Não há respostas do lado da oferta
para a crise petrolífera que se aproxima
Uma ressaca da ultraliberal década de 80 (durante a qual a Nova Economia
emergiu das ruínas da "ciência económica
keynesiana") é o mito ou a crença piedosa nas chamadas
'soluções do lado da oferta'. O próprio mito, contudo,
foi construído sobre o mundo real, o processo realpolitik de primeiro
destruir a procura.
A intensa recessão do período 1980-83, trazida pelas
espectaculares altas nas taxas de juro, dispararam falências
maciças de negócios e desemprego para milhões de pessoas,
depois do que as louvadas 'soluções do lado da oferta' podiam ser
apresentadas como sendo a causa real dos sempre cadentes custos do trabalho,
preços das matérias-primas e... acima de tudo... o preço
do petróleo.
A seguir ao "remédio corajoso" de destruir negócios e
empregos, as persistentes taxas baixas de crescimento económico,
persistentes taxas baixas de crescimento económico, a par de aumentos
nas ofertas de petróleo devido certamente à
irrupção final das grandes descobertas de petróleo no
período 1975-1985, permitiram que a Nova Economia farsa fosse mantida a
flutuar, com preços de petróleo 'razoáveis', ou seja,
níveis ridiculamente baixos.
No período 1986-1998 houve somente um ponto de destaque para os
preços do petróleo ... eles eram baixos e tendiam a ser mais
baixos. Quaisquer homem de negócios ou gurús das finanças
podiam provar as suas sabedorias balbuciando o slogan das "mercadorias do
poente" para explicar porque o petróleo, tal como cobre,
café ou estanho estava barato e iria ficar ainda mais, e que
serviços financeiros inteiramente virtuais geravam vastos lucros. Ainda
em Março de 1999 aquele resoluto apoiante da apodrecida teoria
económica neoliberal, a revista
Economist,
anunciava que a futura tendência do preço do petróleo era
"provavelmente de não mais de US$5 por barril".
No mesmo ano os preços do petróleo quase triplicaram pela simples
razão de que o crescimento económico do mundo havia principiado a
sacudir a tendência suicida da estagnação neoliberal
(chamada de 'estabilidade' pelos seus defensores), o que inevitavelmente
resultou num crescimento da procura de petróleo rompendo a sua
"taxa de tendência a longo prazo" em torno dos 1,3% ao ano.
Desde então, e com um soberano desdém pelo seu preço, a
procura de petróleo não mostra sinais de regressar à
garrafa do baixo crescimento.
O 'ponto crítico' ('break even') do crescimento da procura mundial de
petróleo, a seguir ao qual os preços deslizaram para fora da
'estabilidade' da Nova Economia, foram de facto os anos 1995-97, e ao longo de
1999-2003 o crescimento da procura progressivamente modificou-se sempre num
sentido ascendente, até atingir a actual taxa de 2,6-2,8% ao ano. Os
próprios preços mais elevados de petróleo e gás
natural desempenharam e desempenham um grande papel na manutenção
e no reforço do processo de crescimento da procura.
Isto contradiz totalmente a confortável noção liberal do
'ajustamento elástico dos preços', ou uma redução
'inevitável' na redução da procura quando os preços
ascendem, apesar do simples facto de o crescimento da procura mundial de
petróleo estar agora, em 2004, na sua taxa mais alta ao longo de 15
anos, com preços também na sua maior elevação desde
1985.
O armário da política petrolífera da multidão de
líderes mundiais da Nova Economia está realmente quase vazio.
Apenas enormes movimentações nas taxas de juro, que levam quase
à recessão económica instantânea, existem como
soluções do lado da procura para preços de petróleo
mais altos juntamente com sanções comerciais e
económicas e acções militares contra os produtores de
petróleo recalcitrantes ou 'abaixo do desempenho' como ferramentas
cómodas do 'lado da oferta'.
Como manda o figurino, os últimos defensores do petróleo barato
num contexto em que a procura é forte e as ofertas tornam-se mais
hipotéticas a cada dia (e longo tenderão a descer porque o
petróleo é um fóssil, não um recurso dos
países tropicais), tal como a Agência Internacional de Energia
(AIE) e outros mencionáveis, como 'peritos' e analistas de
petróleo de encomenda, agora afirmam que a produção
mundial de petróleo poderia ser elevada até a 120 milhões
de barris/dia (Mbd) em 2020.
Por outras palavras, e com base numa média diária actual da ordem
dos 81,5-82,5 Mbd, a produção mundial poderia ou deveria ser
aumentada em 38 Mbd em cerca de 14 anos e 4 meses.
O mais simples desafio para esta fantasia ridícula é perguntar se
alguma coisa como esta já ocorreu alguma vez anteriormente, pergunta
para a qual a resposta é NÃO.
O desafio seguinte é comparar acréscimos líquidos à
capacidade de produção mundial necessária para satisfazer
esta fantasia (cerca de 2,7 Mbd por ano, não incluindo a
compensação pelas perdas anuais de capacidade, que andam em mais
de 1,5 Mbd/ano) como os resultados reais no mundo real durante os
últimos 10 ou 20 anos.
Isto leva ao mesmo resultado final: o crescimento da produção
mundial de petróleo a esta taxa jamais foi atingido em qualquer
período passado, mas para compreender a sua impossibilidade podemos
calcular o número de "equivalentes ao Iraque", ou
"equivalentes à Arábia Saudita" que devem ser gerados
do ar, das águas profundas ou das pegajosas areias asfálticas (ou
"trazendo a democracia" através da invasão militar do
Médio Oriente), para permitir qualquer perspectiva de petróleo
barato sempre em retoma. Ignorando completamente as perdas da capacidade
mundial de produção devidas ao esgotamento, algo mais do que
quatro "novas Arábias Sauditas" devem ser descobertas,
provadas, desenvolvidas e colocadas em abastecimento confiável em menos
de 15 anos.
Calcular isto em termos de "equivalentes ao Iraque" é mais
difícil do que para a Arábia Saudita porque é
difícil saber o que é realmente a produção
iraquiana em qualquer momento; a produção iraquiana agora
depende de que pipeline ou centro de bombagem ainda continua por atacar (e se
os media cuidam ou não de relatar as razões reais dos ataques de
sabotagem aos invasores), mas é provável que a
produção média esteja abaixo dos 1,6 Mbd.
O "fosso da oferta" em 2020 está, portanto, bem acima dos
vinte e três "novos Iraques" da variedade
"libertada", se tomarmos a tendência existente e real da
produção iraquiana, os números do mundo real ao
invés daqueles números de diversão e fantasia (conversas
sobre "10 Mbd em 2009") que "peritos" bem pagos como D.
Yergin do CERA orgulhosamente declamaram nos jantares de debate na Casa Branca
antes da decisão do regime Bush de invadir e ocupar o Iraque,
naturalmente sem que o mínimo traço de qualquer arma de
destruição maciça tenha sido encontrado.
A REALIDADE DO LADO DA PROCURA
Uma parte da equação fantástica da AIE está
entretanto a tornar-se real: a procura mundial agora está a
aproximar-se dos 2,7 Mbd por ano, número que presumivelmente foi
ajustado pelos "peritos" bem pagos da AIE na sua sede do seu Chateau
de la Muette, em Paris, como a taxa de crescimento médio anual para o
longo período 2000-2020.
Isto pode ser comparado com a chamada "taxa tendência a longo
prazo" de 1,3% ao ano que se manteve desde meados da década de 80
até cerca de 1995, gerando incrementos de procura anual bem abaixo de 1
Mbd para o consumo mundial de petróleo.
Para a BP Amoco, a lutar com determinação para continuar a
flutuar na Rússia (através da compra de políticos
substitutos daqueles que vão para a cadeia ou fogem do país)
enquanto tenta recuperar seu investimento maciço em pipelines para
despachar por navio não impressionantes quantidades de petróleo
do Cáspio de alto custo, contaminado por enxofre e metais pesados, um
único réu pode ser nomeado.
Os redactores principais na edição de 2003 da 'Statistical review
of world energy' da BP apontam este culpado: a China.
Inesperadamente ou não, este país está a tornar-se
rapidamente o maior produtor industrial do mundo e embora actualmente utilize
não mais do que cerca de 1,7 barris de petróleo per capita por
ano está num rápido e persistente caminho ascendente no consumo
de petróleo, gás e electricidade. Em 2004-2005, mesmo utilizando
números da AIE, o crescimento da procura de petróleo pela China
pode atingir 0,6 Mbd, o que se traduz na ascensão da procura da China
por importações de mais de 0,7 Mbd na medida em que a
produção interna continua o seu declínio acelerado.
Ao apontar a China como o único culpado, os bem pagos jornalistas da BP
Amoco e uma molhada de redactores de jornais financeiros podem defender em alta
voz que a liderança da China actue contra o "superaquecimento"
(o crescimento da procura chinesa também se apoia no automóvel
para agitar os preços das
commodities
não-petrolíferas), mas isto ignora inteiramente os outros dois
terços do actual crescimento da procura de petróleo ao
nível do mundo em conjunto.
Não só a China, mas mesmo a sociedade mais desperdiçadora
de petróleo do mundo os EUA, que utilizam um récord de 25
barris por cabeça por ano está a aumentar firmemente a sua
procura. A juntar-se ao segundo e ao primeiro maiores importadores de
petróleo do mundo (China e EUA) está um feixe de novos
países industrializados e em re-industrialização que
estão a aumentar rapidamente a sua procura de petróleo, que
vão desde a Índia e os Tigres Asiáticos até o
Brasil e a economias em re-industrialização do Leste da Europa.
No total, isto representa um impressionante aumento de 2,3-2,5 Mbd por ano, de
acordo com as tendências actuais. Mais exactamente do que menos de 5
meses ou 150 dias de crescimento da procura mundial de petróleo a esta
taxa tornará a principesca jactância saudita de "elevar a
exportações em 0,8 Mbd" uma necessidade vital e
não a mentira inofensiva destinada a ajudar os resultados eleitorais da
gang de Bush que quase certamente é.
NÃO HÁ SAÍDA SENÃO A TRANSIÇÃO
ENERGÉTICA
Com uma determinação férrea de negar e combater a
realidade, as lideranças dos principais países seguem o modelo de
crescimento intensivo em energia americano-europeu-japonês estão a
cada dia a conduzir o mundo para mais perto do extremo oposto de qualquer coisa
"sustentável", excepto o conflito internacional
infindável e o choque de civilizações.
A escassez de petróleo, tornada pior pelo crescimento acelerado da
procura e a estagnação da oferta, pode somente conduzir a alta de
preços, e a seguir aumentá-los outra vez.
Isto só pode ser aceite pelos líderes mais arrogantes e menos
inteligentes, e pelas sociedades por um curto período antes de a
invasão e ocupação de países produtores ser
decidida e aplicada como uma "solução duradoura".
Como mostra a tragédia iraquiana, o resultado final da invasão
antecipativa de países produtores de petróleo (para assegurar que
o desempenho da sua produção cumpra a ideias dos chamados
peritos) é a guerra duradoura, tanto civil como internacional, e
Norte-Sul.
A rivalidade entre as chamadas superpotências e grupos de
nações com armamento nuclear pelas capacidades minguantes de
produção de petróleo só pode aumentar até
que claras e corajosas decisões sejam tomadas para limitar e a seguir
diminuir a procura de petróleo e de gás, a longo prazo, numa base
universal e rapidamente progressiva.
Para a maior parte das sociedades de energia intensa e desperdiçadoras
de petróleo, o objectivo da transição energética
terá de ser ajustado numa porcentagem tão elevada como uma
redução de 50% na utilização de petróleo ao
longo de 5-10 anos, o que seria totalmente impossível através da
utilização cega dos truques da política da Nova Economia e
da fé cega nos chamados "mecanismos de mercado".
Sem cooperação internacional não será
possível qualquer espécie de programa, tornando a
transição energética pelo menos ao equivalente do
provavelmente fracassado Tratado de Quioto e do seus processos.
Sob as actuais condições do mundo real mesmo assumindo que
o Iraque possa recuperar o seu anterior pico de produção
petrolífera da década de 80 (4 Mbd) não depois de 2008
a oferta mundial de petróleo quase certamente deixará de
corresponder à procura dentro de 3 anos.
Com o Iraque submerso no conflito, a data em que os mercados mundiais de
petróleo cairão na "sub-oferta estrutural" pode ser dar
a qualquer momento, mas até o Outono/no princípio do Inverno os
stocks acumulados e extraídos provavelmente mostrarão os mais
vigorosos aumentos de preços.
Isto pode acontecer em 2004-05, ou pode ser adiado para 2005-06 se uma cada vez
mais provável depressão pós-eleitoral no princípio
de 2005 atingir os EUA e a seguir a Europa e o Japão.
23/Ago/2004
[*]
Ex-perito em política e programação da DG XVII (Energia) da
Comissão Europeia, membro fundador do "Asian Chapter" da
International Association of Energy Economists. O seu contacto é
xtran04@yahoo.com
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O original encontra-se em
http://www.vheadline.com/printer_news.asp?id=22553
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info
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