Atormentando prisioneiros, torturando a verdade

por Niranjan Ramakrishnan [*]

Os cães de Abu Ghrabi. O escritor indiano Saadat Hassan Manto escreveu um conto famoso acerca da partilha da Índia. Os activos tinham de ser divididos entre os dois novos países, a Índia e o Paquistão. Naquele conto, os burocratas num asilo de doentes mentais estão ocupados com a separação dos detidos entre doentes mentais indianos e paquistaneses. Manto faz um burocrata protestar porque a um detido do seu asilo fora assinalada a religião errada, e deveria ser despachado de volta através da fronteira!

Com aquele golpe de génio, Manto captura a tragédia da partilha — o idiotismo dos argumentos dentro de um hospício quando a própria nação havia-se tornado um asilo gigante de doentes mentais.

Tal como o burocrata de Manto, a nós também parece escapar a triste ironia do nosso destino. Absorvidos no sub-enredo das fotos dos abuso físico, temos sido levados ao esquecimento da maior atrocidade: a tortura diária da verdade. Se isto tiver êxito, os bruxos terão vencido. A técnica, denominada indução em erro (misdirection) , é utilizada tanto pelos mestres ilusionistas como pelos pequenos carteiristas. Enquanto a sua atenção é presa a um pequeno pormenor, o grande roubo está a ser executado sem que seja percebido.

Não estou a dizer que a tortura de prisioneiros iraquianos não seja importante. Mas digo que ela não pode ser discutida isoladamente, sem considerar as circunstâncias, não mais do que alguém que acusasse um ladrão por assalto mas argumentasse que era correcto arrombar a casa.

Os prisioneiros no Iraque foram obrigados a fazer actos grotescos. Mas como explicar a contorções realizadas diariamente pelos nossos responsáveis do governo, senadores e congressistas?

A mesma razão — um medo insano.

Tal como a Índia de Manto, uma loucura apossou-se da América após o 11 de Setembro. Pessoas normalmente sãs começaram a fazer coisas insanas:

  • Em nome do combate aos inimigos da liberdade, o Congresso prontamente assinou um Patriot Act que reduz as nossas liberdades.

  • Responsáveis que são supostos guardar-nos contra excessos dos executivos competem uns com os outros para defendê-los.

  • A privacidade é sagrada para o nosso governo. Ele diz que mostrar os ataúdes envoltos em bandeiras com os soldados mortos violaria a privacidade. Mas não é bastante sagrado, contudo, a intrusão na privacidade dos que vivem — este mesmo governo quer saber tudo sobre as nossas leituras, os filmes que vemos e outros hábitos, e levanta salvaguardas contra a investigação arbitrária e o ataque sobre os outros.

  • E se se perguntar ao Senador John Kerry se ele aboliria o Patriot Act, o que pensa que este supremo contorcionista diria? E após a sua resposta, saberia você se ele disse sim ou não?

    As dores do parto da verdade causam sofrimento na Era de Bush. A verdade tem estado a padecer em Abu Ghraib, assaltada diariamente sem nenhum descanso à vista. Muito depois de os habitantes da Abu Ghraib real terem obtido justiça, ela ainda permanecerá onde está, desfigurada todos os dias pelas implacáveis mentiras e meias-verdades do nosso governo e dos políticos.

    Se prosseguir a canção "Oh que teia complicada nós tecemos, quando primeiro praticamos o engano" , a administração Bush, desimpedida se não realmente ajudada pelos murmúrios, tropeções e resmungos dos Democratas, terá realizado todo um tapete mágico.

    Primeiro ela provocou um alarme sobre armas de destruição em massa e um iminente perigo para a nossa segurança. Nada ali. A seguir, era tudo sobre a libertar o povo iraquiano que estava ansiosamente à espera. Quando o comité de boas vindas foi encontrado a produzir bombas ao invés de buques de flores, o tema tornou-se levar a Democracia ao Médio Oriente, um projecto a que foi dado um auspicioso início com o encerramento de um jornal (sem mencionar as várias tentativas de silenciar as emissões da Al Jazeera e da Al Arabiya). Agora estamos de volta ao velho refrão — promover os direitos humanos no Iraque de Saddam. (Ver o artigo War of Choice ).

    Mesmo acerca do aniversário do seu discurso de 1 de Maio, Missão Cumprida, o presidente Bush explicou que aquilo que tinha querido dizer por Missão Cumprida era que o povo iraquiano estava livre da tirania de Saddam Hussein...

    ...Só para cair nas mãos de alguns dignos sucessores, como as fotografias de Abu Ghraib parecem sugerir.

    Que estes travestis da verdade ocorram e lhes seja permitido passar em plena luz do dia permanecerá um enigma para os futuros historiadores. Se for permitido que avancem eles nos arruinarão mais completamente do que os actos de crueldade sobre uns tantos prisioneiros.

    Ainda que provavelmente venham a continuar.

    O triste facto é que agora somos uma nação conduzida por imagens. Se não tivesse havido quaisquer fotografias de Abu Ghraib, não teria havido qualquer clamor. Mas a corrupção orwelliana do discurso público (para o qual democratas como Kerry, com suas frases vazias de 'não se pode fugir', e 'permanecer na rota' fizeram as suas próprias contribuições exclusivas) não é menos real, e é certamente de longe mais ruinosa para o nosso futuro. (Talvez o que realmente nos despertasse fosse um fotógrafo com uma decalagem de tempo para mostrar o nosso destino dentro de umas poucas décadas).

    Ainda assim, algum bem pode ver de Abu Ghraib. Randi Rhodes da America Radio sugeriu ontem que Bush deveria ir para o Iraque, para Abu Ghraib, e pedir desculpas ao povo iraquiano.

    Isto seria um grande gesto, mais especialmente se ele também utilizasse a ocasião para pedir desculpas a outros países que sofreram torturas indirectamente com as actividades da notória School of the Americas.

    Contudo, não precisamos seguras a nossa respiração — a especialidade desta administração é a grande mentira e não o grande gesto. Nesta manhã, quando perguntaram a Rumsfeld se ele se desculparia por Abu Ghraib, ele fez circunlóquios e falou de modo hesitante, acabando por nada dizer. Com o seu registo de arrogância, para esta administração uma admissão de falibilidade seria como a chuva para um castelo de areia.

    É uma pena, porque furar a nuvem de insanidade que desceu sobre nós exige que se diga a verdade tanto para nós mesmos como para aqueles que maltratámos. Quanto mais tempo persistirmos nas nossas mentiras e meias-verdades, mais difícil será retomar o caminho.

    04/Mai/2004

    [*] O autor é de origem indiana e vive nos EUA. O seu email é njn@indogram.com

    O original encontra-se em http://www.indogram.com/

    Este artigo encontra-se em http://resistir.info .
    11/Mai/04