Não há respostas do lado da oferta
para a crise petrolífera que se aproxima

por Andrew McKillop [*]

Uma ressaca da ultraliberal década de 80 (durante a qual a Nova Economia emergiu das ruínas da "ciência económica keynesiana") é o mito ou a crença piedosa nas chamadas 'soluções do lado da oferta'. O próprio mito, contudo, foi construído sobre o mundo real, o processo realpolitik de primeiro destruir a procura.

A intensa recessão do período 1980-83, trazida pelas espectaculares altas nas taxas de juro, dispararam falências maciças de negócios e desemprego para milhões de pessoas, depois do que as louvadas 'soluções do lado da oferta' podiam ser apresentadas como sendo a causa real dos sempre cadentes custos do trabalho, preços das matérias-primas e... acima de tudo... o preço do petróleo.

A seguir ao "remédio corajoso" de destruir negócios e empregos, as persistentes taxas baixas de crescimento económico, persistentes taxas baixas de crescimento económico, a par de aumentos nas ofertas de petróleo devido certamente à irrupção final das grandes descobertas de petróleo no período 1975-1985, permitiram que a Nova Economia farsa fosse mantida a flutuar, com preços de petróleo 'razoáveis', ou seja, níveis ridiculamente baixos.

No período 1986-1998 houve somente um ponto de destaque para os preços do petróleo ... eles eram baixos e tendiam a ser mais baixos. Quaisquer homem de negócios ou gurús das finanças podiam provar as suas sabedorias balbuciando o slogan das "mercadorias do poente" para explicar porque o petróleo, tal como cobre, café ou estanho estava barato e iria ficar ainda mais, e que serviços financeiros inteiramente virtuais geravam vastos lucros. Ainda em Março de 1999 aquele resoluto apoiante da apodrecida teoria económica neoliberal, a revista Economist, anunciava que a futura tendência do preço do petróleo era "provavelmente de não mais de US$5 por barril".

No mesmo ano os preços do petróleo quase triplicaram pela simples razão de que o crescimento económico do mundo havia principiado a sacudir a tendência suicida da estagnação neoliberal (chamada de 'estabilidade' pelos seus defensores), o que inevitavelmente resultou num crescimento da procura de petróleo rompendo a sua "taxa de tendência a longo prazo" em torno dos 1,3% ao ano.

Desde então, e com um soberano desdém pelo seu preço, a procura de petróleo não mostra sinais de regressar à garrafa do baixo crescimento.

O 'ponto crítico' ('break even') do crescimento da procura mundial de petróleo, a seguir ao qual os preços deslizaram para fora da 'estabilidade' da Nova Economia, foram de facto os anos 1995-97, e ao longo de 1999-2003 o crescimento da procura progressivamente modificou-se sempre num sentido ascendente, até atingir a actual taxa de 2,6-2,8% ao ano. Os próprios preços mais elevados de petróleo e gás natural desempenharam e desempenham um grande papel na manutenção e no reforço do processo de crescimento da procura.

Isto contradiz totalmente a confortável noção liberal do 'ajustamento elástico dos preços', ou uma redução 'inevitável' na redução da procura quando os preços ascendem, apesar do simples facto de o crescimento da procura mundial de petróleo estar agora, em 2004, na sua taxa mais alta ao longo de 15 anos, com preços também na sua maior elevação desde 1985.

O armário da política petrolífera da multidão de líderes mundiais da Nova Economia está realmente quase vazio. Apenas enormes movimentações nas taxas de juro, que levam quase à recessão económica instantânea, existem como soluções do lado da procura para preços de petróleo mais altos — juntamente com sanções comerciais e económicas e acções militares contra os produtores de petróleo recalcitrantes ou 'abaixo do desempenho' como ferramentas cómodas do 'lado da oferta'.

Como manda o figurino, os últimos defensores do petróleo barato num contexto em que a procura é forte e as ofertas tornam-se mais hipotéticas a cada dia (e longo tenderão a descer porque o petróleo é um fóssil, não um recurso dos países tropicais), tal como a Agência Internacional de Energia (AIE) e outros mencionáveis, como 'peritos' e analistas de petróleo de encomenda, agora afirmam que a produção mundial de petróleo poderia ser elevada até a 120 milhões de barris/dia (Mbd) em 2020.

Por outras palavras, e com base numa média diária actual da ordem dos 81,5-82,5 Mbd, a produção mundial poderia ou deveria ser aumentada em 38 Mbd em cerca de 14 anos e 4 meses.

O mais simples desafio para esta fantasia ridícula é perguntar se alguma coisa como esta já ocorreu alguma vez anteriormente, pergunta para a qual a resposta é NÃO.

O desafio seguinte é comparar acréscimos líquidos à capacidade de produção mundial necessária para satisfazer esta fantasia (cerca de 2,7 Mbd por ano, não incluindo a compensação pelas perdas anuais de capacidade, que andam em mais de 1,5 Mbd/ano) como os resultados reais no mundo real durante os últimos 10 ou 20 anos.

Isto leva ao mesmo resultado final: o crescimento da produção mundial de petróleo a esta taxa jamais foi atingido em qualquer período passado, mas para compreender a sua impossibilidade podemos calcular o número de "equivalentes ao Iraque", ou "equivalentes à Arábia Saudita" que devem ser gerados do ar, das águas profundas ou das pegajosas areias asfálticas (ou "trazendo a democracia" através da invasão militar do Médio Oriente), para permitir qualquer perspectiva de petróleo barato sempre em retoma. Ignorando completamente as perdas da capacidade mundial de produção devidas ao esgotamento, algo mais do que quatro "novas Arábias Sauditas" devem ser descobertas, provadas, desenvolvidas e colocadas em abastecimento confiável em menos de 15 anos.

Calcular isto em termos de "equivalentes ao Iraque" é mais difícil do que para a Arábia Saudita porque é difícil saber o que é realmente a produção iraquiana em qualquer momento; a produção iraquiana agora depende de que pipeline ou centro de bombagem ainda continua por atacar (e se os media cuidam ou não de relatar as razões reais dos ataques de sabotagem aos invasores), mas é provável que a produção média esteja abaixo dos 1,6 Mbd.

O "fosso da oferta" em 2020 está, portanto, bem acima dos vinte e três "novos Iraques" da variedade "libertada", se tomarmos a tendência existente e real da produção iraquiana, os números do mundo real ao invés daqueles números de diversão e fantasia (conversas sobre "10 Mbd em 2009") que "peritos" bem pagos como D. Yergin do CERA orgulhosamente declamaram nos jantares de debate na Casa Branca antes da decisão do regime Bush de invadir e ocupar o Iraque, naturalmente sem que o mínimo traço de qualquer arma de destruição maciça tenha sido encontrado.

A REALIDADE DO LADO DA PROCURA

Uma parte da equação fantástica da AIE está entretanto a tornar-se real: a procura mundial agora está a aproximar-se dos 2,7 Mbd por ano, número que presumivelmente foi ajustado pelos "peritos" bem pagos da AIE na sua sede do seu Chateau de la Muette, em Paris, como a taxa de crescimento médio anual para o longo período 2000-2020.

Isto pode ser comparado com a chamada "taxa tendência a longo prazo" de 1,3% ao ano que se manteve desde meados da década de 80 até cerca de 1995, gerando incrementos de procura anual bem abaixo de 1 Mbd para o consumo mundial de petróleo.

Para a BP Amoco, a lutar com determinação para continuar a flutuar na Rússia (através da compra de políticos substitutos daqueles que vão para a cadeia ou fogem do país) enquanto tenta recuperar seu investimento maciço em pipelines para despachar por navio não impressionantes quantidades de petróleo do Cáspio de alto custo, contaminado por enxofre e metais pesados, um único réu pode ser nomeado.

Os redactores principais na edição de 2003 da 'Statistical review of world energy' da BP apontam este culpado: a China.

Inesperadamente ou não, este país está a tornar-se rapidamente o maior produtor industrial do mundo e embora actualmente utilize não mais do que cerca de 1,7 barris de petróleo per capita por ano está num rápido e persistente caminho ascendente no consumo de petróleo, gás e electricidade. Em 2004-2005, mesmo utilizando números da AIE, o crescimento da procura de petróleo pela China pode atingir 0,6 Mbd, o que se traduz na ascensão da procura da China por importações de mais de 0,7 Mbd na medida em que a produção interna continua o seu declínio acelerado.

Ao apontar a China como o único culpado, os bem pagos jornalistas da BP Amoco e uma molhada de redactores de jornais financeiros podem defender em alta voz que a liderança da China actue contra o "superaquecimento" (o crescimento da procura chinesa também se apoia no automóvel para agitar os preços das commodities não-petrolíferas), mas isto ignora inteiramente os outros dois terços do actual crescimento da procura de petróleo ao nível do mundo em conjunto.

Não só a China, mas mesmo a sociedade mais desperdiçadora de petróleo do mundo — os EUA, que utilizam um récord de 25 barris por cabeça por ano — está a aumentar firmemente a sua procura. A juntar-se ao segundo e ao primeiro maiores importadores de petróleo do mundo (China e EUA) está um feixe de novos países industrializados e em re-industrialização que estão a aumentar rapidamente a sua procura de petróleo, que vão desde a Índia e os Tigres Asiáticos até o Brasil e a economias em re-industrialização do Leste da Europa.

No total, isto representa um impressionante aumento de 2,3-2,5 Mbd por ano, de acordo com as tendências actuais. Mais exactamente do que menos de 5 meses ou 150 dias de crescimento da procura mundial de petróleo a esta taxa tornará a principesca jactância saudita de "elevar a exportações em 0,8 Mbd" uma necessidade vital — e não a mentira inofensiva destinada a ajudar os resultados eleitorais da gang de Bush que quase certamente é.

NÃO HÁ SAÍDA SENÃO A TRANSIÇÃO ENERGÉTICA

Com uma determinação férrea de negar e combater a realidade, as lideranças dos principais países seguem o modelo de crescimento intensivo em energia americano-europeu-japonês estão a cada dia a conduzir o mundo para mais perto do extremo oposto de qualquer coisa "sustentável", excepto o conflito internacional infindável e o choque de civilizações.

A escassez de petróleo, tornada pior pelo crescimento acelerado da procura e a estagnação da oferta, pode somente conduzir a alta de preços, e a seguir aumentá-los outra vez.

Isto só pode ser aceite pelos líderes mais arrogantes e menos inteligentes, e pelas sociedades por um curto período antes de a invasão e ocupação de países produtores ser decidida e aplicada como uma "solução duradoura".

Como mostra a tragédia iraquiana, o resultado final da invasão antecipativa de países produtores de petróleo (para assegurar que o desempenho da sua produção cumpra a ideias dos chamados peritos) é a guerra duradoura, tanto civil como internacional, e Norte-Sul.

A rivalidade entre as chamadas superpotências e grupos de nações com armamento nuclear pelas capacidades minguantes de produção de petróleo só pode aumentar até que claras e corajosas decisões sejam tomadas para limitar e a seguir diminuir a procura de petróleo e de gás, a longo prazo, numa base universal e rapidamente progressiva.

Para a maior parte das sociedades de energia intensa e desperdiçadoras de petróleo, o objectivo da transição energética terá de ser ajustado numa porcentagem tão elevada como uma redução de 50% na utilização de petróleo ao longo de 5-10 anos, o que seria totalmente impossível através da utilização cega dos truques da política da Nova Economia e da fé cega nos chamados "mecanismos de mercado".

Sem cooperação internacional não será possível qualquer espécie de programa, tornando a transição energética pelo menos ao equivalente do provavelmente fracassado Tratado de Quioto e do seus processos.

Sob as actuais condições do mundo real — mesmo assumindo que o Iraque possa recuperar o seu anterior pico de produção petrolífera da década de 80 (4 Mbd) não depois de 2008 — a oferta mundial de petróleo quase certamente deixará de corresponder à procura dentro de 3 anos.

Com o Iraque submerso no conflito, a data em que os mercados mundiais de petróleo cairão na "sub-oferta estrutural" pode ser dar a qualquer momento, mas até o Outono/no princípio do Inverno os stocks acumulados e extraídos provavelmente mostrarão os mais vigorosos aumentos de preços.

Isto pode acontecer em 2004-05, ou pode ser adiado para 2005-06 se uma cada vez mais provável depressão pós-eleitoral no princípio de 2005 atingir os EUA e a seguir a Europa e o Japão.

23/Ago/2004

[*] Ex-perito em política e programação da DG XVII (Energia) da Comissão Europeia, membro fundador do "Asian Chapter" da International Association of Energy Economists. O seu contacto é xtran04@yahoo.com .

O original encontra-se em http://www.vheadline.com/printer_news.asp?id=22553

Este artigo encontra-se em http://resistir.info .
30/Ago/04