Os principais media dos Estados Unidos noticiaram o colapso da linha de abastecimento da frota naval norte-americana na região da Ásia Ocidental. Milhares de militares a bordo de porta-aviões e outros navios de guerra na região têm enfrentado condições de trabalho extenuantes, ameaças à segurança no convés, falta de suprimentos, escassez de alimentos, contaminação da água e interrupções no sistema postal.
Grupos de veteranos contra a guerra instalaram outdoors para alertar militares da ativa sobre seu direito e seu dever de desobedecer a ordens para cometer crimes de guerra. É o que relatam seus familiares, que manifestaram sua revolta numa reunião virtual aberta ao público, em 7 de agosto, com altos oficiais da Marinha dos Estados Unidos em San Diego. A MS NOW noticiou as discussões, depois reproduzidas em jornais militares, no Guardian e mais tarde no New York Times e noutros meios de comunicação.
O porta-voz do Pentágono, vice-almirante Douglas Verissimo, atribuiu a impossibilidade de entregar correspondência e suprimentos ao facto de o Irão ter posto fora de operação a base naval dos Estados Unidos no Bahrein, um centro logístico.
As condições nos navios provocaram crises de saúde mental, com pouco ou nenhum aconselhamento disponível, e tentativas de suicídio, que até os media corporativos noticiaram.
A ampla cobertura jornalística da deterioração das condições a bordo do porta-aviões nuclear USS Abraham Lincoln revelou uma profunda mudança de atitude, pelo menos entre o pessoal de baixa patente (não oficiais). É o que a liderança da Marinha descreve como “desmoralização”.
O primeiro passo
Na história militar, muitas vezes aquilo que parece desmoralização é o primeiro passo para um maior grau de consciência. É a consciência de que as pessoas que lhe dão ordens e determinam sua vida não agem nem no seu interesse nem em nome de algum ideal, mas sim para servir aos interesses dos ultrarricos que dominam a sociedade.
Pelo menos parte do pessoal do convés de voo sabe que uma parcela crescente da população dos Estados Unidos considera que as atividades do USS Lincoln constituem crimes de guerra. Em dezembro passado, meia dúzia de veteranos militares no Congresso dos Estados Unidos declararam publicamente que o pessoal militar norte-americano não só tem o direito como também o dever de desobedecer ordens para cometer esses crimes de guerra.
O primeiro passo para a mudança de consciência a bordo do USS Lincoln ocorre após mais de nove meses em missão de combate, sem escalas em terra. Há 5 000 pessoas no Lincoln, e o pessoal de baixa patente do convés de voo tem, na sua maioria, de 18 a 22 anos. Muitas vezes trabalham em turnos de 16 horas. O navio é como uma fábrica gigantesca que, depois de nove meses no mar, mais parece uma prisão.
Não é de surpreender que alguns integrantes da US Navy estejam “desmoralizados”. Não é de surpreender que alguns tenham tentado se suicidar. Surpreende ainda menos que muitos de seus familiares estejam furiosos com o alto comando da Marinha.
E não é difícil imaginar que todos estejam furiosos com o comandante em chefe MAGA e seu sicofanta no Pentágono, Pete Hegseth. Ambos ignoram as preocupações das famílias. Tratam os marinheiros e seus familiares como carne de canhão. E ao contrário da maioria dos governos dos Estados Unidos no passado recente, fizeram isso com arrogância aberta.
A desastrosa agressão de Trump contra o Irão castiga os militares norte-americanos de baixa patente. Até senadores dos Estados Unidos protestam.
O que fazer?
Diante dessa rápida expansão da luta, o movimento antiguerra e anti-imperialista deve considerar como responder ao novo desafio. O que o movimento pode fazer para ajudar os familiares a levar sua mensagem à população? O que pode ser feito para garantir que os militares de baixa patente continuem em contato com seus familiares e com a população dos Estados Unidos?
Organizações como Veterans For Peace divulgaram o direito dos militares de se recusarem a obedecer a ordens ilegais e inconstitucionais, como aquelas para cometer crimes de guerra. Elas fizeram campanhas instalando outdoors perto de muitas bases nos Estados Unidos e no mundo. Outros grupos ofereceram aconselhamento jurídico. Tudo isso é positivo.
Mas o movimento deve levar em conta o que está por trás das reportagens dos media corporativos sobre os fracassos do governo MAGA. A crítica dos media reflete uma disputa entre diferentes setores dos grupos dominantes da sociedade dos Estados Unidos: muitos consideram o regime MAGA incompetente para defender e ampliar os interesses imperialistas norte-americanos. Embora essa disputa crie uma abertura temporária, o movimento deve incentivar uma resistência independente de ambas as facções dominantes.
Pode o movimento promover a ideia de que os militares de baixa patente das Forças Armadas dos Estados Unidos têm o direito de formar sua própria organização, do mesmo modo como os trabalhadores formariam um sindicato?
Pode o movimento exigir que os militares e seus familiares tenham acesso a todos os tipos de media e o direito de relatar o que lhes está a acontecer e de expressar suas opiniões sobre isso?
A forma concreta de qualquer organização de militares da ativa terá de nascer de suas próprias necessidades e refletir suas próprias reivindicações, mas o movimento pode procurar maneiras de lhes oferecer apoio. Veteranos antiguerra de guerras de agressão anteriores dos Estados Unidos — contra o Vietname, o Iraque e o Afeganistão, por exemplo — podem desempenhar um papel valioso nesse trabalho, como já começaram a fazer.