Os guerreiros da América

A maior parte das guerras americanas recentes foi lançada por presidente democratas. Por que esperar melhor de Kerry? O debate entre liberais e conservadores americanos é uma falsificação; Bush pode ser o mal menor.

por John Pilger [*]

Em 6 de Maio último o parlamento americano aprovou uma resolução que, com efeito, autorizou um ataque "antecipativo" ("pre-emptive") ao Irão. O resultado da votação foi 376 contra 3. Sem recuar perante a aceleração do desastre no Iraque, republicanos e democratas, como disse um comentador, "mais uma vez deram as mãos para reafirmar as responsabilidades do poder americano".

A união de ambos ao longo da ilusória divisão política dos EUA tem uma longa história. Os nativos americanos foram massacrados, as Filipinas submetidas pelo extermínio, Cuba e muitos países da América Latina tripudiadas com apoio "bipartidário". Avançando tropegamente através do sangue, uma nova ninhada de "historiadores" populares, os jornalistas na folha de pagamento dos proprietários dos jornais ricos, desfiam os mitos heróicos de uma super-seita chamada americanismo, que a publicidade e as relações públicas no século XX formalizaram como uma ideologia, a qual abrange tanto o conservadorismo como o liberalismo.

Na era moderna, a maior das guerra dos EUA foi lançada por presidente democratas liberais — Harry Truman na Coreia, John F. Kennedy e Lyndon B. Johnson no Vietnam, Jimmy Carter no Afeganistão. O fictício "gap dos mísseis" foi inventado pelo Kennedy liberal da Nova Fronteira como justificativa para manter a guerra fria em andamento. Em 1964, um Congresso dominado pelos democratas deu autoridade ao presidente Johnson para atacar o Vietnam, uma nação de camponeses indefesos que não apresentava qualquer ameaça aos Estados Unidos. Tal como as não-existentes armas de destruição maciça do Iraque, a justificação foi um não-existente "incidente" no qual, disseram então, dois barcos patrulha norte-vietnamitas teriam atacado um vaso de guerra americano. Seguiram-se mais de três milhões de mortes e a ruina de uma terra outrora generosa.

Durante os últimos 60 anos, apenas uma vez o Congresso votou no sentido de limitar o "direito" de o presidente aterrorizar outros países. Esta aberração, a Emenda Clark de 1975, um resultado do grande movimento anti guerra do Vietnam, foi revogada em 1985 por Ronald Reagan.

Durante os assaltos de Reagan à América central na década de 80, vozes liberais como as de Tom Wicker do New York Times , deão das "pombas", debateram seriamente se sim ou não a pequenina e empobrecida Nicarágua seria uma ameaça para os Estados Unidos. Nestes dias, tendo o terrorismo substituído a ameaça vermelha, um outro falso debate está em andamento. Isto é o menor "malismo". Embora poucos votantes de mentalidade liberal pareçam ter ilusões acerca de John Kerry, sua necessidade de se livrarem da "vil" administração Bush é obsessiva. Representando-os na Grã-Bretanha, o Guardian diz que a próxima eleição presidencial é "excepcional". "Os viézes e limitações do sr. Kerry são evidentes", diz o jornal, "mas eles são postos na sombra pela agenda neoconservadora e pela catastrófica fabricação da guerra do sr. Bush. Esta é uma eleição em que quase todo o mundo dará um suspiro de alívio se o mandatário for derrotado".

O mundo todo pode muito bem dar um suspiro de alívio: o regime Bush é tanto perigoso como universalmente odiado, mas esta não é a questão. Temos debatido o menor mal tão frequentemente em ambos os lados do Atlântico que certamente já é tempo de parar de gesticular o óbvio e examinar criticamente um sistema que produz os Bushes e os seus democratas sombras. Para aqueles de nós que admiram da nossa sorte em termos atingido os anos da maturidade sem termos sido explodidos em bocados pelos guerreiros do americanismo, republicanos ou democratas, conservadores e liberais, e para os milhões por todo o mundo que agora rejeitam o contágio americano na vida política, a verdadeira questão é clara.

Trata-se da continuação de um projecto que principiou há mais de 500 anos. Os privilégios de "descoberta e conquista" concedidos a Cristovão Colombo em 1492, num mundo que o papa considerou "sua propriedade a ser disposta conforme a sua vontade", foram substituídos por uma outra pirataria transformada na divina vontade do americanismo e sustentada pelo progresso tecnológico, notavelmente o dos media. "A ameaça à independência no fim do século XX por parte da nova electrónica", escreveu Edward Said em Culture and Imperialism , "poderiam ser maiores do que o próprio colonialismo. Estamos a começar a aprender que a descolonização não foi o término das condições de relação imperiais mas meramente a extensão de uma teia geopolítica que tem estado a desenrolar-se desde o Renascimento. Os novos media têm o poder de penetrar mais profundamente dentro de uma cultura 'receptora' do que quaisquer manifestações anteriores da tecnologia ocidental".

Todos os presidentes modernos têm sido, em grande medida, uma criação dos media. Assim, o sanguinário Reagan é ainda santificado; o Fox Channel de Rupert Murdoch e a BBC pós-Hutton têm divergido apenas nas suas formas de adulação. E Bill Clinton é encarada nostalgicamente pelos liberais como imperfeito mas iluminado; apesar de os anos presidenciais de Clinton terem sido de longe mais violentos do que os de Bush e os seus objectivos serem os mesmos: "a integração de países dentro da comunidade do mercado livre global", cujos termos, observou o New York Times , "exigem que os Estados Unidos estejam envolvidos na montagem completa dos assuntos internos de cada nação de modo mais profundo do que nunca". A "dominância de pleno espectro" ("full-spectrum dominance") do Pentágono não foi o produto dos "neo-cons" mas sim do liberal Clinton, o qual aprovou aquilo que foi então a maior despesa de guerra da história. Segundo o Guardian , o herdeiro de Clinton, John Kerry, enviou-nos "enérgicos apelos progressistas". Já é tempo de acabar com estas asneiradas sem sentido.

A supremacia é a essência do americanismo; só os véus e as ceroulas é que mudam. Em 1976, o democrata Jimmy Carter anunciou "uma política externa que respeita os direitos humanos". Em segredo, ele apoiou o genocídio da Indonésia no Timor Leste e estabeleceu o mujahedin no Afeganistão como uma organização terrorista destinada a derrocar a União Soviética, da qual surgiram os Taliban e a al-Qaeda. Foi o liberal Carter, não Reagan, que lançou as bases para George W. Bush. No ano passado entrevistei os principais senhores supremos da política externa de Carter — Zbigniew Brzezinski, seu conselheiro se segurança nacional e James Schlesinger, seu secretário da Defesa. Nenhum projecto para o novo imperialismo é mais respeitado do que o de Brzezinki. Recoberto com autoridade bíblica pela gang de Bush, o seu livro de 1997 The Grand Chessboard: American primacy and its geostrategic imperatives descreve prioridades americanas como a subjugação económica da União Soviética e o controle da Ásia central e do Médio Oriente.

A sua análise afirma que as "guerras locais" são meramente o princípio de um conflito final conduzindo inexoravelmente à dominação mundial dos EUA. "Para colocar isto numa terminologia que ressoa outra vez a uma era mais brutal dos antigos impérios", escreve ele, "os três grandes imperativos da geoestratégia imperial são impedir o conluio e manter a dependência de segurança entre os vassalos, manter os clientes dóceis e protegidos, e impedir que os bárbaros se unam".

Pode ter sido fácil na altura desprezar este aviso considerando-o como uma mensagem da direita lunática. Mas Brzezinski está na corrente predominante. Seus devotados estudantes incluem Madeleine Albright que, como secretária de Estado no tempo de Clinton, descreveu a morte de meio milhão de crianças no Iraque durante o embargo imposto pelos EUA como "um preço que valeu a pena pagar", e John Negroponte, o arquitecto nos bastidores do terror americano na América Central sob Reagan que é agora "embaixador" Bagdad. James Rubin, que foi entusiástico apologista de Albright no Departamento de Estado, está a ser considerado como conselheiro de segurança nacional de John Kerry. Ele também é um sionista, o papel de Israel como um Estado terrorista nem é discutível.

Dê uma olhadela no resto do mundo. Como o Iraque tem ocupado as primeiras páginas, os movimentos americanos no interior da África tem atraído pouca atenção. Aqui, as políticas de Clinton e Bush são ininterruptas. Na década de 90, o African Growth and Opportunity Act de Clinton lançou uma nova disputa pela África. Os bombardeadores humanitários querem saber porque Bush e Blair não atacaram o Sudão e "libertaram" Darfur, ou intervieram no Zimbabwe ou no Congo. A resposta é que eles não têm qualquer interesse pelo sofrimento humano e pelos direitos humanos, e estão ocupados a assegurar as mesmas riquezas que conduziram à disputa europeia no fim do século XIX através dos meios tradicionais de coerção e suborno, conhecido por multilateralismo.

O Congo e a Zâmbia possuem 50 por cento das reservas mundiais de cobalto; 98 por cento das reservas mundiais de crómio estão no Zimbabwe e na África do Sul. Ainda mais importante, na África há petróleo e gás natural desde a Nigéria até Angola, e em Higleig, no Sudão sudoeste. Sob Clinton, a African Crisis Response Initiative (ACRI) foi montada em segredo. Isto permitiu aos EUA estabeleceram "programas de assistência militar" no Senegal, Uganda, Malawi, Ghana, Benin, Argélia, Niger, Mali e Chad. O ACRI é executado pelo coronel Nestor Pino-Marina, um exilado cubano que fez parte da invasão da Baia dos Porcos em 1961 e fez carreira como oficial das forças especiais no Vietnam e no Laos e que, sob Reagan, ajudou a conduzir a invasão Contra à Nicarágua. Os pedigrees nunca mudam.

Nada disto é discutido numa campanha presidencial na qual John Kerry esforça-se por remover Bush com a política de Bush. O multilateralismo ou "internacionalismo muscular" que Kerry oferece em contraste com o unilateralismo de Bush é visto como esperançoso pelos incuravelmente ingénuos; na verdade, ele acarreta ainda maiores perigos. Tendo dado à elite americana o seu maior desastre desde o Vietnam, escreve o historiador Gabriel Kolko, Bush "é muito mais apto para continuar a destruição do sistema de alianças que é tão crucial ao poder americano. Uma pessoa não tem de acreditar que quanto pior melhor, mas temos de considerar candidamente as consequências políticas externas de uma renovação do mandato de Bush. Por perigosa que seja, a reeleição de Bush pode ser um mal menor". Com o apoio da NATO ao presidente Kerry, e a submissão francesa e alemã, as ambições americanas prosseguirão sem os obstáculos napoleonicos da gang de Bush.

Pouco disto chega a aparecer nos jornais americanos que vale a pena ler. O Washington Post , que a 14 de Agosto se desculpou compungidamente perante os seus leitores por não "prestar suficiente atenção às vozes que levantavam questões sobre a guerra [contra o Iraque]", não interrompeu o seu silêncio sobre o perigo que o Estado americano representa para o mundo. A pontuação de Bush nos inquéritos de opinião ascendeu mais de 50 por cento, um nível nesta etapa da campanha em que nenhum mandatário perdeu eleições. As virtudes da sua "franqueza", que toda a máquina mediática promoveu quatro anos atrás — a Fox e o Washington Post igualmente — são novamente creditadas. Tal como na esteira dos ataques de 11 de Setembro, aos americanos é negada uma pitada de entendimento daquilo que Norman Mailer chamou "um clima pré-fascista". Os medos do resto de nós não têm consequência.

Os liberais profissionais em ambos os lados do Atlântico desempenharam um grande papel nisto tudo. A campanha contra o Fahrenheit 9/11 de Michael Moore é significativa. O filme não é radical e não faz afirmações estranhas; o que ele faz é empurrar mais além aqueles guardiões das fronteiras da dissidência "respeitável". Eis porque o público o aplaude. Rompe os códigos coniventes do jornalismo, o qual ele envergonha. Permite às pessoas começarem a desconstruir a propaganda de cada noite que passa por noticiário: aquela em que "um governo iraquiano soberano promove a democracia" e em que os combatentes em Najaf e Faluja e Bassorá são sempre "militantes" e "insurgentes" ou membros de um "exército privado", nunca nacionalistas a defenderem a sua pátria e cuja resistência provavelmente adiado ataques ao Irão, à Síria e à Coreia do Norte.

O debate real é nem Bush nem Kerry, mas o sistema que eles exemplificam; é o declínio da verdadeira democracia e a ascensão do "Estado de segurança nacional" americano na Grã-Bretanha e em outros países que afirmam serem democracias, nas quais pessoas são enviadas para a prisão e a chave é lançada fora e cujos líderes cometem crimes capitais em lugares distantes, sem impecilhos, e então, como o brutal Blair, convidam os criminosos que eles instalam a falarem na conferência do Partido Trabalhista. O debate real é a subjugação das economias nacionais a um sistema que, como nunca antes, divide a humanidade e promove as mortes, todos os dias, de 24 mil pessoas famélicas. O debate real é a subversão da linguagem política e do próprio debate e talvez, no fim, do nosso auto-respeito.

[*] O novo livro de John Pilger, Tell Me No Lies: investigative journalism and its triumphs, será publicado pela Jonathan Cape em Outubro de 2004.

O original encontra-se em New Statesman . Tradução de JF.


Este artigo encontra-se em http://resistir.info .

22/Ago/04