A situação internacional e a próxima Cimeira da NATO

Ángeles Maestro e David Ubico [*]

North Atlantic Terrorist Organization.

Uma vez mais a confusão. Uma vez mais os meios de comunicação propriedade da oligarquia internacional e dos grandes bancos e multinacionais espanholas – junto com os meios “públicos” em mãos dos governos do Estado e da CCAA, alinhados todos com a NATO e preparando sua Cimeira em Madrid em fins de Junho, prepararam-nos o relato: a Rússia invade a Ucrânia, portanto “não à guerra”.

A partir das suas bem financiadas poltronas, o PSOE, Podemos, IU e o PCE, como forças de governo que se preparam para receber com todas as honras o presidente dos EUA e o resto de chefes de estado da aliança mais criminosa da história, clamam contra a Rússia pela “invasão” da Ucrânia. Pablo Iglesias, o mesmo que nos instava a guardar nossas bandeiras vermelhas porque eram arqueologia histórica, supera-se a si mesmo em cinismo e atreve-se a constituir-se em vara de medir comunismos para camuflar o seu abjecto apoio ao “natostão”.

Ao ritmo do mesmo guião marcham ONGs e outras organizações que, cada vez que a NATO ou a “coligação internacional” atacava diferentes países, mantiveram discursos que sistematicamente serviram para branquear os crimes do imperialismo. Basta recordar seus “Nem NATO nem Milosevic”, na guerra de destruição da Jugoslávia; “Nem Bush nem Sadam”, quando foi assolado o Iraque; “Nem NATO nem Kadafi”, quando se aniquilou a Líbia, ou a demonização de Al-Asad quando o imperialismo euro-estadunidense pretendia acrescentar a Síria ao cesto de nações destruir a expoliar.

Para neutralizar a capacidade da mobilização operária e popular perante tais crimes os grandes empórios da comunicação nos proporcionaram as mentiras mediáticas correspondentes. E não se pode esquecê-las. Recordamos: a gaivota empapada de petróleo porque Sadam Hussein era um eco-terrorista, os bebés arrancados das suas incubadoras no Kuwait, as armas de destruição maciça do Iraque, os falsificados bombardeios de Kadafi ao seu próprio povo, os ataques de Al Asad com armas químicas, etc.

A classe operária e quaisquer pessoas que pretendam ter uma ideia cabal do que acontece jamais deveriam esquecer que “a ideologia dominante é a ideologia das classes dominantes” e que os donos dos meios de comunicação, agora mais do que nunca, são os mesmos que trabalham para que os povos – como dizia Machado – não acertem a mão com a ferida.

Para isso, para poder avaliar a realidade do que acontece, é indispensável conhecer o processo histórico e situar os acontecimentos nas suas relações.

Como surge a NATO e o que fez desde então?

Expansão da NATO.

O que se passa na Ucrânia?

As contradições inter-imperialistas entre os EUA e a UE

Como dizíamos no princípio, um dos objectivos centrais da NATO desde a sua criação foi e é, sobretudo depois do desaparecimento da URSS, assegurar aos EUA o domínio da Europa. Isso significa impedir, mediante o controle militar da UE, qualquer aliança ou relaçáo, inclusive comercial, desta com a Rússia. Dois exemplos recentes:

Por outro lado, todos os governos da Espanha participaram activamente na cadeia imperialista, mostrando um alinhamento maior com os EUA do que outros países europeus.

Diante do cenário de guerra aberta que se prepara, qual é nossa responsabilidade e quais são nossas tarefas imediatas?

Em meio a uma gravíssima crise económica do capitalismo, que não foi provocada pelo Covid mas que foi agravada pelas medidas adoptadas pelos governo, afundaram na miséria milhões de famílias trabalhadoras e destruíram-se dezenas de milhares de pequenas e médias empresas.

Após a alta insuportável de preços, sobretudo da energia, anuncia-se agora um importantíssimo incremento dos gastos militares, com dinheiro público retirado dos gastos sociais. A Alemanha já iniciou o caminho. O Parlamento alemão sem oposição institucional, aprovou em 28 de Fevereiro o montante astronómico de 100 mil milhões de euros para a “defesa”. Este facto recorda a votação dos orçamentos para a guerra de 1914, apoiada pela social-democria e que deu origem à criação do Partido Comunista da Alemanha (KPD) de Rosa Luxemburgo.

As sanções dos EUA e da UE, com a paralização de exportações para a Rússia, está a causar a ruína de milhares de agricultores que vendiam citrinos e outros produtos agrícolas para a Rússia. Por outro lado, de forma mais geral provocará o ainda maior encarecimento do gás em consequência do encerramento de mercados com a Rússia e a compra do mesmo aos EUA, uns 40% mais caro e de pior qualidade.

Tudo isso está a configurar um cenário de rápida deterioração das condições de vida de milhões de pessoas e de prováveis explosões sociais que os governos tentarão dominar intensificando a repressão e a propaganda.

Cabe às organizações comunistas e aos sectores mais conscientes da classe operária preparar-se para que os trabalhadores e trabalhadoras, especialmente a juventude, e os sectores mais golpeados do povo, dirijam a sua ira contra aqueles que desde há anos estão a construir um cenário de guerra na Europa e esfregam as mãos diante do grande negócio da escalada armamentista.

O papel de organizações como o PCE, IU ou Podemos, colaborando nesta estratégia de guerra ao serviço dos EUA, hipotecando nossa soberania e colocando-nos como objectivo directo num mais que provável cenário de guerra, situa-os, juntamente com o PSOE, como lacaios do imperialismo.

Por tudo isso, tendo em conta aqueles que integram a autêntica organização criminosa que perpetrou e perpetra a destruição de países engendrando e apoiando o fascismo, nosso dever é enfrentar com todas as nossas forças a NATO e o governo que em nosso nome e com o nosso dinheiro, vai aumentar os gastos militares enquanto desmantela e privatiza os serviços públicos. A luta pela saída imediata da NATO, o desmantelamento das bases dos EUA e da NATO, contra o aumento dos gastos militares e contra a participação do Estado espanhol na guerra, deve concretizar-se na luta contra a Cimeira da NATO.

A provável intensificação da luta de classes, com milhões de pessoas cujas condições de vida se afundam, pode permitir que as massas trabalhadoras percebam – se as organizações comunistas efectuarem decididamente esta tarefa essencial de luta ideológica – a íntima relação entre a exploração capitalista e as guerras, bem como entre o capitalismo e o fascismo.

A desestabilização e a agudização das contradições internas entre as classes dominantes, que toda guerra implica, historicamente abriram janelas de oportunidade para processos revolucionários. A vitória exige iniludivelmente que exista uma estratégia, uma direcção e uma organização, hoje mais do que nunca de carácter internacional, que enfrente aquilo que objectivamente está unido:   o capitalismo e a guerra. Sua criação é a tarefa fundamental dos comunistas.

01/Março/2022

Ver também:
  • Sentido e sem sentido sobre a Ucrânia, Stephan Gowans
  • Parar a guerra! Exigir um caminho de diálogo e de paz!, declaração do PCP
  • [*] Responsáveis da Coordinadora de Núcleos Comunistas, Espanha

    Esta declaração encontra-se em resistir.info

    03/Mar/22