A economia dos EUA em quatro palavras:
Extorsão neofeudal, declínio e colapso
por Charles Hugh Smith
Os EUA possuem uma estrutura legal de autogoverno e propriedade do capital, mas
na realidade são uma oligarquia neofeudal.
Segundo o mercado acionista, a pandemia está ultrapassada e a economia
está de novo em força, estamos novamente a voltar aos bons e
velhos tempos de 2019. Nada com que se preocupar, recuperamos a
trajetória da alta e alta sempre mais alta, melhor todos os dias e de
todas as formas.
Tudo está ótimo... exceto a podridão fatal no
coração da economia dos EUA que nem sequer foi reconhecida, muito
menos abordada: todos os setores da economia nada mais são que formas de
extorsão neofeudal ou outra.
Vamos girar a máquina do tempo de volta ao final da Idade Média,
no auge do feudalismo, e imaginar que tentamos levar um barco cheio de
mercadorias para vender na cidade mais próxima. À medida que
descemos o rio, somos constantemente impedidos e cobram-nos uma taxa pela
passagem de um pequeno feudo após outro. Quando finalmente chegamos
à cidade, há uma taxa de entrada para levar os nossos produtos ao
mercado.
Observe-se que nenhuma dessas taxas foi paga por melhorias no transporte ou por
serviços prestados; são simplesmente extorsão. Essa era a
estrutura económica do feudalismo: pequenos feudos cobravam taxas
extorsivas que financiavam o estilo de vida da nobreza.
É por isso que há muito tempo considero a economia americana como
neofeudal: pagamos taxas cada vez maiores por serviços que se
estão a degradar e não a melhorar. Essa é a essência
da extorsão: não obtemos nenhuma melhoria em bens e
serviços pelo dinheiro extra que somos obrigados a pagar.
Considere-se o ensino superior: os custos sobem enquanto o valor do
"produto" um diploma universitário diminui. Que
valor extra os estudantes recebem pela duplicação de propinas e
outros encargos? A resposta é breve: "nenhum". Os diplomas
universitários são em excesso em relação à
procura do mercado, estudos mostram que a maioria dos estudantes recebe
incrivelmente pouco de valor na universidade.
Como explico em meu livro
Nearly Free University and the Emerging Economy
, a solução não é credenciar a
instituição, mas sim credenciar o aluno. Se o aluno aprendeu
muito pouco, ele ou ela não será credenciada.
Se os alunos tivessem acesso às melhores palestras em sala de aula
on-line (quase gratuitas) e aprendizagem no local de trabalho (quase gratuita
ou talvez mesmo pagas), a aprendizagem seria significativamente melhorada e os
custos reduzidos de 80% a 90%. Nesta estrutura, não haveria necessidade
de campus e administrações dispendiosos; toda a estrutura do
ensino superior poderia ser amplamente automatizada com software, exceto as
aprendizagens no local de trabalho concentrando-se em estudos de caso e
projetos do mundo real criando valor aqui e agora.
Considere a assistência médica: a qualidade da assistência
médica duplicou juntamente com os custos? Os americanos são
significativamente mais saudáveis porque os custos dos cuidados com a
saúde triplicaram? No seu conjunto a saúde dos americanos
reduziu-se, ao passo que as tensões impostas aos prestadores dos
cuidados de saúde aumentaram pela carga cada vez mais pesada de
imposições de conformidades e papelada.
E os martelos a 200 dólares e os aviões F-35 a 300 milhões
de dólares, do complexo militar industrial? Mais uma vez, à
medida que os custos aumentaram, a qualidade e a eficácia dos produtos
fornecidos diminuíram.
E os serviços dos governos estaduais e locais? Melhoram à medida
que os impostos e as taxas de lixo aumentam? Mais uma vez, à medida que
os impostos e taxas aumentam descontroladamente, os serviços
governamentais estão geralmente com a qualidade em declínio.
Setor após setor, a qualidade dos bens e serviços diminuiu
enquanto os custos aumentam. Esse é o cúmulo do neofeudalismo: os
que estão dentro do sistema e a nova nobreza absorvem fortunas, à
medida que os preços disparam e a qualidade dos bens e serviços
fornecidos decresce.
Observem-se os aumentos dos custos no ensino superior, na assistência
médica, na assistência à infância e pergunte-se se a
qualidade desses serviços aumentou em paralelo com os aumentos de
preços.
Isto não passa de extorsão neofeudal. Os cartéis aumentam
os preços e somos obrigados a pagá-los, tal como os plebeus no
feudalismo eram obrigados a pagar.
Mas a extorsão não é a única característica
do neofeudalismo que está a levar ao colapso. Tão importante
quanto a lenta erosão do autogoverno dos cidadãos a posse de
capital produtivo é significativa.
Essa dinâmica é explorada em profundidade em
The Inheritance of Rome: Illuminating the Dark Ages 400-1000
.
Esta erosão gradual, quase impercetível, é a
essência do neofeudalismo, um processo de transferência de poder
político e económico do povo para uma nova aristocracia
financeira/nobreza.
Se examinarmos a "riqueza" da classe média/classe trabalhadora
(geralmente considerada característica definidora a dependência do
rendimento do trabalho, em vez de viver de rendimentos obtidos pelo capital),
encontraremos também como capital primário a casa da
família, que, como expliquei muitas vezes, é improdutivo,
essencialmente uma forma de consumo e não uma fonte de rendimento.
Numa economia globalizada e financeirizada, o único capital que vale a
pena possuir é o capital móvel, capital que pode ser deslocado
com um toque de tecla para evitar a desvalorização ou obter um
retorno mais elevado.
Habitação e planos de poupança reforma são
"capital ocioso", formas de capital que não são
móveis, a menos que seja liquidado antes que as crises ou a
expropriação ocorram. Também fico impressionado com as
crescentes barreiras para iniciar ou mesmo operar pequenas empresas, uma forma
básica de capital, à medida que as empresas geram rendimento e
(potencialmente) ganhos de capital. (A pandemia apenas aumentou as barreiras
que já eram altas.)
O capital e a experiência em gestão necessários para
iniciar e desenvolver uma empresa legal é significativa, e é pelo
menos em parte o motivo pelo qual uma nação de agricultores
independentes, lojistas, artesãos e comerciantes é agora uma
nação de funcionários do governo e de grandes empresas.
Que tipo de capital pode ser agora adquirido pelo cidadão comum?
Suficiente para desafiar a riqueza e o poder político da nobreza
financeira?
Em termos de influência política um estudo recente descobriu que
os eleitores tinham muito pouco poder nos EUA, o que corresponde efetivamente
uma oligarquia:
Testing Theories of American Politics: Elites, Interest Groups, and Average Citizens
.
Em resumo: "O governo dos EUA não representa os interesses da
maioria dos cidadãos do país, mas é governado pelos ricos
e poderosos, concluiu um novo estudo das universidades de Princeton e do
Noroeste".
O neofeudalismo não é uma repetição do feudalismo.
É uma nova e aprimorada versão empresarial do estado de
servidão. O processo de implantação do feudalismo exigiu a
erosão dos direitos dos camponeses de possuir ativos produtivos, o que
numa economia agrária significava propriedade da terra. A propriedade da
terra foi substituída por obrigações para com o senhor ou
mosteiro feudal local trabalho gratuito por períodos que variavam
de alguns dias a meses; uma parte das colheitas e assim por diante.
A outra dinâmica chave do feudalismo foi a remoção do
campesinato da esfera pública. Na era pré-feudal (por exemplo, no
reinado de Carlos Magno), os camponeses ainda podiam participar de conselhos
públicos e fazer ouvir suas vozes, e havia um sistema aproximado de
justiça no qual os camponeses podiam pedir às autoridades
compensações.
Do ponto de vista capitalista, o feudalismo restringia o acesso dos servos aos
mercados monetários, onde eles podiam vender o seu trabalho ou
colheitas. Mas a principal característica do capitalismo não
são apenas os mercados é a propriedade irrestrita de
ativos produtivos terras, ferramentas, manufaturas e o capital social de
competências, redes financeiras, associações de comercio,
corporações, etc.
O sistema dos EUA é neofeudal porque as não-elites não
têm voz real na esfera pública e a propriedade do capital
produtivo é indiretamente suprimida pelo duopólio do Estado e
grandes empresas.
Existe uma estrutura legal de autogoverno e propriedade do capital, mas, na
realidade, é uma oligarquia neofeudal. O declínio é
visível, assim como a trajetória de colapso.
Discuto estas dinâmicas em maior profundidade nos meus livros:
Pathfinding our Destiny: Preventing the Final Fall of Our Democratic Republic
,
Inequality and the Collapse of Privilege
e
Why our Status Quo Failed and Is Beyond Reform.
Podemos ver a desigualdade neofeudal da riqueza aqui:
Em 2014 os super ricos praticamente acumulavam toda a riqueza criada
O original encontra-se em
www.informationclearinghouse.info/55323.htm
Este artigo encontra-se em
https://resistir.info/
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