Medo

por Jorge Camil

Composição com 'O grito', de Munch. O medo é o tema que dominará a campanha presidencial dos Estados Unidos. Medo ao terrorismo, instilado na mente dos eleitores pela administração de George W. Bush para assegurar a reeleição: foi ele que salvou o mundo ocidental do perigo de Saddam Hussein! Medo da reeleição da parelha Bush-Cheney, alentado pelo Partido Democrata, para que os votantes compreendam que mais quatro anos dos mesmos poderiam acabar com o povo palestiniano, tornar inimigos para sempre os aliados tradicionais e destruir o pouco prestígio dos Estados Unidos no mundo.

Por incrível que pareça, a superpotência não elegerá o próximo presidente com base nos temas tradicionais: economia, meio ambiente, educação e relações com a União Europeia ou a América Latina. O tema subjacente será a Al Qaeda, com o que Osama Bin Laden e o fundamentalismo islâmico poderiam marcar outra vitória contra o American way of life.

Nessa ordem de ideias, o mesmo padrão com que os republicanos medirão John Kerry será a sua capacidade para continuar com êxito a "guerra contra o terrorismo", obviamente instigada, propagada e manipulada pelo binómio Bush-Cheney. E já se adivinha a sentença: Kerry é fraco, instável, diz uma coisa hoje e outra amanhã, afirmarão as hostes republicanas, e para derrotar o terrorismo é preciso determinação, amor à pátria e temor a Deus: qualidade supostamente demonstradas por Bush quando adoptou a "valente" decisão de "enviar os rapazes à linha de fogo" (ainda que o valor não esteja ligado ao sentido comum e Kerry seja um dos heróis mais condecorados do Vietnam; Bush, como sabemos, evadiu-se do serviço militar aproveitando o dinheiro e as influências do pai).

É certo que antes das eleições de Novembro as autoridades federais (John Ashcroft no Departamento de Justiça e Tom Ridge no da Segurança Interna) elevarão os níveis de alarme da segurança nacional a fim de amedrontar os eleitores e manter presente a imagem de Bush, que apesar da sua duvidosa legitimidade e sua manifesta incapacidade de governar conseguiu manter-se nos inquéritos atacando moinhos de vendo e prometendo diariamente em todos os forums defender a integridade do território nacional contra ventos e marés. Quem, se não Bush, derrubou Saddam Hussein, impedindo que mostrasse suas apocalípticas armas de destruição maciça (que, maldita seja!, não aparecem em lado nenhum)? Os bushistas de coração (e, mais importante ainda, o lobby judeu) sabem que Bush não se deterá no Iraque. Podem ler entre linhas e percebem que para manter seu sopro vitorioso o presidente começou a filtrar discretamente o nome do seu próximo alvo: o Irão!, com capacidade nuclear provada e membro do eixo do mal, assinalado recentemente pelos serviços de inteligência (os mesmos que asseguraram encontrar numas poucos horas as armas de Hussein) como a nação que "verdadeiramente" apoiou os atacantes do 11 de Setembro com dinheiro e passaportes falsos. De modo que, como nas novelas cor-de-rosa, já podemos imaginar o capítulo seguinte.

GOLPE DE ESTADO

A Convenção Democrata, que terminou esta semana com as fanfarras de sempre, foi o evento mais bem protegido da história, não porque a Bush lhe importe muito o partido opositor, e sim para que na cabeça dos indecisos germine a propaganda oficial sobre a iminência de outro ataque terrorista. Para esse efeito, o governo anunciou publicamente que os "terroristas" (esse fantasma desconhecido que cresce como bola de neve) decidissem lançar um ataque como o de Madrid para alterar o resultado da eleição, as eleições presidenciais poderiam adiar-se indefinidamente (um golpe de Estado, na opinião de um crítico sagaz da administração actual). No imediato, Bush tem pouco tempo para se contrapor às severas críticas do relatório da Comissão 11/Set sobre o seu deficiente aparelho de segurança, que foi incapaz de prever os ataque às Torres Gémeas e ao Pentágono.

Mas, continuando o tema do medo, Washington e Wall Street acordaram recentemente com o rumor alarmante de que Bush, alegando problemas de saúde de Dick Cheney, poderia não designá-lo companheiro de lista em Novembro. Parece que os assessores presidenciais têm medo de que um debate televisivo entre Cheney (tortuoso, aborrecido, misterioso: um autêntico príncipe das trevas), e o carismático John Edwards (com a inteligência, oratória e agilidade de um extraordinário advogado litigante) poderia ser o factor que virasse as cartas a favor de Kerry. Como foi afirmado: a agenda fixada por Bush será o medo: medo ao terrorismo, medo às consequências da sua reeleição, medo aos homossexuais, medo ao abordo, medo ao medo, uma nação reduzida ao miserável papel de refém do governo. (Para cúmulo dos males, Paul Krugman, no seu editorial desta semana de The New York Times, acrescentou um medo adicional: medo à fraude eleitoral na Florida...).

O original encontra-se em La Jornada , edição de 30/Jul/2004.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info .

05/Ago/04