Equador: O Poço da dívida social

por Ricardo Ulcuango [*]

Manifestação em Quito. José Marti, um dos ilustres filhos desta América, disse que a inteligência americana é um penacho indígena. “Não vêem como, com o mesmo golpe que se imobilizou o índio, se imobilizou também a América? E até que não se faça andar o índio, a América não começará a andar como deve ser”, disse Martí.

E como poderá a América andar, com o peso da dívida externa, que se paga uma e outra vez e nunca se acaba? Uma dívida externa que em 1985 era de 300 mil milhões de dólares e hoje é de 800 mil milhões. Quando é que nos pagarão o ouro e a prata dos nossos avós, que roubaram no saqueio do continente? Quando nos pagarão as árvores, os rios que contaminaram e continuam a contaminar, os pássaros que ficaram sem um lugar onde viver? Quando nos pagarão tudo aquilo que nos devem? Quem deve a quem?

E como pode o Equador seguir em frente, com o Pozo [NT] da dívida, que decidiu que os pobres não tem direito à saúde nem à educação? Um Pozo da dívida que não entrega o orçamento que esses sectores necessitam.

Parece que para o Pozo da dívida os únicos que têm direitos são os credores, que são os donos dos juros da dívida. Pozo entrega 40% do orçamento de Estado para pagar a dívida e deixa de lado a dívida social. Quem serão os donos do Pozo? Quem serão os donos dos juros? O Equador e o continente devem exigir às nações desenvolvidas, ao FMI e ao Banco Mundial, que pelo menos uma vez mostrem capacidade de arrependimento e ofereçam às nações latino-americanas um tratamento similar àquele que teve a Alemanha depois da segunda guerra mundial. Nessa altura os países credores actuaram com virtude. Hoje, os nossos credores, actuam com o coração no dinheiro.

A soberania popular exige-nos uma saída para a dor do dólar, para a dor da dívida e para o Pozo da dívida. Uma saída colectiva, uma saída associativa.

Façamos uma associação de países latino-americanos para sacudir de cima de nós a dívida externa. Façamos uma associação de equatorianos e equatorianas para sacudir de cima de nós o Pozo da dívida e para fiscalizar a dívida externa equatoriana. Como se gerou? Quem foram os seus beneficiários? Para onde foi o dinheiro? Muita é a corrupção que se esconde por trás da dívida e dos credores e dos governos que nos levam para o poço e aos quais não importa nem a saúde, nem a educação nem a dívida social.

[*] Dirigente indígena e Deputado. Presidente do Parlamento Indígena da América. Tradução de Ana Santos.

[NT] O autor faz um jogo de palavras com o nome do actual ministro da Economia, Maurício Pozo ('Poço' em português).

O original encontra-se em http://www.rebelion.org/internacional/040508ecu.htm


Este artigo encontra-se em http://resistir.info .

15/Mai/04