"O retorno da ONU ao Iraque seria um erro terrível"

por Dennis Halliday [*] ,
entrevistado por Mustafa Abdel-Halim

Denis Halliday. CAIRO, 17/Jan/04 — O antigo responsável da ONU Denis Halliday afirmou que seria um "erro terrível" para as Nações Unidas retornar ao Iraque ocupado, acrescentando que a organização deveria ser reestruturada para o bem da paz mundial e da justiça.

"A ONU não deveria estar no Iraque para não dar respeitabilidade legal à invasão e à ocupação daquele país árabe rico em petróleo, ou promover outra vez a impressão de que tem colaborado contra o povo iraquiano", declarou Halliday numa entrevista exclusiva a IslamOnline.net.

O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, deve encontrar-se com uma delegação iraquiana e o administrador civil norte-americano no Iraque, Paul Bremer, na segunda-feira, 19 de Janeiro, em meio a relatos de que a organização mundial está a preparar-se para enviar uma pequena equipe a Bagdad dentro de duas semanas.

Halliday, antigo Coordenador Humanitário da ONU no Iraque, acredita que a situação é precária para dar este passo, asseverando que os iraquianos comuns sentem-se ressentidos — e traídos — pelas Nações Unidas.

"Eles já não vêm a ONU como uma organização amistosa. Trata-se de uma organização mortífera a seus olhos, pois eles sofreram totalmente a bancarrota — se não ilegal e imoral — sob o princípio das sanções", afirmou.

"Ela [a ONU] permitiu a ocupação de uma país soberano independente, e o secretário-geral Kofi Annan não criticou os EUA e a Grã-Bretanha pelas suas ambições guerreiras, acreditam os iraquianos", declarou o antigo alto responsável da ONU.

A ONU ordenou à equipe internacional que abandonasse o Iraque em Outubro a seguir ao bombardeamento da sua sede em Bagdad, que matou o alto responsável Sérgio Vieira de Melo e pelo menos 16 outras pessoas.

Halliday disse que Vieira de Mello estivera relutante tem assumir o novo posto no Iraque.

Annan admitiu que as condições de segurança no Iraque continuam demasiado perigosas para o retorno da equipe internacional, mas não pôs de parte enviá-los de volta até a transferência de poder para um governo provisório iraquiano aprazado para 30 de Junho.

Mas ele não teve a coragem para condicionar o retorno a um fim da ocupação do país, afirmou Halliday, que se demitiu do seu posto em protesto contra as sanções da ONU.

Halliday declarou ter deixado a ONU, depois de servi-la durante 34 anos como diplomata, quando descobriu que milhares de iraquianos estavam a morrer sob o programa da ONU petróleo-por-alimentos.

"VÍTIMA"

No entanto, Halliday considera que a ONU é mais uma vítima da "hegemonia americana", dizendo que Annan "recebe ordens do Conselho de Segurança — dominado pelos cinco membros permanentes, incluindo Washington".

"A ONU não tem o poder agressivo que Washington tem agora", disse o antigo enviado.

Depois de fracassar na obtenção de um mandato da ONU, os EUA e a Grã-Bretanha invadiram aquele rico país petrolífero em meio à firme oposição da maior parte dos membros da ONU, incluindo os outros três membros permanentes no Conselho de Segurança.

Ele recordou que o secretário de Estado norte-americano Colin Powell mentiu acerca das alegadas armas de destruição em massa no seu discurso ao Conselho de Segurança antes da invasão do país.

Mais de nove meses depois de tomar Bagdad, em 9 de Abril, nenhumas armas de destruição maciça — a principal justificação para a invasão — foram encontradas, levantando acusações de que a guerra foi baseada em falsos pretextos.

"Trata-se de petróleo, de Israel. É um meio de alcançar a dominação mundial e obter negócios para as corporações", acusou Halliday.

Ele previu que os ataques contra as forças americanas e britânicas no Iraque continuariam sem pausa enquanto a ocupação continuar.

"Olhe a forma como os iraquianos são detidos e arrastados dentro da noite. Olhe como a sua infraestrutura está agora brutalmente danificada", disse o antigo alto responsável da ONU.

"REESTRUTURADA"

Halliday também está pronto para deixar os factos falarem por si em relação à estrutura das Nações Unidas.

Tendo gasto a maior parte da sua longa carreira na ONU em postos relacionados com o desenvolvimento e a assistência humanitária, tanto em Nova York como além mar, Halliday acredita que o corpo mundial poderia "trabalhar propriamente" se os cinco Estados membros permanentes do Conselho de Segurança abdicassem do seu status.

"E se a Assembleia Geral tomar mais acções para reestruturar o aparelho da organização", acrescentou.

O antigo responsável da ONU apelou a que o Sul e o Médio Oriente fossem "adequadamente representados" no conselho, propondo um aumento no número de potências com poder de veto e a participação de grupos da sociedade civil para que tenham uma palavra nos assuntos mundiais.

"Os americanos acreditam que o seu país é o país poderosos sobre a Terra. Isto começou a mudar", afirmou o cidadão irlandês citando um certo numero de exemplos a respeito.

Após a quinta conferência ministerial da OMC em Cancun, no México, em Setembro de 2003, o Brasil, a Argentina e outros países concordaram em juntar forças para punir os EUA em resposta à sua protecção da indústria algodoeira por meio de subsídios que distorcem o mercado. A Europa também forçou Washington a retractar-se de decisões anteriores para impor tarifas às importações de aço.

Mas Halliday advertiu que deveriam ser feitos preparativos para enfrentar os EUA, "os quais poderiam esmagar a Europa e a China se conseguissem, tendo em vista as suas ambições de construção de um império".

Ele observou que os países poderiam trabalhar em conjunto e forçar os EUA a actuarem como um subordinando do corpo mundial ao invés de controlá-lo, incluindo aqueles que fornecem os americanos com matérias-primas baratas e riquezas naturais como o petróleo.

"O mundo árabe e outros fornecedores de matérias-primas poderiam ter tremendo impacto sobre Washington no que se refere ao Iraque e ao poder político", afirmou.

"O mundo pode fazer isto. E este é o caminho para começar", afirmou Halliday com um tom de confiança nestas expectativas promissoras.

[*] Antigo alto responsável da ONU pelo Iraque (antecessor de Sérgio Vieira de Melo).

O original encontra-se em
http://www.islamonline.org/English/News/2004-01/17/article02.shtml .


Esta entrevista encontra-se em http://resistir.info .

19/Jan/04