A guerra tecnológica dos EUA à China e a batalha do 5G
por Prabir Purkayastha
A guerra tecnológica dos EUA contra a China continua, com a
proibição de equipamentos chineses na sua rede e pedidos aos seus
parceiros dos Cinco Olhos e aliados da NATO para seguirem o seu exemplo.
É um regime de negação do mercado da tecnologia que
procura reconquistar o mercado que os EUA e países da Europa perderam
para a China.
O comércio internacional assumia que bens e equipamentos poderiam ser
provenientes de qualquer parte do mundo. A primeira violação
deste esquema foi a rodada anterior de sanções dos EUA à
Huawei no ano passado, de que qualquer empresa que use 25% ou mais de
conteúdo estado-unidense tem de obedecer às regras de
sanções dos EUA. Isso significava que o software e os chips dos
EUA, baseados em desenhos dos EUA, não podiam ser exportados para a
Huawei. A última rodada de sanções dos EUA, em Maio deste
ano, amplia o alcance das sanções dos EUA para cobrir quaisquer
bens produzidos com equipamento estado-unidense, estendendo sua soberania muito
além das suas fronteiras.
Nas últimas décadas da globalização do
comércio, os EUA terciarizaram cada vez mais a manufactura para outros
países, mas ainda retiveram o controle sobre a economia global
através do seu controle sobre as finanças globais bancos,
sistemas de pagamento, seguros e fundos de investimento. Com a nova
série de sanções, revelou-se uma outra camada de controle
dos EUA sobre a economia global: seu controle sobre a tecnologia, tanto em
termos de propriedade intelectual como em equipamento para a
fabricação de chips.
A nova sanção comercial que os EUA impuseram viola as regras da
OMC. Assim, a razão porque os EUA estriparam a OMC, recusando-se a
aceitar novas nomeações para o Tribunal de Solução
de Disputas, torna-se clara: A China não pode levar as
sanções ilegais dos EUA à OMC para uma
solução da disputa, pois o órgão de
solução das mesmas foi virtualmente extinto pelos EUA.
A batalha acerca do 5G e da Huawei tornou-se o terreno da guerra
tecnológica EUA-China. Espera-se que o próprio mercado de redes
5G atinja 50 mil milhões de dólares em 10 anos, mas
impulsionará a muitas vezes mais do que isso milhões de
milhões de dólares de produto económico com as
redes 5G. Qualquer empresa ou país que controle a tecnologia 5G
terá uma vantagem sobre os outros neste espaço económico.
Para entender a guerra tecnológica sobre o 5G precisamos entender o seu
papel. A internet é o fundamento sobre o qual serão implantadas
quase todas as futuras tecnologias digitais. As redes 5G aumentam a velocidade
da Internet sem fios em dez a quarenta vezes. Para os consumidores, a
velocidade lenta da Internet é o estrangulamento de numerosas
aplicações, tais como videoconferências, jogos online que
permitem jogos com múltiplos jogadores, em que as velocidades de
carregamento e descarregamento precisam ser altas. Esta é a
diferença de consumir vídeos pela Internet, como o Netflix, onde
apenas as velocidades de descarregamento são importantes. As redes 5G
também permitiriam que a Internet de alta velocidade fosse implantada
numa área muito maior e nos nossos dispositivos móveis.
As outras duas áreas que se beneficiariam do 5G são os carros sem
condutor e a Internet das Coisas
(Internet of Things, IoT),
nos quais todos os nossos aparelhos conversarão uns com os outros pela
Internet sem fios. Se bem que os carros sem condutor ainda estejam a alguma
distância, a IoT poderia ser muito mais importante para melhorar a
eficiência e manutenção da infraestrutura física de
electricidade, semáforos, sistemas de água e esgotos em futuras
"cidades inteligentes".
O G nas redes de telecomunicações refere-se a
gerações e cada geração de tecnologia de
comunicações sem fios significa aumentar a quantidade de
informações que as ondas de rádio transportam. As redes 5G
são muito mais rápidas que as redes 4G equivalentes e suportam um
número muito maior de dispositivos numa determinada área. O
preço é que, ao contrário dos actuais 3G e 4G, o 5G
não pode percorrer longas distâncias e precisa de vários
saltos repetidos, ou células e antenas, para percorrer a mesma
distância. Uma rede 5G pode fornecer as mesmas velocidades que uma rede
de cabos de fibra óptica, sem o alto custo da cablagem física.
Ela pode, portanto, alcançar centros populacionais menos densos,
incluindo áreas rurais, com internet de alta velocidade a custos muito
mais baixos.
Quem são os outros actores no espaço 5G? Os demais actores
principais além da Huawei são Samsung (Coreia do Sul), Nokia
(Finlândia), Ericsson (Suécia) e ZTE (China). Embora os EUA
não tenham grandes actores ao nível de equipamentos de rede,
possuem a Qualcomm que fabrica componentes e conjuntos de chips
(chipsets)
sem fios e a Apple que hoje é líder no mercado de smartphones.
As sanções dos EUA haviam anteriormente atacado a Huawei usando
sua posição dominante em software. O Android do Google impulsiona
a maior parte dos celulares da China, bem como a maior parte dos celulares
não Apple. Nos chips semicondutores, actualmente os processadores ARM
têm uma posição de liderança, com a maioria das
empresas que exigem processadores avançados a passarem da Intel para o
ARM. O ARM, uma empresa britânica, mas pertencente ao SoftBank do
Japão, não fabrica chips por conta própria, mas fornece
desenhos para núcleos que entram nos processadores. Estes são
então licenciados a empresas como Huawei, Qualcomm, Samsung e Apple, que
desenham seus processadores com base em 2, 4 ou 8 núcleos ARM e os
fabricam em fundições de silício. Estes processadores
movimentam equipamentos de redes móveis, telefones celulares ou os
laptops dos diferentes fabricantes.
As fundições de silício que fabricam os actuais chips de
processador a partir de desenhos da Huawei, Samsung ou Apple são
fábricas como a Taiwan Silicon Manufacturing Company (TSMC), a maior do
mundo, com 48% do mercado global. A Samsung também possui uma
fundição de silício de alta capacidade, com 20% do mercado
global. Ela usa a instalação cativa para as suas necessidades e
também para outros fabricantes. A China possui a quinta maior
fundição de silício do mundo, a Semiconductor
Manufacturing International Corporation (SMIC), mas é apenas um
décimo da dimensão da TSMC. Só a TSMC e a Samsung possuem
tecnologia de 7 nanómetros (dimensão do transístor nos
chips), ao passo que a SMIC possui actualmente uma tecnologia de 14
nanómetros.
O ataque anterior dos EUA à Huawei e à China proibindo o software
dos EUA significa que a Huawei teve de mudar do Android e de vários
aplicativos que cavalgavam o sistema Android na loja de aplicativos do Google.
Ela previu antecipadamente este ataque e criou o seu próprio sistema
operacional, o HarmonyOS, e a sua própria loja de aplicativos. Como os
seus utilizadores actuariam sem a loja de jogos do Google, ainda está
para ser visto. Isto depende de os desenvolvedores de aplicativos mudarem para
a Huawei em número suficientemente grande e da qualidade dos fabricantes
de aplicativos chineses que já deram provas no mercado chinês.
Inicialmente, pensou-se que os processadores ARM não estariam
disponíveis para a Huawei no futuro. Isso levantou um ponto de
interrogação acerca dos equipamentos Huawei, pois dependem dos
processadores ARM para equipamento de rede, telefones celulares e laptops. A
ARM suspendeu inicialmente todas as vendas futuras dos seus processadores para
a Huawei, pois os EUA alegavam que ela tinha mais de 25% de conteúdo
estado-unidense e, portanto, enquadravam-se no regime de sanções
dos EUA. Posteriormente, a ARM chegou à conclusão de que o seu
conteúdo estado-unidense é inferior a 25% e, portanto, não
está sujeito às sanções dos EUA.
Foi isto que precipitou as novas sanções que os EUA impuseram,
que qualquer equipamento de origem norte-americana, se for usado para produzir
componentes ou sistemas para a Huawei, também estará dentro de
seu regime de sanções. A TSMC usa máquinas
originárias dos EUA para a fabricação de chips. A Samsung
possui uma mistura de máquinas americanas e não americanas para
suas linhas de fabricação e poderia, se quisesse, trocar pelo
menos algumas dessas linhas para usar apenas máquinas não
americanas para a sua fabricação. Isto deixa uma janela para a
Huawei vencer as sanções dos EUA, desde que a Samsung esteja
disposta a fazer parceria com a Huawei.
Se a Huawei tiver de depender apenas de fontes internas, isto afectará a
sua produção futura. Ela possui um stock acumulado de
possivelmente 12 a 18 meses de chips fabricados, de modo que esse é o
prazo que tem para um [encontrar] um novo fornecedor ou utilizar uma tecnologia
menos densa 10 ou 14
nanómetros
.
Para o mercado 5G, a fabricação de 7 nanómetros pode
não ser o decisor. A Huawei tem uma liderança significativa em
rádios e antenas, que são os componentes chave da rede 5G. As
redes 5G dependem do que é chamado de antenas MIMO
(Massively Multi-input Multi-output),
em que a Huawei está muito à frente dos outros. Isto, mais do
que o tamanho do processador, pode decidir a vantagem técnica das
ofertas da Huawei. A Nokia e a Ericsson estão a utilizar chips Intel que
não estão à altura dos processadores ARM. E com o apoio da
Huawei, o SMIC da China pode ser capaz de mudar rapidamente para uma tecnologia
de 10 nanómetros, reduzindo o fosso entre os seus processadores e os dos
outros.
A Huawei ainda tem algumas cartas para jogar, uma delas é ceder à
Samsung o mercado de celulares avançados
(high end)
para acesso à fabricação de chips. E a Huawei é
praticamente o único actor do mundo que pode fornecer uma
solução 5G completa e instalá-la muito mais rapidamente do
que os outros. Actualmente, o seu mercado interno é maior do que todos
os outros mercados 5G do mundo somados, com o que ela pode impulsionar o seu
crescimento.
Certamente não é um jogo acabado para a Huawei, como muitos
outros analistas de tecnologia estão concluindo. Eles já
declararam jogo acabado mais de um par de vezes, uma vez sobre a
negação do sistema Android do Google, posteriormente com a
proibição do processador ARM. Com esta proibição,
se bem que os EUA tenham assegurado alguma vantagem temporária para
outros actores ocidentais, criaram também um incentivo para a maior
parte dos fabricantes de fora dos EUA se afastarem dos equipamentos
estado-unidenses.
Portanto, é um jogo extremamente disputado para a Huawei e a China na
guerra tecnológica. São as maiores forças da
política económica que decidirão esta guerra. Tal como em
qualquer outra guerra, não é uma batalha numa arena que
decidirá a guerra. O 5G é apenas um teatro de batalha, existem
muitos outros campos de batalha que decidirão o futuro desta guerra. E
em muitos deles, a China detém as cartas.
02/Agosto/2020
O original encontra-se em
peoplesdemocracy.in/2020/0802_pd/us-tech-war-china-5g-battlefield
Este artigo encontra-se em
https://resistir.info/
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