Os arrependidos,
ou a verdade no terceiro tempo
por Antonio Maira
Assistimos desde há uns meses, mais enojados que perplexos, ao
aparecimento de contínuas declarações em que
políticos e funcionários de alto nível, alguns deles
agentes de primeira importância no desenrolar dos factos que conduziram
à guerra do Iraque, responsáveis outros, em certa medida, da
falta de resistência institucional contra a guerra, ajudam agora a compor
com as suas experiências pessoais, o grande quadro da mentira
dos outros,
e de passagem, procuram insinuar a sua discordância da primeira hora,
perante uma infâmia que está agora a surgir publicamente.
É desnecessário acrescentar que todos estes
dissidentes atrasados
, manifestam o seu repúdio sem vacilações perante as
terríveis consequências da invasão do Iraque. Sem
dúvida, o desenrolar da guerra está-lhes a avivar a
memória, que se manteve apagada durante os primeiros meses da
ocupação, redesenhando os perfis do seu protagonismo pessoal
antes impreciso, e alimentando repúdios muito condicionados por uma
história que fede a desastre e começa a cheirar a derrota.
John Kerry é um destes personagens de
terceiro tempo.
Em Outubro de 2002 votou no Congresso a favor da guerra, quando tudo estava
meridianamente claro para observadores menos informados que um senador
americano. A resolução 114, que aprovava o uso da força
contra o Iraque, era a expressão perfeita e completa do ardiloso
relatório de Bush para justificar a guerra, a destruição e
a ocupação do país. Estava perfeitamente clara, em
primeiro lugar, a inexistência de armas de destruição
maciça. Garantia-o o registo sistemático e incondicionado que
durante mais de sete anos a UNSCON realizou. Esta inspecção
acabou quando os EUA, convencidos que não havia nada a procurar,
forçaram a situação e converteram aquele
órgão das Nações Unidas num instrumento manipulado
pela CIA para a perseguição pessoal a Sadam Hussein, com
propósitos nada confessáveis. Também estava clara a
ausência de qualquer conexão entre o governo iraquiano e a
organização Al Qaeda que, isso sim, havia tido vínculos
muito consistentes com os próprios Estados Unidos. E de resto, era
também muito clara a intenção de Washington de ir à
guerra, fosse de que maneira fosse, com ou sem apoio das Nações
Unidas. O presidente Bush tinha repetido até à exaustão e
com pública insolência, a sua teoria da
irrelevância
aplicada ao nulo valor de qualquer dissidência individual ou colectiva
contra a vontade guerreira dos Estados Unidos. Kerry, como quase todos os
dissidentes de
terceiro tempo,
deu então um sim incondicional à guerra de
destruição e conquista do presidente Bush.
DISSIDÊNCIA PÓSTUMA
Agora, o candidato democrata à presidência expressa o seu
desacordo contra o unilateralismo de Bush, algo que já
estava claro no Outono de 2002, e contra a condução da
ocupação e as enormes despesas no Iraque, que também
estavam implícitas nos objectivos estratégicos da guerra.
À margem da sua dissidência "póstuma",
extemporânea e claramente eleitoral, Kerry apoia plenamente a
política global dos Estados Unidos na zona. A John Kerry agradaria um
apoio da ONU à política imperial dos Estados Unidos, mas fala sem
qualquer pudor da necessidade de reforçar o contingente militar na
Mesopotâmia com 40 mil soldados.
Outros dois personagens que lavaram as mãos são Hans Blix e Kofy
Annan. O primeiro, Chefe da Equipa de inspectores a UNMOVIC ,
fê-lo tornando-se repentinamente falador; o secretário-geral da
ONU, tornou-se, como tantas vezes, silencioso.
Hans Blix não se atreveu a declarar perante o Conselho de
Segurança da ONU que não tinha razões para supor que o
Iraque tivesse armas de destruição maciça. Tão
pouco se atreveu a reforçar as declarações de Al Baradei
sobre a fabricação de documentos falsos pelos Estados Unidos
os que diziam respeito à importação de urânio
do Niger afirmando, como lhe cabia, que as provas de Powell eram uma
autêntica patranha. Tal declaração fazia parte sem
dúvida das suas obrigações como chefe de inspectores de um
órgão das Nações Unidas. Blix, uma das pessoas
situadas no centro do cenário e da encenação que teve
lugar no Conselho de Segurança, queixa-se agora dos maus tratos e das
coacções recebidas de Washington, mas continua tirando
ilações muito limitadas de tudo aquilo. É surpreendente
que, com tudo o que se passou nestes últimos meses, Blix continue
empenhado em dissimular o engano deliberado dos Estados Unidos, insistindo em
que a decisão de fazer a guerra foi tomada a partir de um
diagnóstico
completamente equivocado
. O diplomata sueco continua a considerar como algo sagrado o
reconhecimento da
boa fé
do presidente Bush e dos seus sequazes.
As conclusões definitivas que Blix extraiu e nos transmite, a partir da
sua experiência como Chefe da UNMOVIC, são tão pobres como
covardes. Acaba de as publicar num livro, cuja principal mensagem nas
suas próprias palavras é a seguinte: A mensagem
é que se podem levar por diante inspecções internacionais
eficazes e independentes. Que nós, os inspectores das
Nações Unidas, obtivemos uma descrição da realidade
do Iraque mais correcta e precisa que as da Administração Bush e
do Governo de Tony Blair. Hans Blix, rodeado de milhares de
cadáveres, encara a história da guerra como uma questão de
competência técnica.
As resistências internacionais contra a guerra e também
internamente nos Estados Unidos foram praticamente nulas durante
o primeiro e o segundo tempos
do processo planificado de destruição do Iraque.
O
primeiro tempo
foi longuíssimo. Foi o do criminoso embargo mantido durante uma
década, combinado com operações militares de
reforço e castigo. Provocou a morte de centenas de milhares de pessoas,
muitas delas crianças. Foi justificado pela existência de armas
de destruição maciça e pela recusa do Iraque em as
destruir. Todos os políticos do ocidente e os profissionais dos seus
meios de comunicação sabem agora, como sabiam então, que o
Iraque destruiu as suas armas na etapa 1991-93 sob supervisão da ONU.
O
segundo tempo
decorreu desde 11 de Setembro de 2001 até ao final glorioso
da ocupação do Iraque proclamado por George W. Bush na plataforma
de voo do porta-aviões Abraham Lincoln (envergando uma fantasia de
piloto de caça). A infâmia da preparação e da
execução da guerra foi montada a princípio na sede do
Conselho de Segurança da ONU, e mais tarde nas ruas, nas
povoações e nas cidades iraquianas. Todos os políticos do
ocidente e profissionais dos seus meios de comunicação sabem
agora, como já então sabiam, que a guerra era uma decisão
estratégica dos Estados Unidos, cujos objectivos eram a
apropriação do petróleo e a ocupação
económica e militar do Médio Oriente.
As verdades no
terceiro tempo
, as que nos oferecem dissidentes e arrependidos de agora como Richard Clarke,
são menos verdades que as que então ocultaram. No fundo, devem-se
à resistência iraquiana, que se levantou contra a
ocupação e manteve o problema do Iraque na agenda das
realidades efectivamente existentes. Foram eles que negaram a
possibilidade de qualquer base de acordo entre ocupantes e ocupados, e
originaram o descalabro dos planos dos Estados Unidos e do processo de
legitimação da ocupação, que a ONU e a UE iniciaram
precipitadamente, poucas semanas depois da declaração vitoriosa
do presidente Bush.
O mundo da política e da Falsimedia (desinformação), nos
Estados Unidos e no resto do planeta, encheu-se repentinamente de personagens
outrora enganados ou coagidos, que lamentam agora a guerra. Esta
proliferação de arrependidos põe em evidência
algumas coisas. Uma delas é a terrível capacidade de
sobrevivência política e de impunidade judicial nas nossas
democracias de controle oligárquico de
políticos como Bush, responsáveis evidentes de crimes tão
horrendos como o de manipular a dor do seu povo pelas vítimas do 11 de
Setembro, convertendo-a num negócio, lançando a ira contra um
país inocente.
Contudo, a principal evidência que emerge debaixo de tanto rasgar de
vestes imprestáveis é quão mal vai a primeira guerra feita
sob o estandarte do Império.
O original encontra-se em
Cádiz Rebelde
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Tradução de Carlos Coutinho.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info
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