A linguagem do império e a sua tradução
por Toni Solo
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Tradução: Não se pode esperar que erradiquemos os comércios de narcóticos e de armas uma vez que eles são uma parte essencial e significativa do nosso sistema financeiro e económico. Eles ajudam a manter ricos e poderosos a mim, a vocês senadores e à administração do governo americano. Precisamos significativamente de mais dinheiro dos contribuintes a fim de que possamos continuar a direccionar tais questões para falsas preocupações com uma exibição de actividade concertada e sobretudo irrelevante. Por que? ... Oh, para fazer com que a corrupta plutocracia que vocês senadores e eu próprio representamos se torne ainda mais rica e poderosa do que já é.
Tradução: Apesar do lamentável facto de as nossas ditaduras preferidas, assassinas e cleptocratas, não serem mais sustentáveis ou, estritamente falando, necessárias, continuamos a projectar o nosso poder por meio de oligarquias locais corruptas e de intervenções eleitorais decisivas como por exemplo na Nicarágua e em El Salvador e actualmente nos referendos boliviano e venezuelano. Precisamos de financiamento substancial a fim de subverter processos eleitorais livres e limpos em todas as Américas de modo a impedir que a maioria pobre desenvolva qualquer alternativa àquilo que queremos. Além disso, meu colega representante do Comércio dos EUA, Robert Zoellick, não pode tornar as Américas seguras para os negócios das corporações multinacionais se os seus acordos comerciais "cumpra de qualquer maneira" forem sujeitos ao devido escrutínio democrático. Assim, isso compensa.
Tradução: Precisamos de mais dinheiro para continuar a comprar
amigos e intimidar opositores de modo a que possamos conseguir o que queremos
nas Nações Unidas e na Organização dos Estados
Americanos tal como fizemos no Iraque. Eu disse Iraque? Quis dizer Haiti. Da
mesma forma, precisamos assegurar que conservamos influência decisiva no
Banco Mundial, no Fundo Monetário Internacional e na
Organização Mundial de Comércio. Assim, dêem-nos o
dinheiro, está bem?
Tradução: Estamos determinados a continuar a impor o bem estar das corporações através destas mesmas políticas económicas neoliberais que fracassaram rotundamente, nomeadamente e confirmadamente para aliviar a pobreza na América Latina ao longo dos últimos 20 anos. O continente sofre mais pobreza agora do que sofria em 1990 quando nós realmente conseguimos deitá-lo abaixo à força através de privatizações e de cortes nos serviços públicos. Isto é exactamente como deve ser porque torna mais fácil para nós obtermos o que quisermos. Vale o dinheiro que pagamos...
Tradução: Nós apoiámos com êxito tiranias
assassinas no Haiti desde 1916 até 1990 garantindo assim que o povo
daquele país nunca pudesse adquirir ideias erradas como a de tomar
decisões por si próprio. Este rapaz, o Aristide, foi um problema
durante algum tempo mas nós o minámos com êxito e
obrigámo-lo a deixar o poder. Agora precisamos de um bocado de dinheiro
para limpar um pouco da bagunça que fizemos ao proporcionar às
multinacionais americanas do vestuário uma alternativa às
oficinas de super-exploração da China e ao nos dar uma base
segura para a nossa intervenção em desenvolvimento em Cuba.
Tradução: Ficámos um tanto perturbados na Bolívia mas esperamos manter o lugar na linha principalmente com a compra de políticos e militares locais como sempre fizemos e cooptando organizações políticas populares. Ao mesmo tempo, enquanto estamos ali a subverter a democracia, podemos deslizar para uma forte presença militar com a nossa fictícia "guerra às drogas", que dá para tudo. Os nossos colaboradores locais foram capazes de equiparar o activista colombiano dos direitos humanos Pacho Cortes a um "terrorista", de modo que a "guerra ao terror" adequa-se aqui primorosamente. Como solução de reserva podemos desestabilizar o país encenando um incidente na fronteira com os nossos amigos militares no Chile a exigirem um estado de emergência e a intervenção da OEA. Tranquilo. E barato também.
Tradução: O apoio popular ao presidente Chavez da Venezuela é uma dor de cabeça real. Temos de encontrar um meio de fazer com que a velha oligarquia corrupta volte ao poder: preferivelmente sem uma dispendiosa intervenção armada. Estamos a despejar milhões de dólares na subversão do processo eleitoral, comprando políticos e organizações civis locais e a apoiar os media da oposição local cuja credibilidade e vendas estão em queda livre. É um desapontamento que a economia venezuelana esteja a melhorar mas ainda podemos escapar impunes mentindo acerca disto durante uns poucos meses: nenhum dos media americanos irá verificar os factos, de qualquer modo. Assim, dêem-nos tempo para isso... e dinheiro...
Tradução: Cuba é o único país da
América Latina que está sistematicamente a mostrar-nos
quão arrogantes, hipócritas, assassinos em massa e racistas somos
nós. Isto não é bom para a nossa auto-estima ou para a
nossa postura internacional. Temos de destruir este êxito em
relação a qualquer outro lugar da América Latina: as
disposições sociais, económicas e culturais que os cubanos
desfrutam actualmente, forçar pelo menos 60% a entrar na pobreza tal
como acontece em toda a América Latina e vender barato tudo o que
pertence ao povo cubano a nós próprios e aos nossos amigos a
preços pateticamente baixos. É o que acontece por toda a
América Latina e, de outro modo, eles nunca poderão ser um membro
real da nossa vizinhança, certo? Isto custa dinheiro também.
Tradução: Fizemos uma excursão ao ensolarado México no último inverno e, em conivência com os nossos cúmplices da América Latina, alinhavámos um trato destinado a proteger os ricos, manter os salários baixos, manter dividendos, encorajar a fuga de capitais e promover a especulação lucrativa. Pretendemos completar o livre (para nós) comércio à escala continental enquanto lhes impomos condições que nós próprios não aceitaríamos nem por um instante: "políticas macro-económicas sadias, administração fiscal prudente, e políticas públicas que estimulem a poupança interna, satisfazendo a necessidade da criação de empregos produtivos e contribuam para uma maior inclusão social". sim, Alan Greenspan também pensava que seria divertido... mas tudo isto custa dinheiro...
Tradução: Não damos a mínima importância à pobreza como tal, mas é má publicidade para nós dizer isso. Continuaremos a gastar cerca de 0,1% do nosso PIB (amendoins, certo?) a lançar migalhas para o alívio da pobreza em todo o mundo, e mesmo alguma coisa disto na América Latina. Mas lembrem-se que toda esta "ajuda" é boa para os negócios americanos e também significa que podemos despejar produtos alimentares geneticamente manipulados sobre pessoas que são demasiado pobres para poderem dizer não. E ISTO significa que as nossas indústrias do agri-business acabam por segurar as rédeas do controle de segurança alimentar por toda a América Latina. Idem quanto a produtos farmacêuticos. Um bom investimento. Financiem-no.
Tradução: Continuamos a obstruir um desenvolvimento rural justo
e sustentável na Nicarágua, tal como no resto da América
Central, focando sobre exportações não-tradicionais,
encorajando medidas para eliminar a auto-suficiência na
produção de cereais básicos e a promover a
dependência dos agro-químicos. Até agora, tal como nas
Honduras, conseguimos encorajar uma maciça mudança
demográfica das áreas rurais para as urbanas. Isto criou uma
satisfatória grande força de trabalho não qualificada
desesperada por empregos que os investidores estrangeiros podem absorver a
preços de saldo nas maquiladoras. Assim, internamente temos uma fonte
confiável de produtos tropicais baratos durante todo o ano e uma
alternativa prática ao Haiti, México ou Honduras para trabalho
barato nas maquilas se aqueles lugares começarem a ter ideias estranhas
sobre permitir sindicatos ou pagar um salário mínimo.
Tradução: Não estamos a fazer qualquer progresso na Colômbia. O presidente Uribe é OK, um fascista genuíno, mas não estamos seguros sobre por quanto tempo poderemos manter a pretensão de que está a ajudar-nos na "guerra às drogas" uma vez que ele depende dos chefes da droga no exército e nos paramilitares para manter as guerrilhas sob controle. Não importa por agora que tenhamos chamados os AUC de terroristas: não nos considerem demasiado seriamente quanto a isto, eles são a nossa espécie de terroristas. Emitimos mandatos de extradição para Mancuso, Castaño e alguns outros rapazes mas precisamos deles para desestabilizar a Venezuela: confiem em mim. Em todo caso, estamos a usar mercenários ali de modo que não há contrapartidas: massacres, corrupção nada de preocupações. De qualquer modo, a Colômbia não é mais barata do que Israel? Assim, dêem o OK àquele cheque...
Tradução: Você certamente não espera de mim que
fale acerca dos desastres ambientais que as nossas políticas
estão a promover por toda a América Latina, não é?
Desertificação através da promoção de
políticas agrícolas insustentáveis, desperdício
catastrófico de recursos de água por meio da
promoção de esquemas hidroeléctricos inadequados,
deslocação sistemática de populações
indígenas e rurais como resultado directo e indirecto de programas de
exploração de energia e planos de integração de
infraestruturas como o Plano Puebla Panama, devastação de vastas
áreas agrícolas e florestais por meio de guerras químicas
e biológicas como parte da falsa "guerra às drogas",
eliminação da biodiversidade com a temerária
propagação de transgênicos pelas nossas multinacionais...
não, não vamos falar sobre tudo isso...
Tradução: Não temos qualquer intenção de deixar que a maioria pobre da América Latina decida o seu próprio destino assim como não tencionamos permitir a democracia genuína e a regra da lei aqui nos EUA. Vocês todos votaram pelo PATRIOT ACT, não é? OK, portanto. Tal como aqui em casa, asseguraremos que as disposições políticas por toda a América Latina sirvam as nossas vorazes necessidades destrutivas agora e no futuro, tal como sempre fizemos desde a Declaração do presidente Monroe... Haverá vários milhares de milhões de dólares que gastaremos com o bem estar global das nossas corporações militares-industriais todos nós ganharemos com isto, acreditem-me. Fala o império: "Obrigado pela vossa atenção".
Tradução: Rapazes, votem esse financiamento já e obrigado
por esquecerem cuidadosamente o vosso dever constitucional de sujeitar esta
mistura de invenções e meias verdades a qualquer exame que
mereça tal nome.
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