Visão Global – Trunfo real

por Chris Floyd

. Do sangue e das trevas do Iraque, outra sinistra conexão está emergindo. Um novelo de corrupção ligando a Halliburton de Dick Cheney, as fortunas da família Bush e uma misteriosa companhia kuwaitiana que vende material para a construção de armas de destruição em massa.

Na semana passada, auditores do Pentágono pediram uma investigação formal acerca de preços excessivos, ou seja, superfaturados, cobrados pelos sequazes da Halliburton de Cheney. A bem relacionada corporação, a qual tem sido a principal beneficiária do saque do tesouro americano efectuado pelo regime Bush para pagar sua destruição no Iraque, é acusada de extrair um excesso de US$ 61 milhões por meio de um nebuloso acordo de importação de gasolina do Kuwait para a terra conquistada.

Para dar essa mordidela nos lucros da guerra, a Halliburton aliou-se à Altanmia Marketing of Kuwait. A esta última foram dados direitos exclusivos para o transporte de gasolina entre Kuwait e o Iraque – “embora ela não tenha nenhuma experiência prévia em transporte de combustíveis”, relataram os investigadores do Congresso americano. Então qual é a função real desta empresa? Investimentos, bens imobiliários – e actuar como “representante de companhias que atuam no sector: militar e nuclear, biológico e químico”, relata The Wall Street Journal .

Por outras palavras, o novo parceiro da Halliburton no tráfico de elementos essenciais de armas de destruição em massa — o próprio género de material cuja difusão e venda os EUA tem ostensivamente procurado impedir em todo o mundo. Ostensivamente. Mas como sempre acontece com os bushistas, a retórica da "segurança" é uma fina cortina para cobrir seu desejo insaciável de roubo dos bens do Estado.

Depois de cavar o subcontrato da gasolina — antes de o processo de licitação ser encerrado, naturalmente — a Altanmia passou a cobrar à Halliburton mais de duas vezes o preço que outras empresas cobravam para transportar a gasolina para o Iraque. Afortunadamente, a Casa Branca concedeu à Halliburton um contrato “cost-plus” [1] para dominar o sector energético iraquiano. Dessa forma, quanto mais elevadas as despesas da Altanmia, maior o "plus" que entra nos cofres da Halliburton — e tudo isso pago por este eterno idiota, o povo norte-americano. É o capitalismo do compadrio no seu estado mais puro. Os idiotas arcam com o risco financeiro, os militares americanos atuam como o músculo da companhia; e tudo o que a Halliburton tem a fazer é sentar-se atrás e recolher o dinheiro — menos umas poucas contribuições para campanhas e "pacotes de aposentadoria" para os seus operadores políticos, naturalmente.

Muito estranhamente, os responsáveis do sector energético do Kuwait nunca tinham ouvido falar da companhia Altanmia antes do negócio com a Halliburton. Eles haviam recomendado várias distribuidoras experientes — com preços mais baixos — ao governo norte-americano; mas foi-lhes dito que Altanmia era a única opção, relata The Wall Street Journal . Responsáveis militares por contratações, sob a impressão errada de que estavam a tratar de um negócio honesto, queixaram-se de forte pressão por parte de responsáveis do governo norte-americano e do Kuwait para manter a Altanmia no comboio da alegria. Uma responsável decidida, Mary Robertson, tentou impedir o esquema, declarando em carta à Halliburton: "Não sucumbirei à pressões políticas ... ir contra minha integridade e pagar um preço mais caro que o necessário pelo combustível"

Mas integridade para um bushista é como alho para um vampiro. Robertson foi ignorada. Na verdade, mesmo quando o escândalo do superfaturamento já havia rompido, no mês passado, Richard Jones, embaixador americano no Kuwait (e substituto de Paul Bremer, o vice-rei do Iraque) implorou à Halliburton e aos superintendentes militares que fizessem um acordo com a Altanmia para ainda mais importações de gasolina — apesar de a companhia se recusar a abaixar os preços extorsivos que cobra; relata The Wall Street Journal .

Afinal, quem são essas pessoas da Altanmia que merecem favores tão especiais? Esta é a pergunta de US$ 61 milhões de dólares. Os donos oficiais são membros de poderosos grupos no comércio do Kuwait, mas investigadores do Congresso estão examinando múltiplas alegações de que a família real do Kuwait — os al-Sabahs — tem conexões extra-oficiais com a empresa.

Seria bem incomum se eles não as tivessem. Como a Casa dos Saud [2] , a família real do Kuwait gosta de meter-se em todas as acções verificadas nos seus domínios. A Casa dos Bush tem aspirações semelhantes, claro — eles há muito encaram o seu próprio país como um feudo privado para enriquecimento próprio. Dessa forma, foi um casamento harmonioso quando George Bush Pai fez acordos comerciais arriscados com os Al-Sabahs na década de 60, num negócio para explorar as reservas offshore do petróleo kuwaitiano.

Aquela longa e lucrativa associação foi saldada em 1991, quando Bush, como qualquer bom Senhor Feudal, enviou seu exército privado – o exército americano – para lutar em defesa de sua comparsa, a família real do Kuwait, na sua disputa com o Iraque sobre dívidas de guerra e direitos sobre o petróleo. Dezenas de milhares de pessoas morreram devido ao conflito burocrático entre os parceiros comerciais de Bush e seu protegido, Saddam (a quem Bush apoiou com armas, dinheiro, concessões comerciais e — sombras da Altanmia! — equipamento nuclear, biológico e químico de uso duplo, incluindo anthrax, como o Senado americano relatou em 1994). Talvez mais de um milhão de pessoas tenham morrido nos sangrentos conflitos da guerra: primeiro, o massacre dos rebeldes curdos e xiitas ordenado por Saddam — com a cumplicidade de Bush pois ordenou ao seu vasto exército na região que não interferisse no massacre — a seguir as cruéis sanções ao regime impostas pelas Nações Unidas —, comparadas ao genocídio não por um, mas por dois de seus principais administradores.

E daí? O facto importante é que os investimentos de Bush foram protegidos e as sementes para futuras aventuras lucrativas foram lançadas, como o doce acordo com a Altanmia, e as centenas de outros acordos secretos, agora a jorrar através das tubagens desimpedidas entre Crawford e Bagdad

Oh, e aquela "investigação" do Pentágono acerca dos sobrepreços da Halliburton? Esqueçam-na. Dois dias após o pedido de investigação, Bush deu aos rapazes de Cheney um novo contrato de US$ 1,2 mil milhões para a reconstrução do sector energético iraquiano.

Lembrem-se, sempre, quando lidar com os Bushes: Sigam o dinheiro, não aquilo que é dito.
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Notas
1- Cost plus: Contrato em que o preço de um produto é fixado de acordo com o total dos custos adicionados ao lucro do produtor.
2- Família que formou a actual Arábia Saudita e abriu as portas para a exploração do seu petróleo ao capital estrangeiro.

O original encontra-se em http://www.tmtmetropolis.ru/stories/2004/01/23/120.html .
Tradução de Haroldo B. Saboia Filho.


Este artigo encontra-se em http://resistir.info .

04/Fev/04