Estará rompida a "mística" de Trump? Será que o MAGA se sente traído?

– A nuvem Epstein está a propagar-se e a convergir num profundo afastamento popular.

Alastair Crooke [*]

Cartoon de Dario Castillejos.

A nuvem Epstein está a propagar-se e a convergir num afastamento popular em relação a certos estratos dominantes. O público, relutantemente, resignou-se a aceitar que os seus "governantes" habitualmente mentem e roubam, mas, mesmo assim, eles (em especial dentro da ala MAGA) começaram vagamente a perceber que pode haver vícios dentro do poder público que consideram demasiado repugnantes para sequer imaginar. As pessoas começaram a perceber que Trump, de uma forma ou de outra (mesmo como espectador), estava ligado a toda àquela cultura degradada.

É improvável que isso seja ultrapassado facilmente — ou talvez nem seja. Trump foi eleito para drenar todas essas teias emaranhadas da oligarquia, estruturas de poder e serviços de inteligência que agem em prol de interesses ocultos. Foi exatamente isso que ele prometeu: América em primeiro lugar.

A distração de Epstein provavelmente não funcionará. A exploração, o abuso e a destruição das vidas de números incontáveis de crianças na busca de poder, riqueza e devassidão diabólica atingem o âmago da moralidade. Isso não pode ser desviado apontando para outros vis jogos monetários e de poder da elite. O abuso (e pior) infligido a crianças destaca-se à parte na sua própria categoria infernal.

Trump pode dizer que não fez nada de errado legalmente. Mas a questão é que ele agora está manchado – muito seriamente. Consequentemente, ele pode estar a entrar num período de presidência sem poder, a menos que ocorra alguma ocorrência deus ex machina suficiente para desviar a atenção do público.

Só para deixar claro:  é da natureza de Trump resistir fortemente a se tornar um presidente sem poder (lame-duck). E é aí que reside o perigo geopolítico. Trump precisa de distrações nas manchetes e precisa de "vitórias".

Contudo, agora ele está num ponto enfraquecido, em que o Estado de Segurança e os seus aliados no Congresso estão a assumir mais controlo. Da mesma forma, muitos dos nexos que ligam políticos e responsáveis nos EUA, Reino Unido e Israel a negócios e inteligência profundos serão extremamente adversos à sua exposição pública. Certos indivíduos, incluindo a prIsioneira Ghislaine Maxwell, podem revelar-se perigosos, tal como um homem que se está a afogar e que em pânico agarra a pessoa mais próxima, só para se afogarem os dois.

A equipa de política externa de Trump, de mente tacanha, colocou as iniciativas de política externa do presidente numa jaula, cujas barras têm nomes como "arrogância e orgulho".

Em relação à Ucrânia, de facto Trump deu a Moscovo 50 dias para capitular ao ultimato de cessar-fogo de Kellogg ou enfrentar as consequências.

Embora as sanções de 100% a terceiros — que afetam sobretudo as importações de energia chinesas e indianas da Rússia — tenham sido totalmente rejeitadas pela China (e provavelmente também pela Índia), Trump estará sob pressão dos seus falcões no Congresso para fazer alguma coisa que cause danos à Rússia.

The problem is that the war-chest is empty. Neither the U.S. nor Europe hold a weapons inventory of any consequence to the war. Even were they to pay and order missiles or other weaponry now, it would be months until delivered.

O problema é que o cofre de guerra está vazio. Nem os EUA nem a Europa possuem um arsenal de armas de qualquer importância para a guerra. Mesmo que pagassem e encomendassem mísseis ou outro armamento agora, levaria meses até que fossem entregues.

Contudo, Trump precisa de vitórias/diversões rápidas.

Na ausência de qualquer stock significativo, Trump só pode efetivamente escalar o conflito usando mísseis de longo alcance contra Moscovo ou São Petersburgo. Mísseis Tomahawk com alcance de 2 000 km estão no inventário dos EUA (e foram discutidos pela equipa de Trump, segundo relatou David Ignatius).

E se esses mísseis Tomahawk antigos forem facilmente abatidos pelas forças russas? Bem, então haverá um vazio. Um vazio grave. Porque não há nada entre o fornecimento de itens simbólicos de armamento (um punhado de mísseis Patriot) e as armas nucleares táticas pré-posicionadas dos EUA que poderiam ser lançadas a partir de caças estacionados na Grã-Bretanha.

A partir desse ponto, Trump estaria a ser empurrado para uma Grande Guerra com a Rússia.

Haverá um plano 'B'? Bem... sim. É bombardear o Irão novamente, como alternativa à escalada contra a Rússia.

Os iranianos consideram ser provável outro ataque ao seu país e Trump disse que pode fazer exatamente isso. Assim, o Irão está a preparar-se para tal eventualidade.

É bem possível que Trump tenha sido informado de que a consequência de ataques importantes ao Irão seria a desmilitarização efetiva de Israel imposta por mísseis – causando consequências profundas na política dos EUA, bem como na região.

Também é bastante possível que Trump ignore essa informação, preferindo ver Israel como "tão bom" (a exclamação que fez a 13 de Junho enquanto decorria o ataque furtivo israelense).

E quanto ao Oriente Médio neste momento? Parece que Netanyahu está a puxar os cordões de Trump. Gaza já é um escândalo – um escândalo de crimes de guerra, com todas as perspectivas de piorar.

Max Blumenthal informa que "quando Tucker Carson alegou que Epstein tinha ligações com a inteligência israelense [e que este facto explicava] porque é que Trump está a encobrir [o caso Epstein], os israelenses aparentemente ficaram assustados. Naftali Bennett, o ex-primeiro-ministro israelense, foi convocado para declarar que lidava, todos os dias, com o Mossad e que Jeffrey Epstein não trabalhava para o mesmo e não era um agente israelense. Ele a seguir ameaçou Carson, dizendo: ‘Não vamos tolerar isso’. O ministro israelense para Assuntos da Diáspora também denunciou Tucker Carson. É como se a relação entre o movimento conservador dos EUA e Israel estivesse a desmoronar por causa de Epstein", sugere Blumenthal.

Netanyahu talvez pressinta problemas à frente para Israel nos EUA, à medida que jovens americanos e seguidores do MAGA se voltam contra Trump por ter traído o “America First”; por ser “co-responsável” pelo massacre de Gaza; pela guerra civil sectária na Síria liderada por Israel e pelos EUA; pelo bombardeio do Irão; e pela pilhagem do Líbano.

Oitenta e um por cento dos americanos, sugerem sondagens, querem que todos os documentos relacionados com Epstein sejam divulgados. Dois terços — incluindo 84% dos democratas e 53% dos republicanos — pensam que o governo está a encobrir provas relativas à sua "lista de clientes" e à sua morte. A taxa de desaprovação de Trump situa-se atualmente nos 53%.

Netanyahu está (talvez consequentemente) numa corrida precipitada para impor o "Grande Israel". «Impor», porque os Acordos de Abraão originais eram ostensivamente um acordo para normalizar as relações com Israel. Hoje, sob ameaça militar, Estados árabes estão a ser obrigados a aceitar os termos israelenses — e a subjugação a Israel.

Isso representa uma paródia da antiga noção israelense de uma aliança de minorias. Hoje, as "minorias" (às vezes maiorias fragmentadas) estão a ser deliberadamente colocadas umas contra as outras. Os EUA e Israel introduziram novamente o ISIS 2.0 no Médio Oriente. As execuções de alauítas, cristãos e xiitas na Síria são a consequência direta.

A perspectiva é de um Médio Oriente devastado, apenas com as monarquias do Golfo a servirem como ilhas obedientes em meio a um cenário mais amplo de guerra fratricida, assassinatos étnicos e políticas balcanizadas.

O novo Médio Oriente...?

29/Julho/2025

[*] Antigo diplomata britânico, fundador e diretor do Conflicts Forum com sede em Beirute.

O original encontra-se em strategic-culture.su/news/2025/07/29/is-the-trump-mystique-broken-does-maga-sense-betrayal

Este artigo encontra-se em resistir.info

31/Jul/25

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