Os riscos da lógica abstracta

por ASPO Newsletter , nº 38, Fevereiro/2004

Clique na imagem para aceder ao sítio oficial da Association for the Study of Peak Oil. Jules era um jovem inteligente e com uma personalidade agradável. Concluíra a sua educação superior na Universidade de Louvaina, em Ciência Económica e Lógica, o que ele combinava com uma fértil imaginação. Teve pouca dificuldade em passar no exame de admissão à Direcção de Investigação da Comissão Europeia.

A sua primeira tarefa foi reagir a queixas de uma organização dos direitos dos animais acerca do tratamento cruel infligido aos porcos no caminho para o mercado. Ele não tinha experiência anterior sobre este assunto, mas armou-se com um manual de alimentação de porcos de outro departamento da Comissão. Assim, leu sobre os aditivos hormonais de crescimento ministrado aos porcos a fim de melhorar o seu desempenho económico, mas a inspiração alcançou-o quando estava sentado após o almoço no pequeno jardim que havia descoberto junto à esquina do edifício do seu escritório no Boulevard Woluwe, no momento em que uma borboleta pousou sobre um canteiro a seus pés.

Quando voltou ao escritório principiou a escrever o seu relatório, completado com muitos gráficos, comparando a distância entre o peso e a taxa de crescimento e a ocupação do chiqueiro. A sua solução foi a adição de uma hormona sintética de borboleta pela qual cresceriam asas nos porcos e estes seriam capazes de voar para o mercado. Além dos benefícios humanitários, o esquema mostrava impressionantes retornos económicos. Os seus supervisores ficaram deliciados com o relatório, permitindo-lhes garantir à indústria de porcos que agora poderia responder às preocupações dos que faziam campanhas pelos direitos do animais, e permitia encarar no futuro uma fatia de mercado acrescida para o aero-euro porco. Uma rápida verificação com o controle de tráfego aéreo classificou o programa como estando em conformidade com a Directório de dirigíveis.

Este resultado feliz tornou-o um candidato natural para cuidar da próxima questão difícil enfrentada pela Comissão, ou seja, a segurança de abastecimento petrolífero. Ele entregou-se ao trabalho com entusiasmo a fim de desenvolver um modelo de solução comparável, pelo qual preços em ascensão estimulariam novas descobertas e melhorariam a taxa de recuperação de petróleo, o que soava muito lógico. Por este meio, ele foi capaz de aumentar a esperada recuperação final (ultimate recovery) do montante consensual de 1,93 milhão de milhões de barris, extraído das 65 estimativas publicadas por companhias petrolíferas e instituições reconhecidas até ao ano 2000, para uns impressionantes 4,5 milhões de milhões em 2030. Em algumas áreas singularmente favorecidas, até mesmo 70% seriam recuperados, apesar da diversidade de rochas dos reservatórios individuais e dos tipos de óleo já observados em todas as áreas produtoras de petróleo. Esta ampla recuperação foi ainda mais apoiada pela referência a um estudo do US Geological Survey, que fornece uma estimativa com muito vasta amplitude na base de critérios subjectivos de probabilidades alternativos, que soavam impressionantemente científicas por serem apresentadas como resultado de 50 mil iterações de simulação.

Assim, refinou mais uma vez o estudo considerando a OPEP como tendo recursos quase ilimitados, e a não-OPEP como tendo limites contrabalançados por exploração intensa conducente a novas descobertas. Uma ligeira sombra de preocupação esvoaçou na página acerca da disposição da OPEP em satisfazer o abastecimento, mas ele ultrapassou-a dizendo que tal questão estava fora do âmbito do estudo. (O relatório foi agora publicado pela Comissão Europeia sob o título: World Energy, Technology and Climate Policy Outlook - acronimo WETO ).

Ele mereceu plenamente a sua promoção. Ajudou os seus supervisores a empurrarem aquele problema para o futuro, quando a possibilidade de milagres de proporções bíblicas já não puder ser negada. Entretanto, o Business as Usual estava assegurado, e o sol brilhou com força renovada sobre a Rue de la Loi.

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02/Fev/04