma a não desencadear um conflito direto da OTAN com a Rússia.

Mas … pode o Ocidente, que tem negado tão profundamente a incrível transformação econômica e militar que ocorreu na Rússia desde 1998, e permanece em uma negação tão veemente também das capacidades das forças armadas russas, simplesmente deslizar sem esforço para outra narrativa? Sim, facilmente. Os neocons nunca olham para trás; eles nunca se desculpam. Eles passam para o próximo projeto…

Enormes esforços foram gastos na construção da narrativa da ‘Rússia como tigre de papel’ – mesmo que isso tenha significado serviços de inteligência dizendo coisas sobre o desempenho russo na Ucrânia que eram patentemente absurdas e falsas. O professor Mike Vlahos e o coronel MacGregor em seu debate em três partes sobre a Ucrânia e o papel dos militares dos EUA neste conflito, continuam voltando ao tema da qualidade sem precedentes de ‘negação e engano’ que caracterizou este conflito. Por que as autoridades profissionais de inteligência do Ocidente mentem – e mentem de forma tão infantil?

Os dois estrategistas expressam sua surpresa pelo fato de alguns de seus colegas de profissão parecerem ter acreditado na “narrativa de negação” (ou seja, que a Rússia de hoje não é diferente da União Soviética e que bastaria apenas uma grande baforada para que a casa russa voltasse a desabar) – apesar do acúmulo de evidências conflitantes disponíveis para esses colegas.

Houve claramente uma qualidade arrebatadora nesta última narrativa:   a Segunda Guerra Mundial e a implosão soviética (na narrativa ocidental) desencadearam uma vitória cultural tectônica completa. Representou uma reafirmação pura da cultura americana e do poderio financeiro e deu crédito ao ‘Fim da História’, de tal forma que o modelo americano inevitavelmente subsumiria o mundo.

Então, é isso? O colapso de uma Rússia ressuscitada foi simplesmente visto dessa maneira? Uma vitória fácil, trazendo em seu rastro um novo triunfo arrebatador (ecstatic)? Isso era tão evidente para esses ‘verdadeiros crentes’ que eles nem se preocuparam em fazer a devida diligência?

Por que essa “narrativa de negação” se tornou tão atraente tanto para europeus quanto para americanos? Por que tantos acreditaram nas óbvias invenções de relações públicas ucranianas? Vlahos e Macgregor acharam isso uma falha intrigante e preocupante para a tomada de decisão racional ocidental. E uma que contribuiu substancialmente para a crescente disfuncionalidade militar dos EUA.

Os dois debatedores se concentraram fortemente no aspecto de relações públicas (em determinado momento, a Ucrânia tinha nada menos que 150 instituições de relações públicas trabalhando em seu nome). Mas estamos em um jogo diferente hoje.

Relações Públicas e Ministério da Verdade de Orwell são ultrapassados. Acabou. Já era.

“A unidade mental das multidões”

“Não sou consultor de mídia, diz Nevo Cohen, o conselheiro creditado pelo novo ministro da Segurança Nacional de Israel, Ben-Gvir, por sua vitória de extrema-direita nas recentes eleições israelenses; “Sou um consultor estratégico … Antigamente era possível ganhar campanhas como relações públicas. Hoje, não é bom o suficiente… A mídia é uma ferramenta importante na caixa de ferramentas do gerente de campanha, mas eu lido com a consciência de massa e esse é um arsenal de ferramentas completamente diferente. Você pode facilmente notar uma campanha eleitoral dirigida por alguém do mundo da publicidade”. (Enfase adicionada.)

Vlahos e Macgregor analisaram o divórcio inexplicável entre duas realidades de guerra que simplesmente não se tocaram em nenhum ponto. No entanto, o professor de psicologia clínica da Universidade de Ghent, Mattias Desmet, abordou a questão da disparidade de uma perspectiva psicológica.

Numa bela manhã de novembro de 2017, o professor Desmet, hospedado na casa de um amigo nas Ardenas, foi tomado por uma súbita intuição: “[…] o tecido da sociedade se enrijece”. Suas observações após três anos de pesquisa o levaram a escrever seu livro The Psychology of Totalitarianism.

Muitos escreveram sobre o tema do totalitarismo – de Hannah Arendt a Gustav Le Bon (inter alii) – mas a abordagem de Desmet diferiu porque ele pretendia explicar o pano de fundo psicológico da negação em massa de realidades auto-evidentes (tanto por cientistas e especialistas, como por qualquer um).

Ele identificou certos “mecanismos psicológicos primitivos” que precisavam estar presentes para que uma narrativa distribuída evoluísse para uma insidiosa “formação em massa” que destrói a autoconsciência ética de um indivíduo e rouba-lhe a capacidade de pensar criticamente.

A condição primária era que houvesse um segmento da população sem vínculos comunitários ou significado em suas vidas, e sendo ainda mais afligido por ‘ansiedade e descontentamento flutuantes’, que se inclinam para a agressividade (ou seja, por sentimentos generalizados de que ‘o sistema’ e economia são ‘manipuladas’ injustamente, contra eles).

Essencialmente, então, os movimentos de massa atraem as pessoas porque parecem oferecer esperança a seres desamparados e disfuncionais.

Nesse estado mental, uma narrativa pode ser ‘dissolvida’, sugerindo uma causa específica para a ansiedade flutuante – e um meio de lidar com ela (ou seja, como ‘a Rússia ameaça nossa vantagem global, nossa identidade e valores, e se fosse destruída, o velho sistema e valores se endireitaria’).

A narrativa explicativa dá uma sensação imediata de conexão e de engajamento em um ‘projeto heróico’; o significado assim é restaurado, mesmo que esse significado seja absurdo, em relação à realidade. A sensação de conectividade é semelhante ao que ocorre na psicologia das multidões. Na alma das multidões, acreditava Gustave Le Bon, “a personalidade consciente desaparece” (True Believer, 2013); a individualidade se desvanece e é absorvida pela “unidade mental das multidões” – assemelhando-se eventualmente a uma “reunião de imbecis” capaz dos “atos mais sanguinários”.

Mas talvez o mais inquietante, Eric Hoffer encontrou outro tipo de indivíduo que é atraído por movimentos de massa – na verdade, cuja participação é muitas vezes necessária para que tais movimentos prosperem. O que Eric Hoffer descobriu, e o que muitas vezes tem sido negligenciado por muitos sociólogos e certamente pelo público em geral, é que os movimentos de massa atraem o que hoje chamamos de personalidade psicopata – em essência predadores:   indivíduos que se contentam em causar grandes danos, que talvez sejam até sádicos, e mesmo assim não se incomodam nem um pouco com o que fazem.

Movimentos de massa que veem a guerra como parte de sua solução atraem e até precisam de psicopatas. Paradoxalmente, a disposição de desejar a destruição (digamos, de todos os russos) atrai mais respeito de outros verdadeiros crentes e está ligada a outro elemento paradoxal: o que liga os movimentos de formação em massa é a necessidade de sacrifício (ou seja, no movimento de mudança climática , o sacrifício da industrialização, viagens, estilos de vida, combustíveis fósseis – e bem-estar econômico).

“O programa Fear [medo, NT], agora uma parte aceite do arsenal da política democrática”

Gustav Le Bon observou como essas formações em massa foram exploradas pelas autoridades, usando o medo para impor o cumprimento. E esta semana, Janet Daley, escrevendo no The Telegraph, adverte:

“A lição crítica que foi indelevelmente absorvida pelas pessoas no poder e por aqueles que as aconselham é que o medo funciona. Acontece que não há quase nada que uma população não sacrifique-se se for sistemática e implacavelmente amedrontada.”

“O fenômeno Covid-19 forneceu uma sessão de treinamento inestimável em técnicas públicas de controle da mente: a fórmula foi refinada – com a ajuda de publicidade sofisticada e conselhos formadores de opinião – para uma mistura surpreendentemente bem-sucedida de ansiedade em massa (sua vida está em perigo) e coerção moral (você está colocando a vida de outras pessoas em perigo).”

“Mas não foi apenas a repetição infindável dessa mensagem que alcançou a adesão quase universal e bastante inesperada. Foi a supressão abrangente da dissidência, mesmo quando vinha de fontes especializadas – e a proibição de argumentação, mesmo quando acompanhada de evidências contrárias – que realmente funcionou.”

“Se as leis do país não permitem que você elimine todas essas opiniões desviantes, você pode simplesmente orquestrar uma avalanche de opróbrio e descrédito sobre aqueles que as expressam, de modo que suas reputações profissionais sejam prejudicadas. Mas essa é uma batalha de ontem. A Covid-19 – como evento histórico – acabou. Vamos falar sobre como o programa Fear, agora uma parte aceita do arsenal da política democrática, provavelmente funcionará no presente e no futuro. Acontece que existe o que parece ser um modelo notavelmente semelhante de ansiedade mais chantagem moral sendo aplicado à questão da mudança climática. Nota: essas observações não têm relação com a existência ou não de uma verdadeira “crise climática”. O que eu quero considerar [sim] é como as políticas que estão sendo formuladas para lidar com isso estão sendo enquadradas…”

Podemos reconhecer claramente essas ferramentas precisamente implantadas pelo Ocidente também no caso da Ucrânia.

Essas ‘ferramentas de consciência de massa’ darão ao ‘bilhão de ouro’ sua vitória psicopática sobre a humanidade?

Olhe ao seu redor: as placas tectônicas da geopolítica e das geofinanças estão mudando – mudando radicalmente para longe de um Ocidente cada vez mais agitado. Estas são estruturais (forças mecânicas da dinâmica física) sobre as quais as ferramentas da consciência de massa, em última análise, têm influência limitada. Moscou entende bem essas mudanças que estão em andamento – e sabe como amplificá-las.

/Dezembro/2022

[NR] Uma rima infantil, sinónimo de ação fútil.

[*] Ex-diplomata britânico. Fundador e diretor do Fórum de Conflitos, com sede em Beirute.

O original encontra-se em strategic-culture.org/news/2022/12/19/managing-the-ukraine-denial-narrative/ e a tradução em sakerlatam.org/gerenciando-a-narrativa-de-negacao-da-ucrania/.

Este artigo encontra-se em resistir.info

19/Dez/22