Depois da segunda geração de agrocombustíveis

por Silvia Ribeiro [*]

. Diante dos óbvios problemas da chamada primeira geração de agrocombustíveis (a partir de cultivos como cana-de-açúcar, milho, soja e palma oleaginosa), sua nula ou negativa eficiência energética, por exemplo, a indústria e governos, apoiados em alguns investigadores acadêmicos, falam de uma "segunda geração" que superaria este problema, e também, supostamente, a competição com os cultivos alimentares. Entre as "soluções" propostas destaca-se o etanol celulósico, referindo-se à elaboração do combustível a partir de celulose, com resíduos de colheita e forragens usados como alimento animal, de pastagens, ou diretamente de árvores plantadas para este fim.

Mas as coisas não são tão fáceis como soam na propaganda. A razão principal que dificulta usar celulose para etanol é a mesma pela qual os seres humanos não podem comer madeira, sabugos ou pasto: não temos as enzimas necessárias para processar a celulose, aproveitar seus nutrientes e convertê-los em energia. Elaborar etanol a partir de celulose exige mais energia do que consome. Muito mais.

Claro, para George W. Bush e outros governos, que afirmam que usarão pastos para fazer combustíveis, isso não é necessariamente um problema, porque ao estar subsidiado e representar uma excelente fachada "ambientalista", ao diminuir (embora seja só na teoria) a dependência com o petróleo, ganham tanto as indústrias como as relações públicas do governo. Em termos do aquecimento global, o meio ambiente e os interesses da maioria da população – cujo dinheiro é o que se usa para as subvenções – a relação é a oposta: todos perdem.

Outro problema para o processamento de combustível a partir de pastagens, resíduos de colheita e, sobretudo, árvores, é o conteúdo de lignina, outra substância fundamental no metabolismo vegetal, cujas enzimas não são sequer digeridas, a não ser por algumas bactérias e fungos somente. Por esta razão, um dos objetivos das indústrias que buscam estabelecer monoculturas de árvores para produzir celulose, tanto para papel como para combustível, é experimentar com árvores transgênicas para reduzir o conteúdo de lignina.

Isso, que parece tão "prático" para a indústria, é fatal no caso de liberar árvores transgênicas no meio ambiente: a contaminação implicaria debilitamento das árvores silvestres, resultado das que se contaminaram, e a dispersão de pólen contaminador duraria não uma estação de semeadura, como ocorre com as culturas transgênicas, mas toda a longa vida da árvore.

Arborgen, uma das líderes no trágico capítulo das árvores transgênicas, tem extensas investigações nesse tipo de árvores. Em 2007, dedicou-se a adquirir viveiros de importantes companhias relacionadas, como a Internacional Paper, a MeadWestvaco e a Rubicon, nos Estados Unidos, Nova Zelândia e Austrália, com a intenção de ampliar sua investigação e desenvolvimento para a produção de combustíveis. No conjunto de falsas razões que se justificam mutuamente (como a que o etanol celulósico seria mais efetivo do que a primeira geração), a disseminação de árvores transgênicas é uma "razão", como argumenta a indústria dos transgênicos, a justificar também o uso da tecnologia Terminator, para fazer plantas suicidas, como "método" de prevenir a contaminação.

Os transgênicos situam-se como uma peça fundamental do desenvolvimento da segunda geração de agrocombustíveis, mas também a chamada biologia sintética. A biologia sintética se propõe a construir partes e sistemas biológicos que não existem no mundo natural, ou redesenhar sistemas biológicos para realizar novas funções. É "engenharia genética extrema", e por sua própria (falta de) natureza, extremos podem ser também os impactos que acarretam ao interagir com os seres vivos naturais.

Com investimentos nessa nova tecnologia, encontramos empresas como as de biotecnologia Amyris e Genencor (uma subdivisão da empresa alimentícia Danisco) ou a dinamarquesa Novozymes, que manipularam, com construções de biologia sintética, enzimas, fungos e bactérias especialmente para o processado de celulose dirigido à indústria dos agrocombustíveis. A Novozymes tem um contrato de investigação no Brasil com o Centro de Tecnologia Canavieira, para processar o bagaço da cana-de-açúcar. Também no Brasil, a Syngenta trabalha em construções transgênicas para a indústria da cana.

Um enfoque ainda mais extremo é representado pela empresa do genetista Craig Venter, a Synthetic Genomics, que está na construção de organismos vivos artificiais, totalmente construídos do zero, que poderiam ser usados para acelerar o processamento de combustíveis agroindustriais, ou, diretamente, para produzir combustível ou outros químicos e drogas de uso farmacêutico. Segundo declarou à revista New Scientist o sempre arrogante Craig Venter, em um par de décadas a biologia sintética "será padrão para a produção de qualquer coisa". Os impactos ambientais, econômicos, sociais e éticos de construir organismos vivos artificiais seriam enormes, mas, de acordo com Venter, podem ser controlados com códigos de conduta "voluntários" das próprias empresas.

Os agrocombustíveis não serão capazes, em nenhum dos cenários, de substituir o uso de combustíveis baseados em petróleo (a estimativa é uma tímida diversificação de 5 – 8 % do total de combustíveis fósseis, que somente aportará lucros extraordinários às próprias transnacionais que controlam a civilização do petróleo), mas, definitivamente, o que trazem é uma nova recolonização do Terceiro Mundo, em ocupação de terras e mão-de-obra barata ou semi-escrava, condimentada com um amplo espectro de novos e poderosos riscos ambientais.

19/Janeiro/2008

[*] Investigadora do Grupo ETC (texto baseado no relatório Peak Soil+Peak Oil = Peak Spoils, em http://www.etcgroup.org ).

O original encontra-se em www.jornada.unam.mx/2008/01/19/index.php?section=opinion&article=021a1eco
Tradução de Omar L. de Barros Filho, editor de ViaPolítica e membro de Tlaxcala , a rede de tradutores pela diversidade lingüística. Esta tradução pode ser livremente reproduzida, na condição de que sua integridade seja respeitada, bem como citado o tradutor e a fonte.


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29/Jan/08