Garzon escorrega no solo mexicano

por Carlos Aznárez [*]

O pretenso super juíz. Nos últimos tempos vêm surgindo informações, dados e testemunhos que contrariam a imaculada imagem que o juiz espanhol Baltasar Garzón esforçou-se por desenhar — no seu próprio interesse — naquilo que os peninsulares com nostalgias da Conquista gostam de chamar "Iberoamérica".

As últimas escorregadelas de Garzón na América Latina são uma reiteração. Repudiado em várias ocasiões pelos zapatistas e pelo próprio subcomandante Marcos, por pretender meter o seu nariz imperial no México (Garzón escreve "Méjico" conforme o velho modo colonial), tornado a criticar na Colômbia pelas forças populares, quando se soube do seu comparecimento a reuniões com autoridades do governo fascista de Uribe Vélez para assessorá-las sobre como reprimir mais e melhor os insurgentes desse país, o juiz acaba ganhar todos os prémios de repúdio em suas apostas na loteria ingerencista.

Lendo e relendo a informação publicada pelo prestigioso diário La Jornada
http://www.jornada.unam.mx/indexfla.php
será possível observar que Garzón e esse tribunal repressivo de excepção denominado Audiência Nacional Espanhola parecem acreditar que ainda estão na época de Hernán Cortéz ou de Francisco Pizarro. Com efeito: não só participaram no interrogatório de cidadãos mexicano (facilitado por autênticos "colaboracionistas" da estrutura judicial desse país) como pretenderam — sem êxito — interrogar militantes bascos detidos no México. Muito semelhante ao que, em época não muito longinquas, fizeram as estruturas repressivas do continente para deter, torturar, processar e fazer desaparecer cidadãos de cada um dos nossos países. Nessa instância chamava-se "Operação Condor".

Armado com a sua tradicional arrogância e acompanhado de outro funcionário da Audiência Espanhola, Garzón dias atrás tentou entrar na prisão mexicana Reclusorio Norte e participar da audiência judicial dos presos bascos, que há meses encontram-se ali à espera de um pedido de extradição feito pelos espanhois. Entretanto, desta vez Garzón não teve sinal verde e o seu aborrecimento foi visível
http://www.rebelion.org/spain/040201gar.htm
(ver carta a La Jornada). Com tanto azar que foi desmascarado ("escrachado", para usar uma terminologia argentina) pelos meios de comunicação ali presentes.

Garzón acredita que os latino-americanos são idiotas e submissos. Garzón supõe que a colonização continua e não se dá conta que os povos se levantam sucessivamente para demonstrar que estão fartos e desprezam estes novos Cortéz e Pizarros que, difarçados de Telefónica, Repsol, BBV e Endesa, pretendem amordaçar e esfaimar os países do continente.

Garzón não pode entender — mas já é tempo de que anote na sua agenda repressiva — que são muitos os que sabem que na Espanha se tortura, que se violam detidos e detidas, que se desterram prisioneiros políticos e sobretudo, que se ilegalizam patidos, que se fecham jornais e que se tenta amordaçar a dissidência política basca. Como muito bem tem informado sempre o diário La Jornada, que Garzón acusa de "manipulador".

Precisamente porque tudo isso se sabe é que começam a surgir solidariedades insuspeitadas contra a actuação impune de juízes espanhois que se creem jagunços de latifúndio.

De qualquer forma, o que acaba de ocorrer no México é grave. Não porque o tenham retirado com maus modos e sim porque demonstra que nos nossos próprios países ainda restam lacaios (apesar de o sr. Vicente Fox se esforçar por desmentí-lo junto aos círculos de imprensa) dispostos a violar os seus próprios preceitos constitucionais a fim de "ficar bem" com os amos do poder colonial. Lamentavelmente para eles, ainda restam os povos solidários com todos aqueles que lutam pela auto-determinação, bem como alguns poucos mas meritórios funcionários que cumprem com a letra do que deve ser um país independente e, especialmente, alguns medias honestos e progressistas como "La Jornada", dispostos a contar o que pode ser uma grande afronta à nação mexicana. Todos eles estragaram a jogada de Garzón e seus mandatários.

[*] Director de Resumen Latinoamericano .

O original encontra-se em http://www.rebelion.org/opinion/040201azn.htm .


Este artigo encontra-se em http://resistir.info .

06/Fev/04