Em entrevista à imprensa alemã na última
terça-feira (13/Jan/04), depois de se reunir em Berlim com o chanceler
Gerhard Schroder, o presidente do Banco Central dos EUA, Alan Greenspan,
declarou que o déficit em conta corrente do seu país, superior a
5% do PIB, não deve ser motivo para maiores preocupações.
Há possibilidade de corrigir esse desequilíbrio bem antes
de ele desestabilizar a economia, assegurou
[1]
. Este recado aos mercados, provavelmente inspirado mais no dever do
ofício do que em fundadas convicções teóricas,
parece hoje pouco convincente.
As dúvidas em relação aos destinos da economia
norte-americana estão se generalizando em todo o mundo em
função do desempenho das contas externas e do orçamento
público da potência econômica hegemônica.
Déficits espetaculares na conta corrente (que constitui, conforme
observam alguns economistas, uma medida mais ampla da balança comercial)
vêm sendo acumulados despreocupadamente desde 1982, traduzindo o
inesgotável parasitismo do Tio Sam. Houve um ano de
exceção, precisamente o de 1991, quando os lucros obtidos com a
Guerra no Golfo (extorquidos do Japão, da Alemanha e da Arábia
Saudita), possibilitaram um saldo positivo resultado que evidentemente
não se repetiu em 2003. Mais recentemente, a irresponsabilidade fiscal e
as aventuras militares do governo Bush acrescentaram ao problema do
déficit externo um notável desequilíbrio das contas
públicas. São dois problemas entrelaçados, caracterizados
por muitos como déficits gêmeos.
CONCEPÇÕES IDEALISTAS
A ideologia dominante, reproduzida nos comentários de Greenspan,
supõe que graças à posição especial
ocupada pelo dólar na economia mundial os Estados Unidos
não têm porque esquentar a cabeça com seus crescentes
déficits, que em última instância poderiam ser resolvidos
com a simples produção e emissão da moeda que ainda lidera
os negócios internacionais. Mas, isto não corresponde à
realidade dos fatos, traduz antes uma concepção idealista,
ingênua e falsa da história e das relações sociais
entre as nações. São idéias que negam o
caráter objetivo das leis e dos fenômenos econômicos.
É certo que o porte e a liderança da economia estadunidense faz
diferença em relação ao chamado Terceiro Mundo e permite
uma acumulação de débitos que já teria provocado
crises mais sérias no balanço de pagamentos de outros
países. Todavia, também esta suposta vantagem tem limites. Os
déficits em conta corrente que estão sendo cultivados há
mais de 20 anos por Tio Sam têm resultado num passivo externo colossal e,
ao contrário do que imagina o senso comum americano, este passivo
não sai de graça, tem um custo que pode se revelar excessivo e
amargo para o império.
Conforme a jornalista Maria Clara R. M. do Prado, a dívida externa dos
EUA caminha para algo em torno de 40% do PIB, um nível nunca antes
alcançado por um país industrializado
[2]
.
Somada ao estoque de investimentos estrangeiros diretos, a dívida
elevou a necessidade de financiamento do balanço de pagamentos
norte-americano a patamares exorbitantes. Estima-se que Tio Sam já
precisa captar 1,5 mil milhões de dólares no exterior todo santo
dia para pagar suas contas. Não é pouca coisa.
Isto indica que o gigante imperialista da América do Norte está
ficando frágil, vulnerável e dependente da boa vontade e do bom
humor dos investidores estrangeiros, vivendo hoje como um grande parasita que
cresce à sombra do dinheiro estrangeiro e este flui agora
principalmente do Japão, da China e da Europa. Em médio e longo
prazo, como já ensinava nosso mestre Lênin, o preço do
vício de viver à custa alheia tende a ser a
decomposição do império e da hegemonia (ianque), mas
já é possível vislumbrar os efeitos deletérios do
parasitismo na conjuntura atual, valendo destacar o declínio do
dólar e a persistente instabilidade cambial verificada em quase todo o
mundo ao longo dos últimos anos.
NO CAMINHO DA ARGENTINA?
Num artigo intitulado No caminho da Argentina, o economista
americano Paul Krugman, crítico assíduo do governo Bush,
argumenta que os déficits tornaram a economia estadunidense
vulnerável demais. Citando um estudo sobre o tema organizado por
Robert Rubin, que foi secretário do Tesouro do governo Clinton, ele
observa que a imunidade tradicional dos países ricos, como os
Estados Unidos, às crises financeiras ao estilo do Terceiro Mundo
não é um direito divino. Os mercados financeiros nos dão o
benefício da dúvida só porque acreditam na nossa
maturidade política na disposição dos nossos
líderes de fazerem o que for necessário para conter os
déficits, pagando um custo político, se necessário.
Referindo-se à irresponsabilidade fiscal do governo Bush, que tende a se
agravar neste ano eleitoral, o economista sentencia: Se esse tipo de
política inócua for levado adiante, os investidores
acabarão concluindo que os EUA se tornaram um país do Terceiro
Mundo, e começarão a tratá-los como tal. E as
consequências para a economia americana não serão
boas.
[3]
.
É possível que Paul Krugman esteja exagerando ao sugerir que o
império dirigido pela extrema direita republicana esteja a trilhar o
mesmo caminho da Argentina, que quebrou em 2001, mas suas opiniões
não são infundadas. Cabe também notar que ele não
é o único a manifestar preocupações com tais
déficits, que até agora têm sido cobertos pela
atração da poupança do resto do mundo.
ATÉ QUANDO?
Amplia-se entre os observadores da conjuntura internacional a
percepção de que o rombo externo norte-americano (comercial e em
conta corrente) já alcançou um nível insustentável.
A questão que se coloca, conforme a jornalista Maria Clara
R. M. do Prado, é a seguinte: até quando o mundo estaria
disposto a financiar os EUA?.
Tratando do mesmo tema e com idêntica preocupação,
The Wall Street Journal
, um diário econômico conservador que não se notabiliza
propriamente pelo espírito crítico, destaca que o fluxo de
investimento estrangeiro, vital à economia do país, deixa de ser
uma certeza, em um artigo sob muitos aspectos esclarecedor e bem
fundamentado
[4]
, que começa expondo o seguinte:
Todo dia indivíduos, empresas e governos estrangeiros despejam US$
1,5 mil milhões em ações, títulos do Tesouro,
fábricas, empresas e imóveis nos Estados Unidos. Esse dinheiro
é a seiva econômica desse país. Ele permite aos EUA
financiar investimentos de capital em fábricas e outros negócios,
assegurar crédito imobiliário, construir estradas e
até ir à guerra contra o Iraque.
Nos últimos dez anos, a dependência americana ao capital
estrangeiro inflou. Duas décadas atrás, os americanos enviavam
mais dinheiro para fora do país do que recebiam do exterior. Quanto
tempo a infusão de dinheiro estrangeiro pode durar? Por quanto tempo os
indivíduos responsáveis por decisões no mercado global
vão continuar a favorecer os EUA com seu dinheiro?
FRAGILIDADE ECONÔMICA E POLÍTICA
Entre os que hoje financiam a luxúria da sociedade norte-americana
destacam-se o Japão (que em outubro de 2003 tinha um pouco mais de 500
mil milhões de dólares investidos em títulos
do Tesouro dos EUA, segundo dados divulgados pelo Departamento do Tesouro), a
China (com 113,8 mil milhões de dólares na mesma data) e as
potências européias. É bom ressalvar que a
aplicação em títulos públicos não constitui
a única forma de financiamento do balanço de pagamentos, contando
também os empréstimos ao setor privado e os investimentos
externos diretos (IED), que despencaram do pico de US$ 314 mil milhões
em 2000 para US$ 30 mil milhões em 2002.
Alguns analistas observam que a forma de financiamento do balanço de
pagamentos dos EUA piorou sensivelmente após a queda das bolsas, as
falências fraudulentas, a desmoralização da Nova
Economia e a recessão de 2001, na medida em que houve uma
apreciável queda da participação dos investimentos diretos
e um aumento da captação através de títulos do
Tesouro. Nos 12 meses até 30 de junho de 2003, o dado mais recente
disponível, os estrangeiros compraram US$ 231,5 mil milhões em
dívida do Tesouro americano, mais do que qualquer outro período
de 12 meses nos últimos seis anos, salientam os jornalistas do
The Wall Street Journal
. Essas compras totalizam quase dois terços de todo o montante
tomado emprestado pelo Tesouro naquele período. Estrangeiros
entre eles bancos centrais atualmente detêm mais de US$ 1
milhão de milhões de dólares em dívida do Tesouro
americano, cerca de 30% de todos os títulos do Tesouro em
circulação.
Através dessas estatísticas pode-se perceber o
entrelaçamento entre o déficit fiscal promovido pelo governo Bush
e o rombo no balanço de pagamento, o modo pelo qual o capital que flui
do exterior ajuda a financiar ainda que em oposição aos
interesses dos investidores a criminosa invasão do Iraque.
Justifica-se por aí a definição dos rombos fiscal e em
conta corrente como déficits gêmeos.
Mas, é preciso assinalar ainda que o aumento da
participação das aplicações em títulos
públicos pode embutir um outro complicador, já que em boa medida
os recursos em questão estão em mãos de bancos centrais
estrangeiros, o que adiciona (ou pode adicionar) um molho político
à vulnerabilidade econômica. O capital estrangeiro em mãos
privadas move-se conforme as regras do mercado, orientando-se pela busca do
lucro máximo, seu movimento é por natureza anárquico e
pouco previsível. Já o mesmo não se pode dizer da reserva
administrada por um banco central estrangeiro, cujo movimento nos mercados de
câmbio não é guiado obrigatoriamente pela mesma
lógica, podendo ser influenciado e mesmo determinado pela
estratégia política. A fragilidade do império neste
terreno é ao mesmo tempo econômica e política.
A INFLAÇÃO DO DÓLAR
Podemos enxergar um dos sintomas mais relevantes da saúde fundamental da
economia norte-americana (conforme sugere outro famoso crítico do
governo Bush, o economista Joseph Stiglitz) contemplando a dança do
dólar. É verdade que os EUA têm (por enquanto) o
privilégio de poder financiar seus déficits emitindo a
própria moeda e provavelmente é isto que, em certa medida, tem
sido feito. Todavia, este recurso artificial tem limite e este limite reside na
desvalorização do dólar, que na definição de
Keynes corresponde à inflação. Parece óbvio que
estamos vivendo uma inflação do dólar nos mercados
internacionais, embora o impacto sobre os preços internos não
sejam relevantes.
A depreciação continuada coloca em questão o papel
exercido pelo dólar (como reserva de valor mundial, meio de pagamento e
unidade de troca) e em médio prazo pode anular as
vantagens da liderança monetária. Fatos como o aumento da
participação dos títulos globais denominados em euro e
mudanças no perfil das reservas dos bancos centrais estrangeiros (em que
também se registra a elevação da
participação da moeda européia e do ouro, que atingiu seu
valor máximo nos últimos 14 anos) sinalizam este perigo.
O declínio do dólar e a insistência do FED em garantir
juros baixos também estão tornando menos atraente o retorno dos
investimentos em ativos norte-americanos. Isto foi notado pelo economista
Charles Collyns, chefe da equipe do FMI para a América do Norte, que
coordenou um recente estudo da instituição que critica a
política fiscal do governo Bush e alerta que o déficit dos EUA
representam um risco muito sério para a economia mundial. Sentimos
que há um risco significativo de o apetite dos investidores estrangeiros
por ativos norte-americanos, e em especial por ativos do governo
norte-americano, diminuir com o passar do tempo. Achamos que isto ocorreu, em
certo grau, no último ano e que este é um dos motivos pelo qual o
dólar registrou fragilidade, ressalta o economista.
DÉFICIT DE POUPANÇA
A causa mais remota e relevante da crescente vulnerabilidade da economia
norte-americana é o déficit da balança comercial, que vem
sendo acumulado sem maiores preocupações desde o famoso ano de
1971, quando o então presidente Richard Nixon teve de decretar o fim do
lastro do dólar em ouro. Este déficit, principal via para a
valorização e realização dos capitais estrangeiros
destinados à exportação, é na verdade um grande
espelho do parasitismo e da decadência econômica do Tio Sam. Ele
traduz, todavia, perturbações mais profundas, que estão
radicadas no processo produtivo. É o reflexo de um nível de
poupança interna que o economista Joseph Stigritz classificou de
chocantemente baixa.
O déficit comercial não deveria ser surpresa para uma
economia norte-americana na qual a poupança é escassa,
argumentou o economista-chefe do banco Morgan Stanley, Stephen Roach.
Eles são parte indissociável da crescente necessidade
norte-americana de importar poupança externa a fim de financiar o
crescimento do país. A única maneira de obter esse capital
é manter déficits comerciais imensos
[5]
.
Há, portanto, um déficit de poupança, que conforme os
economistas do Banco Mundial é equivalente ao saldo negativo da conta
corrente. Sua persistência combinada com o déficit
público em crescimento pode pressionar para o alto as taxas de
juros.
A correção do desequilíbrio do balança de
pagamentos dos EUA e a redução da sua vulnerabilidade externa
só poderá ser obtida através da eliminação
do déficit comercial, mas este caminho (que mais cedo ou mais tarde vai
ser imposto pelos mercados) tende a implicar numa redução dos
investimentos e afetar o crescimento interno. Se os estrangeiros tirarem
seu capital dos EUA, isto não somente depreciaria o dólar ainda
mais e mais rápido. Investimento estrangeiro menor nas bolsas americanas
pode levar o mercado a cair novamente, observa o citado artigo do
The Wall Street Journal
. Este é uma nova questão que se insinua nesta história:
será que, a exemplo do que ocorre no Brasil e em outros países do
chamado Terceiro Mundo, a vulnerabilidade externa vai acabar afetando
negativamente a taxa de crescimento do PIB norte-americano? A resposta a esta
pergunta pode estar a caminho e se revelar ainda no decorrer dos
próximos anos.
________
Notas
1- Ver
O Estado de São Paulo
, 14/Jan/04, página B16
2- A informação consta no artigo intitulado
Benefícios e malefícios do déficit nos EUA,
assinado pela jornalista e publicado no jornal
Valor
(15/Jan/04, página A9)
3- Publicado originalmente no
The New York Times
, o artigo de Paul Krugman foi reproduzido pelo jornal
O Estado de São Paulo
edição do dia 7 de janeiro deste ano (página B2)
4- O artigo, intitulado EUA vão continuar a atrair capital
externo?, atribuído aos jornalistas Joel Milman, Phillip Day e
Michael M. Fhillips (todos do
The Wall Street Journal
) foi reproduzido pelo jornal
O Estado de São Paulo
(15/Jan/04, página B10)
5- O artigo de Stephen Roach, intitulado A China não é
culpada pela crise mundial, com uma análise muito lúcida
sobre as tensões entre China e os EUA (que no caso é apoiado
pelas potências européias e o Japão) em torno da
política cambial, foi publicado originalmente pelo
Financial Times
e reproduzido pelo jornal
Folha de São Paulo
(09/Out/2003, página B12)
[*]
Membro da equipe de comunicação da Central Única dos Trabalhadores (CUT) do
Brasil.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info
.