Os riscos da lógica abstracta
Jules era um jovem inteligente e com uma personalidade agradável.
Concluíra a sua educação superior na Universidade de
Louvaina, em Ciência Económica e Lógica, o que ele
combinava com uma fértil imaginação. Teve pouca
dificuldade em passar no exame de admissão à
Direcção de Investigação da Comissão
Europeia.
A sua primeira tarefa foi reagir a queixas de uma organização dos
direitos dos animais acerca do tratamento cruel infligido aos porcos no caminho
para o mercado. Ele não tinha experiência anterior sobre este
assunto, mas armou-se com um manual de alimentação de porcos de
outro departamento da Comissão. Assim, leu sobre os aditivos hormonais
de crescimento ministrado aos porcos a fim de melhorar o seu desempenho
económico, mas a inspiração alcançou-o quando
estava sentado após o almoço no pequeno jardim que havia
descoberto junto à esquina do edifício do seu escritório
no Boulevard Woluwe, no momento em que uma borboleta pousou sobre um canteiro a
seus
pés.
Quando voltou ao escritório principiou a escrever o seu
relatório, completado com muitos gráficos, comparando a
distância entre o peso e a taxa de crescimento e a ocupação
do chiqueiro. A sua solução foi a adição de uma
hormona sintética de borboleta pela qual cresceriam asas nos porcos e
estes seriam capazes de voar para o mercado. Além dos benefícios
humanitários, o esquema mostrava impressionantes retornos
económicos. Os seus supervisores ficaram deliciados com o
relatório, permitindo-lhes garantir à indústria de porcos
que agora poderia responder às preocupações dos que faziam
campanhas pelos direitos do animais, e permitia encarar no futuro uma fatia de
mercado acrescida para o aero-euro porco. Uma rápida
verificação com o controle de tráfego aéreo
classificou o programa como estando em conformidade com a Directório de
dirigíveis.
Este resultado feliz tornou-o um candidato natural para cuidar da
próxima questão difícil enfrentada pela Comissão,
ou seja, a segurança de abastecimento petrolífero. Ele
entregou-se ao trabalho com entusiasmo a fim de desenvolver um modelo de
solução comparável, pelo qual preços em
ascensão estimulariam novas descobertas e melhorariam a taxa de
recuperação de petróleo, o que soava muito lógico.
Por este meio, ele foi capaz de aumentar a esperada recuperação
final
(ultimate recovery)
do montante consensual de 1,93 milhão de milhões de barris,
extraído das 65 estimativas publicadas por companhias
petrolíferas e instituições reconhecidas até ao ano
2000, para uns impressionantes 4,5 milhões de milhões em 2030.
Em algumas áreas singularmente favorecidas, até mesmo 70% seriam
recuperados, apesar da diversidade de rochas dos reservatórios
individuais e dos tipos de óleo já observados em todas as
áreas produtoras de petróleo. Esta ampla
recuperação foi ainda mais apoiada pela referência a um
estudo do US Geological Survey, que fornece uma estimativa com muito vasta
amplitude na base de critérios subjectivos de probabilidades
alternativos, que soavam impressionantemente científicas por serem
apresentadas como resultado de 50 mil iterações de
simulação.
Assim, refinou mais uma vez o estudo considerando a OPEP como tendo recursos
quase ilimitados, e a não-OPEP como tendo limites
contrabalançados por exploração intensa conducente a novas
descobertas. Uma ligeira sombra de preocupação esvoaçou na
página acerca da disposição da OPEP em satisfazer o
abastecimento, mas ele ultrapassou-a dizendo que tal questão estava fora
do âmbito do estudo. (O relatório foi agora publicado pela
Comissão Europeia sob o título:
World Energy, Technology and Climate Policy Outlook - acronimo WETO
).
Ele mereceu plenamente a sua promoção. Ajudou os seus
supervisores a empurrarem aquele problema para o futuro, quando a possibilidade
de milagres de proporções bíblicas já não
puder ser negada. Entretanto, o
Business as Usual
estava assegurado, e o sol brilhou com força renovada sobre a Rue de la
Loi.
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