Haverá uma guerra contra o mundo após 2 de Novembro?

por John Pilger [*]

Há algo surrealista em visitar os Estados Unidos nos últimos dias da campanha presidencial. Se George W. Bush ganhar, segundo um cientista com que me encontrei, o qual escapou da Europa dominada pelos nazis, os EUA entregarão muitos dos seus enfeites democráticos e sucumbirão aos seus impulsos totalitários. Se John Kerry vencer, segundo a maior parte dos eleitores democratas, o único mandato que terá é que ele não é Bush.

Nunca tantas mãos liberais foram tão forçadas sobre um candidato cujas únicas declarações memoráveis é de que aspira ser outro Bush. Veja-se o Irão. Uma das conselheiras de segurança nacional de Kerry, Susan Rice, acusou Bush de 'permanecer de lado enquanto o programa nuclear do Irão avançava'. Não há nem um fragmento de evidência de que o Irão esteja a desenvolver armas nucleares, mas Kerry está a juntar-se ao mesmo frenesim orquestrado que conduziu à invasão do Iraque. Tendo principiado a sua campanha a prometer mais 40 mil soldados para o Iraque, diz-se que ele tem um 'plano secreto para acabar a guerra' o qual prevê uma retirada em quatro anos. Isto é um eco de Richard Nixon, que na campanha presidencial de 1968 prometeu um 'plano secreto' para acabar com a guerra no Vietnam.

Uma vez no gabinete, ele acelerou a carnificina e a guerra arrastou-se por mais seis anos e meio. Para Kerry, tal como para Nixon, a mensagem é que não é um fraco. Nada na sua campanha ou na sua carreira sugere que ele não continuará, e mesmo intensificará, a 'guerra ao terror', a qual é agora santificada como uma cruzada de americanismo tal como aquela contra o comunismo. Nenhum presidente democrata esquivou-se a tal tarefa: John Kennedy na guerra fria, Lyndon Johnson no Vietnam.

Isto representa um grande perigo para todos nós, mas não se permite que nada disto interfira na campanha ou na 'cobertura' dos media. Numa sociedade supostamente livre e aberta, o grau de censura por omissão é estarrecedor. O New York Times, o porta-bandeira liberal do país, tendo-se recuperado de um suave ataque de contrição pela sua falha abjecta em desafiar as mentiras de Bush sobre o Iraque, tem estado a publicar polegadas de coluna sobre o-que-houve-de-errado na 'libertação' daquele país.

Ele culpa erros: equívocos tácticos, falhas de inteligência. Mas nem uma palavra sugere que a invasão foi uma conquista colonial, deliberada como qualquer outra, e que sessenta anos de direito internacional fazem disto 'o supremo crime de guerra', para citar os juizes de Nuremberg. Nem uma palavra sugere que a carnificina americana da população do Iraque foi e é uma atrocidade sistemática, na qual a tortura de prisioneiros em Abu Ghraib foi um simples reflexo.

A atrocidade em curso na cidade de Faluja, na qual tropas britânicas, contra a opinião do povo britânico, vão ser acessórias, é um bom exemplo. Para os políticos e jornalistas americanos -- há umas poucas excepções honrosas -- os US marines estão a preparar-se para mais uma das suas "batalhas". O seu últimos ataque contra Faluja, em Abril, proporcionou uma visão prévia. Tanques de quarenta toneladas e helicópteros armados foram utilizados contra bairros de casebres. Aviões despejaram bombas de 500 libras (226,5 kg), atiradores de elite (snipers) mataram pessoas idosas, mulheres e crianças, ambulâncias foram alvejadas. Os marines fecharam o único hospital numa cidade de 300 mil habitantes durante mais de duas semanas, de modo a que pudessem utilizá-lo como posição militar.

Quando se estimou que eles tivessem abatido 600 pessoas, não houve qualquer desmentido. Isto foi mais do que todas as vítimas das bombas suicidas no ano anterior. Nem tão pouco eles negaram que a sua barbaridade era uma vingança pela morte de quatro mercenários americanos na cidade; conduzidos por cowboys confessos, eles são especialistas em vingança. John Kerry nada disse; os media relataram a atrocidade como 'uma operação militar', contra 'militantes estrangeiros' e 'insurrectos', nunca contra civis e iraquianos a defenderem os seus lares e a sua pátria.

Além disso, o povo americano está quase totalmente inconsciente de que os marines foram expulsos de Faluja através de combate de rua heróicos. Os americanos permanecem inconscientes, também, da pirataria que decorre da aventura assassina do seu governo. Quem na vida pública pergunta o paradeiro dos 18,46 mil milhões de dólares que o Congresso americano aprovou para a reconstrução e a ajuda humanitária ao Iraque?

Como relata a Unicef, a maior parte dos hospitais estão privados até mesmo de analgésicos, e a desnutrição aguda entre crianças duplicou desde a 'libertação'. De facto, menos de 29 milhões de dólares foram atribuídos, a maior parte disto a firmas de segurança britânicas, com os seus criminosos ex-SAS e veteranos do apartheid da África do Sul. Onde está o resto deste dinheiro que deveria estar ajudando a salvar vidas? O não-fraco Kerry não ousa perguntar.

"O MUNDO PERDEU O PETRÓLEO IRAQUIANO"

Nem tão pouco ele ou qualquer pessoa com um perfil público perguntam porque o povo do Iraque foi forçado a pagar, desde a queda de Saddam, quase 80 milhões de dólares aos EUA e à Grã-Bretanha como 'reparações'. Mesmo Israel recebeu uma fortuna incontável em dinheiro do petróleo iraquiano como compensação pelas suas 'perdas de turismo' nas Colinas de Golan -- parte da Síria que ocupa ilegalmente. Quanto ao petróleo, tal palavra é imencionável na competição pelo mais poderoso emprego do mundo. A resistência, na sua campanha de sabotagem económica, tem tido tanto êxito que o oleoduto vital que transporta petróleo para o Mediterrâneo turco foi explodido 37 vezes. Os terminais no sul estão sob ataque constante, fechando efectivamente todas as exportações de petróleo bruto e ameaçando economias nacionais. O facto de que o mundo perdeu o petróleo iraquiano é envolto no mesmo silêncio que assegura aos americanos uma escassa ideia da natureza e da escala da permissividade para derramar sangue dada em seu nome.

O silêncio mais duradouro é o que protege o sistema produtor destes eventos catastróficos. Isto é americanismo, apesar de não ousar dizer o seu nome, o que é estranho pois o seu oposto, o anti-americanismo, tem há muito sido exibido com êxito como uma expressão pejorativa, uma resposta que dá para tudo em análises críticas do sistema imperial e dos seus mitos. O americanismo, a ideologia, tem significado democracia interna, para alguns, e uma guerra à democracia no exterior.

Da Guatemala ao Irão, do Chile à Nicarágua, à luta pela liberdade na África do Sul, nos dias presentes na Venezuela, o terrorismo de Estado americano, licenciado tanto pelas administrações republicanas como democratas, combateu democratas e patrocinou totalitários. A maior parte das sociedades atacadas ou subvertidas de outra forma pelo poder americano são fracas e sem defesa, e há uma lógica nisto. Se um pequeno país tivesse êxito em tornar-se livre e estabelecer o seu próprio caminho de desenvolvimento, então o seu bom exemplo para os outros tornar-se-ia uma ameaça para Washington.

E as graves intenções por trás disto? Madeleine Albright, a secretária de Estado de Bill Clinton, disse certa vez nas Nações Unidas que os EUA tinham direito ao 'uso unilateral do poder' para assegurar 'acesso não inibido a mercados chave, abastecimento de energia e recursos estratégicos'. Ou como Colin Powell, o risível Bushita promovido pelos media a liberal, colocou há mais de uma década: "Quero ser o valentão (bully) do bairro". Os imperialistas da Grã-Bretanha acreditavam exactamente nisso, e ainda acreditam, só que a linguagem é discreta.

É por isso que os povos de todo o mundo, cuja consciência sobre estes assuntos tem-se elevado agudamente nos últimos poucos anos, são 'anti-americanos'. Isto nada tem a ver com as pessoas comuns dos Estados Unidos, que agora observam um capitalismo darwinianos consumir as suas liberdades reais e lendárias e reduzir o 'mercado livre' a uma liquidação em saldos de activos públicos. É notável, se não inspirador, que tantos rejeitem a lavagem cerebral baseada na classe e na raça, principiada na infância, pois sistema baseado numa classe e raça é chamado 'o sonho americano'.

O que acontecerá se o pesadelo no Iraque prosseguir? Talvez aqueles milhões de americanos preocupados, que actualmente estão paralisados pelo desejo de se livrarem de Bush a qualquer preço, se desvencilhem da sua ambivalência, sem se importar com quem vence em 2 de Novembro. Será, então, que despertará um gigante, tal como aconteceu durante a campanha dos direitos civis e a guerra do Vietnam e o grande movimento pelo congelamento de armas nucleares? Devemos confiar em que sim; a alternativa é uma guerra ao mundo.

[*] John Pilger actualmente é professor visitante na Cornell University, Nova York. O seu último livro é Tell Me No Lies: investigative journalism and its triumphs (Jonathan Cape)

Ver também:
  • "Next president to inherit a legacy of mistrust and fear" de Simon Tisdall, The Guardian (26/Out/2004) http://www.guardian.co.uk/uselections2004/story/0,13918,1336042,00.html
  • "The Colonial Precedent" de Mark Curtis, The Guardian (26/Out/2004) http://www.guardian.co.uk/comment/story/0,3604,1335961,00.html

    O original encontra-se em http://www.zmag.org/sustainers/content/2004-10/27pilger.cfm

    Este artigo encontra-se em http://resistir.info .
  • 29/Out/04