Terrorismo e golpe de estado
por Lisandro Otero
O atroz atentado em Madrid que deixou 173 mortos e mais de 700 feridos, de
acordo com a primeira contagem, é o 11 de Setembro dos espanhóis.
O corpo nacional está preso à mesma incerteza, a mesma
sensação de impotência e de vulnerabilidade que tiveram os
americanos a seguir à destruição do World Trade Center.
Para Bush, o atentado do 11 de Setembro encaixou como um anel no dedo. Era a
oportunidade que esperava para conseguir a unidade nacional num país
dividido, que se sabia traído na sua livre vontade, burlado numa farsa
eleitoral. O lançamento da chamada guerra contra o terrorismo
permitiu-lhe encobrir a fraude colossal que lhe permitira guindar-se à
Casa Branca.
Não é de estranhar que Aznar utilize os mesmos recursos para
avalizar a provável eleição da sua marioneta, Mariano
Rajoy, em 14 de Março próximo. Aznar vai erguer-se como o
campeão do duros, dos irredutíveis, oferecerá a imagem de
um PP enérgico, o único obstáculo possível ao
trasbordamento do terrorismo, pedirá poderes especiais, golpeará
à esquerda e culpa-la-á do massacre. Em suma, um golpe de Estado
semelhante ao cometido pelos agentes da petroleiras nos Estados Unidos.
Os neofascistas, como Aznar, não se detêm diante de nada.
São implacáveis, carecem de princípios e de normas
elementares de decência. Foi Goering que teve a ideia de incendiar o
Reichstag para desencadear uma perseguição contra a esquerda. O
chamado "perigo hebraico" foi outro dos subterfúgios criados
para reprimir aqueles que discordavam da opressão crescente do nazismo.
A invenção de uma camarilha "judeu-bolchevique"
também serviu para castigar os discordantes na Alemanha.
Desde então, a ultradireita tem repetido repetidamente essa artimanha.
A óbvia construção de um caso doloroso para a
sensibilidade nacional servirá a fins publicitários. Na Espanha
há de se montar uma gigantesca campanha de comunicação
social destinada a fazer crer ao povo que está a ser eficazmente
defendido de graves perigos pelo seu actual governo.
O terrorismo é uma arma ilegítima. Nenhum revolucionário
deve usá-la. O terrorismo é politicamente injustificável,
humanamente repulsivo e quase sempre obtém resultados opostos aos que
pretende porque atrai mais recusa do que apoio à causa que o emprega. A
morte de inocentes invalida-o como arma de combate.
Robespierre instituiu o Comité de Salvação Pública
para intimidar os moderados. A guilhotina abriu rios de sangue, mas não
evitou que os Girondinos tomassem o poder. O assassinato de Alexandre II,
pelos niilistas russos, não impediu o crescente endurecimento da
autocracia czarista. O magnicídio contra os arquiduques da
Áustria, em Sarajevo, não conseguiu a independência da
Bósnia mas propiciou o estalar da Primeira Guerra Mundial. O IRA
não alcançou a independência da Irlanda do Norte com os
seus atentados e bombas. A ETA não conseguiu incrementar o apoio
popular à independência basca. O terrorismo é um pobre
propagador de ideologia, não contribui, como pretende, para despertar
popular, não tem valor demonstrativo algum e não serve para
desmoralizar o inimigo.
Mas há que pôr-se em guarda contra o uso indiscriminado dessa
etiqueta. O governo neofascista de Bush aproveitou a desculpa de uma guerra
contra o terrorismo para empreender uma vasta campanha de domínio
mundial, para agredir os movimentos populares, para desacreditar todos aqueles
que lutam pela soberania pátria, como é o caso da
resistência iraquiana. Não é de estranhar que o seu emulo,
Aznar, faça o mesmo.
Um atentado fracassado contra o neofranquista presidente espanhol já o
fez ganhar eleições. As simpatias que lhe trouxe conseguiram a
sua avalização nas urnas. Ainda que os inquéritos
indiquem um provável triunfo de Rajoy, os indeciso poderão
decidir as eleições em favor do PSOE. Isso é o que
haveria que evitar a todo custo segundo os falangistas de novo tipo que
detêm o poder na Espanha. O atentado de Atocha é um pasquim
eleitoral do PP.
O original encontra-se em
http://www.rebelion.org/spain/040312lis.htm
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info
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